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Frase labiríntica ou centopeica

N EGAÇÃO NA SUBORDINADA

2.5 Frase labiríntica ou centopeica

Na pena de certos escritores aquilo que chamamos de período "tenso" (ver 1.5.3) pode degenerar numa frase caudalosa e confusa. Se, por exemplo, a prótase se alonga em demasia por uma série de membros que afastam o desfecho (apódose) para além da resistência da atenção, o efeito pode ser — e geralmente é — negativo: um período reptante, centopei-co, embaraçado nos seus numerosos "pés", à maneira proustiana. Mas, ao contrário dos miriápodes, não leva a lugar algum: perde-se nos meandros das suas artimanhas. Nesse erro incide Pedro Lessa:

Hoje, quando no seio de uma família numerosa há um jovem que, por falta de certa vivacidade de espírito e de outros predicados naturais, ou dos que se adquirem pelo esforço e pelo trabalho, não pode granjear os meios de subsistência, e menos ainda de obter qualquer colocação saliente, ou um ancião, vencido na vida, para quem a fortuna foi descaroável madrasta nas profissões que tentou, sem disposição alguma para o exercício

de qualquer mister conhecido e lícito; dá-se não raro uma espontânea conspiração entre os conjuntos por parentescos de um ou de outro, os políticos militantes e os detentores do poder, para elevar o inclassificável às várias posições políticas, então, com o mais bem- aventurado júbilo dos chefes das agremiações assim enriquecidos, esse vai ser o legislador, esse vai ser o estadista.

(Apud A. Passos, Arte de pontuar, p. 110)

É preciso ler e reler o trecho para lhe alcançar o sentido. Deixando de lado as incorreções de ordem sintática e outros defeitos de construção, a falha mais grave do texto resulta da série inumerável dos elementos da prótase, que se enleiam, se embaraçam uns nos outros de tal forma que se torna penoso deslindá-los para saber onde começa a apódose ("... dá-se não raro uma conspiração..."), descabidamente precedida por ponto-e-vírgula, único recurso que o Autor supôs capaz de ajudar a compreensão do texto (ele próprio sentiu que a prótase estava demasiadamente longa). Além disso, o agrupamento "os políticos militantes e os detentores do poder", que leva o leitor a acreditar tratar-se do sujeito de outra oração, é apenas aposto de "conjuntos por parentescos" (essa é, pelo menos, a única maneira de interpretá-lo). A confusão talvez pudesse ser evitada, se o Autor o pusesse entre travessões, pois há vírgulas demais no texto. Ainda por cima, as três últimas linhas apresentam uma construção anacolútica inadmissível, que talvez pudesse ser corrigida com um ponto ou ponto-e-vírgula antes de "então", que tem valor conclusivo: "dá-se (o próprio verbo é aqui inadequado) uma conspiração... para elevar o inclassificável (i.e., jovem ou ancião) às várias posições políticas. Então, esse vai ser o legislador, esse vai ser o estadista". A clareza aconselharia "um vai ser..., o outro vai ser" ou "este vai ser..., aquele vai ser..." Mas, num período desse jaez, nem a pontuação ajuda muito: é inútil jogar com vírgulas, travessões, pontos-e-vírgulas, porque a obscuridade continua. Esse é o defeito mais grave e mais comum resultante dos períodos sobrecarregados de informações, períodos que são verdadeiras centopeias ou labirintos.

De forma que à frase entrecortada ou soluçante, cujos excessos podem ser condenáveis, se opõe a frase labiríntica, que esplendeu nos séculos XVI e XVII. E o período caudaloso, miriapódico, o legítimo período ciceroniano, em que exceleram Vieira e outros barrocos, inclusive alguns barrocos extemporâneos (ou contemporâneos), como Proust e Rui Barbosa, mas hoje excepcional na pena dos escritores modernos, se bem que freqüente no estilo de muitos principiantes.

Marchetada de conectivos, plena de interpolações e incidências, coleante mas também rastejante, sonora e pomposa, às vezes, mas também prolixa e cansativa, essa espécie de frase torna-se com freqüência indecifrável, ininteligível, como no seguinte exemplo:

Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos (...) trabalhos e infortúnios (...) com muita razão que me posso queixar da ventura (....) Mas por outra parte quando vejo que do

meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre em salvo, e pôr-me em seguro, acho que não tenho razão de me queixar por todos os males passados, quanta de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida, para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura, que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la) para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que passei no decurso de vinte e um anos em que fui treze vezes cativo, e dezessete vendido, nas partes da índia, Etiópia, Arábia felix (Arábia Feliz), China, Tartária, Macáçar, Samatra

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e muitas outras províncias daquele oriental arcipélago, dos confins da Ásia, a que os Escritores Chins, Siameses, Gueos, Eléquios nomeiam nas suas geografias por pestana do mundo, como ao diante espero tratar muito particular e muito difusamente, e daqui por uma parte tomem os homens motivo de se não desanimarem cos trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outra me ajudem a dar graças ao Senhor onipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos os meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males, que por mim passaram, e dela as forças, e o ânimo para os poder passar, e escapar deles com vida. (Fernão Mendes Pinto (1510-83), Peregrinação, apud Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Roteiro literário..., vol. I, p. 63)

Nesse trecho encontram-se, elevados, porém, à sua mais alta potência, os traços característicos do período clássico: é uma interminável série de orações subordinadas, desfilando em cascata, inserindo-se umas nas outras, emaranhadas em numerosas incidências, de tal forma que as idéias se atropelam sem discriminação lógica. O resultado é uma frase lenta, sinuosa, cansativa, muito diversa da de outros clássicos, como o padre Manuel Bernar-deSj por exemplo, ou o nosso Matias Aires, que José de Alencar poderia ter posto ao lado de Lucena no pós-escrito de Iracema:

Nascem os homens iguais: um mesmo e igual princípio os anima, os conserva, e também os debilita, e acaba. Somos organizados pela mesma forma, e por isso estamos sujeitos às mesmas paixões, e às mesmas vaidades. Para todos nasce o Sol; a Aurora a todos desperta para o trabalho; o silêncio da noite anuncia a todos o descanso. O tempo que insensivelmente corre, e se distribui em anos, meses, e horas, para todos se compõe do mesmo número de instantes. Essa transparente região a todos abraça; todos acham nos

elementos um patrimônio comum, livre, e indefectível; todos respiram o ar; a todos sustenta a terra; as qualidades da água e do fogo a todos se comunicam.

(Reflexões..., p. 71)

Esse é um trecho "suave", formado por vários períodos que em nada lembram, quanto à extensão e à estrutura, a frase caudalosa e centopeica de Fernão Mendes Pinto. O processo sintático que neles predomina é o da coordenação (correm apenas duas orações subordinadas, e, assim mesmo, adjetivas, o que não é de somenos; rever 1.5.1, "Relevância da oração principal"), o que lhes dá um feitio de frase moderna, constituindo mesmo um exemplo que qualquer cronista ou novelista contemporâneo subscreveria sem corar. Aliás,

Reflexões sobre a vaidade dos homens, do nosso primeiro filósofo moralista, apresenta

inúmeros exemplos iguais a esse, em linguagem clara e fluente, em que os períodos compostos por subordinação raramente assumem estrutura labiríntica, o que parece decorrência da feição sentenciosa da sua frase: muitas orações ou períodos simples de Matias Aires são verdadeiras máximas.

Às vezes, um autor, cujo estilo é em geral simples, claro e conciso, deixa escapar um período labiríntico lamentável. Foi o que aconteceu a Renato de Almeida, no seu, sob todos os aspectos, excelente livro Inteligência do folclore:

Sem ter portanto a tradição oral do passado, senão alguns retratos em cuja fidelidade não há que fiar muito, sobretudo porque não é de modo algum possível separar o erudito do popular e também o que de intencional se ajuntava nesses textos, a ciência folclórica esbarra diante da ausência de documentos, através dos quais seja possível reconstruir a tradição, que lhe parece, naquela incisa (sic) imagem de Carlyle, como uma enorme câmara escura amplificadora, na qual o homem morto se torna dez vezes maior do que era em vida. (p. 73)

Há nesse trecho um acúmulo tal de informações, que o leitor fica desorientado; sua matéria daria para pelo menos dois períodos mais claros, com ligeiras adaptações que em nada falseariam o pensamento original:

Sem ter, portanto, a tradição oral do passado, a ciência folclórica esbarra na ausência de documentos fidedignos, pois não é de modo algum possível separar o erudito do popular nem o que de intencional se ajuntava nesses textos [do séc. XII e XIII, em que se baseia a exegese da novelística popular]. A falta de tais documentos impossibilita a reconstrução da tradição que é, para a ciência folclórica, na imagem incisiva (?) de Carlyle, como uma enorme câmara escura amplificadora, na qual o homem morto se torna dez vezes maior do que era em vida.