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RELIGIÃO E CONSUMO “ATENDEMOS A TODOS OS SEUS DESEJOS”

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CAPÍTULO II – PENTECOSTALISMO(S) – PRÁTICAS RELIGIOSAS, IMPACTOS

2.8. RELIGIÃO E CONSUMO “ATENDEMOS A TODOS OS SEUS DESEJOS”

É fato incontestável, a ideologia da sociedade de consumo vem se impondo a todos, se não nas práticas cotidianas da maior parte da população, ao menos em suas fantasias e desejos, fenômeno presente nos grandes centros urbanos, mas que também se espalham pelas periferias. Os padrões de consumo têm prevalecido de maneira geral, sobre a “consciência ecológica, a consciência ética, social e cidadã” (COIMBRA, 2004, p.546). Nem mesmo a religião cristã pentecostal parece estar incólume a essas pressões.

Encontramos em Bourdieu (2007, p. 118-119) a religião como sendo um campo bem específico, parte constituinte das diversas relações sociais que estruturam as sociedades moderna e contemporânea. Pois bem, nesse campo religioso estão envolvidos vários atores religiosos (especialistas e leigos) que atuam ou se relacionam entre si e a sociedade civil. Esse também seria um “campo de produção simbólica, um microcosmo da luta simbólica entre as classes” (BOURDIEU, 2009, p. 12).

Logo, o campo religioso possui uma divisão de trabalho própria inserida em uma hierarquia (estruturada e ao mesmo tempo estruturante desse campo), com distinção de classes (dominantes), cujo poder se assenta no acúmulo de capital econômico ou na produção de bens

simbólicos para a manutenção de um mercado de bens simbólicos que visa suprimir as

necessidades dos indivíduos que os consomem (dominados).

O mercado de bens simbólicos estaria estruturado pelo pensamento bourdieuano a partir da:

gestão dos bens de salvação por um corpo de especialistas religiosos, socialmente

reconhecidos como detentores exclusivos da competência específica necessária à

produção ou à reprodução de um corpus deliberadamente organizado de conhecimentos secretos (e, portanto raros) (BOURDIEU, 2007, p. 39, grifo nosso). No espaço sagrado os bens produzidos mantém suas características simbólicas, por isso, são bens de salvação, entretanto, esses uma vez materializados nos espaços comerciais seculares, ditos profanos, tornam-se produtos comercializáveis, e como tal, estão sujeitos à legislação e tributação por estabelecerem relações econômicas entre produtores e consumidores. Dessa forma, esse mercado se enquadra num circuito inferior de trabalho que é temporário e instável de acordo com a teoria dos circuitos e fluxos de economia (SANTOS, 2008, p. 203).

Afinal, de acordo com o Código139 de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990), é

importante que se tenha o conhecimento de que: produto é qualquer bem, móvel ou imóvel,

material ou imaterial que pode ser comercializado, consumido; e consumidor toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. Além

disso, equipara-se à consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que

haja intervindo nas relações econômicas.

Comparando os “produtos simbólicos ofertados nos cultos” e o que descreve o CDC, nisso se confirma em nossas observações que os produtos religiosos em âmbito pentecostal se enquadram perfeitamente em um mercado de bens simbólicos.

139 Nota-se, que o CDC ao tipificar os bens, produtores, fornecedores e consumidores, traz também, para os indivíduos, a garantia do exercício da cidadania, pelo conjunto de direitos básicos que o indivíduo na posição de consumidor possui como estão descritos no art. 6º, e pelas obrigações de produtores, fornecedores de bens nos artigos posteriores. Além do mais, o indivíduo-consumidor ao adquirirem um produto com defeito, possam buscar por meio dessa lei seus direitos individuais e até coletivos, já que existe uma vulnerabilidade do consumidor frente ao mercado de consumo como descreve a política de nacional de relações de consumo.

Em uma das instituições, observamos uma pequena lista fixada em um armário (discretamente) logo na entrada do templo contendo uma descrição de vários produtos e seus respectivos preços. Os produtos religiosos são confeccionados por especialistas que difundem seus materiais religiosos produzidos por entre os membros do grupo direta ou indiretamente. Esses produtos são difundidos entre aqueles que passam a frequentar e aceitam sua doutrina religiosa, v.g.: hinários, véus, relatórios, bíblias, entre outros.

Ao perguntarmos a uma das lideranças sobre esses produtos, nos foi dada a seguinte resposta: Esses materiais aí são para atender aos nossos irmãos e irmãs que desejam ter a

sua bíblia, seu hinário. O custo desses hinários, relatórios são irrisórios, sendo mesmo uma forma das pessoas adquirirem aqui com conforto para melhor servirem a Deus! (cooperador

membro que recepciona e auxilia as pessoas na entrada da instituição, datada de 29.08.2014). Cabe ressaltar que esses produtos140 estão disponíveis na internet para comercialização.

Em outra instituição, observamos o uso de revistas141 de cunho religioso que dão

suporte para os ensinamentos aos fiéis nas escolas bíblicas dominicais. Observamos o uso de pelo menos duas versões de uma mesma revista contendo lições bíblicas editadas trimestralmente, e notamos não só a liderança usufruindo dessas revistas para seu discurso, mas, também a membresia como um todo utilizando para seguir os ensinamentos ministrados pela liderança.

Dessa maneira, percebemos que o uso das revistas relega a leitura da bíblica a um segundo plano, já que no conteúdo de cada lição, estão descritos versículos bíblicos comentados, o que de certa forma, induz a não leitura do texto sagrado. Todavia, não atentamos qualquer oferta desses produtos em meio às pregações dessas instituições, logo, a oferta deve ocorrer em outras circunstâncias, porém, não conseguimos identificá-las.

Mas, os segmentos religiosos pentecostais se aproximam do consumo por um fator comum - o imaginário. Essas religiões institucionalizadas e o consumo mexem com o imaginário dos indivíduos, despertam curiosidades, aguçam desejos, criam necessidades, além de serem sistemas de códigos, comunicação entre classes sociais ou indivíduos, processos culturais que norteiam a sociedade contemporânea.

140 Os produtos da CCB estão disponíveis para comercialização pelo site: www.ccbhinos.com.br. 141 São revistas editadas pela editora CPAD, também estão disponíveis em site próprio da editora.

Entretanto, vale salientar que, isso não é exclusividade da sociedade contemporânea, mas é um fenômeno continuado de uma sociedade moderna. Esse é um fenômeno que se prolonga a partir da metade do século XX e se intensifica ainda mais nesse século. Para Mesquita (2007, p. 121), em termos teóricos, esses sistemas simbólicos de consumo e os inúmeros subsistemas adaptados às múltiplas realidades socioculturais irromperam a modernidade aportando na supermodernidade.

Consequentemente, numa sociedade plural, segmentada, onde existe também uma multiplicidade religiosa, a busca, a disputa por novos fiéis e seu comprometimento em um determinado grupo, é algo vital para a manutenção dessas instituições religiosas. Por conseguinte, novas estratégias de mercado são inseridas nas práticas religiosas pelas instituições criando o “paradigma de mercado” (GUERRA, 2003, p. 01).

Conforme o autor, os indivíduos seriam nesse paradigma, orientados de maneira crescente para decidir livremente a respeito de que modelo de religiosidade irão adotar [...] e as organizações religiosas ao oferecem algo, tem que ser atrativo para os “potenciais consumidores”. Para tanto, Mesquita identifica:

a atuação do corpo eclesiástico como mediador da construção dos valores que constituem respostas espiritual e social aos desejos e anseios dos fiéis. Essas lideranças religiosas se orientam fundamentalmente pelo ‘hedonismo moderno’,

isto é, a retórica do querer, baseados em uma teologia que enfatiza a melhoria de

vida neste mundo, com grande valorização da riqueza, sendo essa um ‘direito’ dos fiéis, atribuído por Deus, que pode proporcionar a realização de todos os

desejos e necessidades (MESQUITA, 2007, p. 121, grifo nosso).

Nesse contexto, a mensagem religiosa, ao se referir ao consumo de determinados bens industrializados - aciona na mente do indivíduo religioso - a aquisição de um objeto como um indicador da superação de uma condição de vida restrita à subsistência. Nesse sentido, “religião, consumo e aspiração são engrenagens para o modus operandi de uma sociedade orientada para o mercado” (MESQUITA, 2007, p. 131).

Mas, não é somente os discursos teológicos, os bens simbólicos e materiais apresentados, que efetivamente induzem os pentecostais ao consumo. Outros fatores indutores ao consumo por parte dos pentecostais adviriam de políticas públicas desenvolvidas no início deste século, como por exemplo: o aumento do salário-mínimo que teve um aumento real em 2003 e de lá para cá vem sendo reajustado, um aumento significativo das oportunidades de emprego.

Também temos os auxílios advindos dos programas sociais v.g.: incentivos à aquisição da Casa Própria por meio de financiamentos bancários ou pelo programa Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, Crédito Consignado, Pro-Uni, Brasil sem Miséria, reduções de IPI sobre determinados “produtos de linha branca” e uma gama de incentivos governamentais para a aquisição de eletrodomésticos, veículos, enfim, entre tantos outros benefícios que se encontram disponíveis.

Entretanto, embora essas políticas estejam desarticuladas longe de atender todas e reais necessidades humanas, e no entendimento de Alves (2013, p. 19) se “reverte à visão assistencialista”, todavia, é incontestavelmente que tais políticas vêm garantindo uma renda para os menos favorecidos, permitindo quase que automaticamente sua inserção na sociedade de consumo, configurando uma “pobreza diferente pela mudança dos padrões de consumo pela população de baixa renda” (TORRES; BICHIR; CAPIM, 2006).

Mas, analisando o consumo de bens simbólicos pelos os “membros-consumidores” o que, também, entendemos ser um dado sociocultural, nota-se que, por um lado pode isso gera a sensação de inclusão, pertencimento, satisfação imediata das necessidades, auxílios na manutenção de suas práticas religiosas, por outro contribui para a problemática do consumo que é aditivada pela aquisição de bens materiais que carregam em si os bens simbólicos propriamente ditos, como no caso de: CDs, DVDs, livros, vestuário, viagens, etc., afinal, tudo têm se tornado produto a ser ofertado visando atender as demandas dos religiosos (CORTÊS, 2013).

Dessa maneira, Vilhena afirma que:

Esse consumidor deseja não apenas possuir determinado objetos, mas experimentar certas sensações agradáveis que desfruta projetivamente em sua imaginação, até por que o prazer não é uma propriedade intrínseca a objetos,

nem uma propriedade de estímulos, mas decorre da capacidade humana de reagir

aos estímulos de determinada maneira (VILHENA, 2012, p. 85, grifo nosso). Complementando, a autora afirma ainda que “bens simbólicos imateriais, entre o velar e o desvelar, como o soprar do vento, são apresentados ao consumidor” (VILHENA, 2012, p. 85). Isto seria a espiritualidade do consumismo descrita por Sanchez (2012, p. 115) “é o modus crendendi do consumismo e tem uma relação direta com o seu modus vivendi”, já que essas crenças e valores estabelecem um estilo de vida daqueles que consomem tais bens, retroalimentando todo o processo de produção dos mesmos em um ciclo.

Dessa forma, o consumo torna-se um meio de salvação da angústia, da dor, do sofrimento e até da morte, já que consumir seria uma promessa de realização plena da pessoa segundo Sanchez. Observamos que o mercado bens simbólicos e mercado de bens seculares imbricam-se nas instituições religiosas pentecostais.

Assim é possível afirmar que uma parcela significativa se enquadra perfeitamente nessa dinâmica social, econômica e religiosa, e ainda, exista outra parcela com uma maior renda familiar, e, portanto, diferenciada dessa nova classe C, estando em outra posição de

classe segundo (BOURDIEU, 2007).

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