NORMAS JURÍDICAS TRABALHISTAS
4.7 TRATADOS INTERNACIONAIS E O DIREITO DO TRABALHO
Tratado é a mais importante fonte geradora de direitos e obrigações no âmbito do Direito Internacional Público, sendo definido pela Convenção de Viena sobre o direito dos tratados como “acordo internacional celebrado por escrito entre Estados e regido pelo direito internacional, constante de um instrumento único ou de dois ou mais instrumentos conexos e qualquer que seja sua denominação particular”.[25]
protocolo, carta, pacto, estatuto etc.), sendo que a Organização Internacional do Trabalho em geral atribui o nome de “convenção” aos tratados multilaterais adotados por sua Assembleia Geral, denominada Conferência Internacional do Trabalho.
Portanto, as Convenções da OIT são os tratados internacionais que versam sobre questões trabalhistas, compondo o denominado Direito Internacional do Trabalho. São tratados multilaterais abertos, permitindo a adesão de qualquer Estado Membro da Organização.
Questão de extrema relevância sobre os tratados internacionais é a que se refere à necessidade d e manifestação de consentimento pelo Estado em obrigar-se em relação às suas disposições. Este consentimento deve ser manifestado por meio de ratificação ou adesão e tem por objetivo “o respeito à soberania do Estado, em virtude da qual a vinculação a um tratado depende da manifestação da sua vontade, constitui um dos princípios fundamentais do Direito Internacional Público”.[26]
Neste sentido, a Convenção de Viena sobre o direito dos tratados prescreve que “se entende por ‘ratificação’, ‘aceitação’, ‘aprovação’ e ‘adesão’, segundo o caso, o ato internacional assim denominado, pelo qual o Estado faz constar, no âmbito internacional, seu consentimento em obrigar- se por um tratado”.
O procedimento de ratificação varia de Estado para Estado, pois depende das regras determinadas pelo direito interno de cada um.
No Brasil, o procedimento de ratificação decorre do texto constitucional, mais especificamente d o art. 49, I, que prescreve ser da competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional, e do art. 84, VIII, que prevê ser da competência privativa do Presidente da República celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos a referendo do Congresso Nacional.
A aprovação ou referendo do Congresso Nacional se dá por meio de decreto legislativo. Em seguida, o Presidente da República expede o Decreto de promulgação, tornando pública sua ratificação, registrando quando se inicia sua vigência para o Brasil e determinando que as disposições nele contidas sejam respeitadas em todo o território nacional. Importante ressaltar, como esclarece Arnaldo Süssekind, que “o Decreto Legislativo, mediante o qual o Congresso Nacional resolve ‘definitivamente sobre tratados, convenções e atos internacionais’ no exercício de sua ‘competência exclusiva’, não sobe à sanção do Presidente da República, que, assim, não lhe pode apor qualquer veto”.[27]
RATIFICAÇÃO DOS TRATADOS INTERNACIONAIS
1º momento → celebração (Presidente da República).
2º momento → aprovação definitiva (Congresso Nacional) → Decreto Legislativo. 3º momento → expedição de Decreto de Promulgação (Presidente da República).
A Convenção de Viena sobre o direito dos tratados prevê a possibilidade de um tratado internacional prever disposições específicas sobre sua terminação e sobre a possibilidade de
denúncia ou retirada dele por qualquer Estado pactuante. Não havendo previsão expressa a respeito, o tratado não poderá ser objeto de denúncia ou retirada, a menos que conste ter sido intenção das partes admitir a possibilidade de denúncia ou retirada, ou que o direito de denúncia ou de retirada decorra da própria natureza do tratado. A parte que quiser denunciar um tratado ou retirar-se dele deve proceder à notificação sobre sua intenção com doze meses de antecedência.
Após a ratificação e a entrada em vigor de um tratado internacional, surge para as partes a
obrigação de cumprimento, com a adoção das medidas necessárias à integração do tratado no direito nacional.
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4.7.1. Convenções e Recomendações da OITEm 1919, as Nações signatárias do Tratado de Versalhes criaram a Organização Internacional do Trabalho, reconhecendo o fato de que “existem condições de trabalho que representam um grau tão elevado de injustiça, de miséria e de privações para um grande número de seres humanos, que o descontentamento causado constitui uma ameaça para a paz e para a harmonia universais”.[28]
Para fazer frente a este problema, a OIT criou um sistema de normas internacionais de trabalho, denominadas Convenções Internacionais e Recomendações Internacionais, elaboradas pelos representantes dos trabalhadores, dos empregadores e dos Governos na OIT. Tais normas abrangem todos os temas relacionados com o trabalho e têm por objetivo estabelecer um conjunto de regras claras para garantir a existência constante de um equilíbrio entre o progresso econômico e a justiça social, assegurando a prosperidade e a paz para todos.
A s normas internacionais do trabalho (Convenções e Recomendações) compõem hoje um conjunto bastante amplo, apoiado por um sistema de controle de aplicação das normas no âmbito nacional de cada um dos países-membros.
A s Convenções da OIT são tratados internacionais legalmente vinculantes que podem ser ratificados pelos Países-membros. As Recomendações da OIT caracterizam-se como diretrizes não vinculantes. Em muitos casos, uma Convenção estabelece os princípios básicos que os países que a ratificarem devem cumprir, e uma Recomendação complementar é elaborada, estabelecendo diretrizes mais detalhadas sobre a aplicação da Convenção. Cumpre ressaltar, porém, que uma Recomendação pode ser autônoma, ou seja, não vinculada a nenhuma Convenção.
Após ratificada por um determinado País-membro, em geral a Convenção entra em vigor neste país um ano depois da data da ratificação. Os países que ratificam uma Convenção estão obrigados a inserir o seu conteúdo no ordenamento jurídico interno, por meio da elaboração de lei específica e da adoção de práticas próprias e, ainda, a enviar à Repartição Internacional do Trabalho informes periódicos sobre sua aplicação. Além disso, podem ser iniciados procedimentos de reclamação e de queixa contra os países por violação das Convenções que ratificaram.
De acordo com o Conselho de Administração da OIT, oito são as Convenções fundamentais. Tais Convenções envolvem temas que são considerados como princípios e direitos fundamentais no trabalho: a liberdade de associação, a liberdade sindical e o reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva; a eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou obrigatório; a abolição efetiva do trabalho infantil; e a eliminação da discriminação em matéria de emprego e de ocupação.[29]
As normas internacionais do trabalho são adotadas a partir do voto da maioria de dois terços dos integrantes da OIT, razão pela qual é possível dizer que são universalmente reconhecidas. Ao mesmo tempo, as normas refletem o fato de que os países têm diferentes heranças culturais e históricas, diferentes sistemas jurídicos e níveis de desenvolvimento econômico. Exatamente por isso, as normas sempre são formuladas para que possuam flexibilidade suficiente para que possam ser trasladadas à legislação e às práticas nacionais, sempre levando em conta essas diferenças.
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4.8. QUESTÕES1. (TRT — 1ª Região — 2005) A hermenêutica, de origem etimológica grega, tem sua genealogia no deus Hermes, que era o intérprete da vontade divina. A hermenêutica jurídica, no dizer de alguns doutrinadores, “é a teoria científica da arte de interpretar”, ou “processo mental de pesquisa de conteúdo real da lei”. Dentre os vários métodos de interpretação, assinale aquele que corresponda à interpretação elaborada pelo próprio órgão que editou a norma declarando o seu sentido e conteúdo por meio de outra norma jurídica:
a) extensiva; b) analógica; c) autêntica; d) restritiva; e) histórica. Resposta: “c”.
2. (TRT — 2ª Região — 2007) No que pertine à eficácia da lei no tempo e no espaço, prevê o nosso ordenamento jurídico que:
I. salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país 45 dias depois de oficialmente publicada.
II. em se tratando de sentença arbitral estrangeira, tem sua eficácia plena assegurada após a sua homologação pelo Supremo Tribunal Federal ou conclusão de processo legislativo e promulgação pelo Presidente do Senado Federal. III. nos estados estrangeiros, a obrigatoriedade da lei brasileira, quando admitida, se inicia três meses após oficialmente
publicada.
IV. a lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes, não revoga nem modifica a lei anterior.
V. aplicar-se-á a lei do país em que for domiciliado o proprietário, quanto aos bens móveis que ele trouxer ou se destinarem a transportes para outros lugares.
Assinale a alternativa correta:
a) As alternativas II e V estão incorretas e as alternativas I, III e IV estão corretas. b) Apenas a alternativa V está incorreta e as alternativas I, II, III e IV estão corretas. c) Apenas a alternativa II está incorreta e as alternativas I, III, IV e V estão corretas. d) Todas as alternativas estão incorretas.
e) Todas as alternativas estão corretas. Resposta: “c”.
3. (MPT — 2008) Analise as assertivas abaixo:
I. entre as várias formas de interpretação da norma de Direito do Trabalho, incluem-se a teleológica ou finalística segundo a qual a interpretação será dada ao dispositivo legal de acordo com o fim visado pelo legislador;
II. a Consolidação das Leis do Trabalho trata da integração jurídica da norma, pois autoriza o juiz, na falta de expressa disposição legal ou convencional, a utilizar a analogia ou a equidade;
III. de acordo com a Constituição Federal, as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais de expressão não têm aplicação imediata;
IV. em relação à eficácia no espaço da norma trabalhista, a jurisprudência consolidada do Tribunal Superior do Trabalho adota o critério da territorialidade (ou da Lex loci executionis), segundo o qual a relação jurídica trabalhista é regida pelas leis vigentes no país da prestação do serviço e não por aquelas do local da contratação.
De acordo com as assertivas acima, é CORRETO afirmar que: a) todas as assertivas estão corretas;
b) todas as assertivas estão incorretas;
c) apenas as assertivas II e IV estão corretas; d) apenas a assertiva III está incorreta;
e) não respondida.
razão pela qual o gabarito oficial está desatualizado. Assim, somente as assertivas I e II estão corretas. As assertivas III e IV estão incorretas.
4. (MPT — 2008) Assinale a alternativa INCORRETA:
a) o Direito do Trabalho não admite a renúncia, pelo trabalhador, antes, durante e após o rompimento do contrato de trabalho;
b) somente será passível de transação lícita parcela juridicamente não acobertada por indisponibilidade absoluta, independentemente do respeito aos demais requisitos jurídico-formais do ato;
c) de acordo com o entendimento uniforme do Tribunal Superior do Trabalho, o direito ao aviso prévio é irrenunciável pelo empregado. O pedido de dispensa de cumprimento não exime o empregador de pagar o respectivo valor, salvo comprovação de haver o prestador dos serviços obtido novo emprego;
d) de acordo com orientação jurisprudencial do Tribunal Superior do Trabalho, a transação extrajudicial que importa rescisão do contrato de trabalho ante a adesão do empregado a plano de demissão voluntária implica quitação exclusivamente das parcelas e valores constantes do recibo;
e) não respondida. Resposta: “a”.
5. (MPT — 2006) Em relação à indisponibilidade e flexibilização das normas trabalhistas:
I. a anotação do contrato de trabalho na Carteira de Trabalho e Previdência Social é exemplo de norma de natureza dispositiva;
II. a primazia dos preceitos de ordem pública na formação do conteúdo do contrato de trabalho está expressamente enunciada na lei;
III. a flexibilização é uma fenda no princípio da inderrogabilidade das normas de proteção ao trabalho, admitida nos limites do sistema jurídico nacional traçado na Constituição Federal;
IV. a transação e a renúncia são institutos incompatíveis com o Direito do Trabalho, sendo vedadas pelo sistema juslaboral.
Analisando as asserções acima, pode-se afirmar que: a) todas as afirmativas estão corretas;
b) apenas as afirmativas I, II e III estão corretas; c) apenas as afirmativas II e III estão corretas; d) apenas a afirmativa I está incorreta;
e) não respondida. Resposta: “c”.
[1] A este respeito, vide DINIZ, Maria Helena. Compêndio de introdução à ciência do direito. 7. ed. atual. São Paulo: Saraiva, 1995. p. 401-406.
[2] “Art. 4º Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito.” “Art. 5º Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.”
[3] DINIZ, Maria Helena. Compêndio de introdução à ciência do direito, p. 417-418.
[4] Conforme exposto no item 2.1 do presente capítulo, os princípios têm as seguintes funções: a) informadora; b) normativa; e c) interpretativa. É a função normativa dos princípios que abrange sua caracterização como meios de integração de direito.
[5] DINIZ, Maria Helena. Compêndio de introdução à ciência do direito, p. 428-429.
[6] DINIZ, Maria Helena. Compêndio de introdução à ciência do direito, p. 429-430.
[7] NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Teoria geral do direito do trabalho, p. 96.
[8]Hermenêutica é a teoria científica da arte de interpretar. A hermenêutica jurídica tem por objeto o estudo e a sistematização dos processos aplicáveis para determinar o sentido e o alcance das expressões do Direito. Para um estudo mais profundo da hermenêutica,
vide MAXIMILIANO, Carlos. Hermenêutica e aplicação do direito. 19. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2002.
[9] Amauri Mascaro Nascimento esclarece que os fundamentos da Escola Histórica de interpretação do direito são encontrados nas ideias difundidas por Savigny, para quem o direito é um produto da história, surgindo da consciência do povo, desenvolvendo-se com o povo e modificando-se conforme se modifiquem os costumes. NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho , 24. ed., p. 356.
[10] SÜSSEKIND, Arnaldo et al. Instituições de direito do trabalho, 22. ed., p. 194.
[11] NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho, 24. ed., p. 357.
[12] DINIZ, Maria Helena. Compêndio de introdução à ciência do direito, p. 390-391.
[13] NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho, 24. ed., p. 361-371.
[14] DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho, 9. ed., p. 226.
[15] A ultra-atividade das cláusulas de convenções e de acordos coletivos de trabalho pode seguir dois modelos distintos:
1 . ultra-atividade incondicionada: quando uma conquista dos trabalhadores por meio da negociação coletiva não pode ser jamais suprimida, incorporando-se definitivamente ao patrimônio dos trabalhadores;
2 . ultra-atividade condicionada: quando a ultra-atividade da cláusula resultante de negociação coletiva está condicionada à inexistência de norma coletiva posterior que a revogue, ou seja, a cláusula normativa pode ser suprimida ou ter seu alcance reduzido mediante norma coletiva superveniente, deixando a previsão de incidir sobre os contratos individuais de trabalho quando isso ocorrer.
[16] SÜSSEKIND, Arnaldo et al. Instituições de direito do trabalho, 22. ed., v. 1, p. 173.
[17] NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho, 24. ed., p. 309-310.
[18] DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho, 9. ed., p. 186.
[19] Ressalte-se que o art. 841 do Código Civil de 2002 permite a transação apenas em relação a direitos patrimoniais privados, o que leva à conclusão de que a transação não é válida quando se referir a controvérsia decorrente de norma de ordem pública.
[20] SÜSSEKIND, Arnaldo et al. Instituições de direito do trabalho, 22. ed., v. 1, p. 213-214.
[21] O art. 831 da CLT dispõe que o termo de conciliação firmado na Justiça do Trabalho tem validade de decisão irrecorrível.
[22] NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Teoria geral do direito do trabalho, p. 37.
[23] SÜSSEKIND, Arnaldo et al. Instituições de direito do trabalho, 22. ed., v. 1, p. 206.
[24] SÜSSEKIND, Arnaldo et al. Instituições de direito do trabalho, 22. ed., v. 1, p. 208.
[25] SÜSSEKIND, Arnaldo. Direito internacional do trabalho. 3. ed. atual. São Paulo: LTr, 2000. p. 33.
[26] SÜSSEKIND, Arnaldo. Direito internacional do trabalho, p. 33.
[27] SÜSSEKIND, Arnaldo. Direito internacional do trabalho, p. 47.
[28] Tradução livre de texto do Tratado de Versalhes.
[29] As Convenções fundamentais são as seguintes: Convenção n. 87 (sobre a liberdade sindical e a proteção do direito de sindicalização); Convenção n. 98 (sobre o direito de sindicalização e de negociação coletiva); Convenção n. 29 (sobre trabalho forçado); Convenção n. 105 (sobre abolição do trabalho forçado); Convenção n. 138 (sobre idade mínima); Convenção n. 182 (sobre as piores formas de trabalho infantil); Convenção n. 100 (sobre igualdade de remuneração); e Convenção n. 111 (sobre emprego e ocupação).