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O raio do constrangimento e o raio da exclusão

No documento Interrogações às políticas públicas (páginas 62-66)

Conselho Departamental do Instituto de Psicologia, numa universi-dade pública, última quarta do mês de setembro de 2016. Estávamos os/as chefes de departamento (na ocasião eram três departamentos), a diretora, a vice-diretora, a representante dos discentes, a chefe do serviço de psicologia aplicada, as coordenadoras das duas pós-graduações stricto sensu e a repre-sentante dos técnico-administrativos. Naquela mesa se decidem todas as questões do Instituto de Psicologia. Aquele encontro está hierarquicamente acima da direção do Instituto. É um colegiado que toma as decisões e de lá

recebem o encaminhamento para seguir tramitando pela Universidade ou pelos departamentos.

Ponto de pauta: temos uma estudante cega. Temos que organizar o curso dela…

Já me chamou a atenção sua ausência ali naquela conversa. “Nada sobre nós, sem nós3”. A pergunta me martela a cabeça…. espero minha vez de falar e faço isso.

“Ela deveria estar aqui. O que houve?”. Tudo muito rápido e ex-peditivo, a representante dos discentes sabe da situação. O tempo não desacelera. Há pressa. São muitos os pontos de pauta. Tudo precisa ser resolvido. Resolvo que irei devagar no assunto. Tinha aprendido com as pessoas com deficiência visual, com as quais tinha trabalhado, que cons-truir inclusão, propostas anticapacitistas, não era rápido. Ela disse que fica complicado com os textos em xerox. Ah, então vamos pedir aos professores que digitalizem. Pronto. Assim, fica resolvido. Não! Não fica resolvido!

Com surpresa escuto: Ah não?! Não!” Depende de como é feita a digitali-zação, os programas que leem, não leem imagem... Era preciso ficar com o problema como nos propõe Haraway (2019, p. 19) ao afirmar que “nos necessitamos reciprocamente em colaborações e combinações inesperadas, em pilhas de compostagens quentes. Nos tornamos com ou não nos tornamos em absoluto”. O que precisávamos tecer eram combinações até ali inesperadas com pessoas, tecnologias assistivas, afetos, metodologias de ensino, didáticas e outras figuras humanas e não humanas.

Nas linhas anteriores, os itálicos são para dar expressividade ao esforço que estava sendo feito para lentificar. Para não transformar a inclusão em um gesto operacional de boa vontade nem numa questão “unicamente” de logística. Aprendemos com Mia Mingus (2011) que inclusão é uma prática que envolve remover barreiras para compor mundos comuns, heterogêneos, diversos. Afinal, todos(as) achamos justo que uma pessoa com deficiência esteja na Universidade ou não? Rapidamente, uma boa parte das pessoas dará uma resposta afirmativa. Mas resta saber se as ações também serão

3 “Nada sobre nós, sem nós” é o lema do movimento social das pessoas com deficiência.

afirmativas. Sim, pois as ações afirmativas significam que abriremos mão da pressa, da resolução operacional pronta, para nos abrirmos para um processo a ser construído localmente, para nos tornarmos-com reciproca-mente. Implica partilhar o sofrimento (Haraway, 2011), estar disponível para um processo que colocará em xeque privilégios, reorganizará o tempo e as prioridades. Ao escrever isso, me lembro constrangida do efeito nos corpos das pessoas presentes naquela mesa. Havia uma expressão no ar:

chiiii, não é simples, aí já complica.

Rapidamente vem a próxima solução. “Já sei, ela avisa antes as matérias que vai fazer para os professores e eles resolvem com ela como vão fazer.

Não. Nenhum discente precisa ter essa tarefa a mais. Os inacessíveis somos nós. Cabe a nós o processo e não a ela”. Os corpos mudam novamente, uma certa impaciência aparece. A pressa. A vontade de resolver, sem ter que abrir mão dos privilégios. No final é sempre sobre o que nos beneficia.

Sobre o fato de que a inclusão não está feita de boa vontade. Construir ações afirmativas é desafiar a “normalidade do mundo”. É fazer com que os raios não caiam sempre no mesmo lugar e deixem exaustos(as) as pessoas com deficiência, as pessoas negras, as pessoas pobres...

O encaminhamento final foi conversar com a discente, convidá-la a compor aquele colegiado, construir o processo de inclusão, e não “resolver o problema daquela pessoa”. O modelo social da deficiência precisava entrar na conversa. Sentar-se naquela mesa.

Essa foi minha última reunião de conselho departamental como chefe.

Eu já não estaria ali na mesa. A questão que fica é que, se eu não estivesse, tudo teria se resolvido rapidamente. O ponto de pauta seria operacional.

Não se trata de com isso destacar minha presença, se trata de perceber que eu só sabia disso em função de minha área de trabalho. Pela sorte de ser chefe de departamento naquela ocasião. E se não estivesse lá? E se não fosse minha área de pesquisa? Mais uma vez a resposta seria o raio cair no mesmo lugar. Isso diz respeito a todo mundo. “Nada sobre nós, sem nós” é uma política para exigir a constante construção dos para-raios. A insistência em manter privilégios faz com que os raios não encontrem obstáculos e atinjam os corpos sempre do mesmo modo. A ação afirmativa

do “nada sobre nós, sem nós” em-cena que se trata de tomar a inclusão desde o princípio e, mais do que isso, como princípio.

Numa outra universidade pública, uma de nós viveu uma situação na qual a exclusão se fez presente, gerando espaços de não acolhimento e tam-bém de violência. Vale frisar, neste ponto, que, como diz o Modelo Social da Deficiência, as barreiras sociais ao acesso não devem ser postas naqueles que sofrem a violência. Ao contrário, são as próprias barreiras, construídas a partir de uma visão corponormativa, que devem ser o foco das questões.

Esse será o caminho narrativo seguido aqui, apesar de não desconsiderar que, quando este sistema falha, as dores da exclusão recaem, sim, naqueles que as sofrem, e que a carga afetiva é muito difícil de ser partilhada.

Firmamos um acordo, logo no início do semestre, de que, sem intérpretes de Libras, as aulas não começariam. Acordo firmado, tendo como aposta que a universidade proveria os profissionais quando necessário. Na prática, porém, descobrimos que os intérpretes disponíveis na universidade deveriam atender aos alunos de graduação, não havendo profissionais disponíveis para a Pós-Graduação. Era como se jamais se tivesse suposto, naquela universidade, que uma pessoa com deficiência ingressaria num programa de mestrado.

Logo, se alguma pessoa com deficiência chegou até aquele mestrado, caberia àqueles e àquelas que a aprovaram dar conta da inclusão, providenciando recursos e o que mais fosse necessário. A instituição de ensino, em suas instâncias superiores de gestão acadêmica, lavava as mãos.

Eis aí o raio da exclusão. É o raio que individualiza a deficiência, apagando as lutas e movimentos sociais das pessoas com deficiência. É o raio do capacitismo que oprime e violenta. Ainda que a política de ações afirmativas sustentasse a presença das pessoas com deficiência na Univer-sidade, havia muito o que avançar, especialmente na pós-graduação stricto sensu, para garantir a permanência de uma pessoa surda num mestrado, em condições de equidade com os demais membros da comunidade acadêmica.

A cena, porém, tem outras camadas que passam também pelas políti-cas de ação afirmativa. Não foi somente de exclusão que se expressou este momento. Quando meu corpo fica desvalido pela violência da opressão, outras minorias, também cotistas, imersas em outras formas de violência

localizadas em outras identidades, se unem comigo para que, de forma coletiva, como muralhas da resistência (Soares, 2020), nos posicionásse-mos como protagonistas: sem intérpretes de Libras não haveria aula para ninguém. A deficiência e a inclusão é uma questão coletiva.

Distribuindo raios: Sobre uma formação superior

No documento Interrogações às políticas públicas (páginas 62-66)

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