Para Platão, os homens eram “tabulas rasas” onde se poderia tentar
reencontrar
a sabedoria divina, originária da alma, mas aprisionada na matéria do corpo. Seu pensamento era fatalista: filosofar seria “romper com os vínculos mortais do homem da caverna, subtrair-se à tirania que impede os homens de viverem uma verdadeira vida e cujo poder os condena a uma morte muito mais certa do que a que eles temem”. EmApologia de
Sócrates
, escreveu: “Enquanto tivermos o corpo associado à razão em nossa investigação e nossa alma estiver contaminada por tamanho mal, não atingiremos jamais completamente o que desejamos, [...] a verdade”. Os homens para Platão diferenciavam-se entre si por possuírem “almas boas e más”, que poderiam no máximo ser melhoradas ou pioradas. EmRepública
, questionou: “Não diremos que as almas mais bem-dotadas, quando recebem uma má educação, se tornam más ao extremo? Ou achas que os grandes crimes e a perversidade sem mistura vêm de um medíocre e não de uma natureza vigorosa, e que uma alma fraca faz algum dia grandes coisas no bem ou no mal?”. A resposta veio emLeis
: “O fato é que, na multidão de homens, há sempre alguns, não muitos, que são homens divinos, que merecem no mais alto grau serem freqüentados, e cujo surgimento não é maiscaracterístico dos Estados administrados por boas leis do que daqueles onde não é esse o caso”. [MANON: 1992, 132-3, 149-50]
A despeito de tê-lo por mestre, Aristóteles foi além de Platão, ao considerar a escravidão como resultante do caráter ontológico aos seres humanos. Em seu tempo, o cativo nascia de mãe escravizada, e surgiam por dívidas ou, como vimos, eram conquistados em diversas regiões da bacia mediterrânica e da Europa continental. O imperialismo helênico escravizou ancestrais dos modernos ibéricos, franceses, escandinavos, sírios, marroquinos, hebreus, etc. A pluralidade dos povos submetidos ao tráfico escravista antigo impedia que sua subalternização fosse identificada a alguma etnia específica apenas. Muitas vezes, cativos helenos tinham as mesmas características físicas de seus escravizadores. Escravização por fatores exógenos, como na formulação de leis, decerto incomodava filosoficamente Aristóteles, já que se alguém podia ser submetido pela força, através da força também poderia se libertar e, inclusive, de cativo se tornar escravizador.
Na sua naturalização da escravidão, discípulo superou o mestre: “Falamos de 'bens' no sentido de 'partes'; uma parte é não somente parte de outra, mas pertence totalmente à outra, e acontece o mesmo com os bens; logo, o senhor é unicamente o senhor do escravo, e não lhe pertence, enquanto o escravo é não somente o escravo do senhor, mas lhe pertence inteiramente. [...]. Estas considerações evidenciam a natureza do escravo e sua função; um ser humano pertencente por natureza não a si mesmo, mas a outra pessoa, é por natureza um escravo. [...]. A alma domina o corpo com a prepotência de um senhor, e a inteligência domina os desejos com a autoridade de um estadista ou rei; estes exemplos evidenciam que para o corpo é natural e conveniente ser governado pela alma, e para a parte emocional ser governada pela inteligência - a parte dotada de razão, enquanto para as duas partes estar em igualdade ou em posições contrárias é nocivo em todos os casos”. [ARISTÓTELES: 1997, 18-9]
Com tais considerações, os principais filósofos grego-helênicos antigos, Platão e sobretudo Aristóteles, defenderam que a existência de trabalhadores escravizados em seu tempo era, além de inevitável e
natural
, algo justo e conveniente.2.3. Do império romano ao mundo medieval
A escravidão em Roma assumiu forma ainda mais acentuada do que na Grécia. Inicialmente apoiada no trabalho livre do campesinato aldeão, Roma caminhou paulatinamente para assentar sua produção sobre a escravidão, se tornando o maior império do mundo antigo através de suas guerras de expansão. Em
De Bello Gallico
, de Caio Júlio César [100–40 a.n.e.], o imperador narrou como organizou e lançou gauleses e germanos contra os eburone, oferecendo aos mercenários asilo, dinheiro e proteção em troca de prisioneiros escravizados. Com certo prazer, detalhou como romanos eram hábeis em criar intrigas, traições e armadilhas entre os povos que pretendiam submeter, jogando-os uns contra os outros. Séculos depois, o imperador Diocleciano [236–303 d.C.] organizou a chamadatetrarquia
, composta por doisaugustos
e doiscésares
, sob um imenso território divido em quatro áreas, cada qual administrada por um comandante-em-chefe que podia reprimir rebeliões, impedir invasões, submeter e escravizar outros povos. Além das guerras expansionistas imperiais, Roma fazia guerra de razias para fins de seu mercado escravista. Sua demanda por trabalhadores escravizados se devia não só graças às necessidades da agricultura, mineração, manufaturas, construção civil ou dos serviços em geral, mas também pelas exigências do teor de vida doméstica dos escravizadores romanos. [MARCONE: 2000, 22-4]Das periferias ao centro do Império, diariamente eram dirigidas caravanas lotadas de
bárbaros
acorrentados. Após a conquista de Gália, Júlio César enviou a Roma centenas de milhares de prisioneiros onde, no mercado intercontinental de Delfos, foram negociados em grandes lotes. Os romanos costumavam expor sujeitos escravizados postos à venda com cartazes no pescoço, que indicava sua origem, qualidades diversas e inclusivedefeitos
(para evitar possíveis pedidos de rescisão de contrato). Cativos utilizados emserviços comuns
, públicos e privados (limpeza, varredores, carregadores, pedreiros, marceneiros, ferreiros, vendedores, entregadores, mensageiros, massagistas, etc.), eram vendidos por preços até setecentas vezes inferiores aos cativosespecializados
(atores, secretários, poetas, pedagogos, médicos, contadores e demais letrados – osgrammatici
). A condição de vida dos homens e mulheres escravizados em Roma, no geral, era muito dura: não tinham nacionalidade nem família e às vezes nem nome. A união sexual não passava de umcontuberium
que sequer gerava parentesco nemcognatio
. Ser cativo em Roma significava a morte civil. [VENDRAME: 1981, 31-2]A reflexão filosófica romana dominante sobre a escravidão e os trabalhadores escravizados era herdeira da cultura greco-helênica. Marcos Terêncio Varron [116-27 a.n.e.] em tudo parecia repetir Aristóteles, considerando o cativo como um “instrumento falante” (
instrumenti genus vocale
). O orador Cícero reafirmou a teoria da escravidãonatural
aristotélica, justificando que em Roma “não se poderia viver” sem os braços servis. Marcus Pórcio Catão [234-149 a.n.e.] declarou sem eufemismos: “Os escravos são nossos inimigos”, descartando-os quando não mais pudesse extrair-lhes trabalho. EmDe Re
Rústica
, Lúcius Moderato Columella [54-68 d.C.] sugeria violência e paternalismo no tratamento a eles, descrevendo que ao final dos trabalhos devessem todos serrecolhidos
aosergástulos
, prisões romanas que antecederam as modernas senzalas. [JOLY: 2005, 64-7] Havia, porém, aqueles que divergiam também dos defensores da escravidão romana, com maior ou menor radicalidade. Eram pensadores como Plauto, Petrônio, Juvenal, Quintiliano, Macróbio, Epiteto, dentre outros. Contudo, não representaram o pensamento dominante em Roma. Sêneca [4 a.n.e.-65 d.C], que produziu algumas obras consideradas humanistas, libertárias e inclusive bastante igualitárias para a época, situava o cativo apenas no planoespiritual
(abstrato). Mesmo criticando os escravizadores de seu tempo, defendeu a manutenção da escravidão no plano social (concreto). [VENDRAME: 1981, 55-6]Em Roma, a crise da produção pequeno-mercantil surgiu da incapacidade do sistema em evoluir à situação de grande produção mercantil. Na grande propriedade latifundiária romana, era vendido quase tudo e praticamente nada se comprava. Mesmo havendo um comércio importante, predominava a produção rural, tendencialmente natural e que não encontrava mercado para seus produtos. As conquistas imperiais romanas ampliaram um domínio em território tão vasto que ficava cada vez mais difícil controlá-lo. Diversos fatores, entre eles a própria resistência da população escravizada, o escasso desenvolvimento dos meios de transportes, os limites do comércio, etc., fizeram com que a produção escravista do Império se encaminhasse para o colonato, em uma longa transição à produção feudal. [GUITTARD: 1992, 13-4]