FERREIRA V. L.; MUNOZ H S.; CHAVES P P O Efeito da Fragmentação e Isolamento
JOSIELI CAVALCANTE SIMONE, DO V L PEINADO
RESUMO
: A proposta neste trabalho é apresentar o relato de experiência de uma Escola Municipal de Educação Integral que neste ano elaborou uma proposta dentro do projeto Escolas Sustentáveis e na perspectiva de outros espaços educativos complementares de acordo com a proposta apre- sentada por GADOTTI (2009) em seu livro Cidade Educadora na qual apresenta espaços da cidade com potencial educativo e complementares a ação da escola. Para isso foram realizados debates com filmes, oficinas, palestras, atividades de campo, a Conferência Infanto-Juvenil pelo Ambiente e visita em outros espaços complementares, além do muro da escola. Os resulta- dos obtidos até o momento estão relacionados ao conhecimento, o envolvimento e participação e a mudança de posturas em nossos alunos, na qual terá continuidade no ano de 2015 que acre- ditamos fazer parte da Educação Integral que idealizamos para a escola.
PALAVRAS-CHAVE: Educação. Escola Sustentável; Escola Integral; Espaços. INTRODUÇÃO
Desde o lançamento do “Nosso Futuro Comum” o cenário vivido pela humanidade tem sido de imensos desafios para a sustentabilidade e nada otimista devido aos problemas ambien- tais que as mudanças climáticas ou o desmatamento realizado tem provocado em vários lugares do mundo e no Brasil.
No Brasil um exemplo vivido deste cenário insustentável é a escassez de água na cida- de de São Paulo com a diminuição do volume de água do Sistema Cantareira na referida cidade pela falta de chuvas e explicada pela ciência como efeitos provocados pela mudança climática causada pelo desmatamento na Amazônia.
Os efeitos deste fenômeno, além da escassez de chuva na região, têm aberto discussões e conflitos não só na cidade de São Paulo, mas em todo Brasil devido ao uso sustentável da água. Segundo GADOTTI et al (2003, p.10), é preciso quebrar com os paradigmas clássicos que tem mantido o globalismo insustentável e promover à cultura da sustentabilidade e da paz.
Dentro desta perspectiva, é preciso que a escola proponha saberes e valores que promo- vam a cultura da sustentabilidade que de acordo com GADOTTI (2003, p.15) é necessário pen- sar globalmente com conhecimento do saber aprender, do saber conhecer, das metodologias, da organização do trabalho da escola, de forma contribuir para mudança de hábitos de consumo e minimizar demandas impostas pela sociedade de consumo.
Esta cultura de sustentabilidade, segundo afirma BARROS (2014) ainda não ocorre nas escolas e nem é uma prática corriqueira no Brasil, portanto se faz necessário que os educadores proponham este tipo de aprendizado tão importante para a manutenção das gerações futuras. Desta forma, segundo a autora formamos indivíduos autossuficientes e capazes de produzir o seu próprio sustento, sem ficar na dependência.
Diante de todas essas situações enfrentadas na área ambiental e da necessidade de mudança, a escola é o lugar ideal para disseminar novos paradigmas e educar para uma vida sustentável apresentando aos estudantes práticas sustentáveis ou a discussão de temas impor- tantes não apenas no espaço da sala de aula, mas em outros espaços educativos da cidade. Para GADOTTI et al (2004, p. 5) seria o papel da escola:
contribuir para criar as condições que viabilizem a cidadania, através da socializa- ção da informação, da discussão, da transparência, gerando uma nova mentalidade, uma nova cultura, em relação ao caráter público do espaço da cidade” (GADOT-
TI,2004).
Desta forma por meio destes arranjos educativos realizados no entorno da escola ou na cidade de forma interdisciplinar e com ações proativas por parte dos estudantes seja o caminho para uma vivência do currículo escolar de forma mais viva e mais significativa, sem fragmenta- ção e avançar e superar a dicotomia entre escolar e não escolar GADOTTI (2009).
Dentro desta possibilidade desenvolvemos ao longo do ano letivo uma proposta em- basada na Educação para a Sustentabilidade na Escola Municipal Experimental de Educação Integral Luiz Feitosa Rodrigues-Corumbá-MS.
Buscando por meio desta proposta ser na escola um espaço vivo, integrado à natureza, de forma a tornar o ambiente escolar aconchegante e motivador para a aprendizagem que reflita o cuidado com as pessoas e o ambiente” MEC (2010). Mas, que acima de tudo possa ocorrer em “diferentes cantos, em diferentes espaços, tempos”, como afirma GADOTTI (2009, p 10) e permita a interação, o aprendizado e a cidadania.
CONTEXTO
A Escola Municipal Luiz Feitosa Rodrigues, situada no município de Corumbá-MS passou a ser Escola Municipal Experimental de Educação Integral, no ano de 2012, sendo pio- neira no município na Educação Integral.
A localização da escola ocorre em uma área de vulnerabilidade ambiental e próxima ao Rio Paraguai. A referida escola atende alunos da Educação Infantil e Ensino Fundamental I e II, em torno de 223 alunos em atendimento integral.
Dentro desta concepção de Educação Integral adotada pela escola o aluno permanece em torno 8h na escola envolvido na sua educação que para FREITAS et al (2007) coloca que
mesmo que “seja o tempo todo na escola, existem outros espaços em que a sua formação pode ser completada (viveiros, espaços culturais, locais de lazer)”.Indicando neste princípio a im- portância de outros espaços terem potencial educativo e na capacidade de estar sempre apren- dendo e ensinando, educando e nos educando em todo lugar FREIRE ( 2006).
Contudo em 2013, após as avaliações propostas pelo grupo gestor da escola para a sua comunidade escolar (docentes, alunos e pais) e as dificuldades vivenciadas, propomos a altera- ção da matriz curricular, disciplinas foram enxugadas e novas propostas de ementas surgiram e foram acopladas a nova proposta educativa para o ano 2014.
Diante desta concepção de Educação Integral, a realidade vivenciada na escola foi ela- borada pelos docentes e o grupo gestor da escola, uma nova ementa para a disciplina Projeto e Pesquisa (Base Diversificada do currículo) voltada a Educação e para a Sustentabilidade, porém com o foco em tornar a escola um espaço educador sustentável que para o MEC (2010) deve ser um balizador de ações.
Em 2013, pensando neste objetivo realizamos a Oficina do Futuro na escola com os estudantes com a finalidade de diagnosticar e levantar as principais necessidades da escola, por meio dos sonhos e pedras ou obstáculos para a Conferência Infanto Juvenil pelo Meio Ambien- te na escola.
Na ocasião a Com Vida levantou problemas com os resíduos sólidos na escola e no entorno, a falta de arborização, o calor e problemas com a água e em conjunto com a equipe da escola desenvolveu projetos com os temas “Terra e Água”.
Todavia todos esses resultados levantados foram sistematizados no relatório enviado para a Conferência Estadual Infanto Juvenil pelo Meio Ambiente e posteriormente para o siste- ma online do MEC. Estes procedimentos foram finalizados, contudo ainda percebemos dificul- dades em relação ao entorno da escola, em relação aos resíduos sólidos e a necessidade de de- senvolver atitudes e valores com os nossos alunos dentro da escola apesar de todas essas ações. Pensando nisso para o ano de 2014, já com a nova Matriz Curricular a disciplina Proje- to e Pesquisa surgiu como uma alternativa para a implantação de uma sequência de conteúdos e propostas práticas para todos os alunos do Ensino Fundamental II (6ª a 9ª série) na perspectiva de ser um espaço educador sustentável.
A partir destas situações anteriores já descritas e do diagnóstico elaborado foram pla- nejados para o ano letivo os seguintes eixos: Resíduos Sólidos, Cultivo do Solo (Agroecologia), Biodiversidade e a Energia que foram planejados e aplicados no ano letivo de 2014.
Todas as ações propostas com estes temas aconteceram de forma bem dinâmica, por meio de exibição de documentários, debates, palestras de especialistas, aulas de campo no entorno da escola, dinâmicas de grupos, oficinas e visitas em outros espaços como a Associação Amor Peixe, onde as crianças conheceram o processo de fabricação de bolsas e outros produtos a partir do couro do peixe. Sempre com a intenção de aproximar os nossos alunos das práticas sustentáveis e dos principais conceitos dos temas abordados em sala.
Em junho, na Semana do Meio Ambiente, as devolutivas das atividades/ou ações propostas foram apresentadas na II Conferência do Meio Ambiente da E.M..E.E.I Luiz Feito- sa Rodrigues intitulada “Vivenciando a Sustentabilidade”, que durante três dias mobilizou os nossos estudantes e docentes que tiveram a oportunidade de expor seus trabalhos, participando da mesa redonda, oficinas e palestras educativas relacionadas a saúde e ao meio ambiente. Esta Conferência é um projeto permanente da escola que acontece de forma independente do projeto federal como mostra a figura 1.
LFR,2014
Figura 1 – Conferência Infanto Juvenil pelo Meio Ambiente na escola.
Em outro momento da Conferência foram realizadas oficinas como: Produção de mudas, Rea- proveitamento do óleo, Agrotóxicos/Agroecologia, Brinquedos com Recicláveis, Artesanato com resíduos de materiais de construção, Origami, Arte Circense e Reaproveitamento de ali- mentos (Figura 2).
As oficinas foram ministradas por educadores da escola ou parceiros de outras instituições como Embrapa, Secretaria Municipal de Educação (SEMED) e Estação Experimental do Cam- po (SEMED) e Fundação do Meio Ambiente do Pantanal – Corumbá-MS.
Para o ano de 2015, os temas das oficinas serão inseridas de forma permanente no currículo da escola e serão integradas no projeto educativo da escola.
LFR,2014
LFR,2014
Figura 2 - Oficina de Reaproveitamento de alimentos e Construção de Brinquedos Recicláveis. Dando prosseguimento as ações após as atividades da conferência e ao planejamento da educadora da escola foram inseridas ações em outros espaços educativos. Na proposta ini- cial foram contemplados os espaços da Estação Experimental do Campo, o Viveiro Municipal, Viveiro da Empresa Vale do Rio Doce e a Polícia Ambiental.
Todavia, encontramos dificuldades para transporte dos alunos aos lugares distantes da escola ou dificuldade nas agendas destas instituições para atender os alunos e, portanto não foi possível o desenvolvimento de todas as atividades.
O único espaço que atendeu os alunos nesta etapa foi o Viveiro Municipal sediado na Prefeitura Municipal de Corumbá-MS e autorizado pela Fundação de Meio Ambiente do Pan- tanal. O objetivo proposto para este momento foi conhecer as etapas do plantio e a importância do viveiro, bem como os tipos de espécies presentes no espaço. Já que no entorno da escola existem poucas árvores plantadas. Portanto, seria um conhecimento muito importante para os nossos alunos o aprender plantar, cuidar e com isso promover o conforto térmico na escola. Na ocasião fomos recebidos pela técnica responsável pela arborização da Fundação do Meio Ambiente do Pantanal e pelo viveirista presente no local que esclareceu as dúvidas, perguntas e apresentou o espaço do viveiro e relatou a importância do referido espaço para a arborização da cidade, curiosidades sobre as espécies (figura 3). Finalizando a atividade foram apresentadas as etapas do plantio de mudas.
Na escola os alunos participantes da atividade multiplicaram o conhecimento apreendido, por meio de palestras para outros alunos da escola e fizeram o plantio na lateral da escola.
LFR,2014
Figura 3 - Visita dos alunos no Viveiro Municipal - Corumbá-MS.
No entanto para a finalização do ano letivo ainda estamos pleiteando a participação em outros espaços educativos sempre com o propósito de ampliar para além dos muros da escola, ações, encontros, discussões que privilegiam a “educação que supere a ideia de que os conteú- dos e os conhecimentos da escola são os únicos e os mais importantes” MELO (2014, p 35). Portanto é proposta da escola para o ano de 2015, fomentar mais ações voltadas para práti- cas agroecológicas ou ecotécnicas e continuar ações que priorizem o espaço escolar e o tornem mais sustentável no dia a dia da rotina escolar. E com os outros espaços educativos propiciar o prazer de aprender e de ensinar, bem como envolver a comunidade, família e a cidade para que os resultados alcançados neste ano sejam aprimorados para o ano de 2015.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dentro desses três anos em que a escola tornou-se integral percebemos ao longo do ano letivo com esta experiência vários resultados positivos em relação aos nossos estudantes, do- centes e família.
Percebemos alunos com mais autonomia nas refeições, diminuição de desperdício de ali- mentos e resíduos sólidos na escola em comparação com outros os anos anteriores.
Enfim, várias situações articuladas e diagnosticadas foram amenizadas neste ano diante da proposta elaborada, mas ainda precisam ser discutidas, articuladas com os outros setores da cidade e estar presente além do currículo, na gestão e no projeto educativo da escola para que os nossos estudantes sejam envolvidos em todos esses aspectos e possamos buscar novas alter- nativas para os problemas que ocorrem ainda na escola (MEC, 2010).
Entretanto, apesar das mudanças sentidas na escola, ainda é necessário, desenvolver mais ações de forma continuada e permanente para alcançar mudanças mais significativas no coti- diano escolar. Com isso, tornam-se relevantes parcerias de outros setores e também o uso de
outros espaços que possam contribuir com novas possiblidades e conhecimentos para os nossos alunos e docentes.
Mas, sem dúvida o principal ponto positivo seria a geração do conhecimento obtido em todas as experiências vividas em sala de aula e fora dela de forma efetiva que transpareceu na participação e no envolvimento dos alunos em todas as atividades que participaram.
Contudo, ainda se tem muito a caminhar para tornar a escola um espaço sustentável. Para isso, é necessário desenvolver proposta voltadas ainda para a gestão e promover adequações no es- paço escolar, já que em relação ao currículo de maneira gradativa estamos inserindo conteúdos voltados para a sustentabilidade.
Em relação aos docentes envolve-los em propostas que viabilizem a aprendizagem com adoções de procedimentos e metodologias inovadoras que permitam inserir múltiplas dimen- sões da nossa humanidade no currículo GADOTTI (2009, p12).
Com todos esses elementos sendo inserido na escola, acreditamos que podemos alcançar a prática de Educação Integral e Sustentável de forma real e permanente que não se confunde apenas com extensão de período ou pontual, mas na perspectiva uma visão mais ampla, integral e planetária da cidadania.
REFERENCIAS
BARROS, J. Sustentabilidade na Escola. Disponível em: Http://educador.brasilescola.com/ orientacoes/sustentabilidade-na-escola.htm consultado em 28 de out.2014.
FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006, 148p. (Coleção leitura).
FREITAS, DE R. C.; GALTER, I.M. Reflexões sobre a educação em Tempo Integralno de-
correr do século XX. Educere et Educare, vol.2, n.3, jan-jun.2007.p.123-138.
MELO, V. S. Educação Integral e Escola de Tempo Integral no Brasil. Revista AtuaçãoPeda-
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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diver- sidade. Escolas Sustentáveis e Com-Vida: Processos Formativos em EducaçãoAmbiental. Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, MG, 2010, 58p.
GADOTTI, M. Educação Integralno Brasil: Inovações em processo. São Paulo, Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2009, (Educação Cidadã,4).
___________; Padilha, R. P; CABEZUDO, A. Cidade educadora: princípios e experiências. São Paulo, Cortez/IPF, 2004.
___________ Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. Novo Hamburgo,- -RS, Feevale,2003,80p.
PROJETO MEIO AMBIENTE E CIDADANIA E SUA APLICAÇÃO AO ENSINO