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O público dos documentários nacionais x estrangeiros (2009-2016)

CAPÍTULO II – O documentário brasileiro, uma análise dos dados estatísticos do mercado

2.2 O documentário nacional na sala de cinema: uma radiografia do setor

2.2.3. O resultado desta produção nas salas de cinema

2.2.3.4. O público dos documentários nacionais x estrangeiros (2009-2016)

Embora haja um número maior de lançamentos de documentários nacionais no mercado brasileiro de salas em relação ao documentário estrangeiro, este obtém um público superior. A média de público por filme no período estudado (2009-2016)85 no caso nacional é de 7 mil espectador por filme e, no caso estrangeiro 28 mil. Isso mostra que mesmo havendo mais lançamentos, o público do documentário nacional segue baixo relativamente ao número de lançamentos estrangeiros. No entanto, não podemos deixar de considerar que sempre que tratamos de distribuição precisamos levar em consideração um conjunto de fatores, como o orçamento do filme, número de cópias, quantidade de salas em que ele conseguiu ser exibido, tempo em cartaz para, então, poder melhor mensurar seu “sucesso” ou “fracasso”. No próximo gráfico poderemos verificar a comparação entre o público dos lançamentos.

85 Neste caso, o período estudado ficou significativamente reduzido por limitações dos dados relativos aos filmes estrangeiros.

Gráfico 14 – Público de documentários brasileiros e estrangeiros (2009-2016)

De imediato, vemos que no ano de 2009 tivemos a maior média de público referente aos lançamentos de documentários internacionais: 18 filmes, com uma média de público de 54 mil espectadores por produção. No entanto, essa média pode passar uma ideia equivocada se ela não for contextualizada com o maior sucesso de todo o período analisado. Ela foi alta basicamente em função do lançamento do documentário Michael Jackson's This is it (2009), com público de 712 mil espectadores. Este filme foi lançado no ano da morte do cantor, um dos mais venerados da atualidade. Acrescenta-se o sucesso o fato de ter sido um grande lançamento, tendo sido distribuído em 231 salas e pela major Sony. Neste ano, os documentários brasileiros tiveram 39 lançamentos, com uma média de 10 mil por filme. 2009 foi um ano em que tanto nos filmes estrangeiros como nos nacionais o tema da música prevaleceu.

No ano seguinte, outro documentário sobre música foi o mais assistido no país, Uma noite em 67 (2010). Foi lançado pela Videofilmes em 26 salas e obteve um público de 82 mil espectadores. No cenário do filme estrangeiro, o campeão de bilheterias foi Senna (2010), filme inglês lançado pela Universal que obteve 216 mil espectadores. É interessante verificar que no ano de 2010 encontramos os públicos de documentários nacionais e estrangeiros praticamente emparelhados, sendo, no caso do brasileiro, um total de 260 mil espectadores e

Fonte: OCA/Ancine. Elaboração: autora.

2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 0 100.000 200.000 300.000 400.000 500.000 600.000 700.000 800.000 900.000 1.000.000 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%

Público de documentários nacionais Público de documentários internacionais Market share de documentários brasileiros

M ar k et s h ar e d e d oc u m en ri os n ac io n ai s

no do estrangeiro 283 mil. No entanto, se analisarmos a média de público por filme, esta será bem diferente: 8 mil espectadores por filme no caso brasileiro (31 documentários lançados) e 21 mil por filmes no caso estrangeiro (13 documentários lançados). Isso mostra a importância de relacionarmos o público total do ano, mas também a média de público dos filmes, a fim de traçar uma análise mais completa do setor: seja por conta de um tema mais comercial, de uma estratégia de publicidade mais custosa, ou de mais investimento em cópias, os documentários estrangeiros conseguiram mais visibilidade.

Em 2011, foram lançados 15 documentários estrangeiros que fizeram um público de 611 mil espectadores. O maior êxito de bilheteria foi o filme Justin Bieber: never say never (2011), lançado pela Paramount, que obteve um público de 447 mil espectadores, sendo mais um exemplo de filme de sucesso de uma personalidade do universo da música pop atual.

Quanto a 2015, último ano que nos importa comentar, fica evidente, pelo gráfico, que foi um período em que o público total de documentários nacionais foi superior ao de documentários estrangeiros: 525 mil espectadores contra 212 mil. O amplo público da produção nacional resulta de um conjunto substancial de lançamentos, 50 filmes, contra 16 estrangeiros. Nesse ano, podemos citar duas coproduções, o que é pouco usual no caso do documentário nacional, e que tiveram uma boa resposta do público. O primeiro exemplo foi o filme Sal da Terra (2015 – Brasil, França e Itália) distribuído pela Imovision86, sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, que obteve 138 mil espectadores. O fato de ele ter sido o indicado ao Oscar de melhor documentário nesse ano colaborou com o êxito, além de uma codireção de Juliano Salgado, filho do fotógrafo, com o consagrado documentarista Wim Wenders. O outro exemplo é o Olmo e a Gaivota (2015 – Brasil, Dinamarca, França, Portugal e Suécia), dirigido por Petra Costa, que obteve 30 mil espectadores, lançado em 26 salas e distribuído pela Pandora.87 Ainda podemos trazer os exemplos das temáticas do esporte e da música para os sucessos desse ano. O filme Cassia Eller, sobre a cantora, atingiu 75 mil

86 Imovision é uma distribuidora fundada pelo francês Jean Thomas Bernardini, que também é o proprietário das salas de cinema Reserva Cultural em São Paulo e Reserva Cultural em Niterói no Rio de Janeiro. A Imovision é uma distribuidora nacional especializada em filmes franceses, mas também distribui filmes nacionais independentes e documentários como: Doutores da Alegria (2005), O engenho de Zé Lins (2007),

Cidadão Boilesen (2009), Alô alô, Terezinha!,Prisioneiro da Grade de Ferro (2004), entre outros.

87 A distribuidora Pandora Filmes foi criada por André Sturm em 1989 e distribuiu documentários como: - O

Cárcere e a rua (2005); Samba riachão (2004)e Dom Hélder Câmara – O santo rebelde (2006). André Sturm é o

atual secretário municipal de cultura de São Paulo, já acumulou várias funções no setor como diretor do Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS), exibidor responsável pelo circuito Belas Artes, e presidente do Sindicato da Indústria Cinematográfica do Estado de São Paulo (Sicesp).

espectadores, lançado em 47 salas pela H2O Filme88; Chico – Artista brasileiro (2015), que alcançou 126 mil espectadores, lançado em 52 salas pela Sony;89 e O dia do Galo (2015), sobre o clube atlético Mineiro, com 30 mil espectadores, distribuído pela mineira Delícia filmes em 13 salas.