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3 O que torna um patrimônio, Patrimônio? – o caso do Carnaval de Barranquilla

3.7 Plano Especial de Salvaguarda: um exercício inclusivo e democrático

3.7.1 Resultados do Plano Especial de Salvaguarda

O impacto do PES na comunidade carnavalesca e na própria sociedade barranquilhense é inquestionável. Certamente a sensibilização de todos os envolvidos sobre a importância estrutural que essa festa e as suas manifestações culturais tradicionais têm na vida cotidiana de toda a região do Caribe colombiano foi resultado de um processo de construção essencialmente coletivo. Esse é o ponto de maior relevância deste documento, é o que lhe garante legitimidade e representatividade entre toda a comunidade dos atores carnavalescos.

Em apenas quatro anos de existência, o PES já acumula resultados bastante positivos, o que sinaliza para um futuro otimista no que diz respeito à sustentabilidade da festa e de tudo que lhe sustenta simbólica e materialmente. O fato de ser um documento recente e ainda em bastante evidência somado a um contexto de mais facilidade no acesso à informação, nos garantiu condições

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suficientes para monitorar o andamento das ações e dos debates em torno deste documento nos últimos anos. Na sequência apresentamos um levantamento com os seus avanços mais representativos.

Dentre as oito linhas de ação, a que mais apresenta avanços é, também, a que mais contou com propostas de ações e projetos, a de “Sustentabilidade social e viabilidade econômica da festa”. É possível afirmar que os programas de incentivo financeiro para os operadores da festa e para os atores carnavalescos e seus grupos tradicionais foram acentuadamente fortalecidos depois da aprovação do PES – tanto no nível departamental quanto no municipal.

O Departamento do Atlântico, compreendendo que a maioria das manifestações que se apresentam no Carnaval de Barranquilla são oriundas de vários dos seus municípios, passou a priorizar o apoio de propostas que dinamizem estes pontos de origem das manifestações80. Este entendimento atende, inclusive, a primeira linha de ação do PES, que objetiva uma articulação e integração regional para que a declaratória patrimonial tenha seu alcance ampliado para toda a região do Caribe Colombiano.

A Prefeitura de Barranquilla, através da sua Secretaria de Cultura, Patrimônio e Turismo, conta, hoje, com as duas linhas de fomento mais importantes da festa – a “Operadores do Carnaval”, que fortalece organizações que atuam na divulgação, investigação e operação de atividades do carnaval; e a “Hacedores do Carnaval”, que tem como objetivo fortalecer a participação dos portadores, hacedores e artistas nos eventos do carnaval81. A institucionalização destes programas de incentivo através do Acordo 007 de 2013 consolidou a regulação da distribuição dos recursos públicos para os atores do Carnaval, transformando o benefício em política pública e garantindo, com isso, o compromisso da instância municipal com a continuidade destes mecanismos de apoio. A diretora da Carnaval S.A., Carla Célia, apresenta dados que confirmam o fortalecimento destas medidas a partir da aprovação do PES.

80 Chamadas públicas do Departamento do Atlântico disponíveis em

http://www.atlantico.gov.co/index.php/secretarias/culturapatrimonio. Acesso em 19 fev. de 2019.

81 Chamadas públicas da Secretaria de Cultura, Patrimônio e Turismo de Barranquilla

disponíveis em https://www.barranquilla.gov.co/cultura/portafolio-de-estimulos. Acesso em 19 fev. de 2019.

181 Através do Portfólio de Estímulos, o Distrito de Barranquilla entregou cerca de 5.000 millones de pesos aos operadores, organizações e

hacedores do Carnaval de Barranquilla em 2019.

Para este ano, foram entregues 3.446 millones de pesos para os operadores e as organizações, enquanto que em 2018 o investimento alcançou os 2.260 millones de pesos. Quanto aos hacedores, foram desembolsados 1.332 millones, enquanto que no ano anterior o montante foi de 1.147 millones.

Durante os últimos quatro anos, a administração investiu 15.000

millones de pesos no Portfólio de Estímulos. (Carla Celia Martínez-

Aparicio, informação verbal, 2019)

Apesar de terem democratizado e dignificado a entrega de recursos públicos, Edgar Blanco lembra que a distribuição entre os operadores (aqueles que realizam eventos no período carnavalesco) ainda carece de ser discutida e equilibrada. Em sua opinião,

[...] há uma grande brecha com relação aos recursos – nós, com 10% do que maneja a Carnaval S.A., fazemos cinco/seis eventos; eles gastam muito dinheiro nos seus eventos do carnaval e por tudo cobram, então existe muita diferença nesse tema dos recursos. (informação verbal, 2019)

Continuando no âmbito do fomento, a empresa Carnaval S.A., além de maior operadora da festa, também assume o papel de apoiar financeiramente os atores e suas manifestações culturais através de convocatórias abertas anualmente para esta finalidade. Diferente das instâncias departamental e municipal, os recursos que a Carnaval S.A. movimenta vêm da iniciativa privada. Depois da aprovação do PES a empresa vem protagonizando iniciativas importantes e respondendo positivamente alguns dos pontos críticos levantados pelos atores sobre a sua gestão da festa.

Uma dessas iniciativas é o programa “Apoio ao Folclore”, que sensibiliza empresas sobre a importância das manifestações culturais tradicionais do carnaval, apresentando a estes parceiros potenciais a história e as contribuições sociais e culturais desses grupos. O objetivo é que estas empresas fortaleçam essas entidades através de apoio financeiro e com uma publicidade responsável do seu patrocínio – uma tentativa da Carnaval S.A. para frear a espetacularização e a publicidade invasiva. Para estas empresas foi criado, no ano de 2016, o programa “Carnaval 360: todos ganhamos”, um selo de reconhecimento de responsabilidade social e empresarial com as manifestações tradicionais do Carnaval.

Este programa faz parte do Plano Especial de Salvaguarda do Carnaval de Barranquilla em sua linha de “Sustentabilidade social e

182 viabilidade econômica”, implementado pela Carnaval S.A. através de marketing cultural para gerir recursos do setor privado e fortalecer o aporte econômico aos grupos folclóricos e hacedores da festa. Nos últimos três anos (2016-2018) mais de quinze grandes empresas do país participaram deste programa beneficiando a mais de 27 mil

hacedores, convertendo o Carnaval de Barranquilla no modelo

nacional de implementação do PES para garantia da sua sustentabilidade cultural como Patrimônio Cultural Imaterial da

Humanidade. (CARNAVAL S.A., web, sem data)82

Outro desdobramento do PES, o programa “Adote a Tradição” é uma iniciativa da Carnaval S.A. que busca, junto à iniciativa privada, apoio para que os grupos tradicionais de mais antiguidade tenham sua participação garantida na festa. O programa foi criado tendo em vista que muitos destes grupos apresentam um quadro de vulnerabilidade socioeconômica que representa um fator de risco para a manutenção das suas expressões patrimoniais. No ano de 2016, por exemplo, os grupos de dança Micos e Los Cabezones foram beneficiados com o financiamento do seu vestuário, adereços, acompanhamento musical e transporte. No ano de 2018, o programa focou seus esforços no fortalecimento das dez expressões carnavalescas com risco de extinção que foram identificadas no inventário de Mirtha Buelvas, resultado do PDS, em 2007. Essas ajudas complementam os apoios financeiros que recebem da Secretaria de Cultura, Patrimônio e Turismo e da empresa Carnaval S.A.83

Ainda dentro da linha “Sustentabilidade social e viabilidade econômica”, em 2016 a Secretaria de Cultura, Patrimônio e Turismo junto com a Carnaval S.A. promoveram um ciclo de conferências intitulado “Como financiar projetos culturais”, uma capacitação dirigida aos hacedores da festa sobre a oferta de fontes de apoio financeiro disponíveis para iniciativas culturais carnavalescas.84 Ainda, uma outra ação desta linha que já vem sendo trabalhada é a que diz respeito à regulação e o fortalecimento do setor dos músicos do Carnaval. Quanto a isso, a Secretaria de Cultura, Patrimônio e Turismo assinou um acordo (004/2015) que melhora as condições de participação de mais de dois mil músicos da cidade nas temporadas

82 Disponível em http://www.carnavaldebarranquilla.org/carnaval-de-barranquilla-presento-el-

programa-apoyo-al-folclor-para-empresarios/. Acesso em 23 fev. de 2019.

83 Disponível em https://www.carnavaldebarranquilla.org/apoyo-al-folclor-beneficia-a-13-mil-

hacedores-para-el-carnaval-2018/. Acesso em 22 fev. de 2019.

84 Disponível em http://www.carnavaldebarranquilla.org/noticias/gestionar-recursos-

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de pré-carnaval e carnaval. A Carnaval S.A. ficou encarregada de garantir a presença desses músicos na circulação e difusão dos diferentes eventos que compõe a programação da festa. (BARRANQUILLA, 2015)

Na terceira linha de ação, “Visibilização e Inclusão”, a distinção “Tesouros Humanos do Carnaval” está em funcionamento desde o ano de 2016 – além do reconhecimento pelo notório saber tradicional e pela contribuição feita ao carnaval, os escolhidos recebem um prêmio equivalente a vinte e cinco mil reais.

A linha de ação “Transmissão da tradição e formação de novas gerações” detém um dos mais destacados resultados do PES – o programa “El Viaje de

Carnaval”. Levado a cabo pela Carnaval S.A. com recursos da iniciativa privada,

este projeto pedagógico compartilhou a história e a simbologia da festa, bem como a apresentação das suas principais expressões e personagens culturais com aproximadamente 25 mil estudantes da educação básica de escolas públicas e privadas da cidade entre os anos de 2016 e 2018. Com o objetivo de incorporar os saberes relacionados ao carnaval na formação escolar das novas gerações, foram preparadas duas cartilhas didáticas – uma para os alunos e outra destinada aos professores. Para os alunos, a estratégia esteve baseada na leitura animada da cartilha com a apresentação lúdica de diferentes danças e músicas do carnaval. Para os professores foi oferecida uma capacitação à parte com sugestões pedagógicas para o uso do conteúdo da cartilha em diversas disciplinas.85

Outra ação bem-sucedida levada a cabo nesta linha foi o incremento, pela Secretaria de Cultura, Turismo e Patrimônio, de programas de formação continuada para a indústria criativa que se movimenta em torno do carnaval – dançarinos, músicos, artistas plásticos, cenógrafos, artesãos, costureiras etc. As atividades são oferecidas nas Casas Distritales de Cultura (CDC) e na Escuela Distrital de Arte y

Tradiciones Populares (EDA) e são alvo de um aumento gradativo na oferta de

cursos e vagas. Segundo dados da Secretaria de Cultura, Turismo e Patrimônio já foram formadas quase cinco mil pessoas da indústria criativa do carnaval nestes

85 Disponível em https://www.carnavaldebarranquilla.org/con-nuevos-personajes-arranca-

tercer-vuelo-de-el-viaje-del-carnaval/ e em http://www.carnavaldebarranquilla.org/con-mas- de-9-mil-estudiantes-el-viaje-del-carnaval-emprende-su-segundo-vuelo/. Acesso em 27 fev. de 2019.

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dois espaços. A oferta de programas relacionados às atividades carnavalescas nas CDC, por exemplo, passou de 75 em 2015, para 122 em 201686.

A linha de ação “Comunicação e divulgação com sentido patrimonial” é fomentada continuamente através do Premio de Periodismo Ernesto McCausland

Sojo que, em 2019, completou sua sétima edição e segue com grande adesão entre

os meios de comunicação e os jornalistas independentes. Ainda nesta linha, uma ação pontual importante foi a realização, no ano de 2015, da oficina de capacitação “Distintas maneiras de narrar o Carnaval de Barranquilla”, evento no qual participaram cinquenta jornalistas de toda a região.

A linha de ação “Infraestrutura para a inclusão, projeção e divulgação das manifestações tradicionais” conta com um projeto grandioso, o Museu do Carnaval de Barranquilla, previsto para ser entregue até o final de 2019. Com uma área aproximada de 1.320 metros quadrados, o museu está sendo construído para ser um espaço de interação do público local e estrangeiro com a memória e o valor patrimonial da maior festa da Colômbia. Apresentado à prefeitura pela empresa Carnaval S.A., o projeto conta com recursos das esferas públicas federal e municipal, além de aportes feitos pela iniciativa privada.

O Museu do Carnaval será um cenário para preservar as tradições carnavalescas de acordo com as diretrizes do Plano Especial de Salvaguarda no sentido de construir e adequar centros culturais do carnaval exclusivamente dedicados à realização e promoção das atividades relacionadas com a preservação do patrimônio.

(CARNAVAL S.A., web, sem data)87

O empreendimento ainda não foi entregue, de todo modo, um questionamento feito pelo coordenador do “Carnaval da 44” demonstra que, entre os hacedores, habitam dúvidas quanto à representatividade que lhes será creditada neste espaço de memória. Supomos que se estivessem contemplados no planejamento e nas decisões em torno do projeto do museu, através de um processo inclusivo e participativo – como, inclusive, prevê os postulados do patrimônio imaterial, não haveria espaço para a referida dúvida.

86 Disponível em https://www.ruedalaprensa.com/index.php/es/noticias/noticias-

3/economia/4304-industria-creativa-del-carnaval-genera-mas-de-45-mil-empleos-en-la- temporada. Acesso em 28 fev. de 2019.

87 Disponível em http://www.carnavaldebarranquilla.org/museodelcarnaval/. Acesso em 09

185 Será o “Museu do Carnaval” ou o “Museu da Carnaval S.A.”? Será que nesse Museu nós teremos lugar? (Edgar Blanco, informação verbal, 2019)

Figura 7 – Projeto da fachada do Museu do Carnaval de Barranquilla.

Fonte: Carnaval S.A.88

Não identificamos nenhuma iniciativa de destaque para a linha “Pesquisa e Documentação”; e o comitê proposto na linha de “Avaliação, Controle e Acompanhamento” não foi instituído até o momento em que se finaliza esta tese.

A análise da trajetória da implementação do Plano Especial de Salvaguarda (PES) e dos programas, projetos e ações que desdobraram dele até aqui nos permite avaliá-lo como um instrumento importante na busca do equilíbrio entre as tantas forças que se concentram em torno de um patrimônio da magnitude do Carnaval de Barranquilla.

No entanto, vimos ao longo deste capítulo que distorções importantes continuam sendo operadas, especialmente por agentes do mercado e do poder público. Continua sendo um desafio equilibrar a ânsia pela ampla projeção e turistização desse Patrimônio da Humanidade com o reconhecimento dos direitos sociais e culturais dos seus portadores, hacedores e artistas. A espetacularização acentuada com que a empresa gestora cobre a festa para torná-la mais vendável

88 Disponível em http://www.carnavaldebarranquilla.org/museodelcarnaval/. Acesso em 13

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continua se configurando como o maior desafio para o seu desenvolvimento sustentável.

Diante de tudo que abordamos até aqui, encerramos o capítulo propondo alguns pontos para guiarem a reflexão futura.

Em primeiro lugar consideramos que o PES deve continuar figurando como o principal fio condutor de todo o processo de salvaguarda da festa e dos seus atores. A potencialidade e a legitimidade das suas ideias, frutos de uma construção coletiva, devem inspirar os passos vindouros e os desafios que se apresentem. Ainda, consideramos que a existência deste documento por si só já se configura como uma ferramenta de fortalecimento sociopolítico e sociocultural para os atores do carnaval. Indo além, assim como aconteceu com o programa de fomento, deve-se caminhar no sentido de institucionalizar as ações de salvaguarda propostas no Plano, ou seja, alçá-las à condição de política pública para que, assim, os atores culturais da festa tenham seus direitos assegurados por lei, evitando os riscos decorrentes da descontinuidade política.

Como segundo ponto, julgamos que merece destaque o tema do acesso aos desfiles. Nos parece bastante incoerente que um bem reconhecido duplamente como patrimônio – da Nação, pelo governo federal, e da Humanidade, pela UNESCO – não democratize o acesso da população, em especial a local, às apresentações das manifestações carnavalescas tradicionais na Via 40. A cobrança por um lugar ao longo dessa avenida soa ainda mais incoerente quando lembramos que o objetivo central do PES é “fortalecer a apropriação social da festa, valorizando seu caráter dinâmico, democrático e integrador”. (COLOMBIA, 2015, p.39, tradução nossa)

Essa atitude da Carnaval S.A., chancelada pelo poder público municipal, vai em sentido contrário às normativas nacionais e internacionais do patrimônio e, ao tempo que beneficia diretamente os conglomerados do turismo e do entretenimento, vulnerabiliza a população da cidade e da região que, indiretamente, também é detentora da cultura que ali se expressa. É urgente, então, que se faça valer aquilo que Sérgio Paulo Rouanet chamou de direitos culturais, cuja definição foi muito bem sintetizada por Paulo Miguez. A noção contempla

187 [...] o direito à memória cultural, que deve garantir a todos os membros da sociedade o acesso aos bens materiais e imateriais que informem da sua história e das suas tradições.

[...] e o direito de acesso à cultura, esse um direito fundamental e imprescindível a qualquer sociedade que se pretenda democrática, sem o qual, inclusive, não se pode falar em cidadania plena. De pouco adiantam um patrimônio cultural perfeitamente preservado e uma produção cultural exuberante se largos setores da sociedade, por conta de diferenças sociais de toda ordem, estão privados de acessá-los. (MIGUEZ, 2002, p. 104-105)

Por fim, consideramos fundamental o tema de um debate que vem ganhando cada vez mais corpo em Barranquilla. Trata-se de questionamentos em torno da incompatibilidade de um patrimônio público ter a sua gestão concentrada nas mãos de uma empresa com ânimos de lucro, como a Carnaval S.A. Como bem recorda Edgar Blanco durante entrevista para esta pesquisa:

Na 32ª sessão da Convenção da UNESCO eles estabelecem que o patrimônio oral e imaterial da humanidade deve ser manejado e administrado pelos verdadeiros portadores desse patrimônio. (Edgar Blanco, informação verbal, 2019)

Edgar Blanco é, inclusive, autor de uma ação popular que defende que, sendo reconhecido como Patrimônio Cultural da Nação, a gestão do Carnaval de Barranquilla não pode mais ficar nas mãos de particulares. A ação solicita que a prefeitura adote as medidas necessárias para recuperar de maneira imediata o controle e a gestão absoluta do carnaval na sua posição de patrimônio cultural nacional89.

Na ocasião da aprovação do PES, em 2015, a gestora cultural e pesquisadora, Carmen Meléndez, que, inclusive, prestou assessoria durante toda a elaboração do referido documento, advertiu que os problemas relacionados aos âmbitos administrativo e jurídico não serão solucionados com o Plano Especial de Salvaguarda. Ela defende o mesmo que Blanco, uma mudança radical na configuração da gestão da festa.

O problema de incompatibilidade que tem a empresa Carnaval S.A, por ser uma entidade com ânimo de lucro que administra o Carnaval – e, lembro, isso vai contra a Lei 1617 de 5 de fevereiro de 2013 –

89 Disponível em https://consejo-estado.vlex.com.co/vid/555603418. Acesso em 25 mar. de

188 seguirá até quando a Prefeitura e o Conselho decidam romper o acordo com o qual foi constituída a empresa de economia mista.90

Repensar de uma forma mais comprometida a gestão da festa pode ser o caminho para transformações mais profundas. Não se trata, porém, de uma discussão fácil e, tampouco, é simples a ideia de repassar a gestão da Carnaval S.A. para a Prefeitura – inclusive porque vimos que o órgão público municipal é parceiro da empresa em várias ações questionáveis do ponto de vista do desenvolvimento sustentável da festa. Nossa sugestão para esse entrave é acionar a ideia da governança inclusiva para inspirar e conduzir esse debate. Uma prática que guarda em si o potencial para, quem sabe, romper com a dominação da festa pelo mercado que se arrasta desde o princípio da sua história, há mais de um século...

90 Entrevista de Carmen Meléndez concedida ao jornal El Heraldo no dia 28 de março de

2015. Disponível em https://www.elheraldo.co/local/comercializacion-el-riesgo-mas-visible- del-carnaval-en-el-pes-189398. Acesso em 24 mar. de 2019.

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4 Carnaval de Salvador em perspectiva patrimonial: urgência em