II. O futuro impensável: imaginando o futuro deformado
II.1. a O problema presente I: a revisão da defesa dos EUA
O OTW, o TATU e o OE têm diversas linhas de argumentos, grande parte delas dando suporte a uma grande revisão na defesa dos EUA, principalmente no campo de defesa civil (DC). A DC nasceu do medo das bombas, que mostraram como cidades poderiam ser destruídas sem o menor aviso; elas ensinaram que as cidades precisavam de proteção. Com isso, esforços nesse sentido iniciaram, nos EUA, ao longo dos anos 50, também com o advento de outras tecnologias, como a bomba termonuclear e os mísseis intercontinentais, principalmente os soviéticos. A defesa civil, para Kahn, fazia parte da postura de defesa dos EUA, funcionando como uma alternativa à falha da dissuasão.17
Para Kahn, as forças militares tinham como principal objetivo evitar que guerras nucleares acontecessem, garantindo a estabilidade militar, algo essencial para a segurança nacional. Kahn entendia que essa estabilidade consistia em não alterar o status quo pelo uso ou pela ameaça de uso do poder militar. Caso isso falhasse, era possível que o inimigo atacasse em três frentes: alvos militares, população ou potencial de recuperação. Conforme Kahn, os trabalhos da RAND focavam os dois primeiros pontos.18
Com a SA, Kahn trabalhou, aprendeu e expôs exemplos da proteção e de defesa de alvos militares atrelado aos efeitos de ataques atômicos e da radiação. Ao trabalhar com as
16 KAHN, H., 1971, p. 21; “better no thought than evil thought” KAHN, H., 1962, p. 23; KAHN, H., 1971, p.
21-22; KAHN, H., 1962, p. 23-24; KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p. 523; KAHN, H. A escalada, 1969, p. 313-314, 305-306; KAHN, H., 1968, p 167-168, 202; GHAMARI-TABRIZI, S., 2005, p. 219-220.
17 GHAMARI-TABRIZI, S., 2005, p.49, 185. Não entraremos em detalhes em cada uma das posturas, Cf
KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p. 4-39. SPINGARN, Jerome. Picking Up The Pieces. New York Times. ProQuest Historical Newspapers: Jan 1, 1961, p. br3; LASCH, C., 1961; GELLNER, John. On Thermonuclear War by Herman Kahn Review. International Journal, Vol. 16, No. 4 (Autumn, 1961), pp. 420-421; GREENE, F. (1961). Beyond the Balance of Terror. New Republic, 144(9), 16-18; GRAEBNER, Norman A. On Thermonuclear War by Herman Kahn Review. Annals of the American Academy of Political and Social Science, Vol. 337, Meeting Health Needs by Social Action (Sep., 1961), pp. 161-162.
18 KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p. 96, 531, 88; KAHN, H. A escalada, 1969. p. 256-257; KAHN,
questões concernentes ao ataque de alvos militares pelo viés da análise de sistemas, Kahn se aproximou da segunda forma possível de ataque, ou seja, seus trabalhos também se direcionaram para a temática da proteção da população, que era a defesa civil. Em 1956, já bem estabelecido na RAND, casado e com uma filha pequena, Kahn foi indicado para liderar uma equipe de estudos sobre o tema e em 1957 realizou seu primeiro briefing sobre o assunto. A preocupação com a defesa civil nos EUA já se iniciara durante a II Guerra, a partir do contato com o sistema inglês, que era descentralizado e formado por cidadãos. Ela tornou-se objeto de atenção especial, nos EUA, desde o governo Truman.19
Porém, antes de entrar na defesa civil, cabe comentar a interpretação de Kahn sobre a defesa dos EUA. Ele define a postura dos EUA entre a Dissuasão Finita (Finite Deterrence) e uma Força Contrária como Segurança (Counterforce as Insurance). A Dissuasão Finita era a política que buscava uma retaliação como punição a uma provocação soviética e não apresentava pretensões estratégicas além dessa. A Dissuasão Finita acreditava que essa situação deveria ser conquistada, construída como política de dissuasão. Uma vez alcançada a habilidade de dano capaz de deter o inimigo, estaria constituída a força suficiente. A Dissuasão Finita se assentava, assim, na crença no homicídio mútuo.20
A crença no homicídio mútuo fora explicada por Kahn em uma entrevista em 1961, ao dizer que seus defensores pensavam que os estadunidenses, ao usar as armas, “são como abelhas. Uma vez que ferroam, morrem”21. Essa mentalidade se iniciou quando a URSS desenvolveu também suas armas atômicas. Surgiu, então, nos EUA, a ideia de um equilíbrio de terror automático, simétrico e confiável, que constituiu a ideia de homicídio mútuo, ou seja, a crença na qual o uso das armas atômicas levaria a uma aniquilação recíproca e, por isso, existiria a dissuasão do uso delas.22
O problema, para Kahn, da crença no homicídio mútuo e na Dissuasão Finita era considerar os efeitos nocivos da guerra como fator que a impediria, sem encarar, no entanto, os efeitos da guerra caso ela acontecesse e como se preparar contra eles. No caso particular da Dissuasão Finita, Kahn acreditava que ela também poderia ou levar a uma degradação das capacidades militares do Ocidente, não criando um sistema de armas com capacidade de dano suficiente, ou concretizar um sistema de armas que fosse demasiadamente agressivo e destrutivo, podendo acabar com o inimigo em uma retaliação. Como Ghamari-Tabrizi expôs,
19 BRUCE-BRIGGS, B., 2000, p. 53-56; GHAMARI-TABRIZI, S., 2005, p. 194; GROSSMAN, Andrew.
Neither dead nor red. New York: Routledge, 2001, p. 1-3
20 KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p.39, 13, 15.
21 “we are like bees. Once they sting, they die” (tradução nossa).RINGS of Bomb Shelters Urged by Physicist.
Los Angeles Times. ProQuest Historical Newspapers, Feb 8, 1961, p.25.
a defesa de Kahn pela dissuasão passava pela ideia de que “para parecer disposto a lutar uma guerra nuclear, você deve estar disposto a lutar uma guerra nuclear”.23
Para alcançar esses objetivos, Kahn defendia a necessidade de pensar a guerra detalhadamente, realisticamente e, inclusive, como um meio de negociação. A análise da guerra e a sua exposição, em si, já eram um elemento de dissuasão, uma vez que, conforme Kahn, poderia ser fatal para o mundo livre permitir que a URSS confiasse em sua força de dissuasão, evitando, com isso, qualquer ameaça dos EUA contra eles, independentemente do que eles fizessem. Portanto, pensar a guerra e expor isso era uma forma de alertar a URSS que os EUA estavam preparados.24
Kahn identificava no governo dos EUA também aqueles que acreditavam que só a garantia do homicídio mútuo não era suficiente, já que uma guerra nuclear poderia acontecer, mesmo que por engano. Nesse sentido, uma Força Contrária como Segurança era importante. Kahn a entende como tudo aquilo que age contra a efetividade ou o uso da força inimiga. Por exemplo: contra um míssil invisível, um abrigo; contra a destruição de cidades, ameaças de retaliação.25
Para Kahn, era preciso ir além e criar uma Capacidade de Primeiro Ataque Crível (Credible First Strike Capability). Essa capacidade serviria para induzir a incerteza no inimigo de que, se ele provocasse, ou atacasse, em resposta, haveria um ataque devastador e sem chances de tréplica. Essa capacidade evitaria que os EUA enfrentassem questões como: “Se 180 milhões de mortes é um preço muito alto a se pagar para punir os soviéticos por uma agressão deles, qual preço nós estaríamos dispostos a pagar?”26. Mais do que uma capacidade real, a intenção por trás dessa força era também dissuasiva.27
O primeiro ataque, uma possível retaliação contra um primeiro ataque inimigo e a segurança contra a retaliação do inimigo se assentaria sobre uma Base de Mobilização Pré- ataque. Essa base de mobilização decorreria da própria atividade e investimento em R&D e seria ou a capacidade já organizada e pronta antes de um suposto conflito ou a capacidade a ser mobilizada após uma declaração de guerra, como, por exemplo, aumentar rapidamente o
23 “Kahn insisted that in order to look willing to fight a nuclear war, you had to be willing to fight a nuclear war”
(tradução nossa). GHAMARI-TABRIZI, S., 2005, p. 217-218; KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p. 63, 225.
24 KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p.97; KAHN, H., 1962, p. 15-16, 21-23, 35-36, 106-108; KAHN,
H., 1971, p. 19-21, 23-24, 35-36, 117-199. É interessante percebermos que parte substancial da defesa por pensar a guerra é feita no TATU, ou seja, o livro posterior ao OTW. Essa defesa é uma resposta às críticas sofridas por Kahn no lançamento do primeiro livro, justamente por apresentar a guerra com detalhes.
25 KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p.16-19.
26 “If 180 million dead is too high a price to pay for punishing the soviet for their aggression, what price would
we be willing to pay”? (tradução nossa) KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p.29.
efetivo para lutar – ou ameaçar lutar – tanto uma guerra limitada quanto uma guerra total. Ela possuía, portanto, um aspecto dissuasivo, já que seria uma capacidade de retaliação contra um primeiro ataque do inimigo. Ela também foi defendida por Kahn para desempenhar a função de limitadora dos danos sofridos. Portanto, essa capacidade era a fase final do jogo de dissuasão, quando surgiriam esforços para pensar como fortalecer o abrigo e melhorar as dinamites.28
Para Kahn, a Guerra da Coreia fora um fator positivo para mostrar a capacidade da mobilização dos EUA. Ao longo do mês de Junho de 1950, portanto, antes da Guerra da Coreia, Kahn expõe que ocorreu um grande debate sobre se o orçamento de defesa dos EUA deveria ser de quatorze, quinze ou dezesseis bilhões de dólares. Contudo, com a eclosão da guerra, em 25 de Junho, o Congresso aprovou um orçamento de sessenta bilhões. Isso, para Kahn, representou uma enorme derrota militar da URSS, independente dos sucessos comunistas, uma vez que demonstrou a capacidade dos EUA em aumentar sua força rapidamente.29
Portanto, para Kahn, essa era uma característica dos EUA, ou seja, conseguir mobilizar muito dinheiro rapidamente, principalmente por ser um país rico e bem-educado. Essas condições, para Kahn, dificultariam, no caso de um ataque, que o país voltasse a uma condição econômica igual a anterior à I Guerra ou à II Guerra. Um exemplo dessa mobilização rápida, para ele, resultara da própria pressão do ataque sobre a Coreia, que foi motivada, segundo Kahn, por uma crença disseminada nos círculos governamentais de que a III Guerra estava a caminho. Tão logo a guerra contra a Coreia acabou e, junto dela, o medo de uma guerra total, a pressão para reduzir orçamento aumentou. Contra essa situação, Kahn defendia uma disposição dos EUA aos investimentos em defesa e no campo militar conforme um planejamento econômico ajustado às necessidades militares, principalmente de prevenção. Nesse sentido, defendia estudos que decidissem quais setores deveriam ser encorajados e que compromissos deveriam ser feitos para tornar a economia militarmente forte.30
A Guerra da Coreia, conforme Kahn, também mostrou que uma guerra podia ser lutada de forma limitada e racional, mesmo com a existência de armas nucleares. Nesse sentido, Kahn estabelecia uma importante diferenciação estratégica. Historicamente, ele aponta que as guerras, em grande parte das vezes, possuíam um objetivo definido e limitado,
28 KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p.39, 25; KAHN, H. A escalada, 1969, p. 248, 243; KAHN, H.,
1968, p.156-157, 153; GHAMARI-TABRIZI, S., 2005, p. 214.
29 KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p. 219, 536; KAHN, H., 1962, p. 206, KAHN, H., 1971, p.233-
234; KAHN, H. A escalada, 1969, p. 142, 260-261 , KAHN, H., 1968, p.83-84, 165-166.
30 KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p.221, 536, 91; GHAMARI-TABRIZI, S., 2005, p. 27, 536, 547-
como a conquista de um determinado território, por exemplo, e um emprego comedido dos recursos. Contudo, a tecnologia recente permitiu que as nações lutassem guerras inéditas em seu descontrole e falta de objetivos limitados. Um exemplo disso foram as duas Guerras Mundiais, cujo único objetivo, para Kahn, parecia ser a destruição total da capacidade bélica do inimigo para, então, alcançar a paz. Essa ausência de objetivos limitados, somada a uma mobilização de todos os recursos e aliada com a morte indiscriminada de civis indicaria a guerra total. Para Kahn, a guerra da Coreia foi limitada e racional, ou seja, aquela na qual a força é usada de forma racional para se atingir fins ou objetivos específicos. Por isso, Kahn defende insistentemente importância de pensamento e da análise da guerra de forma detalhada e sistêmica, permitindo que guerras nucleares sejam lutadas limitada e racionalmente.31
Com o conjunto de medidas e posturas proposto, Kahn intentava constituir a estabilidade. O sistema de segurança, de acordo com essa visão, deveria ou reduzir as possibilidades de guerra por erro, de alarme falso, de conduta imprópria ou não autorizada, entre outras, ou reduzir a chance que tais eventos levassem à guerra. Era a criação de mecanismos para atenuar os latidos do cachorro ou as crianças roubando frutas na árvore. Um dos meios para isso era dar tempo para a decisão, tirando a celeridade da necessidade delas, principalmente em contextos ambíguos, uma vez que “são as decisões, e não os incidentes, que causam as guerras”32. Isso passava também por torná-las mais centralizadas.33
Outro paliativo para as crises era, para Kahn, a aparência dos EUA frente aos inimigos. Para ele, o país não poderia parecer ameaçador, nem passível de falhas, caso contrário poderia criar uma sensação de insegurança e ansiedades, as quais poderiam culminar em reações drásticas. Em contrapartida, o inimigo também não poderia se sentir seguro. Assim, as ameaças deveriam ter um papel de “morde-e-assopra”, ou seja, deveriam existir, mas sem serem excessivas ou desnecessárias. Era uma mistura de Capacidade de Primeiro Ataque Crível e Força Contrária como Segurança, ou seja, a resposta ao ataque era importante, evitando, assim, o primeiro ataque, pois, caso o inimigo tivesse a iniciativa, arrepender-se-ia, mesmo se vencesse a guerra. Essa postura também poderia evitar a ameaça do ataque que, como resposta, poderia gerar um ataque de fato. É inegável o elemento
31 KAHN, H., 1971, p.77-80; KAHN, H., 1962, p. 72-74; KAHN, H. A escalada, 1969, p.280-281, 455-458;
KAHN, H., 1968, p. 179, 298-299; KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p. 418.
32 KAHN, H., 1971, p.133, “it is decisions, not incidentes, that cause war” KAHN, H., 1962, p. 120. 33 KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p. 26; KAHN, H., 1971, p.133; KAHN, H., 1962, p. 120. Essa
medida de centralização visava evitar episódios como o do filme Dr. Fantástico, quando um oficial perturbado do exército realizou o ataque contra a URSS. Enredo, esse, retirado do livro Red Alert. Inclusive, Kahn foi consultado por Kubrick enquanto elaborava o filme e, segundo alguns, o personagem do cientista que desenvolveu a bomba fora inspirado parcialmente em Kahn. STEVENSON, J. 2008, p. 88-90; GHAMARI- TABRIZI, S., 2005, p. 275-278, BRUCE-BRIGGS, B., 2000, p. 183-185.
dissuasivo nessa proposta, uma vez que mostrava aos adversários e aos EUA e seus aliados que eles não seriam destruídos. Todavia, para Kahn, a opção dos EUA pela coexistência, por mais que representasse algumas perdas competitivas pequenas, em contrapartida, representava um aumento da estabilidade e evitava perdas futuras gigantescas, que poderiam advir da corrida armamentista, que desenvolvia cada vez mais armas que eram, por sua vez, cada vez mais perigosas.34
Outro fator da preparação da dissuasão, segundo Kahn, era considerar seriamente as consequências do crescimento do poder soviético. Devido ao desconhecimento sobre os soviéticos, existiam diversas desconfianças sobre seu poder e sua capacidade. Kahn, por exemplo, cogitava a possibilidade da URSS estar desenvolvendo políticas de defesa civil, principalmente a respeito de abrigos. Portanto, grande parte do planejamento da defesa dos EUA levava em conta esse elemento do desconhecido sobre o inimigo. Era, inclusive, uma tática: aumentar o inimigo para justificar e moldar um aumento próprio. Isso fora percebido em Kahn também por Spingarn, que afirma que essa foi uma característica própria da Guerra Fria.35
No caso do relacionamento com pequenas potências inimigas, uma forma de dissuasão e punição cogitada por Kahn seria o uso de sanções militares e econômicas. Mas, algumas vezes, seria necessário o uso da força, pois, para Kahn, era difícil supor alcançar um mundo estável por meio de um acordo de controle de armas sem estar disposto a usar a violência para fazer cumprir tais acordos. Nesse sentido, cogitava o uso de violência ou de ameaça para que o acordo fosse aceito. Isso era, segundo ele, o oposto da posição pacifista. Portanto, era o uso de guerra menores para evitar a ocorrência de maiores, ainda mais em um mundo futuro delineado por Kahn, onde era possível que, no ano 2000, um número em torno de cinquenta nações tivessem sistemas de armas nucleares.36
É perceptível, na postura em relação às pequenas potências inimigas, uma relação com o exemplo real de Cuba. Todavia, na época do OTW, a crise dos mísseis não tinha ocorrido ainda e nem, portanto, o embargo. É possível cogitar que já existia, então, previamente, uma espécie de procedimento caso coisas assim acontecessem, uma vez que Kahn já antecipara essa possiblidade no OTW. No OE, um dos temas centrais – que retomaremos no próximo capítulo – é a escalada que, de forma geral, trataria do estudo e do controle das crises, a qual Kahn reconhece que foi motivada pelos acontecimentos na ilha, desde a revolução, até a crise
34 KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p.157-159, 243.
35 KAHN, H. On thermonuclear war, 1969, p.568-569, 99, 131; Cf GHAMARI-TABRIZI, S., 2005, p. 1-9;
SPINGARN, J. 1961.
dos mísseis. Com isso, Kahn acreditava ser possível usar as crises como catalizadoras para mudar governos e posturas, como meios manipuláveis para atingir certos interesses nacionais e mundiais.37
Kahn também reconhecia a importância do aspecto psicológico na guerra e, principalmente, na dissuasão. Para Kahn, a ênfase no aspecto psicológico era algo próprio dos tempos de paz, que ele sintetiza na frase “nós estamos trabalhando sobre sua mente, assim como sobre seu corpo”38, na qual, “seu” (corpo ou mente) é o inimigo, mas poderia ser todo o contexto internacional. Por isso, para ele, era importante distinguir os diferentes tipos de deterrence, que passava por reconhecer as próprias alternativas em comparação com as alternativas do adversário. Para Kahn, alcançar uma dissuasão confiável era muito mais difícil do que se supunha no passado e a qualidade da dissuasão poderia fazer grande diferença na posição e na política. Nesse sentido, Kahn questiona se a deterrence dos EUA era tão poderosa a ponto de resistir a todos os estresses, tensões e mudanças repentinas e inesperadas da Guerra Fria. Para Kahn, a dissuasão americana deveria fazer os soviéticos crerem que um ataque representaria um grande risco de destruição da sociedade civil soviética e de suas forças militares. A base para essa crença seria a Capacidade de Mobilização Pré-Ataque.39
Parte da defesa da dissuasão de Kahn passava pela mobilização dos cidadãos durante o período de paz. Esse seria o ponto de partida para a mobilização pré-ataque e para a reconstrução do país. Por isso, parte de seu trabalho e análise é dedicada à defesa civil.