DIREITO DO TRABALHO
1.5 NATUREZA JURÍDICA DO DIREITO DO TRABALHO
Determinar a natureza jurídica de um ramo do Direito significa classificá-lo entre os demais ramos da ciência jurídica a partir da dicotomia entre direito público e direito privado, conforme as suas normas refiram-se à organização do Estado ou aos interesses dos particulares.
Diversas são as teorias desenvolvidas pela doutrina sobre a natureza do Direito do Trabalho, entre elas a do direito público e do direito privado (as duas principais), a do direito misto, a do direito social e, por fim, a do direito unitário, sendo certo que o estudo sobre a natureza do Direito do Trabalho é de grande importância teórica e prática, tendo em vista que a aplicação e a interpretação das normas jurídicas, conforme sejam de direito público ou de direito privado, subordinam-se a regras e princípios diferentes.
Os juristas que afirmam ser o Direito do Trabalho um ramo do Direito Público fundamentam sua posição na constatação de que, na sua maior parte, é fruto do intervencionismo estatal, ou seja, o Estado intervém nas relações privadas de trabalho e substitui a livre manifestação de vontade de cada um pela sua própria vontade, manifestada por meio da lei. As relações jurídicas reguladas pelo Direito do Trabalho são, portanto, aprioristicamente delineadas pela lei e só por exceção derivadas do exercício da autonomia da vontade das partes.
Amauri Mascaro Nascimento ensina que os argumentos apontados pelos adeptos desta teoria são de três ordens: 1) natureza administrativa de algumas das normas trabalhistas, como é o caso das normas de fiscalização trabalhista; 2) imperatividade das normas trabalhistas, sendo nulo qualquer ato destinado a desvirtuar, impedir ou fraudar sua aplicação (CLT, art. 9º); 3) caráter estatutário das normas trabalhistas, tendo em vista a semelhança que possuem com as relações mantidas pelo
Estado com os agentes públicos no âmbito do Direito Administrativo.[13]
Somam-se, ainda, a estes argumentos a irrenunciabilidade e a impossibilidade de se reconhecer o conteúdo contratual das normas trabalhistas. A irrenunciabilidade decorre da necessidade de proteção ao trabalhador, enquanto o segundo argumento fundamenta-se na quantidade de normas que regulam a relação de emprego e que devem ser cumpridas sob pena de aplicação das sanções previstas em lei.
Aqueles que sustentam ser o Direito do Trabalho um ramo do Direito Privado o fazem com base na sua origem e nos seus sujeitos.
Em relação à origem, o Direito do Trabalho nasceu mesclado às normas do Direito Civil, e o contrato de trabalho deriva da locação de serviços do Código Civil. No que tange aos sujeitos do contrato de trabalho, estes são dois particulares agindo no seu próprio interesse.
O fato de no Direito do Trabalho existirem inúmeras normas irrenunciáveis e, portanto, de ordem pública, não tem força suficiente para deslocá-lo para o âmbito do Direito Público, mesmo porque isso ocorre também no Direito Civil em relação, por exemplo, às normas relativas ao direito de família.
A posição majoritária encontrada na doutrina é no sentido de considerar o Direito do Trabalho um ramo do Direito Privado. Adepto desta corrente, Amauri Mascaro Nascimento afirma que a liberdade sindical e a proibição de interferência do Estado na organização sindical reforçam a natureza de direito privado do Direito do Trabalho.[14]
Os doutrinadores que afirmam ser o Direito do Trabalho um ramo do Direito Social sustentam que reúne normas de proteção às pessoas economicamente mais fracas (também chamadas de hipossuficientes), sendo impossível, por esta razão, a sua classificação em direito público ou direito privado. O homem trabalhador é visto como integrante do social e, por sua hipossuficiência, deve ser protegido.
A corrente doutrinária que sustenta ser o Direito do Trabalho um Direito Misto fundamenta sua posição no fato de que tal ramo do Direito tem em sua composição tanto normas de direito público como normas de direito privado, ora predominando umas, ora outras, razão pela qual não pode ser enquadrado em qualquer um dos âmbitos da dicotomia clássica.
Os adeptos de tal teoria não reconhecem a unidade conceitual do Direito do Trabalho e afirmam ser necessário examinar parcialmente cada um dos grupos homogêneos de suas normas, para enquadrá-las dentro do Direito Público ou do Direito Privado.
A teoria que sustenta que o Direito do Trabalho é um terceiro gênero resultante da fusão entre o público e o privado é chamada de Direito Unitário. Diferentemente da teoria do direito misto, que afirma que no Direito do Trabalho as normas de direito público coexistem com as normas de direito privado sem, no entanto, se fundirem, a teoria do direito unitário afirma que a fusão das normas de direito público com as normas de direito privado faz surgir uma terceira realidade, diferente das concepções clássicas derivadas da dicotomia do Direito.
NATUREZA JURÍDICA DO DIREITO DO TRABALHO
Direito Público
Intervencionismo estatal nas relações privadas de trabalho. Imperatividade das normas trabalhistas.
Irrenunciabilidade de direitos pelo trabalhador.
Direito Priv ado Deriva da locação de serviços do Código Civil.
Direito Misto Tem em sua composição tanto normas de direito público como normas de direito privado, que convivem entre si.
Direito Social Normas de proteção às pessoas economicamente mais fracas, que não podem ser classificadas nem
como de direito público, nem como de direito privado.
Direito Unitário Fusão das normas de direito público com as normas de direito privado faz surgir uma terceira realidade,
diferente das concepções clássicas derivadas da dicotomia do Direito.