CAPÍTULO 2 O COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL
2.3. O “Modelo das Três-Componentes do Comprometimento Organizacional ” de Meyer
Numa análise crítica ao modelo de O´Reilly e Chatman, (1986), realizada a partir da constatação de incoerências nos resultados obtidos em diversos estudos, nomeadamente a dificuldade em distinguir entre “identificação” e “internalização” (Caldwell et al., 1990; O´Reilly, Chatman e Caldwell, 1991; Vandenberg, Self e Seo, 1984), Meyer e Allen (1991 e 1997) propõem que, mais do que formas de comprometimentos, sejam consideradas como “...bases do comprometimento” (Meyer e Allen, 1997: 15).
Por outro lado, há que referir um estudo de Meyer e Allen (1984), em que pretendiam verificar a adequação das escalas de Ritzer-Trice e de Hrebiniak-Alutto, na medição do comprometimento calculativo, entendido como sendo a expressão dos “side-bet” (Becker, 1960) ou dos investimentos que o indivíduo fazia na organização. Um primeiro pressuposto era o de que estas escalas mediam mais o comprometimento afectivo do que o calculativo. Um segundo pressuposto era o de que, quer a idade, quer a antiguidade, não eram bons indicadores para medir o índice de investimentos acumulados. Os autores concluíram que a “...medida usada para testar a teoria dos side-bet do comprometimento está saturada com o comprometimento afectivo... [sugerindo] ...que os investigadores examinem esta conceptualização de comprometimento...” (Meyer e Allen, 1984: 378).
Com base nesta análise conceptual e empírica, propõem-se “...(1) delinear a distinção entre três das mais comuns conceptualizações do ‘comprometimento atitudinal’, (2) desenvolver medidas para cada um, e (3) demonstrar que essas medidas estão diferentemente ligadas a variáveis identificadas na literatura como antecedentes do comprometimento.” (Allen e Meyer, 1990: 2). Face a estes objectivos, os autores (Meyer e Allen, 1991) formularam o “Modelo das Três-Componentes do Comprometimento Organizacional” (“Three-Component Model of Organizational Commitment”), que estipula que o comprometimento organizacional é constituído por três componentes, sendo uma afectiva (“affective”), outra normativa (“normative”) e outra calculativa (“continuance”)8.
A componente afectiva do comprometimento organizacional reflecte uma ligação emocional, de carácter afectivo, do indivíduo à organização. Neste caso a sua permanência na organização deve-se à sua vontade pessoal, isto é ao querer continuar membro dessa organização (Meyer e Allen, 1991 e 1997). A componente calculativa do comprometimento refere-se aos elementos materiais e extrínsecos, que estão presentes na relação do sujeito com a organização. É a componente que mais reflecte a teoria dos “side-bet” ou dos investimentos realizados pelo indivíduo (Becker, 1960). Neste caso, a permanência na organização deve-se a
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Normalmente, “continuance”tem sido traduzido para português como instrumental. O que é inerente ao conceito de “continuance commitment” é o facto de o sujeito permanecer na organização devido a um calculo entre os investimentos que fez e as recompensas que se recebeu, bem como aos custos envolvidos na saída. Assim, entendeu-se que a tradução que melhor exprime este conceito seria a de comprometimento de continuidade ou em alternativa, comprometimento calculativo. Optou-se por utilizar o calculativo por ser aquele que melhor exprime o carácter de cálculo deste tipo de comprometimento. Refira-se também que Rego, Souto, & Cunha, (2007, p.16) utilizam o calculativo como alternativa a instrumental (veja-se também em Cunha, Rego, Cunha, & Cabral-Cardoso, 2004: 167).
necessidades de ordem material. A relação com a organização é, assim, de cariz
transaccional, dependendo dos investimentos que o sujeito tenha feito na organização (Meyer e Allen, 1991 e 1997; Porter e Lawler, 1968; Powell e Meyer, 2004; Rusbult, 19979; Rusbult e Farrell, 1983; Vroom, 1964). A componente normativa refere-se ao sentimento de responsabilidade e dever moral para com a organização. Neste caso o indivíduo permanece na organização porque tem um dever moral para com ela (Meyer e Allen, 1991 e 1997), correspondendo à visão normativa do comprometimento organizacional proposta por Wiener (1982). A validade de constructo é estabelecida por Allen e Meyer (1996), tendo sido destacada, não só as relações entre as três componentes, mas também as relações de cada uma das três componentes com variáveis antecedentes, correlacionadas e consequentes.
Os resultados de diversos estudos suportam uma relação directa entre a componente afectiva e a normativa, e de ambas com o comprometimento organizacional proposto por Mowday e colaboradores (Mowday et al., 1982; Mowday et al., 1979) e medido pelo OCQ. Por outro lado, os resultados sugerem a ausência de relação entre a componente afectiva e a calculativa. Apesar de a componente normativa apresentar uma relação com a calculativa, essa relação não se tem evidenciado como significativa. Também não se verificou uma relação entre a componente calculativa e o comprometimento organizacional medido pelo OCQ. Estas relações estão na linha dos resultados obtidos na meta-análise (Quadro 2-2) realizada por Meyer, Stanley, Herscovich e Topolnytsky (2002).
Quadro 2-2: Matriz de correlações entre as componentes do comprometimento organizacional (baseado em Meyer, Stanley, Herscovich e Topolnytsky, 2002: 28)
ACS CCS NCS OCQ
ACS ---
CCS 0,05 ---
NCS 0,63 0,18 ---
OCQ 0,88 -0.02 0,50 ---
* P<0,001; ACS = Affective Commitment Scale; CCS = Continuance Commitment Scale; NCS = Normative Commitment Scale; OCQ = Organization Commitment Questionnaire
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Meyer e Allen (1997) realçaram que, mais do que três diferentes tipos de comprometimento, devem considerar-se três diferentes componentes de um mesmo constructo determinando, assim, que “...as relações de um empregado com a organização devam reflectir variados graus das três” (Meyer e Allen, 1997: 13). Deste modo, poder-se-á perspectivar relações não lineares quer entre as três componentes entre si, quer com os resultados comportamentais (Luchak e Gellaty, 2007), resultantes de um dado perfil específico a um indivíduo (e g., Meyer, 2009; Meyer e Parfyonova, 2010). Esta dinâmica das diversas naturezas do comprometimento, especialmente do organizacional, justifica as disparidades encontradas em diferentes estudos empíricos quanto à relação entre os três tipos de comprometimento (e.g., Solinger, van Olffen e Roe, 2008).
É nesta linha que Meyer e colaboradores (2006) propõem um modelo integrado do processo de identidade social e do comprometimento organizacional, em que foram estabelecidos dois tipos de comprometimento: um baseado em trocas (“exchange-based commitment”) que juntava o calculativo e o normativo como obrigação, e outro baseado no valor (“value-based commitment”), através do afectivo e do normativo enquanto imperativo moral (Anexo 1). Refira-se mesmo que a problemática dos perfis de comprometimento é uma das linhas de investigação futura proposta recentemente pelos autores (Meyer, 2009; Becker, Klein e Meyer, 2009). Na sequência desta perspectiva, Meyer e Parfyonova (2010), propõem uma reconceptualização do comprometimento organizacional normativo, o qual irá assumir a forma de um dever moral (“moral duty”) quando associado ao comprometimento afectivo ou a forma de um sentido de obrigação (“sense of indebtedness”) quando associado ao comprometimento calculativo.
Meyer et al. (2004) propuseram um Modelo Integrado do Comprometimento e da Motivação. Este modelo propõe integrar diversos tipos de comprometimento com a teoria da definição de objectivos (Locke e Latham, 1997)10. A representação deste modelo é apresentada na Figura 2-3.
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O Modelo da Definição de Objectivos (Locke & Latham, 1997) será descrito em detalhe no capítulo seguinte, referente ao comprometimento com os objectivos.
Figura 2-3: Modelo integrado do comprometimento e da motivação dos empregados (baseado em Meyer, Becker e Vandenberg, 2004: 22)
O elemento central é a regulação dos objectivos. Entende-se por regulação de objectivos “um estado motivacional que reflecte as razões para, e os propósitos de, uma linha de acção seja considerada ou em progresso” (Meyer et al.. 2004: 998), dependendo das necessidades do indivíduo, dos seus valores e de traços de personalidade. É também determinada por comprometimentos de orientação social, tais como para com a organização,
Bases do Comprometimento Identificação; Congruência de valores;
Envolvimento
Socialização; Reciprocidade de Normas Investimentos; Ausência de alternativas
Comprometimentos de Orientação Social (Organização, Supervisor, Grupo, etc.) Afectiva Normativa Calculativa Comprometimento com os Objectivos Afectiva Normativa Calculativa Regulação de Objectivos Percepção do Locus de Causalidade Regulação Intrínseca Regulação Integrada Regulação Identificada Regulação Introjectada Regulação Externa Percepção da Finalidade Focus na Promoção Focus na Prevenção Necessidades Valores e Personalidade Incentivos Auto-eficácia e Expectativas nos Resultados Moderadores de Objectivos Feedback Capacidades Complexidade das tarefas Escolha de Objectivos Dificuldade Especificidade Mecanismos de Objectivos Direcção Esforço Persistência Estratégias de Actividade Resultados e Satisfação Comportamento Não discricionário Discricionário
para com o supervisor ou para com o grupo de pertença. Estes comprometimentos são variáveis antecedentes do comprometimento com os objectivos. Os diversos comprometimentos têm por base processos de identificação, de socialização e de investimentos realizados pelo indivíduo. A regulação dos objectivos é também determinada pelos incentivos, pela auto-eficácia e pelas expectativas de obtenção de determinados resultados.
É através da regulação dos objectivos que estes vão ser definidos, especialmente quanto à sua dificuldade e especificidade. Definidos os objectivos, e através da moderação do comprometimento com os objectivos, vão ser activados um conjunto de processos individuais visando a sua consecução, tais como a direcção, o esforço investido, a persistência e as estratégias de realização das tarefas e actividades. Estes processos vão determinar a emergência de comportamentos específicos, podendo ser, quer não-discricionários, quer discricionários. Os comportamentos vão determinar a consecução dos objectivos definidos, isto é, os resultados e a satisfação individual. Há ainda variáveis moderadoras, que consistem em características, tais como a existência e o tipo de feedback, as capacidades e competências do indivíduo, a complexidade das tarefas e actividades. Este modelo, ao integrar o comprometimento organizacional na teoria da definição de objectivos, torna mais compreensível a dinâmica dos “...comportamentos humanos no local de trabalho...” (Meyer et al., 2004: 1004), sugerindo diversas linhas de exploração futura, quer teórica, que nas políticas e práticas da gestão.