REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologiawww.sba.com.br
INFORMAC
¸ÃO
CLÍNICA
Hemorragia
intraventricular
após
embolizac
¸ão
de
fístula
dural
Joana
Chaves
Gonc
¸alves
Rodrigues
de
Carvalho
a,
Francisco
Javier
Tercero
Machin
b,
Luis
San
Roman
Manzanera
c,
Jordi
Blasco
Andaluz
c,
Sílvia
Herrero
Nogués
d,
Núria
Peix
Soriano
d,
Victor
Obach
Baurier
ee
Enrique
Jesus
Carrero
Cardenal
b,∗aUnidadeLocaldeSaúdedeMatosinhos---HospitalPedroHispano,DepartamentodeAnestesiologia,Matosinhos,Portugal bUniversidaddeBarcelona,HospitalClínic,DepartamentodeAnestesiología,Barcelona,Espanha
cUniversidaddeBarcelona,HospitalClínic,DepartamentodeNeurorradiologíaIntervencionista(CDI),Barcelona,Espanha dUniversidaddeBarcelona,HospitalClínic,SaladeRecuperaciónPostanestésica,Barcelona,Espanha
eUniversidaddeBarcelona,HospitalClínic,DepartamentodeNeurología,Barcelona,Espanha
Recebidoem1dejunhode2014;aceitoem7dejulhode2014 DisponívelnaInternetem24desetembrode2016
PALAVRAS-CHAVE Hemorragia intraventricular;
Malformac¸ão
arteriovenosa;
Fístuladural;
Perfusãocerebral;
Oximetriacerebral
Resumo
Justificativaeobjetivos: Fístulas arteriovenosas durais (FAVD) são comunicac¸ões anômalas entreoscanaisvenososearteriaisdadura-mátercujocentroestálocalizadoentreosfolhetos dadura-máter.Paraascircunstânciasnasquaisotratamentoinvasivoéobrigatório,astécnicas endovascularessetornaramospilaresdaprática,escolhaatribuívelarelatosdesuaseguranc¸a eeficácia.DescrevemosocasoúnicoerarodeumaFAVDtratadaporembolizac¸ão transarte-rial(ETA)ecomplicadaporumahemorragiaintraventricular(HIV).Nossoobjetivofoidestacar algunsaspectos centraisdo manejoperioperatório dessespacientespara ajudaramelhorar umafuturaabordagemdecasossemelhantes.
Relatodecaso: Pacientedosexofeminino, 59anos, comdiagnósticopréviode FAVDtipoIV
(Cognard), apresentou-se para ETA, realizada fora dasala decirurgia sob anestesia venosa total.Oprocedimentotranscorreusemcomplicac¸ões,eaangiografiaintraoperatóriarevelou obliterac¸ãocompletadafístula.Noperíodo pós-operatórioimediato,apaciente apresentou sinaisclínicosdeaumentodapressãointracraniana(PIC)atribuíveisaumaHIVposteriormente diagnosticada,oquecondicionouacolocac¸ãodeumdrenoventricular,internac¸ãoemUnidade deTerapiaIntensiva(UTI),vasoespasmocerebraleinternac¸ãohospitalarprolongada.Durante todooperíodoperioperatório,nãohouvealterac¸õesnaoximetriacerebral.Apacienterecebeu altasemsequelasneurológicas.
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](E.J.CarreroCardenal). http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2016.09.002
0034-7094/©2014SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸a
200 J.C.deCarvalhoetal.
Conclusão:HIVpodeserumacomplicac¸ãograveapósotratamentoendovasculardeFAVD.A observac¸ãoeomonitoramentocuidadososnopós-operatóriopermitemodiagnósticoprecoce eotratamentoqueaumentaaschancesdeumresultadomelhor.
©2014SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum artigoOpen Accesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
KEYWORDS Intraventricular hemorrhage; Arteriovenous malformation;
Duralfistula;
Cerebralperfusion;
Cerebraloximetry
Intraventricularhemorrhageafterduralfistulaembolization
Abstract
Backgroundandobjectives: Duralarteriovenousfistulasareanomalousshuntsbetweendural arterialandvenouschannelswhosenidusislocatedbetweentheduralleaflets.Forthose cir-cumstances wheninvasive treatment ismandatory, endovascular techniques havegrownto becomethemainstayofpractice,choiceattributabletotheirreportedsafetyandeffectiveness. Wedescribetheuniqueandrarecaseofaduralarteriovenousfistulatreatedbytransarterial embolizationandcomplicatedbyanintraventricularhemorrhage.Weaimtoemphasizesome centralaspectsoftheperioperativemanagementofthesepatientsinordertohelpimproving thefutureapproachofsimilarcases.
Casereport: A59-year-oldwomanwithapreviouslydiagnosedCognardTypeIVdural
arterio-venousfistulapresentedfortransarterialembolization,performedoutsidetheoperatingroom, undertotalintravenousanesthesia.Theprocedureunderwentwithoutcomplicationsandthe intraoperativeangiographyrevealedcompleteobliterationofthefistula.Intheearly postopera-tiveperiod,thepatientpresentedwithclinicalsignsofraisedintracranialpressureattributable toalaterdiagnosedintraventricularhemorrhage,whichconditionedplacementofaventricular drain,admissiontoanintensivecareunit,cerebralvasospasmandaprolongedhospitalstay. Throughouttheperioperativeperiod,therewerenochangesinthecerebralbrainoximetry. Thepatientwasdischargedwithoutneurologicalsequelae.
Conclusion:Intraventricularhemorrhagemaybeaseriouscomplicationaftertheendovascular treatment ofdural arteriovenousfistula. A closepostoperative surveillance andmonitoring allowanearlydiagnosisandtreatmentwhichincreasestheoddsforanimprovedoutcome. ©2014SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
Introduc
¸ão
De 10% a 15% de todas as malformac¸ões vasculares são fístulasarteriovenosasdurais (FAVD)querepresentam des-vios anômalos entre os ramos arteriais e seios venosos durais,veiascorticaisoumeníngeas.1---4Adependerdeseu padrãodedrenagemcortical,algumasFAVDpode apresen-tarumriscoelevadodehemorragiae,portanto,devemser imediatamentecorrigidas.3 Nos últimos 20 anos, as tera-piasendovascularestornaram-seabasedotratamentopara FAVD.3Contudo,essasterapiasnãosãoinócuaseos pacien-tesdevemsercuidadosaecontinuamentemonitoradospara oaparecimentodecomplicac¸ões.
Relatamosocasodeumpacientequedesenvolveuuma hemorragia intraventricular(HIV) e hidrocefalia aguda no pós-operatóriodeumaembolizac¸ãodeFAVD.
Relato
de
caso
Pacientedo sexofeminino, 59 anos, 86kg, IMC 32kgm---2,
ASAIII,comhistóriadehipertensãoarterial,hipotireoidismo e fibrilac¸ão atrial. Em novembro de 2013, a paciente foi
submetidaafechamentodeapêndiceatrialesquerdo,ficou emterapiaantiplaquetáriaduplacomaspirinaeclopidogrel portrêsmesesapósoprocedimento.
Emmarc¸o2014,apacientefoiindicadaparaembolizac¸ão transarterial(ETA)deumaFAVDlocalizadanatórculae clas-sificadadeacordocomCognardcomotipoIV(fig.1),depois deumprocedimentoendovascularanteriorquenãoobteve obliterac¸ãocompleta.
Naavaliac¸ãopré-anestésica,apacientenãoapresentava qualquersinalneurológicodefocalizac¸ão.Estavaemterapia regularcom digoxina,atenolol, enalaprile ácido acetilsa-licílico. Os dadoslaboratoriais e exames complementares estavamnormaisparaaidade.
Namanhã do dia da intervenc¸ão, a paciente apresen-touumEscore deComa deGlasgow(GCS)de15.Apósum exameneurológicosumárioquemaisumaveznãorevelou déficits,apacientefoipré-medicadacommidazolam(1mg IV). A monitorac¸ão consistiu em eletrocardiograma (DII e V5),oximetriadepulso,dióxidodecarbonoexpirado, pres-são arterial invasiva,pressão venosa central,estimulador denervoperiférico,débitourinário,ÍndiceBispectral(BIS) (BISTM, Brain Function Monitoring System, Covidien,
Figura1 FAVDtorcular.Injec¸ãodaartériavertebraldireita(A)eartériacarótidadireita(B)em umavistalateral.Asimagens mostramosuprimentoarterialdafístuladecorrentederamosdaartériacarótidaexterna,occipitaleartériasmeníngeasmédias, bemcomodasartériascerebralposteriorecerebelarsuperior.Opacienteapresentoutrombosedeseiovenosocomocausaprovável paraodesenvolvimentodefístula.AFAVDtorcular,comseupadrãodedrenagemvenosacortical,foiclassificadacomoCognard TipoIV.
(INVOS-4100, CerebralOximeter, Covidien,Mansfield, MA, EUA).OsvaloresbasaisdaNIRSeram62(hemisfériodireito) e75(hemisférioesquerdo).
Apósapré-oxigenac¸ão,aanestesiafoiinduzidacomuma infusãoalvo-controladadepropofoleremifentanile rocurô-nio IV (bolus de 0,6mgkg---1 seguido de perfusão). Após a inserc¸ãodeumamáscaralaríngeai-gel® detamanho4para controledasviasaéreas,apacientefoiventiladanomodo controladoporvolumeajustadoparanormocapnia,comuma misturade50%oxigênioe50%arepressãoexpiratóriafinal positivade5cmH2O.
Durante a manutenc¸ão da anestesia, perfusões foram ajustadas para manter o BIS entre 40-60 e sequência de quatroestímulosem0/4comcontagempós-tetânica posi-tiva,comoavaliadopeloestimuladordenervoperiférico.As concentrac¸õesnosítioefetorvariaramentre1,5-2,0gmL---1
parapropofole2,0-2,5gmL---1pararemifentanil.Rocurônio
foiinfundidoaumataxade0,5mgkg---1h---1.
O procedimento consistiu em ETA total de FAVD com etileno e álcool vinílico, formulado como Onyx®, e trans-correusemincidentesisquêmicosouhemorrágicos(fig.2). Nãohouveoutrascomplicac¸õesduranteoprocedimento,a paciente encontrava-se hemodinamicamente estável e os valores daNIRS nãovariaram maisde 5% em relac¸ão aos valoresbasais.
Paracetamol(1g)eondansetrona(4mg)foram adminis-trados por via IV para analgesia e profilaxia de náusea e vômitonopós-operatório,respectivamente.Nofimda cirur-gia,obloqueioneuromuscularfoirevertidocomsugamadex. Quando a paciente estava completamente acordada, um novo exame neurológico foi feito sem constatar novos déficits. A paciente foi então transferida para a Sala deRecuperac¸ãoPós-Anestesia (SRPA) paramonitoramento duranteanoite.
Pouco tempo após a admissão, a paciente queixou-se de dor no local da punc¸ão femoral e foi medicada com 2mgdemetadonaIV.Duashorasemeiadepois,apaciente
desenvolveuhemicraniamoderadaàdireita,acompanhada de hipertensão arterial sistêmica (pressão arterial sistó-lica máxima de 190mmHg), dois episódios de vômitos e depressãodoníveldeconsciência(GCS=13,O3V4M6).Bolus
repetidosde5mgdeurapidilIV(30mgtotais)foram admi-nistrados para controlar a hipertensão aguda. Os valores da NIRS mantiveram-se em 62-64 (à direita) e 72-76 (à esquerda).
Uma tomografia computadorizada (TC) de urgênciafoi feitaerevelouhidrocefaliaaguda,hemorragia intraventri-cularehemorragiasubaracnoideadifusa(fig.3A).
A paciente foi levada à sala de cirurgia de emergên-cia,ondeumsistemadedrenagemventricularfoicolocado (fig. 3B) e, posteriormente, a paciente foi admitida em UnidadedeTerapiaIntensiva(UTI),sedada,intubadae ven-tilada.Aextubac¸ãoocorreunasprimeiras24hapósa admis-sãoeaaltaparaaenfermariageralocorreunoterceirodia. Nos dias seguintes, um vasoespasmo cerebral gene-ralizado e assintomático foi diagnosticado por Doppler transcraniano(DTC),oqualrespondeulentamenteà tera-piacomoagentebloqueadordecanaldecálcionimodipina. A TC de controle mostrou resoluc¸ão da HIV, mas, devido àdilatac¸ão persistente dosistemaventricular, a paciente foiprogramadaparainserc¸ãodeshuntventriculoperitoneal no22◦diadepós-operatório.Noperíododeconvalescenc¸a dessasegundacirurgia,considerandoaestabilidadeclínica eneurológicadapaciente,bemcomosuahistóriade arrit-mia,aterapiaantiplaquetáriacomaspirinafoi reiniciada. Comonão houveintercorrência durante a recuperac¸ão, a pacienterecebeualtahospitalar semdéficitsneurológicos ummêsapósaembolizac¸ãoendovascular.
Discussão
202 J.C.deCarvalhoetal.
Figura2 Injec¸õesdaartériavertebraldireita(A)ecarótidadireita(B)(vistalateral),quemostramoclusãototaldafístulacom oagenteOnyx®
.
Figura3 Tomografiacomputadorizadapós-procedimentoquemostraumahemorragiaintraventricularehidrocefaliaantes(A)e após(B)adrenagem.
dedesvio.5Aincidênciadessascomplicac¸õeséaindamaior paraFAVDcomdrenagemvenosacortical,6comonocasode nossapaciente.
Aolongodosúltimos20anos,acirurgiadeFAVDtornou-se indicadaapenasquandoasterapiasendovascularesfalham ou não são praticáveis.3 Na verdade, a embolizac¸ão de FAVDcomOnyx®,umagenteembóliconãoadesivocomposto poretilenoeálcoolvinílicodissolvidoemdimetilsulfóxido, cresceuparasetornarumadasprincipaisabordagenspara FAVD, que está intimamente ligado as suas taxas notá-veis de cura e de baixa morbidade.3,5,6 De fato, não há muitascomplicac¸õesrelatadasapóso usodessastécnicas. Maimon et al. relataram taxa de morbidade de 6% (1/17 pacientes)relacionadaaumaparalisiatransitóriadonervo troclear e, em um estudo retrospectivo, Rangel-Castilla etal.relataram taxa decomplicac¸ão de9,7% (7/72 paci-entes), das quais apenas uma correspondia à hemorragia intraparenquimatosa.5,6
Apósrevisão sistemática daliteratura internacionalno bancodedadosPubMed,nãoencontramosqualquerartigo quedescrevesseaocorrênciadehemorragia intraventricu-larapósembolizac¸ãodeFAVD,oquecorroboraarelevância desterelato.
A síndrome de hiperperfusão cerebral (SHC), definida como umaumento excessivodo fluxo sanguíneo cerebral (FSC)em umaáreapreviamentehipoperfundida, mais sin-tomas neurológicos, é uma complicac¸ão potencialmente fatal. É causada por esgotamento dos mecanismos de autorregulac¸ão cerebral (teoriade Ruptura daPressão de Perfusão Normal, NPPB)9 e pode apresentar déficits neu-rológicos focais, dor de cabec¸a, confusão, convulsões ou hemorragiaintracerebral.10Emboratenhasidoamplamente divulgadaapós aendarterectomiade carótida(EAC)11,12 e stent,13,parecesermenoscomumapósintervenc¸õespara malformac¸õesarteriovenosas(MAV).14
NIRSéumatecnologianãoinvasivaeobjetivaque moni-toracontinuamenteasaturac¸ãodeoxigênioregional(rSO2).
É um marcador preditivo precoce para alterac¸ões críti-cas de perfusão durante as intervenc¸ões endovasculares neurorradiológicas.15 TantoPennekampetal. quanto Oga-sawara et al. relataram o uso dessa tecnologia como um meiodeprever hiperperfusãocerebral, definida comoum aumento≥ 100% doFSCcomparadocomosvaloresbasais, avaliadacom TCdeemissãodefótonúnico após EAC.11,12 EmboranãohajavaloresdecortederSO2claramente
defi-nidosparahiperperfusãocerebral,essesautoresrelataram queumaumentotãopequenoquanto3-5pontospercentuais emrelac¸ãoaosvaloresbasaispodedetectarhiperperfusão cerebral pós-EAC com uma alta sensibilidade e especi-ficidade (100% e 86,4%, respectivamente).11,12 Ambos os parâmetrosaumentampara100%,compontosdecortede variac¸ãode10%.12 Seasconclusõesdessesestudospodem ser extrapoladas para procedimentos neurointervencionis-tas ainda precisa ser estabelecido. Apesar dafalta dessa evidência,aestabilidadedosvaloresdarSO2nosfez
consi-derarfenômenos diferentesdaSHCcomo acausaportrás dossintomasdapaciente.
ATCfeitacomurgênciaidentificoutantoahemorragia intraventricularquanto ahidrocefalia e nos deuum diag-nósticodefinitivo.Ofatodeosangramentoestarrestritoao sistemadedrenagemventricularconfirmounossos argumen-toscontraaSHC.Youngetal.16 mostraramqueoaumento doFSCapós aressecc¸ãodaMAV cerebral ocorreportodo o cérebro, e nãoapenas nas regiões que compartilhamo fornecimentovascularcomamalformac¸ão.Nessecaso,os valoresdarSO2 precisariam estaraumentados, e issonão aconteceu.AtecnologiadeNIRSnãorefleteasaturac¸ão glo-baldeoxigênio.17 Seasondafor colocadana testa,como em nossa paciente, ela monitora principalmente o córtex cerebralfrontaleparietal.Portanto,osterritóriosirrigados pelas artérias cerebraisanteriores e médias. Isso poderia explicar porque a rSO2 nãoaumentou após ahemorragia
intraventricular.ComoosramosarteriaisquesupremaFAVD seoriginaramdacirculac¸ãocerebralposterior,nãopodemos excluirqueomonitordaNIRSpudesseestarrelativamente ‘‘cego’’para asalterac¸ões específicasda perfusãonesses territórios.Poroutrolado,ofatodeosvaloresdarSO2não
terem diminuído tambémsugere que o aumento da pres-sãointracraniana(PIC),manifestadocomovômitos,dorde cabec¸a e nível de consciência diminuído, foi compensado pelahipertensãoarterialsistêmicaenãolevouauma pres-sãomaisbaixadeperfusãocerebral.
O desenvolvimento de vasoespasmo, como resposta à ocorrênciadehemorragiaintraventriculareHAS,éum indi-cativodeque areatividadevascular cerebraldapaciente
permaneceuinalterada.Essefatoargumentacontrao prin-cipalprincípiosubjacenteàteoriaNPPBdaSHC.9,18
Depois de analisar o caso com a equipe de radiolo-gia,parecemaisprovávelque ahemorragiafoiprovocada por uma de duas causas: iatrogenia relacionada a uma microperfurac¸ão ao recuperar o microcateter usado para canulac¸ãoarterial ouhiperpressão dentro daFAVDapós a oclusãode sua drenagemvenosa, talvezsecundária a um ramoarterialquepodeterpermanecidoinadvertidamente aberto.
Como mencionado anteriormente, a popularidade das técnicasendovascularesaumentou,empartedevidoaoseu altoperfildeseguranc¸a.Noentanto,quandoocorrem even-tosanômalos,elespodemsergraveseadicionarmorbidade, comopodemosdeduzirpelaevoluc¸ãoclínicaprolongadade nossopaciente.Issoconfirmaque,noperíodopós-operatório imediatoapósembolizac¸ãodeMAV,osindivíduostêmrisco maiordecomplicac¸õesneurológicas.
Comopodemosmelhoraraindamaisoresultado neuroló-gicodessespacientes?Emnossaopinião,issopodeserfeito medianteoestabelecimento depadrões maiselevadosde cuidados.Aadmissãoemunidadenaqualum acompanha-mentorigorosopodeserfeitoporumaequipemédicaede enfermagemdevidamente treinadas é crucial. Ao contrá-riodaembolizac¸ão rotineiradeaneurisma nãorompido,19 ascomplicac¸õesapós o tratamento endovascular de FAVD podemaparecerváriashorasapósoprocedimento.Poressa razãoeparagarantirumamelhorvigilânciadafunc¸ão cere-bral,acreditamosqueessespacientesdevempassaranoite emunidades dealta dependência,como aSRPA emnosso hospital.
Um exame clínico contínuo e detalhado pode rapida-mente detectar um novo déficit neurológico, um nível reduzido deconsciência ouumaalterac¸ão do GCS,o que permiteumprontodiagnósticoouintervenc¸ãoterapêutica quepoderesultaremummelhorprognóstico.20 Emalguns casos,osneuromonitorescomoNIRSeDTCsãocapazesde detectardistúrbioscerebrais,mesmoantesdeossintomas setornaremevidentes,eidentificarindivíduosemriscode isquemia21 ouhiperperfusão22 após técnicas neurovascula-res.Emnossocaso,ossintomasneurológicoseramachave. ANIRSnosajudouaorientarodiagnósticoeoDTCdetectou umvasoespasmotardioeassintomático.
Não menos importante é o monitoramento dos sinais vitais do paciente, principalmente da pressão arterial. Emboranão tenhamos encontradodados focados especifi-camente em FAVD, Basali et al.relataram em seu estudo retrospectivo que o aumento da pressão arterial no pós--operatório é um correlato de hemorragia intracerebral após craniotomia.23 Por outro lado, o tratamento agres-sivo da hipertensão diminui o risco de hiperperfusão e hemorragiaintracerebralapós stent deartériacarótida.13 Emnossa opinião,essetratamento tambémé válido após embolizac¸ão deFAVD e, assim, o controle dahipertensão foiumapreocupac¸ãocomumatodososelementos envolvi-dosem nossocaso.Contudo, pensamosque ahipertensão desenvolvida por nossa paciente, mais do que um fator decontribuic¸ão paraa hemorragia, foiuma manifestac¸ão secundáriadaelevac¸ãodaPIC.
204 J.C.deCarvalhoetal.
que nossa paciente apresentou. Embora haja relatos de hidrocefaliatardiaetransitóriaqueseresolve espontane-amente, quando o curso clínico é agudo, como em nosso caso,adrenagemdolíquidocefalorraquidianodeveserfeita prontamente.24
Quando na enfermaria geral ou após a alta hospitalar, éimportantemanter umaestreitavigilânciadesses indiví-duos.IssoéverdadeporqueasMAVsoufístulasnãoocluídas comdrenagemcorticalretrógrada,comoaque apresenta-mosaqui, têm risco elevado de ressangramento precoce. Quandoissoacontece,asconsequênciassãomais devasta-dorasdoqueemumprimeiroepisódio.4
Em resumo,uma hemorragia intraventricular podeser umacomplicac¸ãograveapósotratamentoendovascularde FAVD. Aobservac¸ãoe o monitoramento nopós-operatório permitiramumdiagnósticoetratamentoprecocese, conse-quentemente,ummelhorresultado.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Agradecimentos
AoDr.RobertD.Eckerporforneceroartigo‘‘Hyperperfusion syndromeafterstent/coilingofarupturedcarotid bifurca-tionaneurysm’’(referêncian◦ 10).
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