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Revista
Brasileira
de
CIÊNCIAS
DO
ESPORTE
ARTIGO
ORIGINAL
Percepc
¸ão
de
pacientes
em
hemodiálise
sobre
os
benefícios
e
as
modificac
¸ões
no
comportamento
sedentário
após
a
participac
¸ão
em
um
programa
de
exercícios
físicos
Moane
Marchesan
a,∗,
Rodrigo
de
Rosso
Krug
b,
Aline
Rodrigues
Barbosa
ce
Airton
José
Rombaldi
daUniversidadeFederaldeSantaCatarina(UFSC),CentrodeDesportos,ProgramadePós-Graduac¸ãoemEducac¸ãoFísica,
Florianópolis,SC,Brasil
bUniversidadeFederaldeSantaCatarina(UFSC),CentrodeCiênciasdaSaúde,ProgramadePós-Graduac¸ãoemCiênciasMédicas,
Florianópolis,SC,Brasil
cUniversidadeFederaldeSantaCatarina(UFSC),CentrodeDesportos,DepartamentodeEducac¸ãoFísica,Florianópolis,SC,Brasil dUniversidadeFederaldePelotas(UFPel),EscolaSuperiordeEducac¸ãoFísica,DepartamentodeDesportos,Pelotas,RS,Brasil
Recebidoem1dejunhode2013;aceitoem12deabrilde2014 DisponívelnaInternetem4defevereirode2016
PALAVRAS-CHAVE Doenc¸arenal terminal; Estilodevida sedentário; Saúde; Exercíciofísico
Resumo Oobjetivo deste estudofoi investigar a percepc¸ão depacientes em hemodiálise
(HD)participantesdeumprogramadeexercíciosfísicosquantoàrotinaclínica,àmudanc¸ano
comportamentosedentárioeaosbenefíciosdaintervenc¸ão.Dezoitopacientesforaminseridos
noprograma deexercíciosfísicos, feitoduranteassessões deHD (trêsvezes porsemana),
por17semanas.Foiusada entrevista semiestruturada,transcritaeavaliada pelaanálisede
conteúdo.Ospacientesrelataramaumentodaforc¸a,disposic¸ãoecapacidadecardiopulmonar,
diminuic¸ãodas câimbrasemelhoriadosono. Apósoprogramadeexercícios físicos,muitos
pacientesevidenciarambenefíciosfísicosepsicológicos,alémdemodificaralgunshábitosque
caracterizavamocomportamentosedentário.
©2016Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´e
umartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/
by-nc-nd/4.0/).
KEYWORDS Terminalrenal disease;
Sedentarylifestyle;
Perceptionofpatients inhemodialysisaboutthebenefits andchangesin sedentary
behaviorafterparticipationinprogramofphysicalexercise
Abstract Theobjectivethisstudywastoinvestigatetheperceptionofpatientsin
hemodi-alysis(HD) whoparticipating inprogram ofphysicalexercise,asclinical routine,changein
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](M.Marchesan). http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2016.01.012
Health;
Physicalexercise
sedentarybehaviorandthebenefitstheintervention.Eighteenpatientsinsertedinprogram
ofphysical exercise,performedduring HDsessions (3times/week) for 17 weeks.Wasused
semi-structuredinterview,transcribedandanalyzedbycontentanalysis.Thepatientsreported
increasingstrength,dispositionandprovisionofcardiopulmonarycapacity,decreasingcramps
andimprovesleep.Aftertheprogramofphysicalexercisemanypatientsshowedphysicaland
psychologicalbenefits,beyondofmodifysomehabitsthatcharacterizedsedentarybehavior.
©2016Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan
openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense(
http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
PALABRASCLAVE Enfermedadrenal terminal;
Estilodevida sedentario; Salud;
Ejerciciofísico
Percepción de los pacientes en hemodiálisis sobre los beneficios y cambios en el
comportamientosedentariodespuésdeparticiparenunprogramadeejerciciofísico
Resumen Elobjetivodeesteestudiofueinvestigarlapercepcióndelospacientesen
hemo-diálisis (HD) que participaron en un programa de ejercicio físico, como rutina clínica, el
cambio en el comportamiento sedentario y losbeneficios de la intervención. Se incluyó a
18pacientesenelprogramadeejercicios,feitosdurantelassesionesdeHD(3veces/semana)
durante17semanas.Seutilizólaentrevistasemiestructurada,transcritayanalizadaporanálisis
decontenido.Lospacientescomunicaronmayorfuerza,voluntadycapacidadcardiopulmonary
disminucióndeloscalambres,ymejoradelsue˜no.Despuésdelprogramadeejercicio,muchos
pacientesmostraronbeneficiosfísicosypsicológicos,asícomolamodificacióndealgunos
hábi-tosquecaracterizanelcomportamientosedentario.
©2016Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Estees
unart´ıculoOpenAccessbajolalicenciaCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/
by-nc-nd/4.0/).
Introduc
¸ão
Adoenc¸arenalcrônica(DRC)consisteemperdaprogressiva eirreversíveldafunc¸ãorenal.Nasuafasemaisavanc¸ada, terminal,é necessáriaainserc¸ão deumaterapia dialítica para manutenc¸ão domeio interno(Eckardt et al., 2009). Entende-secomo terapiadialítica oprocessoque tempor finalidade filtrar o sangue, que, em condic¸ões normais, é feito pelos rins (Barros et al., 2006). As taxas de preva-lênciaeincidênciadeDRCterminalforamrespectivamente de483e100 pacientespormilhãodapopulac¸ão(Sessoet al.,2011)etornaramessadoenc¸aumgrandeproblemade saúde.
A terapia dialítica mais usada é a hemodiálise (HD), queé feitapormaisde82.000 indivíduosnoBrasil (Sesso et al., 2011) e ocasiona rotina limitada aos pacientes. O tempo nessa terapia compromete as atividades corpo-rais,recreativas,domésticasedecuidadopessoal,favorece o comportamento sedentário e a deficiência funcional (Martins e Cesarino, 2005). O comportamento sedentário poderepercutiremalterac¸õesmusculoesqueléticas,fadiga e reduc¸ão da forc¸a muscular, flexibilidade e capacidade cardiorrespiratória (Reboredo et al., 2007), repercute na reduc¸ãodacapacidadedeexercícioenasatividadesdevida diáriadopaciente.
Uma maneira de amenizar essas alterac¸ões é inserir o pacienteemumprogramadeexercíciosfísicos,pois contri-buideformasatisfatóriaparaoaumentodaaptidãofísicae aqualidadedevida(Mustataetal.,2011)epodeser incorpo-radocomocuidadoaodoenterenalcrônicoemHD(Kutner,
2007). Embora o programa de exercícios físicos seja boa opc¸ãoparaareabilitac¸ãodospacientes,énecessáriounir esforc¸osparaqueelesfac¸amdessapráticaumhábito, alte-remocomportamento,tornem-semaisativosfisicamente. Estudos que visaram aumentar o nível deatividade física narotinadaspessoasatravésdeorientac¸ões(Mayeretal., 1994)edeintervenc¸õesdeatividadesfísicas(Ferreiraetal., 2005)obtiveramresultadospositivosemrelac¸ãoàmudanc¸a docomportamentosedentário.Contudo,estudosque ava-liarammudanc¸ade comportamentonãoforamfeitos com pacientessubmetidosàHD.
ApráticadeexercíciosfísicosduranteaHDproporciona benefíciosnaaptidãofísicaenaqualidadedevidados paci-entes(Mustataetal.,2011).Normalmenteessesbenefícios foramverificados em pesquisas quantitativas, a partir de resultadosobtidospormeiodetestesfísicos,exames labo-ratoriaisequestionáriosfechados.Aliteraturaaindacarece deresultadosquelevem em considerac¸ãoa percepc¸ãodo paciente em relac¸ão aos benefícios decorrentes da sua participac¸ãoemprogramadeexercíciosfísicos(Marchesan etal.,2011).Nessesentido,surgeoproblemadesteestudo, que foi: qual a percepc¸ão dos pacientes em HD, partici-pantesde um programa de exercícios físicos, em relac¸ão àrotinaclínica,àmudanc¸adocomportamentosedentárioe aosbenefíciosdoprogramadeexercíciosfísicos?
Material
e
métodos
Participantes
Estudo de abordagem qualitativa que envolveu pacientes submetidosàHDnaClínicaRenaldoHospitalSantaLúciaem CruzAlta(RS).Essaunidadeatende72pacientesnoservic¸o de HD, 36 pessoas/dia, separadas em turmas (segunda, quartaesexta;terc¸a,quintaesábado)eemhorários(7h, 12he17h),trêsvezesporsemana.
Aamostratevecomocritériodeinclusãoserparticipante doprogramadeexercíciosfísicosfeitosduranteasessãode HD.Paraparticipardoprogramadeexercíciosospacientes deveriamenquadrar-senosseguintescritérios:termaisde 18anos,estarsubmetidoàHDportempomaiorouiguala seismeses,nãoapresentardoenc¸acardíacadescompensada etercondic¸ãofísicaparafazerpartedoestudo.
Dos72pacientesquefaziamHDnoperíododeinserc¸ão doprogramade exercíciosfísicos, 52 foramexcluídospor nãoatender aoscritérios de inclusãoe dois porque tive-raminternac¸ãohospitalarduranteoprogramadeexercícios físicoeforamconsideradoscomoperdas.Assim,restaram 18queparticiparamdoprogramadeexercíciosfísicos.
Programadeexercíciosfísicos
FoifeitoduranteasprimeirasduashorasdeHD,trêsvezes porsemana, comdurac¸ão gradativade20 a45 minutose
intensidademoderada.AEscala deBorgModificada(Borg, 2000)foiusadacomoumdosparâmetrosparaprescrevera intensidadedosexercíciosfísicoseospacientesforam previ-amentetreinadosparamelhorcompreensãodessaescala.A frequênciacardíacafoiusada,adicionalmente,como parâ-metrodeintensidadenospacientesquenãoapresentaram alterac¸õescardiovasculares.
Oprogramadeexercíciosfísicosdurou17semanas (maio--setembro/2009) e incluiu 51 sessões. Foi executado na sequência proposta por Painter (2000): 1 - alongamento ativo: os pacientes foram orientados a permanecer em posic¸ãoestática,duranteotempopré-determinado,de10 a60 segundos,antesdoiníciodasessãodeHD;2- aque-cimento: feito na bicicleta estacionária, com durac¸ão de três minutos; 3 - treinamento aeróbio: feito na bicicleta estacionária, com durac¸ão inicial de 10-15 minutos, com aumentogradativo;4-treinamentoderesistênciamuscular localizada:feitocomcaneleiras ehalteres,paramembros superioreseinferiores;5-alongamentopassivo:feitopelo professordeeducac¸ãofísicaapósotreinamentode resistên-ciamuscularlocalizada.Erafeitoalongamentoparatodos os membros (exceto o brac¸o conectado à fístula), com o pacientesentado.Oprogramadeexercíciosfísicosfoi pre-viamentedescrito,conformeafigura1.
Instrumentos
Osdadosforamobtidospormeiodeobservac¸ãoparticipante e entrevistas semiestruturadas. Aobservac¸ão participante
Exercícios aeróbios
Exercícios de RML
1.a a 12.a sessão:
Carga: sem carga Séries / Repetições: 3 / 12
13.a a 24.a sessão: Carga: 0,5 Kg Séries / Repetições: 3 / 12
25.a a 36.a sessão:
Carga: 0,5 Kg Repetições: 3 / 15
37.a a 51.a sessão: Carga: 1 Kg Repetições: 3 / 15 1.a a 12.a sessão:
Intensidade: 3 EB ou 60% da FC Duração: 10 - 15 minutos
13.a a 24.a sessão:
Intensidade: 3 EB, 60% FC da Duração: 15 - 25 minutos
25.a a 36.a sessão:
Intensidade: 4 EB, 70% da FC Duração: 25 - 35 minutos
37.a a 51.a sessão:
Intensidade: 4 EB, 70% da FC Duração: 35 - 45 minutos
Figura1 Prescric¸ãodosexercíciosfísicosfeitosduranteasessãodeHD. Fonte:MarchesaneRombaldi(2012).
proporciona o envolvimento direto do pesquisador com o grupo estudado, capta o maior número de elementos e impressõessobreasmanifestac¸õesduranteoprograma,que ocorreramdeformaobjetivaesubjetiva.
A entrevista semiestruturada, cujo objetivofoi validar alguns aspectos daobservac¸ão envolvidos na temática do estudo,foifeitaapósquatromesesdeparticipac¸ãono pro-grama de exercícios físicos, na própriaclínica, durante a sessãodeHD.Cadaentrevistatevedurac¸ãode40minutos. Foram coletadas informac¸ões relacionadas às percepc¸ões dos pacientes em HD em relac¸ão ao programa de exercí-ciosfísicosnarotinaclínica,àmudanc¸adecomportamento sedentário após a adesão ao programa de exercícios físi-coseaosbenefíciosdapráticadeexercíciosfísicos.Ofoco básico das entrevistas foi compreender como o programa de exercícios se integrou ao viver dos pacientes em HD, bemcomo ossentimentos nelesprovocadose aspossíveis mudanc¸as na percepc¸ão desses indivíduos. Essas entrevis-tascomplementaramaobservac¸ãoefetuadadurantetodoo programa.
As perguntasquenortearameste estudoforam:Comoo senhor(a)percebeuoprogramadeexercícios físicosfeito duranteahemodiáliseemsuarotinaclínica?Oqueosenhor (a)faznosdiascontráriosàhemodiálise?Quantotempoem médiaosenhor(a)passavasentado(a)antesdefazer exer-cíciosaquinaclínica?Eagora,quantotempo,emmédia,o senhor(a)ficasentado?Osenhor(a)faziaalgumaatividade ouexercíciofísicoregularmenteantesdeparticipardo pro-gramadeexercíciosfísicos?Eagora(depoisdoprograma)o senhor(a)fazalgumtipodeatividadeouexercíciofísico?Por quê?O programade exercíciosfísicos lheocasionou algum benefício?Qual?Dequeformaosenhor(a)percebeuisso?
As informac¸ões sociodemográficas(sexo, idade, estado civil,escolaridade,nívelsocioeconômico,trabalhafora de casa) foram coletadas para caracterizar os participantes. A condic¸ão econômica e aescolaridade foram determina-dasdeacordocomosCritérios deClassificac¸ãoEconômica do Brasil 2008, propostos pela Associac¸ão Brasileira de Empresas dePesquisa (Abep,2007).Esse critériodivide a populac¸ãonosníveissociaisA1,A2,B1,B2,C1,C2,DeE.Por essecritério o A apresenta o maior nível socioeconômico (melhor qualificac¸ão habitacional e padrão de consumo). Para facilitar a análise dos dados, neste estudo optou-se poragrupar osníveisA1 com A2=A, B1 comB2=B,C1 com C2=CeDeEforammantidos.Nesseinstrumentoa escola-ridadeéavaliadapelosanosdeestudodochefedafamília. Nopresenteestudoforamconsideradososanosdeestudo referentesaopacienteemHD.
Análisedosdados
Asentrevistasforamgravadasemáudioetranscritasna ínte-graparaanáliseposterior. Usou-seatécnicadeanálisede conteúdo(Minayo,2008)parainterpretarosdados.Para pre-servaroanonimato,ospacientesforamidentificadosporum códigoP1,P2,P3. . . eassimsucessivamente.
As informac¸ões sociodemográficas foram analisadas no SPSS,versão16.0,edescritosdeacordocomafrequência absolutaerelativa.
Tabela 1 Características demográficas e sociais dos
18pacientesdaamostra,submetidosàHDnaClínicaRenal
doHospitalSantaLúcia,CruzAlta/RS
Características N %
Sexo
Masculino 14 77,7
Feminino 4 22,2
Idade(anos)
41-50 7 38,9
51-60 11 61,1
Estadocivil
Comcompanheiro(a) 13 72,2
Semcompanheiro(a) 5 27,7
Escolaridade
Fundamentalincompleto 10 55,5
Fundamentalcompleto 5 27,7
Médioin/completo 3 16,6
Nívelsocioeconômicoa
A 0 0,0
B 4 22,2
C 10 55,5
D 4 22,2
E 0 0,0
Trabalhaforadecasa
Sim 3 16,6
Não 15 83,3
a NívelsocioeconômicodeacordocomoCritériodaAssociac¸ão
BrasileiradeEmpresaePesquisa(2007).
Aspectos
éticos
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Escola Superior de Educac¸ão Física da Universidade Federal de Pelotas(n◦098/2009).Todosospacientesforaminformados
sobreosprocedimentosdapesquisaeassinaramumtermo deconsentimentolivreeesclarecido.
Resultados
e
discussão
Caracterizac¸ãodosparticipantes
Foram entrevistados 14 homens e quatro mulheres, com médiade47,3±14,1anos,cujascaracterísticaspodemser observadasnatabela1.Amaioriaviviacomcompanheiro, tinha ensino fundamental incompleto, pertencia ao nível socioeconômicoCenãotrabalhavaforadecasa.
As categorias decorrentes daanálise dos dados foram: percepc¸ãodospacientesemrelac¸ãoaoprogramade exer-cíciosfísicosnarotinaclínica;mudanc¸adecomportamento sedentário;benefíciosdoprogramadeexercíciosfísicos.
Percepc¸ãodospacientesemrelac¸ãoaoprograma deexercíciosfísicosnarotinaclínica
contribuiparaareabilitac¸ãodopacienteemHD.Noentanto, entende-sequeéimportanteconhecerapercepc¸ãodo paci-entesobreasuainserc¸ãonessesprogramas.Osresultados dopresenteestudo mostraramque,dopontodevistados pacientes,oprogramadeexercíciofísicofoipercebidode forma positiva. No início do programa os pacientes dor-miam a maior parte do tempo daHD, sem interagir com aequipemédicaeoscolegas deterapia. Comopassardo tempo,observaram-semudanc¸asnasrelac¸õesinterpessoais enocomportamentoduranteaterapia,foiobservadomais envolvimentoentreosparesecomaequipemédica.
Essa mudanc¸a foi importante, pois os pacientes comec¸aramaperceberqueépossívelconviveremum ambi-entemaisagradávelduranteaHD,queacomunicac¸ãoentre pacienteseaequipemédicaéviávelequeotempogasto naHDpodeser aproveitadoparaoutrasatividades,desde quepermitamaopacienteficarsentado.
Os relatos dos pacientes mostram que o programa de exercíciofísicofoipercebidodeformapositivaportodos, pois,alémdealegraraunidaderenal,davaasensac¸ãode queotempodasessãodeHDtranscorriamaisrapidamente:
(. . .)olha,émuitodiferenteagora.Oclimaéoutro,tem maisalegria(. . .)[P6];
(. . .)euseiqueotempoéomesmo,masquandofac¸oaqui aginástica,ficamaisrápidootempoquepassoaqui,sem falarquemesmosemovimentandonénosexercícios,eu cansomenosemesintomaisalegre(. . .)[P4];
(. . .)nãoébomfazerhemoné,agentesesentemale antesaindaficavapior,porqueerasófazeradiáliseeir pracasa(. . .).Agoranãoné,agenteconversané,conta dasnetas,dasnotícia,atéfofocadasnovelasné(risos). Osprofessordefísicasãodivertidoné,alegramaquia clínica(. . .)[P11]
Os achados acima remetem para Martins e Cesarino (2005).Asautorasdestacamaterapia hemodialíticacomo responsávelporumcotidianorestritoemonótono,noqual opacientesofre constantementecom asensac¸ãode inca-pacidade, tristeza e depressão. Dessa forma, investir em estratégiasquevisematornaroambientedeHDmais aco-lhedortendeacontribuirparaoenfrentamentodopaciente peranteadoenc¸a.
Umprogramadeexercíciosfísicosnaunidaderenalpode melhorar a qualidade de vida dos pacientes, auxiliar no processo dereabilitac¸ão (Segura-Ortí etal., 2009) e pro-porcionarumambientemaisinteressanteaospacientes.
Trabalhar com pacientes em ambientes hospitalares é umatarefamuitocomplexa,poiselesnecessitamdeatenc¸ão especial,umavezquenemsempreapresentamumquadro clínicoestável(PadovaneSchwartz,2009).Ospacientesem HD,em especial,sãosuscetíveisacomplicac¸õesdurantea sessão, tais como febre, calafrios, prurido, dor, cefaleia, náuseas, vômitos, hipotensão arterial, reac¸ões alérgicas, arritmiascardíacas,dentreoutros.
Assim,oprofissionaldeeducac¸ãofísicaqueatuaem uni-dadesrenaisdeveterconhecimentodessapatologia,para quepossaatenderàsnecessidadesdessapopulac¸ãoe melho-rarotratamentodospacientes.
Mudanc¸adecomportamentosedentário
Duranteaexecuc¸ãodosexercícioseramdadasinformac¸ões sobreosbenefíciosdeumestilodevidaativo,nosaspectos físicos,sociaisepsicológicos.Ospacienteseram incentiva-dosaretornaràssuasatividadesdavidadiáriaeaaumentar a sua atividade física diária, tanto na forma involuntária quantonaformavoluntária,praticarexercíciosforada uni-daderenal.Ométodonãoformal,deconversas,pareceser umaboaformadeestimularospacientesamudaroestilo devida inativo.Muitospacientesrelataram quepassavam menostemposentados,como,porexemplo,podeser obser-vadonasfalasabaixo:
(. . .)euvivianafrentedaTV,olhandotudoqueécoisa. Ficava o dia inteiro sentada no sofá, e só me levan-tavaprairtomarbanhooucomealgumacoisinha,sabe? Depoiseujáolhavaejátavana horadeirpracama e eujáiadeitar.Depoisqueaprofeconversouaquicom nósedissequenãoébomficartodootemposentada, eue maisoutra,aqui daclínica também,comec¸amo a caminhar.Ai,depoisdevelhané(risos)(. . .)[P4];
(. . .)gosteimuitodefazerginásticaqueacabeiindofazer maisumpouquinholánaacademiapertodaminhacasa (. . .)eunãofazianada,sóficavasentadovendotelevisão porqueeunemsabiaqueeupodiafazerissoné?Agora queeuconhecinãovouparámais(. . .)[P17].
Osachados desteestudosugeremqueumprogramade exercíciosfísicosfeitoduranteasessãodeHD,juntamente comorientac¸õessobreosbenefíciosdoestilodevidaativo parapacientescomDRC,podecontribuirdemaneira satis-fatóriaparaoaumentodosníveisdeatividadefísica,como visualizadonatabela2.
Foi possível perceber que muitos pacientes tornaram--semaisativosapósaparticipac¸ãodoprograma,passavam menos tempo sentados e aderiram à prática regular de atividade física. Alguns deles,após finalizada a pesquisa, continuaram a participar do programa na própria clínica. Outroscomec¸aramaseexercitaremacademiaseemoutros ambientes.
Acredita-se que, nesse contexto, o profissional de educac¸ãofísicadeveir alémdaprescric¸ão edaavaliac¸ão doprogramadeexercíciosfísicosouentãodaaptidãofísica dospacientes.Apreocupac¸ãocomodoenterenaldeveestar dirigidanãoapenasparaamelhoria desuaaptidão física, masparaaeducac¸ãoquebuscaconscientizar(Freire,1993), naqualopacienteentendaoseucontextoeasuarealidade, consigaaprendercomolidarcomasquestõesque acompa-nham a doenc¸a, melhore,dessa forma, sua qualidade de vida.
Tabela2 Mudanc¸ade comportamentosedentáriopercebidapelospacientescomDRCapósaparticipac¸ãonoprogramade
exercíciosfísicos
Comrelac¸ão Antesdaparticipac¸ão Apósaparticipac¸ão
aotemposentadonosdias contráriosàHD:
-14pacientespassavamamaior
partedodiasentadosassistindoa
televisãoououvindorádio.
-dos14pacientes,6alegarampassarmenos
temposentados(2iamàacademia,3
caminhavam,1saíaparapassear.
-38,8%dospacientes
acreditavampassarmenos
temposentadosapósa
participac¸ãonoprograma.
-3pacientestrabalhavamnosdias
contrárioscomodiarista,marceneiro
epadeiro.
-3pacientescontinuavamtrabalhando,não
notaramdiferenc¸aalgumanessequesito.
-1pacientenãosouberesponder. -1passavamenostemposentadoporque
comec¸ouafazercaminhada.
àpráticaregularde exercíciosfísicos:
-61,1%dospacientesfaziam
exercíciosregularesapósa
participac¸ãonoprograma.
-Ospacientesnãofaziamexercícios
físicos.
-5pacientescontinuaramaseexercitar
duranteaHD.
-2pacientescomec¸aramaseexercitar
emacademias.
-4pacientescomec¸aramafazercaminhada.
DRC,doenc¸arenalcrônica;HD,hemodiálise.
Benefíciosdoprogramadeexercíciosfísicos
Ao se perguntar aos pacientes sobre os benefícios da prática regular de exercícios físicos, surgiram duas sub-categorias: benefícios físicos e benefícios psicológicos (fig.2).
Os benefícios físicos percebidos pelos idosos vão ao encontrodosresultadosdeestudosprévios(Mustataetal., 2011; Painter et al., 2000), baseados em testes físi-cos e exames clínicos. A doenc¸a renal crônica acarreta sérias alterac¸ões musculoesqueléticas, como a miopatia (Moreira e Barros, 2000). A prática regular de exercícios físicos, principalmente o treinamento de forc¸a, melhora
significativamenteamorfologiamuscular.4 Noestudofeito porHeadleyetal.(2002),noqualospacientesemHD rece-beramtreinamentodeforc¸amuscular,observou-seganhode forc¸adequadríceps.Tambémhouveaumentodaforc¸aeda resistênciamuscularnoestudodeStoreretal.(2005). Con-tudo,nestapesquisaospacientesemHDpraticavamsessões deexercícioaeróbio.
Na percepc¸ão de todos os pacientes (n=18), a participac¸ão no programa de exercícios físicos repercute commaisforc¸a.E amelhorianacapacidade cardiopulmo-narfoiaparentenafalade11pacientes,foramrelatadasa melhoriadarespirac¸ãoe dafalta dearea diminuic¸ãodo cansac¸o,exemplificadasnasfalasabaixo:
Benefícios físicos
Benefícios psicológicos
Aumento da força (n = 14)
Ter mais disposição (n = 14)
Aumento na capacidade cardiopulmonar
(n = 11)
Sensação de bem estar (n = 11)
Melhora do humor (n = 9) Diminuição das câimbras
(n = 8)
Melhora do sono (n = 8)
(. . .)eu achoque ficamosmaisfortes, dessetempo de ginástica parece que os ossos e os nervos estão mais fortes.Tu sabe queaté paracaminhar eusinto!Antes quandoeuiadarumacaminhadinhaatéapadariajá sen-tiaaquelador naspernassabe, pareciaumafraqueza, sabecomoéné?Agoranão,euestouatémaisforte(. . .) [P1].
(. . .)équeagora,depoisqueparticipeidaeducac¸ãofísica aquinahemo,fiqueicommaisfôlego.Dáparamim(sic) fazermuita coisaecansomenos.Antesmefaltavaaté o ar quando subia aquelas escadinhas. Agora eu subo edesc¸o, canso menos porquetenhomais arné,tenho umfôlegomelhorporquefiqueimaisacostumadocomo esforc¸oné(. . .)[P2].
Outro benefíciofísico percebidopelos pacientes(n=7) foiadiminuic¸ãodascâimbrasapósoprogramadeexercícios físicos,comodemonstradonafalaabaixo:
(. . .)muitacoisamelhoroupramim.Eusintoquefiquei melhor,queasminhascâimbrastãomenosforte.Parece quediminuiudepoisquecomeceiafazerexercício(. . .) [P8].
A câimbra é uma característicaacentuada nos pacien-tesemHD,está,muitasvezes,associadaàuremia,queéa manifestac¸ão deumconjunto de sinaise sintomas decor-rente das alterac¸ões metabólicas que são suscetíveis ao doente renal crônico (Barros et al., 2006). Esses sinais e sintomaspodemseramenizadoscomaprescric¸ãoeprática adequadadeexercíciofísico(Kosmadakisetal.,2010).
Emrelac¸ãoaosbenefíciospsicológicos,deacordocomos pacientes,aparticipac¸ãoemprogramasdeexercíciosfísicos proporcionoumaior sensac¸ão de disposic¸ão (n=14), bem--estar(n=10)emelhoriadohumor(n=3):
(. . .)eumesintomelhor,medáumasensac¸ãoboaquando fac¸oasatividadesaquinaclínica.Umasensac¸ãode bem--estar(. . .)[P3];
(. . .)parecequeeutavasempreirritadoedemauhumor. Agoranão,soumaisbem humorado,dourisadas eaté fac¸opiadinhascomopessoal(. . .)[P15].
(. . .)depoisquecomeceiafazerissoeaquilonabicicleta ecomessespesosné,quesãomuitobomtambémné,me sintomaisdisposto,commaisdisposic¸ãomesmodefazer ascoisasdavidané(. . .)[P3].
OspacientesemHDgeralmenterelatamtersintomasde mal-estar,tristeza,depressão,frustrac¸ãoeraiva(Trentiniet al.,2004).Emboranãosepossaafirmarqueos participan-tesapresentavamdepressão,aconvivênciacomospacientes duranteestudopermitiuoacompanhamentodasalterac¸ões dehumorquerelataram.Nosprimeirosdiasdetreinamento, ospacienteseramfechados,nãodescontraíamemmomento algumepareciamsempreirritados.Comopassardotempo, comec¸aramasorrir,abrincareacompartilharcomos pro-fissionaisdeeducac¸ãofísicaasensac¸ãodesesentirmelhor. O exercício físico pode ser aliado ao tratamento da depressão em indivíduos em HD (Carney et al., 1987). Ouzounietal.(2009)encontrarammelhoriasignificativada depressãoempacientesquefaziamexercíciosnosdias con-tráriosaosdaterapiadialítica.
Outro benefício do exercício físico encontrado neste estudofoiamelhoriadosono(n=8):
(. . .)quandomeexercitoeudurmomelhor. . . Agoraeu nemtenhotantainsôniacomoeutinhaantes(. . .)[P8].
O exercício físico é reconhecido, por organizac¸ões de desordensdosono(Chessonetal.,1999),comoum compo-nentenãofarmacológicoimportantenotratamentodosono pobre.Váriasteoriasexplicamcomooexercíciofísicoatua sobreosono. Entre elasestãotrês hipóteses:a termorre-guladora,aconservac¸ãodeenergia(DrivereTaylor,2000), efeitosantidepressivos,restauradora,reduc¸ãodaansiedade (BumaneKing,2010).Noentanto,empacientescomdoenc¸a renalcrônica,osefeitosdoexercíciofísicosobreosonodeve sermelhorestudadoetestado.
Esteestudoapresentapontosforteselimitac¸ões,como ainvestigac¸ãoacercadapercepc¸ãodopaciente, quepossi-bilitaumaabordagemdiferente, porém houvedificuldade de comparar os achados desta investigac¸ão com outras devidoaofatodeametodologiaescolhidaparaesteestudo (qualitativa) ser diferente das apresentadas na literatura (quantitativa).Noentantousaram-separaadiscussão des-ses dados estudos quantitativos como parâmetros para comparac¸ão.
Conclusão
Osresultadosmostraramqueospacientesparticipantesdo programa de exercícios físicos durante a HD perceberam mudanc¸a no seu estilo de vida, alteraram o comporta-mentosedentário.Alémdisso,perceberambenefíciosfísicos (aumentodaforc¸a,melhoriadacapacidade cardiorrespira-tória,diminuic¸ãodascâimbras)epsicológicos(aumentoda disposic¸ão,dobem-estaredohumor).Essesresultados suge-rem que a inserc¸ão deum programa deexercícios físicos planejado que respeite as limitac¸ões do paciente em HD contribuiparaareabilitac¸ão.
Dessaforma,investiremestratégiaspúblicasdesaúde, comoimplantac¸ãodeumprogramadeexercíciosfísicos den-tro daunidade renal,deve ser estimulado por gestorese profissionaisdesaúde.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Agradecimentos
AosprofissionaisdaClínicaRenal,emespecialaoDr.Paulo RicardoMoreiraeàenfermeiraNaraMarisco,pelos ensina-mentosepelaajuda.Eaospacientes,queacreditaramem nossotrabalhoeconfiaramnele.
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