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SECÇÃO II O RECRUTAMENTO DE DOCENTES PARA AS ESCOLAS PORTUGUESAS

7. A complexidade processual

Os processos de recrutamento, quaisquer que eles sejam, tendem a ser complexos, designadamente ao nível da definição de critérios de seleção e na apreciação rigorosa das candidaturas. Porém, como vimos anteriormente, no recrutamento de professores a complexidade não decorre da aplicação dos critérios de seleção, há longos anos parametrizados e simplificados. De igual modo, a complexidade também não resulta da dificuldade de captação de candidatos. Apesar disso, é um facto que a instabilidade criada

101 Embora publicado em fevereiro de 2003, este diploma, conforme previsto no artigo 66.º, regulou apenas o concurso relativo ao ano escolar de 2004/05 e posteriores. (Cf art. 66, DL 35/2003). Em 2004, ainda antes de ser aplicado, foi alterado pelo DL 18/2004 de 27 de janeiro.

152 em torno da colocação chega mesmo a comprometer o princípio fundamental de ter os docentes colocados em devido tempo com vista ao início das atividades letivas.

Um dos fatores apontados para a complexidade processual reside na quantidade e diversidade de normativos que regulam a colocação de professores.

Em 1986, o DL 17-C/86, considerava que «a legislação em vigor sobre a mencionada matéria se encontra dispersa por diversos diplomas – e que – é de toda a conveniência, tanto para a Administração como para o administrado, proceder à unificação num único texto legal dos referidos normativos». (Preâmbulo).

Em 2003, considera-se que os normativos não evoluíram e apela-se, novamente, a uma «desburocratização e simplificação dos procedimentos de concurso» (Preâmbulo DL 35/2003), apontando-se como solução a existência de uma candidatura única. Porém, a solução apresentada não resolve o problema base e que aqui identificamos como um segundo fator inerente à complexidade concursal: o número de concursos ou de momentos de colocação a que um mesmo candidato pode concorrer. Apesar deste desejo de simplificação, com ganhos em termos de desburocratização de processos, manter-se-ão os três momentos distintos de colocação de professores, aos quais os candidatos poderão concorrer com preferências para centenas de escolas.

Um terceiro fator determinante na complexidade processual diz respeito às diferentes tipologias de candidatos existentes, as quais assumem no processo de colocação prioridades também diversas.

A título de exemplo desta complexidade, refira-se que o DL 18/88, que regula o recrutamento para os 2.º e 3.º ciclos e para o ensino secundário, não abarcando a educação pré-escolar e o 1.º ciclo, estipula dez prioridades de colocação para os oponentes à primeira parte do concurso102 e onze prioridades para os concorrentes à segunda parte do

102 Apresentamos as diferentes prioridades estabelecidas no diploma de 1988, as quais espelham a complexidade inerente ao concurso, e fazendo que os próprios candidatos não consigam, facilmente, enquadrar-se e perceber a prioridade em que concorrem.

«Art. 6.º - 1 - Os candidatos referidos em cada uma das alíneas do artigo anterior serão ordenados nas prioridades a seguir indicadas:

Primeira prioridade:

Os candidatos incluídos nas alíneas a), b), c) ou d). Segunda prioridade:

153 concurso103. Acontece ainda que estas prioridades estão em muitos casos sujeitas a um conjunto de condições que aumentam a complexidade da sua aplicação. Acresce que estas

Os candidatos incluídos na alínea f) que, como profissionalizados, foram colocados na 1.ª fase do concurso para 1987-1988 regulado pelo Decreto-Lei n.º 75/85, de 25 de Março, com a nova redacção dada pelo Decreto-Lei n.º 50-A/87, de 29 de Janeiro.

Terceira prioridade:

Os candidatos incluídos na alínea e). Quarta prioridade:

Os candidatos incluídos na alínea f) que, estando colocados como profissionalizados à data da abertura do concurso, não se encontram nas condições dos da segunda prioridade; estes professores só têm direito a esta prioridade no concurso para o ano escolar de 1988-1989.

Quinta prioridade:

Os candidatos incluídos na alínea g) que se encontrem em contratação plurianual e que concorram pelo menos a uma zona e a grupo, subgrupo, disciplina ou especialidade para que possuem habilitação própria. Sexta prioridade:

Os candidatos incluídos na alínea g) que em 30 de Setembro de 1987 possuam dois ou mais anos de serviço oficial ou equiparado e que se candidatem na situação de vinculados.

Sétima prioridade:

Os candidatos incluídos na alínea f) mas que não estão nas condições das segunda e quarta prioridades. Oitava prioridade:

Os candidatos incluídos na alínea g) que em 30 de Setembro de 1987 possuam pelo menos um ano de serviço docente oficial ou equiparado, prestado como portadores de habilitação própria, mas menos de dois anos e que se candidatem na situação de vinculados.

Nona prioridade:

Os candidatos incluídos na alínea g) não considerados nas anteriores prioridades e que se candidatem na situação de vinculados.

Décima prioridade:

Os candidatos incluídos na alínea g) cuja situação não se enquadre em nenhuma das anteriores prioridades e que em 30 de Setembro de 1987 possuam dois ou mais anos de serviço docente oficial ou equiparado.

(…) (DL n.º 18/88).

103 Art. 42.º - 1 - Na segunda parte do concurso previsto neste diploma os candidatos serão ordenados segundo as seguintes prioridades:

Primeira prioridade:

Candidatos nas condições da segunda prioridade definida no artigo 6.º que não obtiveram colocação na primeira parte do concurso ou que a ela não se candidatarem considerados em grupos, subgrupos, disciplinas ou especialidades para que possuam habilitação profissional.

Segunda prioridade:

Professores do quadro com nomeação provisória colocados, nos termos deste diploma, na segunda parte do concurso imediatamente anterior que não obtiveram colocação na primeira parte do concurso. Terceira prioridade:

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Candidatos à primeira parte do concurso na quarta prioridade definida no artigo 6.º deste diploma e que nela não obtiveram colocação.

Quarta prioridade:

Candidatos professores do quadro com provimento definitivo casados com funcionários ou agentes do Estado e dos corpos administrativos ou com militares que, ao abrigo da preferência conjugal, requeiram a sua colocação nos termos do presente diploma.

Quinta prioridade:

Candidatos à primeira parte do concurso na sexta prioridade definida no artigo 6.º deste diploma que nela não obtiveram colocação considerados em grupos, subgrupos, disciplinas ou especialidades para que possuam habilitação própria.

Sexta prioridade:

Candidatos cuja situação seja a definida na alínea f) do artigo 5.º deste diploma que não se incluem nas prioridades anteriores considerados em grupos, subgrupos, disciplinas ou especialidades para que possuam habilitação profissional.

Sétima prioridade:

Candidatos à primeira parte do concurso na oitava prioridade definida no artigo 6.º deste diploma que nela não obtiveram colocação considerados em grupos, subgrupos, ou especialidades para que possuam habilitação própria.

Oitava prioridade:

Candidatos à primeira parte do concurso na nona prioridade definida no artigo 6.º deste diploma que nela não obtiveram colocação considerados em grupos, subgrupos, disciplinas ou especialidades para que possuam habilitação própria.

Nona prioridade:

Candidatos incluídos na quinta, sétima ou oitava prioridades do presente artigo que não obtenham colocação na segunda parte como portadores de habilitação própria e ainda os docentes incluídos na alínea b) do artigo 41.º considerados, uns e outros, em grupos, subgrupos, disciplinas ou especialidades para que possuam habilitação suficiente.

Décima prioridade:

Candidatos cuja situação seja a prevista na alínea g) do artigo 5.º deste diploma que não se incluem em qualquer das anteriores prioridades definidas neste artigo considerados em grupos, subgrupos, disciplinas ou especialidades para que possuam habilitação própria.

Décima primeira prioridade:

Candidatos previstos na prioridade anterior considerados em grupos, subgrupos, disciplinas ou especialidades para que possuam habilitação suficiente.

2 - A segunda prioridade referida no número anterior só se aplica no concurso a realizar para os anos lectivos de 1989-1990 e seguintes.

3 - Os docentes referidos na alínea b) do artigo 41.º deste diploma mantêm o direito de concorrer com aquela habilitação à segunda parte do concurso previsto neste decreto-lei se se integrarem, pelo menos, numa das alíneas seguintes:

a) Concorrerem a todas as escolas de, pelo menos, uma zona ao grupo, subgrupo, disciplina ou especialidade em que estão colocados;

b) Serem colocados na segunda parte do concurso.

4 - Aos docentes previstos na alínea a) do número anterior que não obtiverem colocação será atribuído serviço nos termos a definir no despacho normativo a que se refere o artigo 67.º deste diploma.

155 prioridades vão, ao longo do tempo, sendo objeto de constantes alterações o que diminui a sua capacidade de fixação e de interiorização por parte dos diferentes candidatos.

Também como exemplo da complexidade inerente aos processos de mobilidade, veja-se um extrato do preâmbulo do DL 35/2003:

«a transferência passa a poder efectuar-se através da escolha entre quadros de escola, entre quadros de zona pedagógica ou de quadros de escola para quadros de zona pedagógica ou destes para aqueles, o que traduz um alargamento de possibilidades e, desse modo, a possibilidade de compatibilizar a gestão do sistema educativo com as necessidades da vida pessoal dos docentes». (Preâmbulo). A necessidade de permitir que os candidatos possam concorrer às escolas que pretendam faz com que cada candidato possa manifestar preferências de colocação para 100 escolas, 50 concelhos e todos os códigos dos quadros de zona pedagógica (23 em 2009). (Art.º 12, DL 51/2009).

A conjugação, num mesmo procedimento de todos estes fatores, designadamente preferências dos candidatos, prioridades de colocação e respeito pela regra de recuperação automática de vagas, transforma o concurso num processo pesado e complexo de operacionalizar, onde o mínimo lapso destrói um “castelo” que se pretende assente no máximo rigor e respeito pelas regras.

As aplicações eletrónicas de suporte aos concursos e os meios de comunicação eletrónica, com as escolas e com os candidatos, permitiram simplificar os procedimentos, «promovendo o suprimento de formalidades burocráticas dispensáveis e a uniformidade de critérios interpretativos, norteado por evidentes objectivos de celeridade e desburocratização do processo». (Preâmbulo do DL 20/2006).

A hiper-regulamentação para prever todas as situações, conforme os princípios do Estado-providência, e o facto de os normativos serem espaços de afirmação dos interesses dos atores envolvidos, implica a existência de regulares alterações, ainda que seja a troca da alínea a) com a alínea b), o que impede a necessária celeridade e robustez do processo de colocações.

5 - Os docentes que não dêem cumprimento à alínea a) do n.º 3 e não forem colocados perdem o direito de, no concurso seguinte, concorrer na qualidade de, apenas, portadores de habilitação suficiente» (DL18/88 – Negrito nosso).

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