Africano e Interamericano
CAPÍTULO 3 – DA EFETIVIDADE DA PROTEÇÃO INTERNACIONAL
3.3 Da Efetividade formal dos direitos humanos sociais no âmbito dos países que integram o Mercosul
3.3.4 Do constitucionalismo paraguaio e da recepção dos direitos sociais
3.3.4.2 A Constituição de 1992 e a proteção dos direitos sociais
Inspirada pelo movimento do constitucionalismo social, mas também norteada pelo espírito de democratização dos direitos humanos e pelo retorno das forças armadas paraguaias a um patamar de respeito e dignidade que até então haviam perdido, a Constituição atual Paraguaia, datada de 1992 e fruto do processo de redemocratização do país, reconhece amplamente os direitos sociais e laborais, tanto individuais como coletivos e cria mecanismos jurídicos para sua proteção, recepcionando a liberdade sindical e assentando as bases jurídicas para a existência de um sindicalismo autônomo. 385
Segundo Morínigo, o Paraguai conta atualmente com uma Constituição que contém avançados princípios na ordem dos direitos sociais, econômicos e culturais, trazendo em seu texto, inclusive, a doutrina dos direitos difusos. 386 Oliveira Mattos preconiza que a Constituição Paraguaia assemelha-se à brasileira no sentido em que são tratados alguns direitos, dispostos do Artigo 86 ao 100 da referida Carta, salientando, porém, que enquanto a Constituição brasileira é muito mais analítica e quantificativa, deixando pouco espaço ao legislador, a Constituição Paraguaia, na maioria dos seus artigos, remete à apreciação da matéria por lei especial. 387
A nova Constituição Paraguaia trata dos direitos humanos sociais no seu Título II, “Dos Direitos, dos Deveres e das Garantias”, prevendo em seu Artigo 6° o compromisso do
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PARAGUAI. Constituição Federal de 1967, Artigos 104 a 110. 385
SAN VICENTE, Osvaldo Mantero de. Derecho del trabajo de los países del Mercosur, Um Estúdio de Derecho Comparado. Primeira Parte. Montevidéo: Fundación de Cultura Universitária, 1996. p. 87-88. 386
MORÍNIGO, Ubaldo Centurion. Los derechos del trabajador y el Mercosur. Asunción: EDIPAR S.R.L, 1995. p. 3-4.
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MATTOS, Cláudio Oliveira. A Constituição Paraguaia. In: SANTOS, Hermelino de Oliveira (Coord.).
Estado com a qualidade de vida da população e o seu papel na implementação de políticas e programas de amparo “[...] à extrema pobreza e aos limitados pela capacidade física”.
No Título II, a Carta Paraguaia protege os seguintes direitos: a família, tida como instituição fundamental da sociedade, reconhecendo a União Estável entre homem e mulher como forma de núcleo familiar; os direitos relativos à maternidade, infância, juventude e terceira idade, conferindo-lhes proteção especial; os direitos dos excepcionais, que devem ter garantidos do Estado apoio e cuidados para com a sua saúde, educação e formação profissional; os direitos dos povos indígenas; os direitos relativos à saúde, estabelecendo um programa de bem-estar social fundado em estratégias baseadas na educação sanitária e na participação comunitária (Artigo 70); os direitos relativos à educação e cultura, determinando critérios para o processo educativo que transcendem o mero conceito de desenvolvimento da pessoa humana, para comprometê-lo com “[...] a promoção da liberdade e da paz, da justiça social, da solidariedade, da cooperação e integração dos povos; o respeito aos direitos humanos e aos princípios democráticos”, de sorte que o sistema educativo é tido como responsabilidade essencial do Estado (Artigo 76).
O Título II também consagra a liberdade de trabalho, sendo mister salientar que o Paraguai é o único dos países que integram o Mercosul a possuir um Código do Trabalho desde 1962 e que sofreu sua última modificação em 1996 (lei n. 496); a limitação de jornada de trabalho em 8 horas diárias de 48 horas semanais; o descanso semanal remunerado e as férias anuais; o salário vital mínimo e a bonificação familiar, introduzindo o direito à chamada “gratificação anual” correspondente a um salário superior ao básico em caso de trabalho em locais insalubres, horas extraordinárias noturnas ou em dias feriados (Artigo 92); a estabilidade dos trabalhadores nos limites estabelecidos em lei, sendo que o Código de Trabalho quantifica em “dez anos ininterruptos de serviços prestados ao mesmo empregador” para que se caracterize a estabilidade no emprego (Artigo 94 do CT).
Nesse sentido, a Carta Paraguaia determina no seu Artigo 86 que “todos os habitantes da República têm direito a um trabalho lícito, livremente escolhido e a se realizar em condições dignas e justas” e no seu Artigo 87 que “o Estado promoverá políticas que tendam ao pleno emprego e à formação profissional de recursos humanos, dando preferência ao trabalhador nacional”; sendo mister ressaltar que o Código de Trabalho Paraguai veda qualquer trabalho aos menores de 15 anos de idade, salvo em caso de regime familiar e desde
que o trabalho não seja perigoso para a vida, saúde e moralidade dos menores (Artigo 119 do Código del Trabajo).
Segundo Pangrazio, o objetivo da Constituição, ao detalhar os direitos sociais, é garantir a subsistência, o desenvolvimento da personalidade, o equilíbrio familiar e a colisão social alcançados a partir do trabalho, que denota uma ocupação útil por parte de seus habitantes. 388
A seguridade social, os direitos sindicais, o direito de greve e a competência sindical para promover qualquer ação coletiva ou convênios relativos à defesa dos interesses dos trabalhadores também são direitos assegurados pela Constituição Paraguaia, adotando esta a liberdade sindical como direito dos trabalhadores tanto do serviço público quanto da iniciativa privada, vedando apenas a sindicalização dos membros das forças armadas e policiais. 389
No seu Artigo 100, a Carta Paraguaia garante o direito de todos à moradia digna e destaca o compromisso do Estado em promover políticas habitacionais eficientes atentas ao interesse social; sendo que no que concerne ao funcionalismo público, a Constituição não especifica a forma pela qual é feita a admissão dos candidatos aos cargos públicos nem define um regime jurídico único ao qual deva se submeter o funcionalismo público.
No que concerne à aposentadoria e pensões, Meira Rosa destaca que a Constituição prevê a cobertura do Sistema Nacional de Seguridade Social para todos os servidores públicos, porém, não consagra qualquer proteção ao desemprego, que também não se encontra tutelado pela legislação infraconstitucional. 390
Um dos pontos mais importantes da Constituição Paraguaia é o seu Artigo 45, que pelo qual se reconhece outros direitos e garantias fundamentais além dos expressos no texto constitucional e se preceitua que a falta de lei regulamentadora não poderá ser invocada para negar ou menosprezar algum direito ou garantia.
No que concerne à efetividade dos direitos sociais consagrados pela Constituição Paraguaia, tem-se que assim como no Brasil, a maioria dos doutrinadores entendem esses direitos como direitos fundamentais de realização progressiva, cuja efetividade depende da
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PANGRAZIO, Miguel Angel. Tratado de derecho público. Asunción: S.R .L, 1996. p. 314. 389
Constituição Paraguaia de 1992, Artigos 95 a 99. 390
existência de recursos materiais disponíveis, bem como da capacidade estatal de alocar esses recursos. 391
Como já ressaltado em linhas anteriores, adota-se a teoria da “reserva do possível”, que teve sua origem na paradigmática decisão da Corte Constitucional Federal Alemã (julgamento do caso numeros clausulus BverfGE n. 33, S. 333) acerca da pretensão individual de ingresso no ensino superior público sem que existissem vagas em números suficientes392; mas a aplicação dessa doutrina européia à realidade dos países latino-americanos mostra-se inadequada pelas razões que serão tratados no último capítulo da presente dissertação.
3.3.4.3 A posição hierárquica dos tratados de direitos humanos no ordenamento jurídico