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Capítulo 3 Colaboração e Liderança em contextos escolares

3.1. Colaboração em contextos escolares

3.1.6 A constituição do projeto

Com a necessidade de introduzir práticas inovadoras ou de dar resposta a uma mudança educacional, identificam-se carências de formação que vêm proporcionar a lógica de projetos de formação, que visam acionar redes diversificadas de formação com o objetivo de criar novos modelos e atingir novas populações. Na sua realização, o projeto será liderado por um líder, normalmente denominado por coordenador, responsável pelo conjunto de operações: desde a sua elaboração até à sua última tarefa. Ou seja, o coordenador do projeto é para Boutinet (1990) “um indivíduo cuja tarefa consiste em integrar os esforços internos e externos do organismo em projeto, para chegar ao desenvolvimento e à finalização de uma realização particular” (p. 236). Este cuidado de integração implica gerir, em permanência, os pontos de encontro das pessoas envolvidas. Segundo o autor, trata-se de “tornar compatíveis atores individuais, até aqui estranhos uns aos outros: gerar interfaces é, na sua totalidade, preocupar-se por arbitrar, planificar, controlar, prever e comunicar” (p. 236).

A condução de um qualquer projeto coletivo implica encontrar uma articulação satisfatória entre dimensões propriamente individuais e a dimensão coletiva no seio de qualquer inovação. Invocar os conflitos possíveis entre o indivíduo e o grupo é interrogar-se sobre os autores do projeto. Tal como refere Boutinet (1990), qualquer projeto tem um indivíduo com o papel de catalisador, que tem uma autoridade carismática, que vai explorando as expectativas sociais pré-existentes no seio da organização. É neste sentido que um projeto individual é indissociável de um reconhecimento social, tendo o autor desse projeto que, necessariamente, aprender a contar com o ambiente de atores que ocupam diferentes posições: pessoas que funcionam como recurso, que se orientam no sentido do projeto; pessoas que podem contrariar os desígnios do autor; atores indiferentes que se opõem na sua força de inércia.

Por outro lado, Boutinet (1990) refere que os projetos ganham consistência e estruturação em resultado de interações de facilitação e de confrontação entre os agentes e os atores que o rodeiam. A inconsistência de um projeto individual é resultado daquilo a que o seu autor se recusa a confrontar e a questionar. Também, a falta de articulação e integração do mesmo no contexto ou comunidade a que se destina fragiliza o seu desenvolvimento e realização.

Neste sentido, Boutinet (1990) sublinha que, um projeto organizacional apoia-se num grupo motor e sobre uma instância carismática que representa o elemento catalisador do projeto. Ou seja, as dimensões individuais e coletivas, atravessam os projetos pessoais e organizacionais e coexistem graças à capacidade e prática de negociação, de modo a resolver ou até antecipar os conflitos inevitáveis. Por isso, o autor frisa que, em qualquer projeto, a negociação necessita de duas condições prévias indispensáveis, a existência de um mínimo de interesses comuns ou complementares entre os respetivos atores e de uma motivação sólida da parte de um e de outro, a fim de chegar a um acordo.

Importa sublinhar que, os projetos vivem, essencialmente, da sua reestruturação e reflexão após momentos de crise e de confrontação. Todos os projetos para serem bem sucedidos têm que viver estes momentos. Eles são essenciais e refletem o resultado da participação e partilha de opiniões, modos de pensar e de criar. Daqui resultam aprendizagens que são condição essencial para que um projeto evolua e atinja o seu objetivo. São momentos difíceis e que requerem uma liderança efetiva e impulsionadora, capaz de gerir e resolver os impasses e confrontos internos no grupo. Não é tarefa fácil, mas a solução e a continuidade do projeto depende do sucesso e da redefinição de estratégias de trabalho e de desenvolvimento.

Tipicamente, um projeto educacional desenvolve-se em diferentes fases, todas elas com grande importância e significado. A primeira fase, a conceção do projeto, envolve a formulação de um problema e a definição dos objetivos a atingir. Nesta fase é necessário identificar as condições que se consideram necessárias para a realização do projeto (por exemplo, mancha horária comum, espaços de trabalho, colaboração externa de um ou mais especialistas). Esta fase envolve, igualmente, o apuramento dos professores interessados e a redação do projeto.

A segunda fase, a planificação do trabalho, envolve a definição do que se vai fazer, de quem faz o quê e quando e de como se avalia o trabalho realizado. Importa apurar em maior detalhe as necessidades materiais (por exemplo, tecnologias, salas e outros recursos) e profissionais (por exemplo, formação e bibliografia da especialidade). É também o momento de definir as tarefas a realizar no decorrer do projeto, fazer a sua distribuição pelos participantes, definir o calendário das diferentes ações e da conclusão das diversas tarefas e construir os instrumentos de avaliação do projeto.

A terceira fase é a de intervenção ou desenvolvimento. O projeto desenvolve-se então de acordo com a agenda definida, acompanhado por uma permanente reflexão e

discussão no seio da equipa com vista à regulação do processo. Ao mesmo tempo que o trabalho se desenvolve, vai-se fazendo uma análise sistemática, construindo novos materiais e adaptando os materiais já existentes, refletindo e aprendendo com os sucessos e as dificuldades.

A quarta fase corresponde à finalização e avaliação dos produtos do projeto. Esta fase pode envolver a elaboração de um relatório escrito final, para a elaboração do qual pode ser necessária uma recolha e análise de dados sobre os resultados conseguidos pelos alunos ou no funcionamento da escola. Pode também ser útil os membros do projeto elaborem uma reflexão escrita sobre os efeitos do projeto e a sua importância para o seu próprio desenvolvimento profissional.

Finalmente, a quinta fase é a divulgação e disseminação de resultados. Sem ela, o projeto fica fechado no espaço físico onde decorre, sem que a própria comunidade escolar tenha conhecimento da sua realização e dos seus resultados. Só a divulgação do projeto em momentos informais e em encontros e revistas profissionais e de investigação permite que estas experiências profissionais sejam apropriadas pela comunidade educativa e se tornem um fator efetivo de melhoria da qualidade da educação.