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Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.39 número4

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Academic year: 2018

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www.rbceonline.org.br

Revista

Brasileira

de

CIÊNCIAS

DO

ESPORTE

ARTIGO

ORIGINAL

‘‘Olhos

masculinos

nascidos

para

a

contemplac

¸ão

do

belo’’:

a

relac

¸ão

entre

esporte

e

mulher

na

crônica

esportiva

brasileira

Maria

Thereza

Oliveira

Souza

,

André

Mendes

Capraro

e

Larissa

Jensen

UniversidadeFederaldoParaná,ProgramadePós-Graduac¸ãoStricto-SensuemEducac¸ãoFísica,Curitiba,PR,Brasil

Recebidoem7dejulhode2015;aceitoem6desetembrode2017 DisponívelnaInternetem7deoutubrode2017

PALAVRAS-CHAVE Mulheres;

Escritores; Crônicas; Estética

Resumo Opresenteartigosepropõeaanalisarcomoamulheratletafoiretratadapor reno-madosliteratosbrasileiros(homens)ecomooesportefeminino,comdestaqueparaofutebol, émanifestoemalgumascrônicasesportivo-literáriasbrasileiras,parafinsdedelimitac¸ãoforam selecionadasaquelasdeArmandoNogueiraeNelsonMotta.Apesquisaédecaráterhistórico, centradana análisede fontesliterárias.Ao analisar as crônicascujoassunto eraaprática feminina,foiperceptívelasupervalorizac¸ãodaestéticacorporal.Assim,naturalizadamenteos cronistascolocaramsuasimpressõesmasculinasnaspalavrasquedeveriamserdestinadasao desempenhoatléticodasmulheres.

©2017Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´e umartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).

KEYWORDS Women; Writers; Chronicles; Esthetics

‘‘Maleeyesbornforcontemplationofbeautiful’’:Therelationshipbetweensportand womaninbraziliansportschronic

Abstract This articleaims toanalyzehow thefemaleathlete wasportrayed byrenowned Brazilianwriters(men)andhowwomen’ssports,especiallyfootball,appearsinsomebrazilian sports / literary chronicles. For delineation were selected those ofArmando Nogueira and

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](M.T.Souza).

http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2017.09.001

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NelsonMotta.Theresearchhashistoricalcharacter,centeredinanalysisofliterarysources.By analyzingthechronicwhosesubjectwasthefemalepracticewasperceivedovervaluationof bodyaesthetics.So,naturally,thechroniclersputtheirmaleimpressionsinwordsthatshould beaimedattheathleticperformanceofwomen.

©2017Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

PALABRASCLAVE Mujeres;

Escritores; Crónicas; Estética

‘‘Ojosmasculinosnacidosparalacontemplacióndelobello’’:larelaciónentredeporte ymujerenlacrónicadeportivabrasile˜na

Resumen Elpresente artículo proponeanalizarse cómo la mujer atletafue retratadapor renombradosliteratosbrasile˜nos(hombres)ycómoeldeportefemenino,sobretodoelfútbol, semanifiestaenalgunascrónicasdeportivas/literariasbrasile˜nas.Paradelimitarelanálisisse seleccionaronlascrónicasdeArmandoNogueirayNelsonMotta.Lainvestigaciónesdecarácter históricoyestácentradaenelanálisisdefuentesliterarias.Alanalizarlascrónicas,cuyotema eralaprácticafemenina,sepercibiólasobrevaloracióndelaestéticacorporal.Así,deforma naturalloscronistaspusieronsusimpresionesmasculinasenlaspalabrasquedeberíanestar destinadasaldesempe˜noatléticodelasmujeres.

©2017Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Estees unart´ıculoOpenAccessbajolalicenciaCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).

Introduc

¸ão

Apresentepesquisaconsisteemumaanálisesobreaposic¸ão daatletanoesportebrasileirosegundocrônicasesportivas derenomadosescritores.Sabe-seque,mundialmente,elas, apesardeterem praticado atividadefísica, tiveramasua participac¸ãoproibidaoudificultadaem distintosperíodos, orasob o argumento deque nãoteriam condic¸ões bioló-gicaspara tal, orapela crenc¸a que isso asmasculinizaria (Oliveiraetal.,2008).Apósaconsolidac¸ãodosesportes,as mulheresaindaseriamrenegadasaosegundoplanoemesmo atualmente,emboratenhamaparticipac¸ãoasseguradanos principaiseventosesportivos,muitasvezesasua importân-ciaé subvalorizadase comparadaao masculino (Goellner, 2005a).

O sucesso do esporte é, sem dúvida, dependente de meiosdedivulgac¸ão,comoreportagensjornalísticas, estu-dosacadêmicosepublicac¸õesemperiódicos.Desdeosmeios mais tradicionais, como jornais em papel, passando pelo surgimentodatelevisãoe chegandoaousoavassaladorda internet, comentários esportivos estão sempre presentes no cotidiano do brasileiro, muitas pessoas dedicaram-se a contarhistórias de atletas, jogose competic¸ões. Nesse contexto surgiu um modelo de escrita tipicamente brasi-leiro,conhecidocomocrônica.1Váriosescritoresnacionais

discorreram, então, sobre assuntos esportivos em tom

1‘‘Ora,acrônicaestásempreajudandoaestabelecerou

resta-beleceradimensãodascoisasedaspessoas.Emlugardeoferecer umcenárioexcelso,numarevoadadeadjetivoseperíodos canden-tes,pegaomiúdoemostraneleumagrandeza,umabelezaouuma singularidadeinsuspeitadas’’(Candido,1992,p.14).

muitasvezesartístico,literárioeatépoético,semobrigac¸ão rigorosaderelatarosfatoscomaobjetividadetípicado jor-nalismo.Comoexemplo,tem-seesseexcertodacrônicade ArmandoNogueirasobreaestreiadoBrasile, consequente-mente,deOscarSchmidtnasOlimpíadasde1996,intitulada de‘‘Oinventordobasquete’’:

‘‘ReencontroOscarem Atlanta.Naestreiaassombrouo ginásiocomacontasoberbade45pontos.Eleéomesmo herói consagrado em quatroolimpíadas. Vinte anos de cintilac¸õesnasquadras deMoscou, Los Angeles,Seule Barcelona.LouvadasejaatrajetóriadeOscar,o sempi-ternocestinhadobasquetemundial,emcujocorac¸ãode atleta exemplar arde umachama olímpica que não se apagarájamais’’(Nogueira,1998,p.122).

Assim,sãoconsideráveisaspáginasdestinadasanarrar singularidadesefeitosdeatletas, equipese selecionados, principalmente em relac¸ão ao esporte considerado a pai-xãonacionale quepraticamenteditao rumoesportivodo país --- o futebol (Damatta, 1982; Rodrigues Filho, 2003; Wisnik, 2008). Todavia, percebe-se que a produc¸ão jor-nalística e literária em torno do futebol masculino é significativamente maior em relac¸ão ao feminino. Diaria-mente, em quase todo periódico, há um cronista falando sobrefutebol,efuteboldehomens,contadoporhomens.

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oesportefemininofoiretratadoemalgumascrônicas espor-tivaseliteráriasbrasileiras.

Metodologia

Otipodepesquisaédefinidocomoqualitativo,decaráter histórico--- centradona análisedefontesliterárias --- com ênfaseem crônicas.Orecorteparaaescolhadascrônicas foifeitoprimeiramentesegundoarelevâncialiterária reco-nhecidadeseusautoresemmeiotãocompetitivo(Capraro, 2007). Após disso, foi feita umatriagem entreeles, teve comocritériodeinclusãoprincipalarepresentac¸ão2de

atle-tasmulheres em seustextose tambémque essestenham sidocoletaneadosepublicadosemformatodelivro3---essas

coletâneas são selec¸ões geralmente feitas pelos próprios autores, ou seja, comportam aquilo que eles consideram relevanteem suaproduc¸ão. Valesalientarque ascrônicas sobreatletasmulheresnãoconstituíramgranderelevância quantitativana obradeNelsonMotta(Resenhaesportiva), já que dentre aproximadamente 60 textos, três faziam referência ao esporte feminino.Já nas obras deArmando Nogueira (Achama quenãose apagae O canto dosmeus amores) a temáticada atleta mulher apareceucom mais frequência---entre220crônicas,aproximadamente50 men-cionarammulhereseparaapresentepesquisaforamusadas aquelasnasquaiselasapareceramcommaiorprotagonismo. Acentuando a relac¸ão entre a pesquisa histórica e a literatura é argumentado que ‘‘Qualquer obra literária é evidência histórica objetivamente determinada --- isto é, situadanoprocessohistórico---,logo apresenta proprieda-desespecíficaseprecisaseradequadamenteinterrogada’’ (ChalhoubePereira,1998,p.8).

Essesautoresreforc¸amqueousodedocumentos literá-rioscomofontehistóricaépossívelporessesretrataremo contextodaépocanaqualosautoresestavaminseridosao produzirsuascrônicas,mesmoqueelasnãotenhamamarras tãofortescomarealidadeenemumcompromissoperene com a verdade, ouseja, osescritores são livres para dar tomartísticoaotexto,massuaspalavrassãocarregadasde representac¸õesem relac¸ão aosfatos.Os parâmetrospara análisedostextosseguemomodelometodológicoadotado porCapraro(2007).

Torna-seassimnecessáriotambémapresentarconceitos quefundamentaramapesquisaebalizaramasanálisesnas páginasqueseseguem.Quantoaoconceitodegênero, coa-dunadoaLouro,crê-seque:

‘‘É necessário demonstrar que não são propriamente as características sexuais, mas é a forma como essas

2RogerChartierdefinecomoumadasmodalidadesdarelac¸ãocom

omundosocial,ouseja,derepresentac¸ões,‘‘[...]aspráticasque visamfazerreconhecerumaidentidadesocial,exibirumamaneira própriadeestarnomundo,significarsimbolicamenteumestatuto eumaposic¸ão’’(Chartier,2002,p.23).

3Foramverificadasobrasdosseguintesautores:NelsonRodrigues,

Luis Fernando Verissimo,Lima Barreto, CoelhoNeto, Graciliano Ramos,GilbertoAmado,MonteiroLobato,JoséLinsdoRego,Mario RodriguesFilho,JoãoSaldanha,PauloViniciusCoelho,Tostão,Juca Kfouriesomenteosdoisautoresescolhidoseretratadosaquitinham entre seus escritos crônicas sobre a participac¸ão da mulher no esporte.

característicassãorepresentadasouvalorizadas,aquilo que se diz ou se pensa sobre elas que vai constituir, efetivamente, o que é feminino ou masculino numa dadasociedadeenumdadomomentohistórico’’(Louro, 2003,p.21).

Partindo-se, então, da premissa de que sexo e gênero nãotêmamesmarepresentac¸ãosocial,podem-se apresen-tartaisdiferenc¸asapartirdasformulac¸õesdaantropóloga MariaLuizaHeilborn:

‘‘Gênero é um conceito das ciências sociais que se refere à construc¸ão social dosexo. Significa dizer que a palavrasexodesigna agoranojargãodaanálise soci-ológicasomenteacaracterizac¸ãoanatomofisiológicados seres humanose aatividade sexualpropriamente dita. Oconceitodegêneroexiste,portanto,paradistinguira dimensãobiológicadasocial’’(Heilborn,1997,p.1).

Armando

Nogueira

---

Estética

literária

e

a

beleza

da

mulher

ArmandoNogueira,umdosmaisafamadoscronistas brasi-leiros,foiumdeclaradoincentivadordoesportefeminino, tantoquefrequentementeopunha-seaosideaisremotosde exclusão das mulheres das Olímpiadas --- ‘‘[...] é de las-timarque o preconceito do barão tenha retardado tanto tempoa entrada na cena olímpica de atletas admiráveis comoFannyBlankers,WilmaRudolph,NadiaComaneci, Flo-renceJoyner,RosaMotaeVeraCaslavska.[...]Umalegenda consagradevezaforc¸aeotalentodasmulheres’’(Nogueira, 2000,p.54).Écomumemsuascrônicas,amaioria‘‘poesia emprosa’’,4 apresenc¸adedelicadaseelegantespalavras

destinadasaatletasmulheres,queemalgunscasosse tor-namquasedeusasnoscontornosdadospeloliterato.

Noslivros analisados,Nogueira dedicapáginas conside-ráveisafalardosexofeminino.Umexemploéacrônica‘‘A deusadafertilidade’’,naqualelerelataquenosJogos Olím-picosda Antiguidade apenashomens competiam, e mais, elesdisputavamnus, como medidapreventiva paraque o sexoopostonãofrequentasseoestádiodeOlímpia.Aúnica mulherquetinhaesseprivilégioeraDemeter,considerada deusadafertilidade,ouseja,apermissãoparaque contem-plasseosjogoserarelacionada à crenc¸a deseu poderde abenc¸oarosmortais coma proliferac¸ão darac¸a.Em mais umexcerto,noqualfazumapontecomopassado,simula umdiálogocomumescultorgregoeaindadefendeolado femininodoesporte,éargumentadooseguinte:‘‘Meubom Fídias,aOlimpíadahojejánãotemasimplicidadedosvelhos temposdeOlímpia.[...]Umacoisa,porém,émaislegalhoje emdia: asmulheres estão podendocompetir’’(Nogueira, 2000,p.89).

Em‘‘Amulherestáemtodas’’,oescritorexaltaogrande contingentedeatletasmulheresqueparticipavamdas Olim-píadas(décadade1990),enquantolembraquenaprimeira edic¸ão olímpica (Atenas --- 1896) elas foram terminante-mente proibidas de participar, assim como já o era na

4‘‘[...] o poema em prosa propõe acima de tudo ede forma

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Antiguidade.Issoaconteciaporqueosorganizadores, prin-cipalmenteo idealizador Pierre de Coubertin, defendiam queoesportedegradavaasuaveimagemdamulher,teoria reforc¸adaatéporespecialistasemmedicinadaquelaépoca. ArmandoNogueirafazquestãodedeixarclarasuaoposic¸ão a esses ideais, usa as seguintes palavras: ‘‘A oposic¸ão à mulhernosJogos Olímpicosvinhadeestúpidos preconcei-tosmoralistas,reforc¸adospelaprópriaciência’’(Nogueira, 2000,p.52).Asmulheressóestreariamnaedic¸ãode Esto-colmo(1912).Apesardessasimplificac¸ãofeitaporNogueira, haviadebatesdentrodohigienismo,ouseja,essaoposic¸ão nãoeraunânime e várias teorias circulavam em defesaa participac¸ãofeminina.5

Apesar dorespeito edacredibilidadedadosaoesporte feminino,suascrônicasfalavammajoritariamentedocorpo, da beleza ou da graciosidade das atletas. Numa dessas oportunidades,descreveFlorenceGriffith-Joyner,velocista estadunidense:‘‘Alémdebonita,ésimpática;alémde sim-páticaésaudável;alémdesaudávelémulher’’(Nogueira, 2000,p.117).Oentusiasmopelafigurafeminina encontra--setambémnacrônica‘‘AsgarotasdeIpanema’’,naqual enaltece asmedalhas deouro e prata conquistadas pelas duplasfemininasdevôleidepraia:‘‘Asquatromoc¸as, bron-zeadas,esculturais,eramosímboloperfeitoeacabadoda jovemmulherbrasileira’’(Nogueira,1998,p.53).Ouainda em ‘‘MagicPaula’’, oportunidade na qualNogueira expõe queeracontrárioaousodecalc¸õeslongospelasatletasdo basquete, defende a tese de que Paula --- aos seus olhos umalinda mulher --- não deveria usar aqueles trajes. Nas palavrasdoescritor:‘‘Oscalc¸õesdobasquetefemininome lembram,nafeiura,avelhacuecachamadasamba-canc¸ão. [...]Paulanãomereceumaroupatãobizarra.Nemela,nem osolhosmasculinosnascidosparaacontemplac¸ãodobelo’’ (Nogueira,2000,p.150).Eleaindasugerequeaselec¸ão bra-sileiraadoteoscolantsusadospelaequipedaAustrália,os quaisgarantiriammuitomaissensualidade.

Aquificaclaroqueoescritorconsideraaestéticacomo umdos fatoresimportantesparao interessemasculino no esportefeminino.Issoéumassuntopertinenteparaoautor, tantoqueeleocitamaisumavez,nacrônica‘‘Aquadraeos quadris’’:‘‘O‘short’dasmoc¸aséumdos‘gimmecs’desse esporte.FoicriadonaCalifórnia,foiencurtadonoBrasile acabouaprovado,comlouvor,pelaFederac¸ãoInternacional deVoleibol’’(Nogueira,1998,p.75).Nogueirasereferiaaos curtíssimosshortsusadosporatletasdovoleibol,que retra-tamcuidadosamenteocorpofeminino.Eleconcluiqueesses sãodocemente sensuais e atic¸am asfantasias do homem e que, assim,sua adoc¸ão foi uma grande jogadade mar-keting, jáque antesdisso asmoc¸as aindausavamcalc¸ões que ‘‘sonegam ao olhar masculino asardentes carnac¸ões femininas’’.

Nogueira nãofaz questãodedeixaressasideias suben-tendidas, ele as coloca explicitamente. Entretanto, há dese enfatizarnovamente que a literatura trabalhacom representac¸ões e que não há como ser contundente ao afirmar que existe por parte do autor um machismo

5ComosventosdemodernidadevindosdaEuropa,alguns

médi-coshigienistaspassaramaincentivardeterminadaspráticasfísicas àsmulheresbrasileiras[...]comoformademanutenc¸ãodasaúde. (Goellner,2005a).

exacerbado, haja vista que ‘‘[...] os dispositivos formais --- textuais ou materiais --- inscrevem em suas próprias estruturas as expectativas e as competências do público a que visam, organizam-se, portanto, a partir de uma representac¸ão da diferenciac¸ão social (Chartier, 1991,p. 186), ouseja, o cronista atua como um sujeito ajustado aoseucontexto histórico,asdécadasde1980 e1990,nas quaisanotóriavalorizac¸ãodaestéticafemininaaindanão estavacercadapelos debatesencontradosepeloconceito depoliticamentecorretodaatualidade.Atuaaindasegundo umalinhapredominantederepresentac¸ãopresentena lite-ratura,hajavistaqueexisteoestereótipodemulherdócil eresponsávelporfantasiasefetichesmasculinos(Brandão, 2006), na qual tentativasde fuga desse padrão são algu-masvezestratadascomgrandecriticidade(Baggio,2006). Háassimemsuaspalavrassinaisdagenerificac¸ãoqueatuava e,nessecasoaindaatua,pautavaasrelac¸õessociais(Louro, 2003),o queacabaporperpetuarasdiferenc¸as,visto que ‘‘[...] asobras e osobjetos produzem suaárea social de recepc¸ão, muito maisdo que as divisões cristalizadas ou préviasofazem’’(Chartier,1991,p.186).

Nelson

Motta

---

Um

voyeur

da

crônica

esportiva

Nelson Motta ---jornalista, compositor,produtormusical e escritor --- em suaobra Resenhaesportiva reuniu crônicas produzidasduranteacoberturadesetecopasdomundode futebol,alémdasOlimpíadas deAtlanta (1996)e Londres (2012),eumaúnicacrônicasobreoPan-AmericanodoRio Janeiro(2007),exatamentesobreofutebolfeminino.

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provavelmente,interessesmasculinostambémestavam pre-sentes,ouseja,nuncaessasrelac¸õesdegêneropodemser entendidas como algo simples, mas sim como ambientes constantemente permeados por tensões (Scott, 1986). As brasileirastambémadotaramouniformecolante, ressalta-ramasformascorporais,apartirdasOlimpíadasdeSidney (2000)até2006,quandodecidiramvoltaraomodelo tradi-cional.Essesfatos,porém,muitodiferemdoqueocorreuna Europaem2012.Osdirigentesdaligadebasquetefeminino doVelhoContinenteacharamjustoobrigarasatletasa usa-remuniformesmais‘‘delicados’’equeretratassemmelhor seuscorposparaatrairmaispúblicoediferenciaraprática femininadamasculina(GloboEsporte,2012).Essa,sim, ati-tudequeapontaparaumapossíveldominac¸ãomasculina,6

na qualhomens impuseramsuas decisõessobreo corpoe apráticafeminina,estabeleceramnormase regulamenta-ramasatividadesconformeseusinteresses.Outraevidência dessadominac¸ãoéjustamenteoquadroquasehegemônico dehomensque tomamasdecisõesnoscargos mais eleva-dosdedirec¸ão,ouseja,éraríssimaapresenc¸ademulheres dirigentesetécnicasemsuasprópriasmodalidades.

Ainda nessa crônica, o escritor afirma que aprova o modelodeuniforme usadopelasaustralianas,dáa enten-derque,atécertoponto,essecompensariaojogoapenas razoáveldaequipe,ouseja,maisumavezoapeloestético sesobrepõeaosaspectostécnicoseesportivos.NelsonMotta ainda revela seu gosto particular, ou seja, no imaginário estéticodoautora Itália‘‘venceria’’aAustrália, tranqui-lamente.Apesardesuaanáliseparecerumtantoofensiva, deve-se atentarque oescritor ---exatamenteporproduzir umaformaartística,aliteratura---temrelativaautonomia criativa(Candido, 1992) e, portanto,esses relatospodem ter sidoescritos a partir de umaleitura críticasobreseu público,queseriamarcadamentemasculino.

Comojáafirmado,oescritorincluiu emsuaselec¸ãode crônicasalgumasreferentesaofutebolfeminino.Umadelas, escritaduranteasOlimpíadasde1996,intitulada‘‘Bolase belas,ricasepobres’’,fazreferênciaàsdiferenc¸asentreas atletasbrasileiraseasamericanasounorueguesas.

Nelsoncomec¸acomorelatodecomochegouaoestádio daUniversidadedaGeórgiaecomooencontroulotado,com 64milpessoasansiosasparaassistiraoselecionadode fute-bolfemininodosEstadosUnidoscontraaequipedaNoruega, que seria o jogo principal. Ele estava lá para presenciar arodadapreliminar entreBrasile China,que,segundoas palavrasdoescritor,nãoeramselec¸õescapazesde desem-penharumbompapelfutebolístico:‘‘Nenhumahabilidade ouimaginac¸ão. Nãoestivesse oBrasil jogando, seriatudo muitochato,mesmoparaummilitantedofutebolfeminino’’ (Motta,2014,p.170).

Logo a seguir, ele enaltece o jogo entreamericanas e norueguesas:

‘‘[...]louras, grandes,fortes, combativas, preparadas. Várias de uma beleza, digamos, viril. Em dramá-tico contraste com nossas pobres garotas, imagens

6‘‘Aforc¸adeordemmasculinaseevidencianofatodequeela

dispensajustificac¸ão:avisãoandrocêntricaimpõe-secomoneutra enão temnecessidadedeseenunciarem discursosquevisema legitimá-la’’(Bourdieu,2002,s/p).

recorrentesderetirantes,faveladas,caboclas---que tam-bém contrastam com a riqueza, a saúde, a beleza e a arrogância das estrelas de nosso futebolmasculino’’ (Motta,2014,p.171).

Nessetrechodoispontosevidenciam-senanarrativade Motta.Primeiro,eleelogiaopreparofísicodasatletas ame-ricanas e norueguesas, as contrapõe ao modelo ‘‘fraco’’ das brasileiras. É possível que isso seja em decorrência da diferenc¸a de treinamento entre os dois opostos, pois se sabe que o apoio ao futebol feminino no Brasil sem-prefoideficitárioe,portanto,essasmulheresnãoreuniam todasascondic¸õesnecessárias paraumadedicac¸ão exclu-sivaaoesporte(Goellner,2005b).Segundo,aocompará-las com os atletas do futebol masculino, o escritor denota seuentendimentosobreessasdificuldadescitadasesobre asdiferenc¸as encontradasem relac¸ãoao tratamentodado aos homens futebolistas no país, evidencia que aquelas meninas desamparadas de projeto esportivo não tinham obrigac¸ãodegarantirbonsresultadosfrenteaquelasoutras quefaziam um... ‘‘Jogac¸o de bola,técnica e habilidade, tática, aplicac¸ão, belas guerreiras em ritmo vertiginoso. Forc¸aevelocidade,potênciaeprecisão.Semdesrespeito, pareciaatéfutebol dehomem’’ (Motta, 2014,p. 171). De certaforma,Mottarecorreà‘‘velha’’explicac¸ãopormeio dobiofísicobrasileiro,comoseessenãofosseaptoàvitória. Explicac¸ãoessa tãocriticadaporMárioFilhonoclássicoO negronofutebolbrasileiro,sobretudo,nasegundaedic¸ão daobra,apósaconquistadoMundialde1958.

NelsonMotta,nofimdacrônica,elogiaofutebol femi-ninobemjogado,falaqueatépareciacomaquelepraticado porhomens,ouseja,paraeleosucessodasmulheresnesse esportedependedeumaaproximac¸ãobem-sucedidacoma práticamasculina,tiraapossibilidadedeofutebolfeminino seratrativofundadoapenasemsuapróprianatureza.

Chega-se,então,aocomentadotítulopan-americanoda selec¸ãobrasileiradefutebolfeminino.ENelsonMottajá ini-ciasuacrônicareferenteaoassuntocomaseguintefrase: ‘‘Sempredetesteiaexpressão‘futeboléjogoparahomem’, machismotoscousadoparajustificartodasortede violên-cia e deslealdade contra adversários talentosos e contra opróprio jogo’’(Motta, 2014,p. 199). Oescritor tentava, nesse sentido, demonstrar que era um indivíduo teorica-menteliberal,dáaentenderqueamulhernoesporteseria maisdoqueumasituac¸ãoaceitável,umdignoejustoavanc¸o social.

Motta recorreà estratégialiteráriade usaraspróprias reminiscências,prossegueerelataaexperiênciadoprimeiro jogofemininocomoqualtevecontato,noiníciodadécada de1980.EraItáliaversusSuécia,nacidadedeRoma,pelo campeonatoeuropeu eo autorreconheciaquetinha inte-resseem presenciar umadisputaque estava longedeser esportiva:

‘‘Levadopelomachistinhaquevivenasprofundezasaté dos maisliberais,fuiparao estádiomenospelo jogoe maispelafantasiadebelasmulheres,correndo,chutando esechocandonogramado,brigandopelabola---comose elafosseumhomem’’(Motta,2014,p.199).

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algumasmuitohabilidosas,alémdeexistirem(assimcomo no masculino) aquelas que se sobressaíam em relac¸ão à belezaeassimgeravamumatrativoamais,oqualemmuito seassemelhavaaojogadoporhomensatéadécadade1960 ---‘‘menosviolentoemaisaberto’’.Aofazeressacomparac¸ão, o autor se mostra novamente saudosistaao relembrar de umesporte demenoscontato praticadopelo sexo mascu-linonosanosdePeléecompanhia,queseperdeuconforme o preparo físico ganhou avassaladoraimportância na prá-ticadesse esporte---aomenoscomoconcebidoporalguns admiradoresdofutebol(Damatta,1982;Wisnik,2008).

Após relatar como admirava o futebol feminino nos EstadosUnidosecomotinhacerta‘‘inveja’’daquele sele-cionado, Motta trouxe as futebolistas brasileiras para o centrodaanálise,aocomentarodesempenhodelasno Pan--Americanoem2007eaevidente(aomenosparaoescritor) evoluc¸ãoqueelastiveram:

‘‘Ninguémmaispodereclamarquelhesfaltatécnica,ou forc¸a,ouvelocidade,oudisciplinatática,outalento indi-vidual.Mesmoosmaisempedernidosmachõesdacrônica esportivaserenderamàgrac¸adofuteboldasgarotase estãoempolgadoscomassensacionaisperformances da genial Marta, de Rosana, Cristiane, Daniela e, ainda e sempre,daveteranaPretinha’’(Motta,2014,p.201).

Pela primeira vez, Nelson não faz qualquer referência aocorpo ouà belezadas atletas, suaanálise é referente aosquesitos técnicosdas brasileiras,que, segundoo lite-rato,surpreenderamnaqueletorneio---éprovávelquenesse momento o autor já estivesse adaptado ao contexto do século XXI, quando minorias antes relegadas ou silencia-das ganharam voz e representatividade. Mesmo assim, a comparac¸ãocomofutebolmasculinocontinuavapresente: ‘‘Elastêmmuitasqualidadese atéalgunsdosdefeitosdos craquesmachos:paradoxalmente,jogaramdesaltoaltoo primeirotempocontraoMéxico’’(Motta,2014,p.201).Ou ainda:‘‘Masquemresistiria,comumsaldo de26gols em quatropartidas,média de6,5 porjogo? Jamais aselec¸ão masculina,nememsuasfasesdemaiorglória,sonhoucom essesnúmeros’’(Motta,2014,p.201).

Essa constante comparac¸ão com o futebol jogado por homensnãoéexclusividadedesseescritor. Pelocontrário, na maioria dasvezes osescritos sobreo futebolfeminino fazemessarelac¸ão.Contudo,hádeseressaltarqueMotta, assimcomoosdemais,usaosparâmetrosquetem,jáque a prática feminina regulamentada desse esporte, princi-palmenteno Brasil, é muitorecente7 e escassa. Ou seja,

nãoexisteumnúmeroadequado de competic¸ões,jogose exposic¸ãoparaqueesseassuntoalimenteàcrônica. Torna--senecessário,então,avaliá-latendocomoreferênciaoque setemdemaissólidonopaís:avastahistóriaconstruídapelo futebolmasculino,históriaquejáadquiriustatussocialede identidadenacional(Damatta,1982;Wisnik,2008).

Caberessaltartambémque,aocitar‘‘osmachõesda crô-nica’’,oescritorreforc¸aaideiadequeomeioesportivoé dominado por homens, há alguns que até subvalorizam a práticafeminina.Mottaseincluiunessegrupo,admiteque

7 Apenasem1979oConselhoNacionalDesportos(CND)revogou

umadeliberac¸ãoqueproibiaapráticafemininadefutebol,assim comooutrasmodalidadesesportivasconsideradasmasculinizantes.

algumasvezescompartilhoudeideiassemelhantesàsdesses ‘‘machões’’.

Mottafinaliza suacrônicaemtomdeesperanc¸a:‘‘[...] depoisdoqueessetimejáfez,milhares,milhõesde garo-tas brasileiras vãoencontrar nofutebol umesporte, uma diversãoeatéummeiodevida.Emaisumaformadedar alegriaeorgulhoaosbrasileiros’’(Motta,2014,p.201).Com orecurso linguísticodoexagero,característicamuito pre-senteemsuascrônicas,provavelmenteoautorforamovido pelaempolgac¸ãodarecentevitória.

Considerac

¸ões

finais

Primeiramente,apresenta-seumasituac¸ãoparadoxal.Vinda ‘‘debaixo’’,acrônica,queatéentãonasceucomprazode validade pré-determinado,tornou-se umaimportante fer-ramentadeanálisehistórica,logo,talpesquisaserviupara consolidaressapermanênciadotextomomentâneo.

Especificamente em relac¸ão às crônicas investigadas, foi constatadauma predominânciade textos relacionados ao futebol, reveliu-se, assim, que a cobertura jornalís-tica/literária é mais um dos fatores que colaboram para colocaro‘‘esportebretão’’àfrentedosdemaisna preferên-cianacional.Noqueserefereaoconteúdodessascrônicas esportivasoufutebolísticas,amaioriapautasuasanálisese reflexõesnapráticamasculina.Asatletasaindanão conquis-taramumaigualdadedeinteresse,tantonoquedizrespeito aopúblicoquantoàcoberturajornalística.Provavelmente, isso se explique pela precariedade dos campeonatos, ou seja,somenteascompetic¸õesinternacionaisentreselec¸ões despertaminteressemaior.Acrônica,nessesentido,é ape-nasumreflexodasociedade.

Ao analisar ascrônicas centradas em atletas mulheres foiperceptívelasupervalorizac¸ãodaestéticadeseus cor-pos. Muitas vezes, os cronistas colocam suas impressões masculinas nas palavras que deveriam ser destinadas ao desempenhoatléticodasmulheres,falamatédomodelode roupaquedeveriamusar,comofoivistoemalgumascrônicas deArmando Nogueira eNelsonMotta. Tais impressõessão geralmentenaturalizadas---istoé,sequercausam estranha-mentonopúblicoleitor,tendoemvistaqueessetambémé basicamentecompostoporhomens---epermeadaspelo con-textohistóricoemqueosescritoresestãoinseridos,ouseja, nãohácomoanalisarsuaspalavrassempensarnosistema pormeiodoqualelasforamconstruídas:umpaísquesempre foieaindaédominadosignificativamentepelomasculino.

Outroindíciodequeomeioesportivoaindaé significati-vamentemachistaéofatodehavergrandecontrastequanto ao númerode cronistas homens em relac¸ão às mulheres. Apesardeexistiremváriasdelasaltamenteinseridasnomeio literárioejornalístico(sejaelepolítico,econômico,social, entreoutros),apresenc¸adelascomoescritoras especializa-dasemesportesaindaémuitobaixa.

Financiamento

(7)

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

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