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I I A FÉ SALVADORA

III. A PATERNIDADE DE DEUS

4.3.6. O Exercício da Disciplina de Deus

Os filhos de Deus, quando pecam, são disciplinados pelo pró­ prio Deus, que assim age para que abandonem, arrependidos, sua prática pecaminosa e se voltem para ele, a fim de que se tornem

“participantes de sua santidade” (Hb 12.10).

A disciplina de Deus é sempre pedagógica, nunca vingativa; nela está embutida a idéia de recuperação, de restauração do filho amado. Deus visa a nos conduzir ao crescimento, ao amadureci­ mento espiritual, à santidade. A disciplina revela o amor de Deus Pai para com seus filhos. O salmista, fazendo um retrospecto de sua vida, pôde, pelo Espírito, reconhecer: “Foi-me bom ter eu passado

pela aflição, para que aprendesse teus decretos” (SI 119.71). Do

mesmo modo Ezequias, após ter se restabelecido de sua doença mortal: “Eis que foi para minha paz que tive eu grande amargura;

tu, porém, amaste minha alma e a livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti todos meus pecados” (Is 38.17; vd.

Hb 12.4-10).

Calvino, comentando o Salmo 6, quando Davi expressa sua dor e angústia, extrai a seguinte lição para todos nós:

“E com o sabemos que o propósito de Deus, ao infligir-nos algum castigo, consiste em humilhar-nos, então, quando somos reprimidos sob sua vara, a porta se abre para que sua misericórdia nos alcance. A lém disso, visto que sua peculiar função é curar os enfermos, erguer os caídos, amparar os fra­ cos e, finalmente, com unicar vida aos mortos, esta, por si só, é uma razão suficiente para buscarmos seu favor quando nos acharm os mergulhados em nossas aflições.”386

4 .4 . A Responsabilidade dos Filhos

De certa forma, o que foi apresentado nas evidências se consti­ tui em nossa responsabilidade; todavia, fiz esta distinção para enfa-

tizar o que a Palavra nos fala sobre qual deve ser a conduta dos filhos de Deus. Nós, como filhos de Deus, temos a responsabilidade de viver à altura de tamanha dignidade. Calvino (1509-1564) corre­ tamente diz: “Portanto, visto que Deus se há revelado a si mesmo como um Pai, se não nos comportarmos como seus filhos somos culpáveis da ingratidão mais desprezível.387 Paulo chama a atenção para esta responsabilidade em diversas ocasiões: “Vivei, acima de

tudo, por modo digno do evangelho de Cristo" (Fp 1.27); “Afim de viverdes de modo digno do Senhor, para seu inteiro agrado" (Cl

1.10); “Exortamos, consolamos e admoestamos, para viverdes por

modo digno de Deus, que vos chama para seu reino de glória" (ITs

2.12; vd. Ef 4.1; 5.8).

Os filhos de Deus são vocacionados a dar testemunho do poder de Deus em sua vida, sendo, dessa forma, um monumento vivo e histórico da graça de Deus.

Jesus Cristo indicou nossa responsabilidade, quando disse: “Vós

sois a luz do mundo. (...) Assim brilhe também vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus" (Mt 5.14, 16). Usando de uma figura seme­

lhante, Paulo escreve: “Fazei tudo sem murmurações nem conten­

das, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo” (Fp 2.14, 15).

Neste texto, para descrever a meta comportamental do cristão, que já é filho de Deus (regeneração), mas que caminha em sua fili­ ação (santificação), Paulo faz uso de três palavras:

a) Irrepreensível: (ájie|i.Tixoç)388 inculpável, inatacável. Quan­

do a palavra se aplica a pessoas, tem em geral o sentido de “pureza moral”, inculpabilidade diante da léi (Lc 1.6; Fp 3.6). Portanto, esta palavra descreve a postura do cristão no mundo. Ele deve estar aci­ ma de qualquer suspeita; ninguém tem de que o acusar.

387 John Calvin, Golden Booklet o f the True Christian Life, 6“ ed. Grand Rapids, Michi­ gan, Baker Book House, 1977, p. 15.

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b) Sincero:

(àKépaioç)389

puro, sem mistura, sem mescla, não adulterado, íntegro. A palavra é aplicada ao leite que não é mistura­ do com água e também à pureza do metal. Descreve o que o cristão deve ser em si mesmo: puro, sincero, sem dissimulação, sem se­ gundas intenções.

Jesus Cristo e o apóstolo Paulo recomendam que assim seja­ mos: “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede,

portanto, prudentes como as serpentes e símplices

(àKépaioç)

como as pombas" (Mt 10.16). “Pois a vossa obediência é conhecida por todos; por isso me alegro a vosso respeito; e quero que sejais sábi­ os para o bem e símplices

(àKépaioç)

para o mal” (Rm 16.19).

A sabedoria cristã dos filhos de Deus se revela em seu uso para o bem; a sabedoria que procede de Deus (Tg 1.17) não é empregada para o mal, para destruir ou satisfazer nossos desejos egoístas.

Deus, descrevendo a insensibilidade espiritual de Judá, diz:

“...meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para o mal, e não sabem fazer o bem”

(Jr 4.22). A sabedoria cristã é o oposto disso; ela se dispõe a ajudar, socorrer, edificar. Seu planejamento é para o bem, nunca para o mal. Judá estava tão distante de Deus que desaprendera a fazer o bem, seus pensamentos eram ligeiros, ágeis para o mal. No entanto, o desafio de Deus para nós é que nos exercitemos na prática do bem... E quanto ao mal? Que sejamos puros quanto a ele, não tendo idéias para executá-lo... No entanto, quando nos desafiarem a fazer o bem, que sejamos argutos, prontos, tendo uma visão perspicaz e penetrante. Portanto, devemos utilizar a inteligência que Deus nos deu para edificar, construir, socorrer, nunca para destruir, lucrar desonestamente: isto seria esperteza, que nada tem a ver com o cris­ tianismo e a pureza que deve caracterizar os filhos de Deus.

c) Inculpável: (ôqxco|a.oç)390 sem mancha, imaculado, sem nó­ doa, inocente. A palavra era empregada para indicar os animais usa­

38‘J *Mt 10.16; Rm 16.19; Fp 2.15.

,IXI Ef 1.4; 5.27 [Fp 2.15. Aqui há uma variante textual, que indica um sinônimo, óqiwiLiniá (amômêta), talvez por seguir a LXX, Dt 32.5]; Cl 1.22; Hb 9.14; IPe 1.19; Jd 24; Ap 14.5.

dos para o sacrifício; eles não podiam ter defeito. Esta palavra des­ creve uma pureza ética; a idéia predominante é a ausência de qual­ quer coisa que se constituiria em corrupção diante de Deus. Ela denota, portanto, o que o cristão deve ser diante de Deus.

As Escrituras declaram que foi assim que Jesus Cristo se ofere­ ceu vicariamente por nós (Hb 9.14; IPe 1.19), sem mancha, sem pecado. O Cordeiro de Deus foi imolado por nós (1 Co 5.7), a fim de nos tornar sem mácula, sem ruga, sem qualquer impureza (Ef 5.25- 28), cumprindo, assim, parte do objetivo de nossa eleição eterna (Ef 1.4).391

A Igreja, como a comunidade dos filhos de Deus, é conclamada a viver de forma distinta, refletindo no meio de uma geração per­ vertida e alienada de Deus a glória de seu Senhor (Mt 5.14-16; Jo

17.10; 2Ts 1.10-12; Dt 32.5).

Devemos empenhar-nos por sermos achados por Cristo assim: “... Aquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos

apresentar com exultação, imaculados (á|J,co|J.oç) diante de sua gló­ ria” (Jd 24).

Deus, ele mesmo, nos preserva intocáveis, para que possamos ser apresentados diante do Senhor Jesus, na manifestação de sua glória. Ninguém tem de que nos acusar; fomos justificados por Cristo (Rm 8.31, 33).

4 .5 . A H erança dos Filhos

A herança que os pais deixam para seus filhos, muitas vezes longe de servir de bênção, torna-se uma maldição, por causa do egoísmo dos filhos e de outros envolvidos. Se o pai for muito rico, o risco, via de regra, é ainda maior...

Naturalmente, quando pensamos ou falamos em herança, nos referimos a bens materiais; no entanto, as Escrituras, sem desprezar este aspecto, conduz nosso olhar para algo mais importante e nem

351 Vd. Hermisten M.P. Costa, A Eleição de Deus, São Paulo, 2000 (Trabalho não publi­ cado).

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sempre prontamente perceptível. A Palavra nos diz que, como fi­ lhos de Deus, somos seus herdeiros. Acontece que a herança que Deus garante a seus filhos não é constituída simplesmente de bens materiais, mas dele mesmo: Deus é a nossa herança! A oração do Pai Nosso é feita por todos aqueles que têm a Deus por herança.

Ilustremos isto. O período em que Davi fugia de Saul, que que­ ria matá-lo, foi muito profícuo em sua vida; ele pôde amadurecer em todos os sentidos, e dessa fase da sua vida temos alguns salmos magistrais. O Salmo 16, de sua autoria (At 2.25; At 13.35-37), pos­ sivelmente foi escrito nesta época. Davi está então longe de seus familiares, sem terra e um foragido em seu próprio país, odiado por muitos, convivendo com homens que, pelo que parece, pouco co­ nheciam a Deus.

Neste salmo, Davi escreve: “Outro bem não possuo, senão a ti

somente (...). O Senhor é a porção de minha herança e de meu cálice; tu és o arrimo de minha sorte. Caem-me as divisas em luga­ res amenos, é mui linda a minha herança” (SI 16.2, 4, 5)

Davi, que fora de certa forma desterrado, declara ter Deus por herança. No deserto, quando poupa pela segunda vez a vida de Saul, diz a este: “... Eles me expulsaram hoje para que eu não tenha parte

na herança do Senhor, como que dizendo: Vai, serve a outros deu- sef' (ISm 26.19).

Esta experiência não foi apenas de Davi. Na divisão das terras conquistadas, a tribo de Levi ficou sem nenhuma propriedade; as­ sim registra Moisés: “Disse também o Senhor a Arão: Em sua ter­

ra, herança nenhuma terás, e no meio deles nenhuma porção terás: eu sou a tua porção e a tua herança no meio dos filhos de Israel”

(Nm 18.20).

O salmista Asafe exclama: “Quem mais tenho eu no céu? Não

há outro em quem me compraza na terra (...). Deus é a fortaleza de meu coração e a minha herança para sempre” (SI 73.25, 26).

Ter Deus por herança é um desafio à confiança em sua provisão e cuidado, na certeza de que ele supre todas as nossas necessidades. Acontece que nem sempre a manifestação do amparo de Deus é

imediata aos nossos olhos, e também não conseguimos entender tudo; por isso, há aqui um desafio à nossa perseverante confiança no amparo de Deus. Jeremias, após a destruição de Jerusalém e conseqüente cativeiro de Judá, escreve: “A minha porção é o Senhor,

diz minha alma; portanto esperarei nele. Bom é o Senhor para os que esperam por ele, para a alma que o busca. Bom é aguardar a salva­ ção do Senhor, e isso em silêncio” (Lm 3.24-26; SI 62.1-2).

Ter Deus por herança é, também, um desafio à obediência à

Palavra: O salmista escreve: “O Senhor é a minha porção: eu disse que guardaria tuas palavras. Imploro de todo o coração a tua gra­ ça; compadece-te de mim, segundo a tua palavra” (SI 119.57-58).

Outra vez: “Teus testemunhos recebi-os por legado perpétuo, por­

que me constituem o prazer do coração. Induzo ("1ft1?, Lmd, “edu­

car”, “ensinar”) o coração a guardar teus decretos para sempre,

até o fim. Aborreço a duplicidade, porém amo tua Lei” (SI 119.111-

113). Portanto, devemos preservar nosso coração constantemente em obediência a Deus.392

A Palavra de Deus nos mostra que Deus é o Senhor de todas as coisas e que Jesus Cristo, seu Filho eterno, é o herdeiro de tudo (Hb

1.2). As Escrituras também declaram que somos co-herdeiros com Cristo (Rm 8.17). A Igreja de Deus é constituída somente por seus filhos, por isso ela tem a glória eterna como herança indestrutível e incomparável, embora não nos seja perceptível em toda sua glorio­ sa extensão. “Porque para mim - escreve Paulo - tenho por certo

que os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada em nós” (Rm 8.18; vd. ICo 2.9).

Somente os filhos de Deus participarão da presença gloriosa e eterna de Deus! A comunhão eterna com Deus é a nossa maior he­ rança: “ Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, ao ponto

de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa raz,ão o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo. Amados, agora somos filhos de Deus, e ain­

3,2 Vd. J.I. Packer, O que é santidade e por que ela é importante?: In: Bruce H. Wilkinson, ed. ger. Vitória sobre a Tentação, pp. 31-32.

Ill - A Paternidade de Deus 143

da não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é” (lJo 3.1-2). “Unicamente aquele que recebeu o

verdadeiro conhecimento de Deus por meio da Palavra do evange­ lho pode chegar a ter comunhão com Cristo”, conclui Calvino.393

Deus, como herança, é a garantia de nossa ressurreição final e vida eterna em sua presença (SI 16.9-11).

A Palavra de modo surpreendente nos mostra que aqueles que têm a Deus por herança são herança de Deus; em outras palavras, Deus tem sua Igreja como seu povo peculiar e especial; por isso, ninguém pode nos abater ou destruir; somos o povo escolhido de Deus, somos sua herança eterna, conquistada por Cristo Jesus. Daí Davi clamar: “Salva teu povo, e abençoa tua herança; apascenta-

os, exalta-os para sempre” (SI 28.9). Do mesmo modo o salmista:

“...O Senhor não há de rejeitar seu povo, nem desamparar sua he­

rança" (SI 94.14). Portanto, o salmista pode declarar de forma con­

fiante: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele

escolheu para sua herança” (SI 33.12).394

Ter Deus como Pai significa tê-lo como herança e ser ao mes­ mo tempo a herança de Deus, porque Deus nos predestinou para si mesmo, a fim de que nos tornássemos seus filhos, “para louvor da

glória de sua graça que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos peca­ dos, segundo a riqueza de sua graça...” (Ef 1.6-7). Portanto, não

podemos fazer esta oração sem sermos tomados de uma profunda gratidão para com Deus e um sincero louvor à sua graça que, sem que nada merecêssemos, nos tornou filhos, herdeiros e herança de Deus para sempre.

m John Calvin, Golden Booklet of the True Christian Life, p.16.

5,4 Sobre Israel como herança de Deus, vd. lSm 10.1 ; 2Sm 21.14; SI 33.12; 74.2; 78.62; 94.5, 14; 106.40; Is 19.25; 47.6; 63.17; Jr 12.14; J1 2.17; 3.2. Deus disciplina a sua herança: Jr 12.7-9; J1 2.17; os filhos como herança do Senhor: SI 127.3; herança dada por Deus: SI