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CAPÍTULO III A INSTITUIÇÃO POLICIAL E SEUS PROBLEMAS

3.1 Seleção

A função policial é única. Não existe outra atividade humana que exija as características requeridas a um policial. São requisitos essenciais o equilíbrio emocional, discernimento, honestidade, às vezes raciocínio lógico e rápido diante de eventual perigo e outras paciência de monge para espera a melhor hora de agir, às vezes ser cordial e compreensivo com uma testemunha e outras ser duro e seguro quando enfrenta uma resistência a prisão. Conhecer, conviver e não se envolver com o submundo do crime, compreendê-lo para decifrar suas artimanhas e caminhos. Sem dúvida que é uma atividade única.

A inexperiência no trabalho de persecução criminal dos policiais federais recém empossados em seus cargos (delegado, agente, escrivão, perito e papiloscopista) é um fato natural que advém da própria contingência humana.

Não é no banco acadêmico das faculdades de direito, e de nenhum outro curso superior, que se adquire a necessária práxis policial, o conhecimento empírico, a capacidade cognitiva da atividade, o tirocínio, o raciocínio lógico da investigação criminal, o conhecimento sobre o modus operandi das organizações ou sobre o modus vivendi dos criminosos.

Não é um título de bacharel, e muito menos o curso de formação de três (3) meses na Academia Nacional de Polícia em Brasília, que possibilita ao profissional de investigação criminal aprender a ter paciência e saber esperar o tempo certo de agir, a não se desesperar para efetuar uma prisão ou deflagrar uma operação antes do momento adequada.

Não aprendemos a técnica de campana e da vigilância que se mantém durante um dia inteiro sem ser notada num banco acadêmico ou num curso de formação, a técnica se aprende na práxis policial, na prática e na vivência cotidiana.

Não é possível um policial recém empossado, bacharel em direito, não tremer de medo ao progredir num ambiente hostil como numa incursão em qualquer região do país contra uma quadrilha de assalto a banco, ou contra uma roça de maconha no alto sertão pernambucano, ou em qualquer região fronteiriça com o Paraguai, Bolívia, Peru ou Colômbia, ou numa favela em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife ou Salvador.

Tudo absolutamente normal como condição natural da vida e da inexperiência policial.

Tudo absolutamente normal se não fosse o detalhe de que o policial recém empossado é um delegado de polícia federal e o chefe da missão/operação. É ele quem assina a ordem de missão policial. É quem conduz, orienta e determina o desenrolar da missão em detrimento de outros policiais experimentados por anos de atuação policial (e com a mesma graduação acadêmica).

Sendo que tal condução, orientação e determinação própria de superiores hierárquicos ou de chefes da missão, assim imbuídos do ponto de vista formal expressos nas instruções normativas, portarias, orientações normativas etc., não acontece na prática (é na norma e não na prática) devido à clara incapacidade advinda pela inexperiência de um recém empossado delegado de polícia federal. Vê-se isso rotineiramente no Departamento de Polícia Federal.

Na atividade policial é fundamental a experiência adquirida na laboração própria e específica da atividade. Mesmo as disciplinas “práticas” dos melhores cursos superiores aqui também incluímos as Academias de Polícia – não conseguem reproduzir o ato de realizar uma prisão em flagrante depois de campanar93 horas a espera de uma chance.

Quem esteja exercendo o poder de chefe numa ação policial deve ter conhecimento legal para ordenar, mas também conhecimento do que está querendo que seja cumprido e tenha, ao menos uma vez na vida, executado a mesma ordem em situação similar. É contra o Princípio da Eficiência e, portanto, contra o interesse público, permitir-se a cômoda situação de emitir ordens de qualquer maneira. Não apenas isto, é perigoso poder determinar a outrem fazer algo sobre o que não se tem conhecimento de causa. Para bem ordenar é essencial dominar a forma e a técnica deste fazer.

Não é plausível que um concurso público selecione os profissionais mais aptos ao trabalho policial se ele exige apenas conhecimento teórico, sem que os candidatos sejam, pelo menos classificados, de acordo com suas experiências profissionais anteriores, como poderia ser feito com uma prova de título que priorizasse (com maior pontuação) a qualificação na área de segurança pública. Felizmente, hoje a área do conhecimento humano relacionada à segurança pública é estudada de forma autônoma, como uma ciência em particular, independente de outras como a sociologia e o direito – mas com o contributo destas, pois não se desgarra do filo comum das humanidades. Já temos cursos de graduação, especialização e mestrado em segurança pública instalados pelo Brasil.

93 Perseguir, espionar alguém de longe.

É preocupante a falta de aptidão para o trabalho policial de uma grande parte dos aprovados (delegado, agente, escrivão, papiloscopista e perito) nos últimos concursos que foram atraídos somente pelo salário do policial federal.

A seleção não é adequada por que acaba não escolhendo os mais aptos ao trabalho policial, em todos os cargos. Imagine para o cargo de delegado de polícia federal que ocupa já no primeiro dia de posse a chefia de um setor, núcleo e até de uma delegacia inteira (principalmente nos locais mais longínquos como fronteiras) e preside (de forma privativa) inquéritos policiais, sendo desde a posse superior hierárquico de um agente de polícia federal com 30 anos de práxis policial. Essa é a deformação do processo de seleção e da AUSÊNCIA DE CARREIRA no Departamento de Polícia Federal.

A forma de selecionar os candidatos isoladamente nunca resolverá os problemas de falta de aptidão para o trabalho de investigação criminal se não for criada a carreira única na Polícia Federal. Desta forma poderá haver o acesso, via concurso público de provas e títulos, pela base da carreira, seguido de promoções segundo os critérios de mérito, antiguidade e capacidade para o trabalho fim da polícia.

A investigação criminal conduzida por equipes multidisciplinares composta de delegados, agentes, escrivães, papiloscopistas e peritos que tenham a responsabilidade de cognição e condução compartilhada (mantida a hierarquia que garante a coordenação) só é possível numa estrutura de carreira. Nesta o policial investigador criminal que atua na rua hoje poderá (por mérito e antiguidade) construir meritocraticamente sua carreira na Polícia Federal e, posteriormente, ocupar chefias ou coordenações em seu organograma.