4. AGREGADOS E DONOS DE TERRA
4.5 Transgressão e restituição da ordem da morada
Neste capítulo, apresento histórias de moradores sobre eventos como construir uma casa no povoado ou criar porcos sem pedir permissão aos donos de terra e sobre como os Silva lidavam com tais ações, restituindo a ordem da morada através da queima de casas e da execução de porcos. Tais práticas conformaram, desde o ponto de vista do morador, a pessoa do doutor tipo cangaceiro, aquele que sendo diferente do morador, porque doutor, era seme- lhante a um cangaceiro, porque violento ao matar bicho e queimar casinha de palha. As “transgressões” por parte do morador e o rito de “restituição da ordem” da morada executado pelos Silva, ajudam na compreensão da territorialidade no antigamente na medida em que
revelam os usos “possíveis” e “impossíveis” do território durante a vigência da relação de morada.
Foram as histórias de morador a seguir apresentadas que me indicaram, por um lado, que o morador possuía práticas que transgrediam as ordens dos Silva e que, por outro lado, os Silva desenvolveram práticas que buscavam a restituição daquela ordem, na medida em que a
quebra das regras da morada comunicava aos Silva um espécie de não reconhecimento de
quem eram os “verdadeiros” donos daquelas terras. Ambas as práticas de “transgressão” e de “restituição” da ordem indicavam a ocorrência de uma regulação do uso possível da morada a partir de permissões e proibições a organizar as relações do morador com o território no con- texto da relação de morada no antigamente.
4.5.1 Um doutor tipo cangaceiro
As duas primeiras histórias apresentadas são de Batistinha e Norma, elas provêm de diferentes entrevistas realizadas com eles no ano de 2016 e relatam eventos situados no anti-
gamente a envolver os Silva e algumas interdições estabelecidas por estes em relação ao uso
do terreno na ilha.
- Eu escutei história de que quem construía casa, eles chegavam e derrubavam. - Derrubava. O pai deste rapaz que eu tô lhe dizendo, o Roberto Pilim, o pai dele chamava doutor Luiz [engenheiro agrônomo e filho do Silva velho104], se ele cha- gasse na casa do trabalhador, que pedia trabalho pra eles lá pro lado do Bom Jesus, que eles dizem que é deles, o que é que acontecia? Se tivesse um porco na porta da casa, ele chegava, descia do cavalo, atirava no porco e lá matava, tipo cangaceiro. - E não podia criar porco por quê?
- Porque eles diziam que iam acabar o arroz deles, ia acabar o que eles plantavam. Porque o porco fuça, né? Eles não queriam que o porco fuçasse (Entrevista com Ba- tistinha, 02 de novembro de 2016 em sua casa).
[...] A gente vinha de um histórico da Ilha que as pessoas não faziam casa de telha nem de tijolo, que eles mandavam queimar, derrubar, não se construía uma casa sem que fosse se pedir a eles lá. [...] Porco, ninguém podia criar, porque eles viam e mandavam jagunço matar de bala porco, matar os bichos. Só eles podiam criar. [...] Já existia essa briga pela terra, como eu te disse, a gente não podia criar, que eles mandavam matar. Não podia fazer uma casa, que eles mandavam queimar, se não fosse pedir pra eles. [...] Então, houve uma época que eu fiquei muito assustada, que eu era criança, e na época foi uma coisa que chocou muito. [...] E aí, assim, a irmã do meu ex-marido, ela construiu uma casa de palha, uma casinha, eu lembro muito, eu ainda não era casada, eu era criança, são fatos que ficaram marcador. E eu cresci, assim, alimentando aquela coisa, daquela família [Silva], que aquilo não era bom, 104 Em 19 de novembro de 2016, o então prefeito de Parnaíba, Florentino Neto, inaugurou a praça Luiz Antônio Tavares Silva no povoado Vazantinha, em Ilha Grande de Santa Isabel. Ao evento compareceram os filhos do “homenageado”, Roberto Trindade Silva, conhecido pelos moradores da Ilha como Roberto Pilim, e Ana Luiza Silva, além de uma senadora, vereadores, líderes comunitários, moradores do lugar e a Banda Municipal de Parnaíba. Segundo o prefeito, em entrevista para um canal de televisão local, o nome da praça foi escolhido pelos moradores, algo que, segundo a filha do homenageado, “não tem nada que pague o amor e a sinceridade”. TV Delta Canal 2. Florentino entrega praça para a comunidade Vazantinha em Parnaíba. Exibição em 22 de novembro de 2016. Disponível em: <https://youtu.be/pLWJ1YpGCvY>. Acesso em 22 de julho de 2019.
né. E aí eu lembro que foi uma coisa que marcou muito, ela fez a casa toda de palha, parede de palha, em cima de palha, uma casinha e, aí, eles mandaram queimar. To- car fogo. Foi uma coisa que eu, assim, lembro, uma imagem que eu nunca esqueci. (Entrevista com Norma, 09 de abril de 2016 em sua casa).
Norma e Batistinha contaram-me em diferentes momentos do trabalho de campo esses eventos sobre queimar casas e matar porcos, o que indica aquela, anteriormente citada, circu- laridade e compartilhamento de histórias no povoado. As histórias de ambos sobre a execução do porco criado por morador e a queima de casa pertencente aquele que a construiu sem a permissão dos Silva indicaram-me algumas das regras105 que ordenava a relação de morada.
Ao falarem sobre esses porcos mortos e casas queimadas, os narradores revelam que pessoas da ilha criavam porcos e construíam casas sem a permissão dos Silva, isso quer dizer, elas quebravam as regras da morada em alguns momentos, ao mesmo tempo elas comunicam que os donos de terra tinham um repertório de práticas para lidar com as transgressões e resti- tuir a ordem. As práticas de transgressão e de restituição da ordem da morada indicam a exis- tência de um sistema de interdições operante na relação de morada, que passou por contesta- ção dos moradores.
O porco criado sem permissão pelo morador era morto a bala, a casa construída sem permissão era queimada. Eram inviabilizados para o morador os usos da casa e do animal, o abrigo e a alimentação provenientes deles, mas também tais práticas do dono de terra busca- vam inviabilizar tentativas por parte do morador de exercer alguma autonomia sobre o terreno em que morava. Espécie de “rito de punição” ao “transgressor”, essas ações de queima de casa e execução do porco pelo fogo e pela arma de fogo pareciam reestabelecer a ordem des- feita e funcionar como um “efeito de demonstração” a marcar “quem detém o uso legítimo da violência” (GARCIA, 1988), deixando, assim, um exemplo para as demais tentativas de con- testação das regras da morada postas pelos Silva e aparentemente aceitas pelo morador no momento em que pedia uma morada.
4.5.2 Doutor, jagunço, vaqueiro e o “devir-cangaceiro”
Na narrativa de Batistinha é o próprio Luiz Silva que ao descer do cavalo executa com um tiro o porco do morador/trabalhador do Bom Jesus. No relato de Norma, é o jagunço que executa tal ação. Em comum está o fato do porco ser morto com o uso de arma de fogo por
105 Em 2017, Remildo me contou que as pessoas da Pedra do Sal começaram a quebras as regras quando passaram a construir casas sem a permissão dos Silva. É nesse sentido que uso a palavra regra como proveniente do vocabulário nativo sobre as relações de morada.
ambos, o que revela que tanto o doutor como seu jagunço armados andavam na ilha durante a vigência das relações de morada. E que um doutor que age daquela maneira só poderia ser nomeado pelo interlocutor de um doutor tipo cangaceiro.
No universo social dos interlocutores, a categoria cangaceiro faz referência a pessoa que age de maneira violenta na resolução de questões. Tal categoria engloba também o jagun-
ço. Ao atirar no porco do morador do Bom Jesus, a pessoa do doutor é englobada pela pessoa
do cangaceiro na fala de Batistinha. Dessa perspectiva, pode-se dizer que dificilmente um
jagunço poderia agir como um doutor, mas que a um doutor era possível agir como um can- gaceiro.
Tal complexidade da pessoa do doutor tipo cangaceiro informa algo do “habitus” do proprietário em Ilha Grande. Ele era um “portador” (trägger, no sentido weberiano) de “dis- posições” (no sentido bourdiesiano), advindas de sua socialização nas instituições de ensino da cidade, no caso de Luiz Silva, como agrônomo, mas também detinha as disposições neces- sárias para se tornar e ser reconhecido como dono de terras, disposições estas internalizadas pela socialização no universo social dos proprietários de fazenda. Por pertencer a esses dois mundos que se revelam muito mais como um contínuo “cidade-fazenda”, a pessoa do doutor resultava da internalização dos códigos sociais da cidade e da fazenda e do agenciamento de suas combinações possíveis.
Se na história de Ribamar fora um neto do Silva velho quem lhe concedeu morada na Pedra do Sal, na história de Batistinha, vê-se que foi um filho do Silva quem matava porcos criados sem permissão pelos moradores, o que reforça o que já foi anteriormente citado sobre o governo das relações de morada obedecer a uma “ordem patrilinear” entre os Silva. Contu- do, na história de Norma, tem-se a menção a pessoa do jagunço. Este parece lidar, quando necessário, como “mediador” entre o dono de terra e o morador em situação diferente daque- la que habitualmente concernia ao vaqueiro.
Se o vaqueiro é mencionado quando o assunto são as relações de trabalho nos arrozais ou o pedido de morada na praia, o jagunço é pessoa citada em contexto que implica a execu- ção de ordens violentas dos Silva. O vaqueiro é aquele que está posicionado entre as trocas de trabalho por morada ou de morada por voto entre donos de terra e moradores, funcionando como “mediador” da operacionalização dessas trocas. Já o jagunço é acionado quando a troca não está funcionando e age de maneira violenta visando o reestabelecimento “normal” de sua circulação. Não deixa o jagunço de agir como “mediador” entre os Silva e os moradores, mas não enquanto mediador de trocas entre as partes, mas enquanto mediador de atos violentos em
direção a uma das partes. No final, ao agirem de maneira violenta, tanto doutores como ja-
gunços eram englobados na categoria cangaceiro.
Lembre-se o leitor da história contada por Ribamar sobre o pedido de morada. Nela, o
vaqueiro de Herbert Silva assegura que se Ribamar deixar de ser um dos nossos, a solução
para tal quebra de “compromisso” poderia significar a morte de Ribamar por seu amigo va- queiro. Nesse sentido, um vaqueiro também poderia agir como jagunço, executando ordens violentas sob o morador. Apesar do vaqueiro ser mais mencionado pelos interlocutores quan- do o assunto são as relações de trabalho, a ele também era possível agir de maneira cangacei-
ra se necessário. Se tanto o doutor, o vaqueiro e o próprio jagunço poderiam acionar um “devir-cangaceiro” é porque de alguma forma a violência ou a possibilidade dela rondava o governo da relação de morada pelos Silva. E se a violência era um recurso dos Silva no orde- namento de suas relações com os moradores, era porque nem sempre essa ordem era endossa- da pelo próprio morador, que alguma espécie de “resistência” as regras da morada oferecia. Assim, na relação de morada circulavam pedidos e concessões de terreno, votos e cargas de arroz, mas também desobediência as regas e punições a essas desobediências. A seguir, o lei- tor visualiza uma tentativa de representação da circulação de desobediência e punição entre o
morador e o donos de terra com a intermediação do jagunço.
Figura 22 - Circulação de desobediência e punição entre morador e dono de terra com mediação do jagunço