1.4 TEMPOS MODERNOS: COM A PALAVRA, O EVANGELHO
1.4.1 Evangélicos no ar
Entre os grandes nomes que marcaram a época da difusão midiática está o do padre católico romano Charles Coughlin, um fenômeno de audiência que conseguiu transformar uma apresentação de histórias infantis (1926) em um controverso programa nacional mesclado por religião, economia e política, o qual levava os ouvintes a enviarem dinheiro para o patrocínio. Assim, expandiu-se em redes, assinou contrato com a CBS e tornou-se um crítico político do “capitalismo desregulado” e do presidente quaker e republicano Hebert Hoover (1929-33) durante o período da Grande Depressão, fato que lhe rendeu a saída do ar em 1931. Mas Coughlin não demorou a voltar com sua estação independente, que em pouco tempo lhe conferia uma estimativa, possivelmente exagerada, de 45 milhões de ouvintes e a marca recorde de 1,2 milhão de cartas em resposta a um determinado sermão. Em 1934, estimou-se que ele era o indivíduo que mais recebeu cartas no mundo, uma força também usada para “entupir” o correio do Congresso quando havia algum interesse político por trás. Sua força política era tamanha que foi considerado uma das principais influências na eleição de Franklin D. Roosevelt à presidência.136
Não obstante as crises social, econômica e psíquica geradas pela passagem avassaladora das guerras e da Depressão − que atingiram os cristãos conservadores não apenas ideologicamente, mas também em questões essenciais, como a do sustento cotidiano, da preocupação com o bem-estar familiar e o futuro dos filhos − no início da década de 40, os líderes evangélicos e fundamentalistas, em uma demonstração de esforço conjunto, começaram a empreender reuniões aos sábados à noite destinadas a dar apoio aos jovens, proporcionando entretenimento, fervor patriótico e exortação revivalista.137 Desse modo, nasceu um movimento chamado Youth For Christ138, uma idéia amplamente espalhada pela América do Norte que, em curtos cinco anos, conseguiu reunir cerca de 600 líderes em Winona Lake, Indiana, para formar a Youth For Christ International, tendo a frente o notório
135
Cf. WILCOX, op. cit., p. 73. 136
Cf. MARTIN, loc. cit. 137
Cf. Ibid., p. 25. 138
Billy Graham139, um nome cuja representatividade religiosa, para pouco dizer, estampou a capa da revista Times em 25 de outubro de 1954; destacou-se, de 1948 a 2000, na lista da pesquisa Ten Most Admired Men in the World140 do Instituto Gallup, sendo lembrado até hoje; escreveu 24 livros, muitos traduzidos para mais de 30 idiomas e, principalmente, foi próximo de muitos presidentes − que o tinham como conselheiro eleitoral, como Eisenhower e Nixon, este último em especial − ou a quem de algum modo servia de suporte e ajuda, como Kennedy, Johnson, Ford, Carter, Clinton e, com certa predileção, Reagan, além dos patriarcas da família Bush. Graham também foi um defensor dos fundamentos, acolhedor da causa anticomunista e simpático ao senador McCarthy. E, mesmo que ao longo da vida, de certo modo, tenha relativizado sua visão política, o reverendo sempre conservou a raiz ideológica mais radical, evidenciada, por exemplo, quando, com bíblia em mãos, apareceu ao lado de Bush (pai) por ocasião da primeira guerra do golfo, contra o Iraque; um gesto maior do que um mero apoio político: “A grande presença do revivalista simbolizava que caso a cruzada do Golfo não fosse Cristã, seria pelo menos bíblica”.141 Já, bem antes disso, em 1985, esse mesmo homem, amigo da família Bush, teve um papel crucial na vida do Junior, que Peter Singer aponta como o provável momento da decisão de Bush Jr. tornar a ética um tema central de sua vida pública:
O evangélico Billy Graham foi convidado a passar alguns momentos com a família e, ao que consta, quando Bush caminhava na praia, Graham o indagou se ele estava ‘em dia com Deus’. Bush respondeu que não tinha certeza, mas a conversa começou a fazê-lo pensar no assunto. No [discurso] A Charge to Keep ele refere que aquele foi o momento em que ‘o Reverendo Billy Graham colocou uma semente de mostarda na minha alma’ que o fez ‘confiar novamente meu coração a Jesus’ e o tornou um leitor regular da bíblia. Seguramente, a crença cristã de Bush desempenha um papel importante em seu pensamento moral.142
139
Considerado a maior liderança revivalista durante 50 anos: Reverendo Dr. William Franklin Graham Jr., cristão evangélico, foi um dos grandes expoentes da causa religiosa, considerado o “Papa Protestante da
América”. Embora tenha sido por um bom tempo simpatizante democrata, abandonou essa idéia e assumiu a
postura de votar conforme o que julgava como a melhor opção do momento. Participou de missões por todo os EUA, Europa e Austrália; fundou a Associação Evangelista Billy Graham (BGEA: 1950) em Minneapolis, um negócio que compreende uma rede mundial de programas de rádios semanais há mais de 50 anos, além de programas de TV veiculados em horário nobre nos EUA e Canadá, colunas em jornais por todo os EUA,
websites, inclusive para adolescentes, e uma distribuidora de filmes evangélicos. Cf. BLOOM, H. Heroes &
icons: Billy Graham. Time Magazine. New York, 14 June 1999. Disponível em: <http://www.time.com/time/ time100/heroes/profile/graham01.html>. Acesso em: 20 abr. 2005. Cf. MARTIN, W. A prophet with honor: the Billy Graham story. New York: William Morrow, 1991. passim. Cf. POLLOCK, J. To all nations: the Billy Graham story. New York: Harper & Row, 1985. passim.
140
Os Dez Homens Mais Admirados do Mundo. 141
BLOOM, loc. cit. 142
SINGER, P. The President of Good and Evil: questioning the ethics of George W. Bush. New York: Plume Penguim, 2004. p. 4. (grifo nosso)
A década de 1950 foi um sucesso para os protestantes cristãos brancos, que tiveram na figura de Graham um símbolo que expressava a influência que exerciam no éthos dos EUA por mais de um século. O resultado disso podia ser vislumbrado na expansão das igrejas, das faculdades, na excelente vendagem de revistas e jornais e no maior movimento de jovens do país. O fato é que Graham não era somente o pregador mais conhecido e admirado do país, mas também o homem que tinha a atenção e a escuta apuradas dos presidentes dos EUA.143