5.1 A experiência do Módulo 1
5.1.2 Oficina Os detalhes no texto
Para essa Oficina 2, os objetivos definidos foram: proporcionar a leitura rigorosa para reflexão sobre a organização do texto; favorecer o acesso a outras linguagens; desenvolver habilidades de apresentação oral de trabalhos; ampliar as habilidades de oralização e escuta; reconhecer os efeitos gerados pelos discursos no sentido dos textos; proporcionar o espaço para a emoção a partir da leitura literária.
A ideia seria começarmos com a retomada da primeira oficina através da leitura de trechos dos registros no Diário. Porém, quando solicitados, os estudantes não quiseram compartilhar os seus registros e optamos por não insistir nesse primeiro momento, a fim de que
a nossa insistência não provocasse alguma resistência posterior ao instrumento proposto. Então, partimos para o momento da vivência.
A participação também não se deu conforme o esperado. Apenas uma aluna trouxe um objeto que representava a sua avó: um LP (disco grande de vinil) de Luiz Gonzaga. Ela nos contou que nas férias, na casa da sua avó, na Comunidade do Catu, ouve todos os dias as músicas do cantor e que, inclusive, o seu apelido na família tem origem em uma das letras do músico. Outros sete alunos conversaram com as avós sobre como eram suas vidas quando elas tinham 13, 14 anos e, baseados nessa conversa, compartilharam com a turma que o trabalho na roça era a atividade mais comum. Os demais alunos, não realizaram nenhuma das sugestões dadas na oficina anterior. Ficamos um pouco decepcionadas com a baixa participação nessa atividade, pois pelo entusiasmo demonstrado no momento das orientações, esperávamos uma adesão maior.
Por outro lado, uma coisa positiva é que todos fizeram seus registros no Diário, embora ninguém tenha aceitado compartilhar. Passando nas cadeiras de cada um, lemos os registros e vimos que alguns se limitaram a resumir a história do conto, mas outros falaram sobre o que sentiram: amor, raiva do preconceito, alívio por conversar sobre “essas coisas” (usando a expressão deles) etc.
Retomamos um trecho do conto “Os meninos verdes”, agora sob a mediação, para uma leitura rigorosa, no dizer de Riolfi. Então, o conto foi projetado em slide e passamos a observar e discutir a escolha das palavras, a variação entre discurso direto e indireto, os efeitos provocados pelo narrador em 1ª pessoa, as expressões que marcavam a passagem do tempo, a importância da caracterização dos meninos verdes e do quintal para a compreensão do leitor etc.
Nesse momento, houve pouca interação, embora eles fossem estimulados a destacar trechos do texto e comentar os efeitos de sentido provocados. Isso nos levou à reflexão sobre a importância de uma metodologia que ouve os alunos, a fim de que eles sintam segurança para participar. Quanto à mediação da professora-pesquisadora para uma leitura rigorosa, à medida que as consequências das escolhas feitas no texto eram levantadas, era apresentado um cubo colorido aos alunos, constando elementos importantes na construção de uma narrativa.
Apesar da participação abaixo do esperado, acreditamos que foi possível analisar recursos e elementos empregados no texto, de modo mais aprofundado e, portanto, representou um espaço para construção de experiências.
Figura 19 - Cubo elementos da narrativa
Fonte: Acervo da pesquisadora (2019).
Outro momento positivo desta Oficina foi durante a distribuição dos envelopes com cópias de outros contos de Cora Coralina. Os alunos ficaram muito concentrados, acharam o envelope bonito, observaram por fora primeiro. Foi interessante perceber que algo tão simples pudesse causar tamanha expectativa neles.
Figura 20 - Envelopes com contos de Cora Coralina
Os alunos leram os contos individualmente e com atenção. Já era o final da aula; então, só observamos as reações durante a leitura individual, demos um tempo maior para o registro no Diário e deixamos para explorar a leitura dos contos na oficina seguinte.
A seguir, destacamos o registro 2 de um Diário para análise.
Figura 21 - Diário 1/registro 2
Fonte: Diário 1 (2019). 1 2 3 4 5 6 7
Transcrição Diário 2/registro 2
A história do “medo de Cora Coralina” foi bem interessante pois falava de uma jardineira que pegava uma perua ou expresso com um caixão, um cara acenou e estava muito cheio o transporte então ele foi em cima. Começou a chover e para ele não se molhar entrou dentro do caixão. Em seguida dois homes acenaram, o cara que estava no caixão cochilou e acordou e pensou que a chuva parou, os dois homens vinham correndo e do nada o cara abre o caixão e dá um susto nos dois homens e eles caiem quebrando tudo, pescoço, braço, perna. Foi legal e engraçado e é por isso a história se
Nesse 2º registro, a aluna do Diário 1, ao contrário do que fez no seu registro 1 (comentado anteriormente), dedicou-se à contação da história lida, conforme o trecho “A
história do ‘medo de Cora Coralina’ foi bem interessante pois falava de uma jardineira”, (linha 1),ressaltando detalhes da narrativa. O seu comentário pessoal sobre o conto limitou-se a dois trechos: no primeiro, “foi bem interessante” (linha 1), afirma que foi interessante, sem explicar
os motivos com mais detalhes, uma vez que, na sequência, inicia o resumo da história; no segundo, “Foi legal e engraçado e é por isso a história se chama ‘medo’” (linhas 6 e 7), usou mais adjetivos para caracterizar o texto, mas não estabeleceu relação alguma com prováveis experiências vividas, e concluiu justificando o título do conto, sem, no entanto, aprofundar-se nisso ou explicitar se a história realmente lhe provocou medo, por exemplo.
Se um mesmo Diário trouxe registros tão diferentes, não podemos acreditar que foi por falta de compreensão da proposta; mas que a diferença tenha ocorrido pelo maior ou menor envolvimento desse leitor com o texto lido. Isso nos leva à seguinte reflexão: é bem provável que as projeções que o leitor faz ao ler um texto estejam relacionadas também ao seu grau de interesse ou identificação com ele.
Dos 27 alunos, cinco faltaram; não os mesmos que tinham faltado à primeira oficina. Isso gerou alguma dificuldade em virtude da necessidade de retomar a primeira Oficina, de modo mais detalhado, com os alunos que a perderam. Apesar disso, a Oficina 2 teve bons resultados, sobretudo se considerarmos que o aspecto central da oficina consistia na leitura mais pontual do conto e normalmente já é um trabalho menos apreciado pelos alunos.
Passamos a relatar a próxima oficina.