GOODBYE BAFANA: UMA EXPERIÊNCIA NA OFICINA CINEMA-HISTÓRIA
Andressa Fernanda Pereira (PIBID/CAPES-UENP)¹, Jorge Luiz Domiciano (PIBID/CAPES-UENP)¹, Raissa Leite Rodrigues (PIBID/CAPES-UENP)¹,
Jean Carlos Moreno (Orientador), e-mail: [email protected]. ¹Bolsistas do Programa de Iniciação à Docência da CAPES.
Universidade Estadual do Norte do Paraná/ Campus de Jacarezinho/ Centro de Ciências Humanas e da Educação.
Ensino, Subprojeto de História
Palavras-chave: Ensino de História, Cinema, Apartheid.
Introdução
No segundo semestre de 2017, foi desenvolvido, dentro do Programa de Iniciação à Docência do curso de História da UENP, o projeto Oficina de Cinema-História. Executado em contraturno, esse projeto se direciona aos alunos da segunda fase do ensino fundamental e ensino médio do Colégio Rui Barbosa de Jacarezinho-PR, buscando desenvolver, como práxis pedagógica, o uso do cinema como objeto de reflexão e aprendizado histórico.
O PIBID História UENP tem por objetivo contribuir para uma melhor preparação para a docência dos alunos de licenciatura, aproximando-os, desde cedo, à cultura escolar. Com isso, busca-se formar docentes capazes de desenvolver metodologias inovadoras, que aproximem o conhecimento histórico às necessidades cotidianas dos alunos. Sob essa perspectiva que a equipe, coordenada pelo professor Jean Carlos Moreno, buscou desenvolver a Oficina de Cinema-História.
Como a Oficina foi planejada como atividade fora do horário escolar, a quantidade de alunos atendida foi delimitada em 25 alunos, que deveriam estar previamente inscritos. Dessa forma, a intenção foi atrair apenas aqueles que estivessem efetivamente interessados, o que proporcionaria um ambiente mais informal e ativo a todos. Dividida em 7 encontros, a Oficina foi direcionada pelos supervisores do colégio, a partir dos conteúdos trabalhados em sala de aula, com os seguintes temas: Descolonização: África; Guerra Fria: política, disputa armamentista, corrida espacial; Guerra Fria: contracultura; Guerra Fria: Ditaduras América Latina;dois encontros sobre a Ditadura Militar no Brasil; Consciência Negra.
A proposta de trabalhar a relação cinema-história surgiu da urgência de se atualizar o currículo de História às necessidades do nosso tempo. Pois ensinar História através da mera transmissão de informações sobre determinado período histórico, sem uma significação com o presente, não serve de nada à vida prática do aluno. No nosso cotidiano, estamos cada vez mais tomados pelos meios de comunicação pautados pela linguagem imagética, fato esse do qual nenhum bom professor de História não deve se furtar. É nesse sentido que Jorge Nóvoa pontua:
A visão da história como um corpo inerte, morto, como coleção de séries de nomes, datas e acontecimentos, precisa ser superada por uma outra mais larga, de uma visão mais abrangente, mais conectada com o dia-a-dia, mais aberta às transformações ocorridas no mundo.A introdução do cinema como instrumento de apoio ao processo de aprendizado possibilita uma primeira ruptura nesse sistema acadêmico. Através da utilização de fitas cinematográficas como recurso didático, estaríamos lançando mão de um dos mais poderosos meios de comunicação e também utilizando uma linguagem absolutamente atual (1995, p. 6-7). Nesse sentido, buscamos trabalhar com a linguagem fílmica para desenvolver a leitura imagética dos alunos, contribuindo para que compreendam as linhas e entrelinhas de cada filme, bem como as intenções e contextos a qual cada produção estava submetida.
Materiais e métodos
Tudo que foi produzido pelo Homem no tempoé objeto da História, e o cinema, como uma representação darealidade, diz respeito, primeiramente, ao contexto em que foi produzido.
Um desses temas foi a descolonização da África e o filme escolhido
“GoodbyeBafana” (Mandela – luta pela liberdade) que aborda o Apartheid na
África do Sul.
Dirigido pelo dinamarquês Bille August, o filme foi lançado em 2008 no Brasil. A obra foi baseada na biografia de James Gregory, um carcereiro branco e preconceituoso, ignorante às hostilidades pelas quais os negros passavam. Por ter crescido com negros, a personagem falava o dialeto Xhosae, por isso, foiencarregado de cuidar da prisão onde ficava Nelson Mandela. Devido a essa convivência, Gregory passa a conhecer a verdadeira situação a qual estavam inseridos e começa a mudar sua visão sobre o regime do Apartheid.
Devido à visão eurocêntrica da produção e de ter recebido várias críticas de especialistas, resolvemos escolhê-lo justamente para enfatizarmos essa questão de como um filme transmite a visão de quem o produziu.
O foco desta oficina foi abordar o regime do Apartheid, ocorrido na África do Sul, como consequência da colonização europeia. Esse ponto é de suma importância para conhecermos as situações às quaisos negros foram submetidos nesta época, além de servir para percebermos que ainda hoje há resquíciosdesses valores arraigados em nossa sociedade.
Conhecer o que foi o regime do Apartheid, quem foi Nelson Mandela,evidenciar os movimentos e lutas e apresentar, a partir de cenas do filme, as situações deploráveis às quais as pessoas de pele negra estavam submetidas foram os nossos principais objetivos. Depois da análise do filme, buscamos a relação que o Apartheid possui com a nossa sociedade contemporânea.
Um pequeno texto, que abordava uma contextualização sobre o imperialismo europeu na África do Sul, o período do Apartheid e suas diversas leis e a relação de Mandela e o CNA, foi produzido para dar suporte aos alunos.
Considerando que o trabalho com a fonte fílmica deve superar a ideia de ilustração ou pretexto, foram elaboradas quatro questões que estabeleciam interpretações diretas do filme, tais como a exemplificaçãodas leis de segregação racial impostas pelo Apartheid utilizando cenas do filme; a explicação da visão dos brancos em relação aos negros no filme; a visão das personagens do filme acerca de Mandela; e a função da personagem agente Gregory. Tais questões possuíam a intenção de desenvolver o olhar crítico interpretativo dos educandos sobre a película e a compreensão do tema abordado.
Por fim, para trabalharmos com a questão do preconceito, exclusão social, bullying, etc.Buscando um reforço na autoestima e na percepção de padrões pessoais, foi planejada a dinâmica “Vamos ser rotulados e sentir na
pele?”. Essa atividade consistia na rotulação dos alunos através de
todos interagiriam de acordo com o que estava escrito na etiqueta do outroe ninguém poderia saber o que tinha escrito na sua própria etiqueta. Essa atividade proporciona aos educandos que sintam a sensação de serem discriminados, ignorados, isolados, sobretudo, rotulados. Isso deveria servir como exercício de empatia.
Resultados e Discussão
Essa oficina foi realizada no dia 16 de agosto, com alunos da turma B do 3° ano do ensino médio. Ao iniciarmos a nossa exposição, foram levantadas algumas indagações sobre os conhecimentos prévios relacionados ao Apartheid, e as respostas nos mostraram que os alunos não tinham domínio do tema. A partir desse ponto, foi desenvolvida uma contextualização sobre o imperialismo europeu na África do Sul, Apartheid, Mandela e CNA etc. com o uso de um texto de apoio. A leitura desse material foi realizada em partes, por cada pessoa presente na oficina, seguidamente estimulamos algumas reflexões sobre as consequências da segregação racial e racismo na África do Sul. Antes da aplicação dofilme, realizamos a leitura das quatro atividades propostas sobre a narrativa, para serem respondidas e debatidas depois.
Adiante, realizamos uma introdução ao filme evidenciando quem era o diretor, data e localidade de sua produção, para possibilitar a compreensãodo filmecomo uma representação do passado e não como um retrato fiel do ocorrido. Em seguida,o filme foi aplicado e, no seu desenrolar, percebemos que um dos educandos aparentavaconstante perda de foco, pois muitas vezes deixava de olhar para a tela,apresentando uma postura apática em relação à oficina.Em contrapartida, outro aluno parecia se envolver com a narrativa do filme, se mostrando atento nas cenas e reagindo com entusiasmo.
Após o término do filme, as perguntas foram relidas com os alunos, e, em seguida, respondidas sem muitas dificuldades.Algumas explicações foram retomadas para relembrar cenas que poderiam servir para a realização das atividades. Esta etapa consumiu um bom tempo de nossa intervenção, o que acarretou na falta de tempo para aplicação da dinâmica
“Vamos ser rotulados e sentir na pele?”. As questões foram respondidas de
Conclusões
Entre as dificuldades para a realização deste projeto, a infraestrutura e localidadeonde foi realizada a oficina, são as principais, pois foi aplicada num prédio inativo, que passa por reformas. Outro ponto de dificuldade é o fato de muitos alunos morarem em regiões distantes desse prédio, o que impossibilita a disponibilidade de participar do projeto. Percebemos também que a maioria dos alunos dos 3° ano do Ensino Médio trabalham no horário de contraturno das aulas, o que também impede a participação mais intensa desses nas oficinas.
É por meio destes obstáculos que percebemos o quão difícil é o caminho que a educação tem por trilhar. Além da resistência imposta pelas condições materiais, háo problema da cultura escolar, que não prioriza o conhecimento ativo dos alunos, bem comoa própria cultura da nossa sociedade, que coloca o pensamento crítico e a consciência histórica de lado.
No entanto, essas dificuldades não devem impedir ao professor que crie novas abordagens e alternativas ao ensino. Com base em nossa experiência, reconhecemos a importância doprojeto Oficina Cinema-História para aprimorarmos nossa concepção sobre o ensino de história, e pela possibilidade de aproximação ao âmbito escolar. Sabemos que nossa tarefa não é fácil, mas também sabemos que é só no enfrentamento que o problema pode ser superado, e nesse embate, o PIBID é uma ferramenta valiosa.
Agradecimentos
Primeiramente agradecemos nosso orientador Jean Carlos Moreno por sua dedicação e instrução que nos concedeu, tanto para realização desse trabalho como para o amadurecimento da compreensão e reflexão sobre o Ensino de História; agradecemos à nossa supervisora Silvana Francisquinho pela atenção e experiência que nos viabilizou e da mesma forma agradecemos à CAPES pelo financiamento desse projeto.
Referências
AUGUST, Bille. Mandela – Luta pela liberdade, 2007. Disponível em
LERA, JosepMaríaCaparrós; ROSA, Cristina Souza da. O cinema na escola: uma metodologia para o ensino de história. Educ. foco, Juiz de Fora, v. 18, n. 2, p. 189-210, jul. / out. 2013. Disponível em
<http://www.ufjf.br/revistaedufoco/files/2014/06/7.pdf> Acesso em 11 de outubro de 2017.
NÓVOA, Jorge. Apologia da relação cinema-história. O Olho da História. Revista de História Contemporânea, Salvador, v. 1, n.1, nov. 1995.