ASPECTOS GERAIS

No documento Processo TCE-RJ Nº /22 (páginas 32-35)

II.2. REGIME DE RECUPERAÇÃO FISCAL

II.2.1. ASPECTOS GERAIS

O desequilíbrio das contas públicas experimentado pelo Estado do Rio de Janeiro, em especial em meados da última década, culminou em 2016 na edição do Decreto Estadual nº

33 45.692/16, posteriormente ratificado pela Lei Estadual nº 7.483/16, em foi reconhecido cenário de calamidade pública no âmbito da administração financeira do Estado do Rio de Janeiro. A permanência da desorganização da gestão fiscal ensejou nos exercícios seguintes sucessivas prorrogações da vigência do estado de calamidade6, que atualmente, por força da Lei Estadual nº 9.517/21, pode se estender até 30.06.2022.

O reconhecimento do estado de calamidade financeira atraiu a incidência do preconizado no art. 65 da Lei de Responsabilidade Fiscal – LRF, que afasta parcela das limitações e sanções estabelecidas na lei de equilíbrio fiscal. Com isso, desde então foram suspensas a contagem de prazos e a obrigatoriedade de cumprimento dos limites de despesas com pessoal e de endividamento, bem como a necessidade de alcance dos resultados fiscais e de limitação de empenho.

Adicionalmente, a Lei Estadual nº 7.483/16, também impôs uma série de condicionantes e vedações no período de vigência da situação de calamidade pública com o intuito de recuperação do equilíbrio das contas públicas estaduais.

Em janeiro de 2017, foi celebrado um Termo de Compromisso para Recuperação Fiscal entre a União e o Estado do Rio de Janeiro, com medidas de ajuste que viriam posteriormente integrar o Regime de Recuperação Fiscal dos Estados e do Distrito Federal - RRF, instituído pela Lei Complementar Federal nº 159/17.

Identificado que os mecanismos tradicionais de controle financeiro de alguns entes não se mostravam mais suficientes para a retomada do equilíbrio fiscal e que havia à época sérias dificuldades em garantir o pagamento de fornecedores e de funcionários públicos e honrar dívidas com a União, com grave comprometimento de políticas públicas, o RRF se apresentou como uma alternativa de caráter temporário e excepcional a ser aplicada aos Estados e ao Distrito Federal que aderissem aos termos propostos na referida Lei. Buscou-se, assim, promover um processo sustentado de recuperação econômica com progresso social que permitisse o ajuste das contas públicas.

Fundado nos princípios da sustentabilidade econômico-financeira, da equidade intergeracional, da transparência das contas públicas, da confiança nas demonstrações financeiras, da celeridade das decisões e da solidariedade entre os Poderes e os órgãos da

6 Conforme prescrições das Leis Estaduais nº 7.627/17, 8.272/18, 8.647/19 e 9.163/20.

34 administração pública, o RRF foi concebido para permitir o equilíbrio de receitas e despesas por meio da implementação de medidas emergenciais e reformas institucionais.

Para fazer jus ao regime inaugurado pela Lei Complementar Federal nº 159/17 o ente deveria atender cumulativamente aos requisitos de: receita corrente líquida – RCL anual menor do que a dívida consolidada ao final do último exercício; somatório das despesas liquidadas com pessoal, juros e amortizações igual ou maior que 70% da RCL aferida no exercício anterior; e valor total de obrigações contraídas maior que as disponibilidades de caixa e equivalentes de caixa de recursos sem vinculação.

Com vistas a corrigir os desvios que afetaram o balanço das contas públicas e buscar o restabelecimento da saúde financeira ao final do prazo estipulado para a recuperação, também deveria o Estado aderente se submeter a vedações, principalmente vocacionadas à restrição de aumento de despesas, dentre as quais se destacam: impossibilidade de concessão de vantagem, aumento, reajuste ou adequação de remuneração (exceto por sentença transitada em julgado) ou de majoração de benefícios; vedação à criação de cargo, emprego ou função ou alteração de estrutura de carreira que implique aumento de despesas; restrições à admissão ou contratação de pessoal e de realização de concurso público; impossibilidade de criação de despesa obrigatória de caráter continuado ou de medida que importe em reajuste de despesa obrigatória; e condicionantes a benefícios fiscais.

Com a adesão do RRF o ente contaria com diversos benefícios, tais como redução das prestações relativas aos contratos de dívidas administrados pela Secretaria do Tesouro Nacional - STN por determinado prazo; suspensão temporária dos requisitos legais exigidos na LRF para a contratação de operações de crédito e recebimento de transferências voluntárias, assim como das vedações e determinações aplicadas quando do descumprimento dos limites estabelecidos para despesas de pessoal e dívida consolidada; suspensão da necessidade de comprovação, para as transferências voluntárias, de que o Estado está em dia com o pagamento de tributos, empréstimos e financiamentos devidos à União; e possibilidade contratação de novas operações de crédito com a garantia da União para determinadas situações.

O Estado aderente deveria elaborar um Plano de Recuperação Fiscal - PRF, estruturado em lei, contendo diagnóstico em que se reconhece a situação de desequilíbrio financeiro do ente e detalhamento das medidas de ajuste (obrigatórias e adicionais), com os impactos esperados e os prazos para a sua adoção. O prazo de vigência deveria ser fixado na lei instituidora conforme

35 estimativa recomendada pelo Conselho de Supervisão do Regime de Recuperação Fiscal – CSRRF, criado para monitorar seu cumprimento –, limitado a trinta e seis meses, admitida uma prorrogação, se necessário, por período não superior àquele originalmente fixado.

A Lei Complementar Federal nº 178/21, publicada em 14.01.2021, entre outras disposições, alterou a Lei Complementar Federal n° 159/17 e instituiu o novo regramento a ser aplicado ao RRF. Em linhas gerais, buscou-se estabelecer um programa de ajuste fiscal para os entes que, já em 2020, apresentavam desequilíbrio em suas contas, resultado intensificado pela repercussão negativa da pandemia sobre a arrecadação tributária, como no caso do Estado do Rio de Janeiro.

Dentre as mudanças da nova lei, vale ressaltar a ampliação no prazo para reequilíbrio das contas estaduais de seis para nove anos e o alongamento das dívidas contraídas com a União, conforme disposto, respectivamente, no § 6° do art. 2º e no art. 9°, ambos da nova redação da Lei Complementar Federal nº 159/2017. O novo regramento foi regulamentado pelo Decreto Federal nº10.681, de 20.04.2021.

II.2.2. REGIME DE RECUPERAÇÃO FISCAL DO ESTADO DO RIO DE

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