Admite -se, de modo geral, que durante o período pré -dinástico decresceram os frequentes intercâmbios humanos com o Saara. Pouco se sabe a respeito
7 Quero registrar aqui meus agradecimentos ao professor T. GOSTYNSKY, autor de uma monografia sobre a Líbia antiga, que ele gentilmente enviou à Unesco a fim de facilitar a elaboração deste capítulo. Utilizei -a em diversas ocasiões.
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desses intercâmbios, chegando -se por vezes a argumentar que não existiram8. É
certo que durante o período dinástico o Egito exerceu influência sobre o Saara, embora também pouco se saiba sobre isso9.
Para os egípcios do período dinástico, de fato – segundo as pesquisas mais recentes –, os saarianos eram principalmente os líbios, que paulatinamente se concentraram no norte de um dos desertos mais vastos e inóspitos do mundo. Era outra a situação no Neolítico, quando a rápida expansão do deserto – intensificada durante o período dinástico – forçou os líbios, pastores e caçadores, a recuarem para a periferia do seu habitat anterior, quando não os levou a bater, famintos, à porta do paraíso nilótico, cujo acesso lhes era proibido. Sua pressão continuou a se exercer ininterruptamente, mas poucas vezes com êxito, exceto, talvez, na parte ocidental do Delta, onde a população saariana é, sem dúvida, antiga e homogênea. Nos grandes oásis cercados por desertos – Kharga, Dakhla, Farafra e Siwa –, a aristocracia egípcia dedicava -se à caça, assumindo uma obrigação que originalmente cabia ao rei. Combater e aniquilar os habitantes do deserto (mesmo a inofensiva lebre) significava ajudar a manter a ordem cósmica, pois o deserto pertencia a Seth e ao caos primordial, que ameaçava constantemente voltar à Terra e destruir a ordem (Maât), desejada pelos deuses e pela qual o faraó era responsável. Assim, a caça não era simplesmente um agradável passatempo das classes privilegiadas. Tinha um significado religioso profundo.
Quando se caminhava para o sul, com destino ao Chade, ou para o norte, rumo ao Fezzan e ao Níger, era preciso atravessar aqueles oásis. Contudo, não dispomos hoje de nenhuma prova de que tais rotas tivessem sido regularmente utilizadas durante o período dinástico.
Seria certamente importante realizar pesquisas sobre essas rotas, mais do que pelo próprio interesse que lhes é inerente. A arqueologia e a toponímia poderiam vir a descobrir se os egípcios utilizaram ou não as principais rotas africanas para o Tibesti, Darfur, Bahr el -Ghazal e Chade, ou para o Fezzan e Ghudamis.
8 Em várias passagens do Relatório Final do Simpósio do Cairo (1974). Uma das pesquisas atuais mais promissoras baseia -se em gravação em pedras e em pinturas “do Atlântico ao mar Vermelho”. Embora referindo -se particularmente à Pré -história, o estudo contém grande quantidade de dados precisos. 9 HUGOT, H. -J. 1976. p. 73. Note -se, porém, a advertência (p. 82) contra conclusões apressadas de
estudiosos que, por exemplo, querem reconhecer em determinados temas das pinturas rupestres do Saara (carneiros com discos solares, feiticeiros com máscaras zoomórficas, etc.) vestígios de influência da XVIII dinastia. Ele observa: “É precipitar -se e descuidar facilmente da maneira de administrar a prova científica necessária à validação de uma hipótese”.
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De qualquer maneira, pelo menos a partir da XIX dinastia, os líbios passaram a constituir uma reserva de mão de obra e de soldados para o Egito. Os cativos líbios, identificáveis pela pluma que usavam sobre a cabeça, tinham boa reputação como soldados, principalmente como aurigas. Frequentemente marcados a ferro, não eram utilizados nas grandes operações coletivas nem no trabalho doméstico10. Eram arregimentados pelo exército, onde sua proporção aumentava
com o passar dos séculos e onde encontravam outros imigrantes, os núbios. Como criadores de gado, forneciam animais para o consumo dos egípcios11;
esses animais eram recolhidos sob a forma de tributo, ou tomados durante as razias. Os líbios desempenhavam, assim, um papel econômico comparável ao dos núbios.
Naturalmente, a historiografia egípcia julgava severamente as invasões líbias, quando ocorriam12. Nos séculos XIII e XII antes da Era Cristã, assim
como durante o Antigo Império, os líbios, levados pela necessidade, tentaram penetrar no Egito. Séti I e Ramsés II erigiram uma rede de fortificações contra os invasores e aprisionaram os mais ousados. Após duas tentativas frustradas de retomar à parte ocidental do Delta, de onde tinham sido afugentados, os líbios obtiveram de Ramsés III, no século XII antes da Era Cristã, permissão para se fixar naquela região. Em troca, passaram a ter maior participação na defesa militar do Egito. No século X, e por quase dois séculos os líbios governaram o Egito sob a XXII e a XXIII dinastias. Essa nova situação provocou fortes reações no Alto Egito, onde se fizeram tentativas de destituir os governantes líbios com o apoio do reino de Napata. A rivalidade entre guerreiros e políticos negros e brancos deu início a uma situação que se prolongaria por muito tempo na vida do Egito. A réplica imediata dos núbios foi estabelecer uma dinastia etíope criada por Peye (Piankhy).
Ao se considerarem as relações entre o Egito e outras nações, sejam elas africanas ou não, é preciso não esquecer o papel, ainda quase desconhecido, desempenhado pelo Delta. As prospecções arqueológicas nessa região do Egito, ainda insuficientes, não nos permitem ir além de algumas suposições.
10 Snefru orgulhava -se de ter capturado 11 mil líbios e 13100 cabeças de gado.
11 As inscrições mencionam importações de várias dezenas de bovinos, ovinos, caprinos e jumentos. 12 De -3000 a -1800 os egípcios conseguiram, segundo seus cronistas, conter as invasões líbias. Todas as
expedições mencionadas durante esse longo período vão do Egito para a Líbia. O próprio fato de terem ocorrido revela a presença de problemas nas relações entre Egito e Líbia. De -1800 a -1300 as fontes nada dizem a esse respeito.
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figura 4.2 Pelicanos domesticados. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. I, p. 188, fig. 61 (no alto). Baixo -relevo no Museu de Berlim.)
Figura 4.3 Operações navais. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. I, p. 220 -1, fig. 74 -5. Mastaba de Akhet -hetep, Musée du Louvre. Foto Archives Photographiques, Paris.)
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Durante o período dinástico, o Delta foi palco de frequentes migrações – por vezes maciças – de povos vizinhos do oeste, do norte e do nordeste13. Em
maior ou menor grau, isso sempre afetou a vida do Egito. Basta recordarmos as relações do Egito com Biblos (vital para o fornecimento de madeira), o episódio dos hicsos, o êxodo dos hebreus, os ataques dos líbios e dos povos do mar, para compreendermos que o Delta sempre foi uma área de conflito nos tempos do Egito faraônico. Particularmente ao procurar desenvolver um comércio exterior complementar com a África, a Ásia e o Mediterrâneo, o Egito viu -se obrigado a exercer um rígido controle sobre a costa do Delta. Desde o início do período faraônico, o compromisso da política comercial e militar egípcia com o norte e o nordeste opunha -se, até certo ponto, ao desejo de fazer contatos com o continente africano e de penetrar no seu interior. É preciso ter em mente essa contradição fundamental sempre que se for lidar com a história egípcia. O Egito, país mediterrânico e marítimo, tinha de controlar um espaço útil aberto para o Mediterrâneo e para o norte do mar Vermelho. Varadouros bem construídos entre este e o Nilo, ao norte da Primeira Catarata, bastavam para garantir a conexão indispensável entre as bacias econômicas ocidental e oriental. Como povo africano, porém, os egípcios provavelmente se viram tentados a penetrar profundamente o interior ao longo do Nilo, ao menos até a Quarta Catarata. Teriam enfrentado, então, dificuldades como as que são discutidas em outros capítulos deste livro. Também devem ter sido atraídos pelo Chade, atravessando os vales antigos que conduzem à margem esquerda do Nilo, e pela Etiópia, rica em marfim. O maior obstáculo encontrado ao sul talvez tenham sido as extensas regiões pantanosas, que os egípcios devem ter tido dificuldades em alcançar ou atravessar, e que durante toda a Antiguidade protegeram o segredo dos vales extremos do alto Nilo. Embora tenhamos hoje condições de acompanhar com certa facilidade a história das relações do Egito com o norte e dos varadouros entre o mar Vermelho e o Nilo, lamentavelmente nos faltam dados arqueológicos sobre as relações que os egípcios mantinham, por terra, com o sul distante.
Portanto, no momento temos que recorrer a hipóteses mais ou menos prováveis baseadas em textos, na linguística, na etnologia ou, simplesmente,
13 Como enfatizado no Simpósio do Cairo, a história antiga do Delta ainda está para ser descoberta. De fato, a porção do Egito setentrional cuja pré e proto -história são conhecidas não vai muito além do Cairo atual. No Antigo Império não se dispunha de maiores informações. A faixa litorânea deve ter permanecido por longo tempo como uma extensa área fora da esfera egípcia. No IV milênio, de fato, formado o Estado egípcio, o Baixo Egito expandiu -se de Heliópolis até o Faium, e o Alto Egito, do sul do Faium até El -Kab. Assim, o Delta esteve menos envolvido, e o Alto Egito, considerado “mais africano”, deteve -se com o surgimento do arenito – corretamente qualificado como núbio –, que marcou o ingresso num outro mundo, tanto étnico como político, o de Ta -Séti, a Terra do Arco.
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no senso comum. Mas por muito tempo os próprios egiptólogos consideraram a história do Egito mediterrânica e branca; assim, torna -se necessária, agora, uma mudança das técnicas e dos materiais de pesquisa – e principalmente da mentalidade dos pesquisadores – para que se possa restituir a terra dos faraós ao seu contexto africano.