Africano e Interamericano
CAPÍTULO 3 – DA EFETIVIDADE DA PROTEÇÃO INTERNACIONAL
3.3 Da Efetividade formal dos direitos humanos sociais no âmbito dos países que integram o Mercosul
3.3.5 Do Constitucionalismo Uruguaio e da recepção dos direitos sociais
3.3.5.2 A Constituição de 1967 e a proteção dos direitos sociais
A Constituição Uruguaia atual data de 1967 e sofreu reformas em 1989, 1994 e 1997. Assim como as Cartas anteriores, a Constituição de 1967 trata, em seu primeiro capítulo, dos direitos, deveres e garantias e, em seguida, relaciona os direitos sociais em um conjunto de disposições que descrevem toda uma legislação trabalhista, mantendo uma inspiração protetora e buscando certo equilíbrio entre o direito de propriedade, representativo do fator capital, e o direito dos trabalhadores. 407
Segundo Campos, “não há dúvida, todavia, de que nesta época já se havia instalado a concepção de que a política social se deveria subordinar à economia, o que resultou na mudança de orientação da legislação laboral ordinária, consumada com a criação do COPRIN (Lei n. 13.720/68)”. Segundo a autora, a Carta de 1967 não continha regra no sentido de que o âmbito social deveria ser condicionado ao crescimento econômico, porém, toda a legislação que se seguiu à Constituição outorgou, em última instância ao governo a competência em matéria de salários e colocou sob seu controle, inclusive, o processo de negociação coletiva.408
Nesse sentido,
404
URUGUAI. Constituição Federal de 1945, Artigos 32, 39, 40, 42, 45 e 55. 405
ESPIELL, Hector Gros; ARTEAGA, Juan Jose. Esquema de la evolución constitucional del Uruguai. 2 ed. Montevidéu: Fundación de Cultura Universitária, 1991.
406
ROSA, Elianne M. Meira. Constitucionalismo social no Mercosul. São Paulo: Themis, 2002. p. 235. 407
RIBEIRO, Gabriela Campos. A Constituição Uruguaia. In: Hermelino de Oliveira (Coord.).
Constitucionalização do direito do trabalho no Mercosul. São Paulo: LTR, 1998. p. 151. 408
passou-se a ser sustentado que o Estado deveria fazer valer sua presença de forma contínua e sistemática para promover a autêntica defesa de um salário real compatível com o resto das variáveis econômicas. Concomitantemente, entendeu-se ser necessário revisar o sistema de prevenção social com a finalidade de preparar um sistema global que funcionasse de acordo com as possibilidades econômicas nacionais.409
Ocorre que de 1968 a 1973, o Uruguai vivenciou uma crise econômica e uma ruptura institucional, figurando o imposto como duro congelamento salarial, sendo adotadas medidas de segurança, além a repressão sindical; de sorte que os direitos sociais, especialmente os direitos trabalhistas, altamente protegidos até a década de cinqüenta/sessenta, passam a ser preteridos face aos objetivos econômicos.
No final dos anos oitenta, o Uruguai passa por uma fase de redemocratização de suas instituições, resultando esta em uma considerável melhoria das condições sociais, como uma sensível recuperação dos salários reais nos primeiros anos do novo governo, havendo também a ratificação de treze importantes Convenções da organização Internacional do Trabalho. 410
Quanto à proteção conferida aos direitos sociais, a Carta Paraguaia consagra o direito a “justa indenização” (embora não adote a terminologia “salário mínimo”), a limitação de jornada, deixando ao legislador a sua fixação específica, que, para os trabalhadores do comércio corresponde a 8 horas diárias e a 44 ou 48 horas semanais (Decreto-Lei n. 14.320), sendo que a Lei n. 15.966 limita em 8 horas o limite de horas extras semanais que poderão ser prestadas pelos trabalhadores.
A Constituição não especifica a forma de descanso semanal remunerado, incumbindo à legislação infraconstitucional fazê-lo, que, por sua vez, define o regime geral de descanso semanal em 24 horas aplicável à maioria dos trabalhadores. No que tange às negociações coletivas, a Carta Uruguaia também não a regulamenta expressamente, sendo que a doutrina tem considerado que tal preceito encontra-se implícito nas normas constitucionais garantidoras do direito de greve e da sindicalização. 411
Segundo ensinamentos de Meira Rosa, as Constituições Uruguaias têm mantido um procedimento genérico relativamente aos direitos dos trabalhadores, bem como à segurança
409
RIBEIRO, Gabriela Campos. A Constituição Uruguaia. In: Hermelino de Oliveira (Coord.).
Constitucionalização do direito do trabalho no Mercosul. São Paulo: LTR, 1998. p. 152. 410
RIBEIRO, Gabriela Campos. A Constituição Uruguaia. In: Hermelino de Oliveira (Coord.).
Constitucionalização do direito do trabalho no Mercosul. São Paulo: LTR, 1998. p. 154. 411
ARTECONA, Marta Abella de; VILLADEMOROS, Fernando Rovira; GUARNIERI, Raquel. Remuneración del Trabajo. In: El derecho laboral del Mercosur. Montevidéu: Fundación de Cultura Universitária, 1994. p. 76-77.
no trabalho, o que não denota, porém, lacuna ou falha em seu texto, na medida em que são inúmeras as leis especiais e os tratados recepcionados sobre a matéria. 412
É cediço destacar que com respeito à cobertura dos acidentes de trabalho, esta não mantém vínculo com a seguridade social, tendo o empregador a responsabilidade individual em caso de acidente de trabalho, assim como a obrigação se segurar seus empregados no Banco de Seguros do Estado, que consiste num órgão autônomo estatal. 413
A Carta Uruguaia também deixa ao legislador infraconstitucional a regulamentação do trabalho da mulher e do menor de 18 anos, sendo que a legislação estabelece o critério de 15 anos como idade mínima para o trabalho. A referida Carta também confere proteção á maternidade e à saúde, garantindo os direitos da criança e do adolescente, os direitos sindicais, o direito de greve, inclusive do funcionalismo público, o direito á educação, com a obrigatoriedade e gratuidade do ensino á população, o direito à moradia digna, cabendo ao Estado promover meios para que isto se concretize, devendo, inclusive, estimular a inversão de capitais privados para este fim, os direitos à assistência dos deficientes físicos e desamparado, bem como os direitos relativos à seguridade social. 414
Quanto à efetividade dos direitos humanos sociais no Uruguai, tem-se que esses direitos também são tidos pela doutrina como direitos de segunda geração415 que, por demandarem uma ação estatal eminentemente positiva, têm sua realização vinculada à existência de recursos materiais disponíveis, cabendo ao Estado garanti-los a partir do máximo de aproveitamento conferido aos recursos materiais disponíveis.
Porém, a legislação uruguaia contém remédios jurídicos específicos de proteção dos direitos humanos, inclusive dos direitos humanos sociais, como a acción de amparo, que consiste numa ação judicial voltada à proteção dos direitos humanos ameaçados ou eventualmente violados, seja de primeira, segunda ou terceira geração, e procede de forma similar ao habeas corpus; de sorte que através da ação de amparo, o juiz verificará no caso concreto a medida a ser aplicada em prol da efetivação do direito violado (e, no caso dos
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ROSA, Elianne M. Meira. Constitucionalismo social no Mercosul. São Paulo: Themis, 2002. p. 237. 413
MANGARELLI, Cristina. Reparación de los Accidentes de Trabajo y las Enfermidades Profesionales. In: El Derecho laboral del Mercosur. Montevidéu: Fundación de Cultura Universitária, 1994. p. 366.
414
ROSA, Elianne M. Meira. Constitucionalismo social no Mercosul. São Paulo: Themis, 2002. p. 241-242. 415
DAPKEVICIUS, Rubén Flores. Manual de derecho público – derecho cosntitucional. Montevidéo – Buenos Aires: Júlio César Faria, 2007. p. 317.
direitos sociais, levará em consideração os recursos disponíveis), podendo a referida ação ser intentada não só contra o Estado, mas também contra pessoas privadas. 416
3.3.5.3 A posição hierárquica dos tratados de direitos humanos no ordenamento jurídico