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3.4 Fatores coadjuvantes

3.4.7 Mudança do destino original

71 É importante ressaltar que, a exemplo dos imigrantes palestinos de Recife, a grande maioria dos imigrantes

Alguns autores afirmam que muitos árabes que pretendiam imigrar para os Estados Unidos, por diversas razões, nunca chegaram lá, ou se chegaram, não conseguiram entrar e terminaram mesmo desembarcando em algum porto brasileiro. Nas palavras de Knowlton, “muitos que se estabeleceram no Brasil pretendiam na verdade ir para os Estados Unidos. Foram ora impedidos de lá desembarcar por problemas de saúde (em especial, o tracoma), ora ludibriados pelas companhias de navegação, que argumentavam que, afinal, tudo era a América” (KNOWLTON, apud TRUZZI, 1992, p.10). Sujeitos à ação de intermediários, muitas vezes eram embarcados clandestinamente. Não são raros os relatos no qual o imigrante comprava a passagem para um determinado destino e desembarcava em outro completamente diferente. O relato do Senhor Jamil Asfora72 é um caso exemplar:

O senhor Jamil [...] nasceu em Beirute e, para fugir do serviço militar da Turquia, emigrou para os Estados Unidos. Desembarcaram-no no Porto do Recife dizendo-lhe que o fazia numa cidade norte-americana. Descoberto o logro, não se conformou. E sabendo da existência de um primo em Fortaleza, meteu-se num navio da Lloide como passageiro de terceira e aqui desembarcou (CARVALHO, apud FRANKLIN, 2009, p.1).

Esse não é um caso isolado e muitos outros árabes podem ter sido desviados de seu objetivo original, a América do Norte, seja pela persuasão de agentes de viagens inescrupulosos como no relato acima, seja pela ocorrência de circunstâncias de ordem política, burocrática, médica ou financeira, ou até mesmo pela escolha deliberada do imigrante em decorrência de sugestões de amigos, de outros viajantes e agentes de viagem, levando-o a decidir, na última hora, pela mudança do destino. Samir Abou Hana, filho de palestinos, relata a trajetória de seu pai nos primeiros anos da imigração e as razões que o trouxeram para Pernambuco:

Meu pai chamava-se Atek Kalil Abou Hana. Veio para o Brasil em 1924 em companhia de minha avó, Bahie Kalil Abou Hana. Saíram da Palestina para ‘fazer a América’, como se dizia naquela época[...]. Quando eles saíram de Belém, o destino era os Estados Unidos. Mas, um tio do meu pai, no Recife, e uma família amiga em Belém do Pará, já estabelecidos, influíram para que aportassem em Pernambuco. Atek Kalil Abou Hana nasceu em 15 de dezembro de 1905. Chegou ao Brasil com 18 para 19 anos. E nunca mais voltou à terra Natal. (ASFORA, 2002, p. 153).

Muitos dos que eram embarcados de volta, por qualquer motivo, dos Estados Unidos para seu País de origem, “preferiam, no meio do caminho, ficar em países da América

72 Transcrito de uma obra do romancista Jader de Carvalho e apresentado no trabalho de Ruben Maciel Franklin

como um libanês nascido em Beirute (FRANKLIN, 2009, p.1), Jamil Asfora, ao que tudo indica, é o palestino de Belém Jemil Elias Asfora, devidamente descrito na genealogia de João Sales Asfora (ASFORA, 2002, p.234- 235). Mais adiante, Franklin refere-se às casas importadoras de tecidos e miudezas de imigrantes sírios e

libaneses em Fortaleza e menciona Jorge Aphora e Irmão como um provável primo de Jemil (FRANKLIN, 2009, p.6). Novamente, ao que tudo indica, trata-se de Jorge Elias Asfora, irmão e sócio de Jemil, ambos estabelecidos inicialmente em Fortaleza desde 1897 e descritos por João Sales Asfora (esse sim, primo dos dois outros Asfora) (ASFORA, 2002, p.130).

do Sul, sobretudo, Brasil e Argentina” (KNOWLTON, apud TRUZZI, 2008, p. 232), onde os controles sobre os imigrantes eram mais ‘frouxos’. Vale ressaltar que a viagem entre o Oriente Médio e qualquer porto da América no final do século XIX e mesmo no início do século XX era uma grande aventura. Começava na aldeia de origem, passava por um ou mais portos do Oriente Médio, que podia ser Alexandria, Jaffa, Haifa ou Beirute e de lá seguia necessariamente para a Europa, quase sempre para Gênova ou Marselha (fotografias 49 e 40).

Fotografia 49: Porto de Jaffa. Período do Fotografia 50: Cidade portuária de Jaffa, vista do mar. Final mandato britânico, início do século XX. do século XIX ou início do século XX

Fonte: KHALIDI, 1986, p.115 Fonte: KHALIDI, 1986, p.53

Só então, seguia para os Estados Unidos ou para a América do Sul, mas sempre na dependência da disponibilidade de um navio que fizesse o percurso. No início do século passado, a viagem toda podia durar de algumas semanas até alguns meses, como no depoimento apresentado no capítulo ‘A Grande Travessia’, que relata a longa viagem, de mais de dois meses de duração enfrentada por meus avós paternos entre Belém e Recife. A escala em um porto europeu a caminho da América era o momento em que os imigrantes árabes estavam mais vulneráveis à ação de agentes inescrupulosos:

Nas paradas mais longas como Alexandria, Marselha, Gênova, Nápoles ou Barcelona, existia uma rede de hotéis, restaurantes, lojas de roupas e agências de viagem destinadas a servir e, evidentemente lucrar, com os imigrantes sírio-libaneses [e palestinos]. Geralmente esses serviços pertenciam a árabes já estabelecidos nessas cidades e que usavam o seu conhecimento da língua e da cultura para atrair seus clientes entre os emigrantes que passavam em direção à América... Nessas cidades os viajantes deparavam-se com preços abusivos e toda a forma de oportunistas que procuravam explorara sua situação em proveito próprio. Os agentes de viagem ofereciam informações sobre a situação da imigração em cada País, e procuravam, legitimamente ou não, convencer os emigrantes a irem para um destino onde a sua entrada no País seria mais fácil. Imigrantes que retornavam ao Oriente Médio também traziam notícias sobre as facilidades ou restrições enfrentadas assim como sobre as oportunidades de enriquecimento em cada País (ROCHA PINTO, 2010, p.53).

Muitas outras causas podia convencer o emigrante a alterar o plano inicial. Medidas restritivas que foram implantadas nos Estados Unidos na década de 192073 terminou

redirecionando muitos emigrantes para a América do Sul. A falta ou o atraso de um navio que os levasse ao destino pretendido, demora na obtenção de visto de entrada no País, questões de saúde, tudo poderia ser causa de uma mudança de plano de última hora. O tio-avô de Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto acima citado, por exemplo, “emigrava com destino a Argentina e ao encontrar em Marselha um amigo que voltava do Brasil, foi convencido por ele a mudar o seu destino. Posteriormente, toda família o seguiu” (ibidem, p.54).

Como os primeiros a imigrar não tinha ninguém a espera-los do outro lado do Atlântico e não estavam presos a nenhum contrato de trabalho ou vinculados a algum projeto de colonização, qualquer situação imprevista poderia mudar seus trajetos. A narrativa do Sr. Jorge Azar Chaib, um descendente de sírios que haviam imigrado no início do século XX para o Piauí ratifica o que foi dito acima:

Naquela época [início do século XX] corria a notícia de que a América era a fonte de riqueza do mundo todo, tinha ouro, petróleo, era um país muito rico e tal. Então aqueles jovens [imigrantes sírios] foram atrás da América. Eles foram até Paris, na França. Lá era o ponto de contato entre o Oriente Médio e a América. Sei que o porto era na França [provavelmente Marselha]. – Esse vapor vai para onde? – Vai para a América. Só que era para a América do Sul e não para a América do Norte. Embarcaram e vieram bater aqui. Eles pensaram que estavam indo para a América do Petróleo, do ouro, a América que tinha uma ponte de metal que ia do Atlântico para o Pacífico, a estrada de ferro. Só que eles foram bater em Recife. – Onde é que está o petróleo e o ouro? – Aqui não tem nem petróleo nem ouro. – É que nós viemos para a América. – Aqui é a América do Sul. Então disseram: – Vamos para a América do Norte. Como é que a gente vai? – Não, rapaz, a América do Norte é do outro lado do mundo. Mas já que vocês estão aqui, tem uma família lá de São Luís que tem ligação com a família de vocês. Os rapazinhos perguntaram: – Como é que a gente vai? – É só pegar o vapor para São Luís do Maranhão. Pegaram o vapor e foram bater no Maranhão. A cidade se chamava Alcântara. Numa estalagem, ouviram dizer: – Aqui não tem sírio. É lá em São Luís. Lá encontraram outros Chaib e vieram para Teresina, rumaram para cá, porque aqui estavam membros da família Tajra, que era o Adib Tajra (CHAIB, 2006).

Neste capítulo procuramos analisar os principais fatores que viabilizaram a imigração palestina para o Recife. Pudemos perceber que aqueles imigrantes foram motivados por causas distintas em cada fase da imigração. Os que vieram na fase pioneira eram motivados principalmente por razões econômicas e demográficas. Os imigrantes que chegaram no período do protetorado britânico eram motivados principalmente por questões políticas e procuravam fugir dos conflitos com os ingleses e da ‘invasão’ sionista. Na terceira fase da imigração, a motivação principal era a fuga da guerra com Israel ou a busca de uma alternativa à deprimente condição de refugiado. Perpassando por todas elas, outros fatores secundários ou coadjuvantes, como sectarismo religioso, discriminação étnico-racial, os acordos diplomáticos, o papel da família e das representações sobre o Brasil, ou a evolução dos meios de transportes. Todos eles, em maior ou menos grau, foram importantes em determinados momentos e circunstâncias.