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Os projetos e o desenvolvimento do conhecimento e da identidade

Capítulo 5 O Grupo de Matemática

5.2 A gestão curricular no grupo

5.3.4 Os projetos e o desenvolvimento do conhecimento e da identidade

sores desenvolvem no âmbito dos projetos de Matemática. Esta forma de se organiza- rem emerge, essencialmente, da necessidade que os professores têm de superar as difi- culdades que vão encontrando no desenvolvimento da sua prática. Aliada a esta neces- sidade está também a vontade de acompanhar os desafios que os professores vão sentin- do, fruto das mudanças da população escolar e das orientações curriculares para o ensi- no da Matemática. Com o tempo, o grupo instituiu uma cultura de trabalho colaborativo e, o seu trabalho, em particular nos projetos, tem vindo a ser reconhecido pela comuni- dade escolar.

Nos últimos anos, a convergência de um conjunto de condições, como a possibi- lidade de acreditação dos projetos que o grupo desenvolve, a possibilidade de candida- tura a projetos financiados (PM), e a organização dos horários dos professores de modo a terem um espaço comum para trabalharem e fazerem parcerias em sala de aula nas aulas de Estudo Acompanhado, revelaram-se determinantes para a sustentabilidade do trabalho do grupo, e parecem estar na origem da mudança na gestão do currículo e na prática profissional dos professores:

Eu acho que a introdução do estudo acompanhado para nós mudou muita coisa. Dava-me a sensação que a maior parte das pessoas seguia o manu- al e portanto havia algum esforço na seleção do manual. Agora com a in- trodução destes projetos e do estudo acompanhado eu acho que andamos a diversificar muito mais as tarefas de aprendizagem. Nós temos feito coisas muito engraçadas todos os anos, (…) o dossier do PM do ano pas- sado, aquilo tem um manancial de materiais para lá, muito curioso e era giro tu veres e isso é uma coisa completamente nova no departamento. (…) Nós nunca fazíamos fichas, nem fazíamos coisas assim. Por exem- plo, as composições e os relatórios individuais, neste momento, fazem parte dos critérios de avaliação. (…) Nós obrigatoriamente temos de fa- zer trabalhos desse tipo, ponto final. Relatórios e composições fazem par- te dos instrumentos de avaliação. Portanto, para além dos testes, temos de fazer essas coisas e isso é uma novidade de há dois anos para cá. [E1 S]

Nas palavras de Simão, percebe-se que a nova estrutura organizativa dos horá- rios dos alunos do 3.º ciclo, com a atribuição da área curricular não disciplinar de Estu-

do Acompanhado à disciplina de Matemática, foi um elemento catalisador da dinâmica do grupo. Em termos organizativos, a presença de dois professores dentro da sala de aula, parece ter feito emergir a necessidade de planificar em conjunto o trabalho a pro- por aos alunos e afinar estratégias para gerir a sala de aula. Em termos da gestão do cur- rículo, o grupo parece ter otimizado o facto de ter mais um bloco de 90 minutos por semana. Os professores procuram diversificar as propostas de trabalho a desenvolver com os alunos e concretizar práticas de ensino-aprendizagem de acordo com as orienta- ções curriculares para o ensino da Matemática. Em particular, Simão revela a sua perce- ção sobre a mudança das práticas dos professores, quando descreve o processo de ensi- no-aprendizagem antes e com PM. No primeiro cenário o ensino era centrado no manual escolar e nas propostas que apresenta. No cenário atual, com o PM, o trabalho que pro- põem aos alunos vai para além do manual escolar, com a realização de tarefas de natu- reza mais aberta, como foi possível perceber na secção 5.2.3 deste capítulo (tabela 5.2). Igualmente, o grupo procurou adequar a avaliação dos alunos às práticas, reformulando os critérios de avaliação e os instrumentos para a recolha de indicadores de aprendiza- gem.

Os projetos que o grupo tem desenvolvido caracterizam um percurso de desen- volvimento do conhecimento profissional dos professores no contexto do departamento, alinhada com a evolução da Educação da Matemática em Portugal e as correntes de in- vestigação:

Nós agora estamos muito numa de relatórios e composições e coisas des- sas, na avaliação dessas coisas, estamos mais preocupados com essa área [avaliação] e os sensores foram um bocado encostados. Houve uma altu- ra, eram os manipulativos, por exemplo, os acrílicos [sólidos]. Esses fica- ram porque, realmente se percebeu que não havia muitas outras formas de fazer [o estudo das secções] e todos os anos se faz. Por exemplo, o CBR [sensor] no imitar o gráfico e no fazer algumas recolhas também é mais usado. (…) A bola a saltar também é usado; o da temperatura nas exponenciais… O do som nas trigonométricas… Houve três ou quatro anos seguidos que o fizemos [uso dos sensores] e agora está um boca- do… A Lei de Mariot na proporcionalidade inversa já fizemos com espe- lhos, já fizemos de várias maneiras e o ano passado nem fizemos. De- pende do tempo que temos, se alguém chega ao grupo e diz vamos lá fa- zer, fazemos todos mas ninguém teve essa vontade. [E1 S]

A descrição de Simão traduz um caminho de investimento no estudo de tópicos matemáticos com recurso a materiais curriculares diversificados, onde estão presentes os materiais manipuláveis e a tecnologia, nomeadamente a calculadora gráfica e os sen-

sores. Por outro lado, evidencia a preocupação dos professores em acompanhar os de- senvolvimentos do ensino da Matemática que têm vindo a ocorrer em Portugal, e a pos- tura dinâmica face à profissão e ao seu desenvolvimento profissional.

Na sessão de trabalho de 3 de julho de 2008 (ST 10), os professores fizeram o balanço do trabalho que desenvolveram ao longo deste ano letivo. De um modo geral, os professores sentem que foi positiva a partilha de experiências e que os alunos tiraram partido do investimento feito pelos professores, e pela diversidade de propostas de tra- balho que realizaram. Estes são aspetos que foram valorizados pelos professores, como por exemplo Silvina e Sebastião:

Neste projeto, considero bastante enriquecedor as reflexões individuais pós-aula seguidas dos debates presenciais sobre as dificuldades dos alu- nos e sobre episódios da aula. A diversificação das metodologias na sala de aula alertou-me para a sua importância na evolução do ensino – aprendizagem dos alunos. Contudo, devido á extensão dos programas nem sempre é possível a sua aplicação. (…) Contribuiu para reforçar a opinião que tenho relativamente ao grupo de trabalho, sendo o cooperati- vismo, o espírito de camaradagem e a solidariedade constantes ao longo de todas as sessões. [ST 10, Silvina]

Partilhas de muitas coisas boas, mas também de algumas frustrações, que soubemos digerir sempre com um objetivo comum: fazer melhor! [RF, Sebastião]

Silvina e Sebastião partilhem a mais-valia do trabalho que o grupo de- senvolveu e que de facto, a prática profissional tem momentos de sucesso e ou- tros de dificuldade. Porém, Silvina sente necessidade de apontar como fatores limitadores de mudança as orientações curriculares e os programas para o ensino da Matemática. Sebastião, numa atitude mais positiva que caracteriza, de algum modo, a sua forma de estar na profissão, opta por destacar as potencialidades do desenvolvimento deste trabalho, centrando-as na sala de aula e nas aprendiza- gens dos alunos:

Não tenho dúvidas que este tipo de trabalho tem sempre repercussões nas nossas práticas letivas, quanto mais não seja, pelos materiais que dispo- nibilizamos aos nossos alunos. Mas, torno a acreditar que há sempre mais alguma coisa de inovador que conseguimos transpor para a sala de aula, com benefício para o desenvolvimento intelectual dos alunos. [ST 10, Sebastião]

Concluído o projeto deste ano letivo e feito o balanço das atividades que desen- volveram, os professores realizaram um relatório final do projeto para apresentar em conselho pedagógico. Na mesma sessão de trabalho houve espaço para definir o foco do projeto do ano letivo 2008/2009, a utilização das tecnologias na sala de aula com a reso- lução de problemas, investigações e demonstrações [ST 10].