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CAPÍTULO DEZENOVE

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 131-139)

Enquanto Crivaro dirigia o motor home, Riley tentou deixar de lado o desconforto causado pela conversa com Simon e Paula Haas. Ela simplesmente não soubera reagir à sensação de choque que o casal sentira ao encontrar algo tão demoníaco em um local que consideravam sagrado.

Seu humor não melhorou em nada ao ver um veículo vindo na direção contrária.

Uma van da imprensa passou por eles, em direção à cena do crime.

Crivaro resmungou:

- Repórteres de merda. Ficaram sabendo dessa bem rápido. Eles devem monitorar o rádio da polícia. A cena do crime vai estar cheia logo, logo.

Riley respondeu:

- Ainda bem que saímos antes deles chegarem.

Mesmo sendo novata no mundo da investigação, Riley já havia tido seus problemas com a mídia. Ela sabia o quão inoportuna a imprensa poderia ser.

Crivaro perguntou:

- Você descobriu algo interessante falando com aquele casal?

Riley hesitou. Ela queria poder dizer a ele o quão abalada havia ficado depois daquela breve conversa. Porém...

Ele não entenderia.

- Não – ela disse. – Nada que eles já não tivessem dito aos policiais, com certeza.

- Imaginei. Mesmo assim, não podíamos sair sem falar com os dois. – Crivaro dirigiu por mais alguns minutos, depois acrescentou:

- O comandante Wilson e a equipe dele parecem saber o que estão fazendo. Muito melhor do que os caras de Tunsboro. Eles lidaram muito bem com a cena do crime. E Webster está ligando para a Polícia Rodoviária do Arizona para bloquear as estradas da região.

Eles vão investigar trailers e motor homes, especialmente os

maiores. Talvez isso faça com que o assassino não consiga fugir da região.

Riley olhou para Crivaro, surpresa.

- Tem certeza de que essa é uma boa ideia? – ela perguntou.

Crivaro encolheu os ombros e respondeu:

- Bom, é o básico. O que eu faria se fosse o Webster. – Depois, com um tom de sarcasmo na voz, ele acrescentou: - Você tem uma ideia melhor?

Riley refletiu por um momento, depois respondeu, devagar:

- Tenho medo dele já estar muito longe daqui. E se ele já estiver e souber que as estradas estão bloqueadas ao redor de Sedona e que a polícia está investigando os veículos maiores? Isso não vai alertá-lo? Ele vai saber qual tipo de motor home nós estamos procurando, e vai ser mais fácil para ele se esconder. Talvez ele até se desfaça do motor home.

Crivaro riu.

- Sim, eu pensei nisso. Mas novata, você precisa aprender que toda estratégia tem seus riscos. E se ele ainda estiver na região e nós perdermos a chance de pegá-lo antes que ele fuja? Ele

cometeu dois assassinatos em poucos dias. Não viajou muito entre um e outro. Sabemos que ele gosta de sangue, e provavelmente vai querer atacar de novo em breve, se já não atacou. Bloquear as

rodovias não é uma má ideia. Acredite.

Riley ainda tinha suas dúvidas, mas já não tinha tempo para argumentar. Eles já estavam passando pela entrada do camping Spring View, onde Shelby Eden estava hospedada antes de morrer.

Crivaro estacionou o veículo em frente à recepção principal.

- Vou entrar – ele disse, - e dizer ao gerente o que estamos

fazendo aqui. Vou ver se ele tem algo útil para me dizer. - Ao sair do motor home, acrescentou: - Vamos poder preparar o motor home e tirar o disfarce. Não vejo a hora de não precisar mais fazer isso.

Enquanto Crivaro seguiu para a recepção, Riley olhou em volta do camping. Surpreendeu-se com tantas árvores e tanto verde.

Parecia que alguém havia criado um oásis em meio ao deserto.

Riley saiu do motor home e caminhou. Para sua surpresa, o local como um todo parecia cenário de um filme de fantasia de

Hollywood.

Havia variedades asiáticas de pinheiros, salgueiros e cerejeiras, tão bem cuidados que mal pareciam reais. Plantas com flores

estavam por todos os lados—magnólias, azaleias, camélias e

muitas outras. Pedras brancas estavam posicionadas precisamente em meio ao cascalho e ao musgo.

Riley passou pela estátua de uma mulher que vestia uma coroa abobadada e roupas florais—algum tipo de figura budista, imaginou.

Até os estacionamentos eram tão precisamente divididos que os veículos caros pareciam encaixar-se naturalmente no ambiente.

Quem sabe “naturalmente” não é a palavra certa.

O local como um todo surpreendeu Riley positivamente,

principalmente por estar no meio do deserto. Ela não podia nem imaginar o quão caro era manter toda aquela estrutura em meio ao clima seco.

Riley passou por uma ponte de madeira em forma de arco-íris, sobre um lago de água cristalina, com pequenos peixes. O lago era abastecido por uma queda d’água artificial. Ao fim da ponte, havia um pequeno shopping, com lojas de astrologia, tarô, aulas de Tai Chi Chuan e afins. As caixas de som emanavam músicas da Nova Era.

Riley viu três mulheres sentadas ao redor de uma mesa do lado de fora de uma loja de chás, bebendo em suas xícaras delicadas, conversando e rindo. Imaginou, então, que aquele seria um bom lugar para começar a encontrar informações.

Enquanto Riley caminhava sobre o pátio de cascalho branco em direção às mulheres, todas elas a olharam com expressões

curiosas. Ela percebeu que todas as três estavam vestidas com roupas florais e largas, provavelmente feitas de seda.

Ah, não, pensou.

Não foi difícil perceber porque ela havia chamado tanta atenção

—e não em um bom sentido. Riley não estava combinando em nada com o local, vestido seus shorts, camiseta e chinelos baratos,

comprados no dia anterior. Da mesma forma, o Agente Crivaro também iria parecer um peixe fora d’água ali.

Por um instante, Riley perguntou-se se deveria voltar à recepção do camping para alertar Crivaro de que o disfarce não funcionaria ali.

Mas uma das mulheres apontou para uma cadeira vazia e perguntou, sorrindo:

- Você gostaria de se sentar?

Não pareceu um convite sincero, e sim apenas um gesto

educado. Mas Riley imaginou que seria rude de sua parte recusar o convite e aquela era, afinal de contas, a oportunidade que ela

estava procurando.

Pegou outra cadeira de bambu e sentou-se à mesa com o grupo.

Quando uma das mulheres perguntou quem ela era, Riley desejou ter criado uma história diferente. No entanto, disse

exatamente o que havia dito no outro camping, no dia anterior—que estava viajando com seu pai, um viúvo recém aposentado.

Depois, acrescentou:

- Meu pai insistiu em acampar por esses lados do Arizona. Fiquei preocupada. Não sabia se seria uma boa ideia.

Os olhos das mulheres se arregalaram.

- Por que não seria? – uma delas perguntou.

Riley refletiu por um instante se deveria mencionar os dois assassinatos ou apenas um. Teriam aquelas mulheres escutado sobre a vítima da noite anterior?

Provavelmente não, pensou.

Afinal de contas, a mídia havia acabado de chegar à cena do crime quando Riley e Crivaro saíram do local. Aquelas mulheres pareciam viver em outro mundo e provavelmente não tinham visto as notícias ainda.

Riley escolheu levemente os ombros e disse:

- Bem, nós ficamos sabendo que houve um assassinato não muito longe daqui outro dia.

Todas as mulheres murmuraram ao mesmo tempo, concordando.

- Ah, sim – uma delas disse. – Foi em Tunsboro, eu acho.

Outra mulher tocou no joelho de Riley e disse:

- Não se preocupe, querida. Você estará totalmente segura aqui em Spring View. Nada desse tipo aconteceria por aqui.

As outras mulheres concordaram.

Tão otimistas, Riley pensou. Era como se elas pensassem que aquele lugar estava sob algum tipo de proteção divina.

Riley, por sua vez, não compartilhava daquela sensação. Com certeza o casal Haas não estava se sentindo assim após o mais recente caso de assassinato.

As mulheres apresentaram-se como Amanda, Donna e Janine.

Por alguns instantes, Riley não teve certeza sobre a idade delas.

Por um lado, todas pareciam jovens. Por outro, Riley percebeu algo rígido e tenso na expressão delas.

Então, deu-se conta...

Botox.

Todas elas eram de meia idade, e suas expressões jovens eram tão artificiais quanto aquele lugar.

Elas conversaram por alguns instantes, e Riley começou a se sentir quase invisível. As mulheres conversaram sobre suas

meditações e aulas recentes até que a mulher chamada Amanda disse:

- Alguém já viu Bliss hoje?

Riley surpreendeu-se com a pergunta. Seria “Bliss”, felicidade, em inglês, algo que elas esperavam encontrar fisicamente por ali, de vez em quando?

Mas então a mulher chamada Donna respondeu:

- Não. Não vejo ela desde ontem. E o trailer dela não está estacionado no lugar de sempre.

Então, Riley entendeu que “Bliss” era o nome de uma mulher.

Janine disse:

- Eu a vi quando ela estava saindo ontem à noite. Ela disse que queria encontrar uma vórtice incrível.

Donna escolheu os ombros e disse:

- Hum, talvez ela tenha encontrado e decidiu não voltar.

Riley arrepiou-se ao ouvir a palavra...

Vórtice.

O comandante Wilson havia dito algo sobre vórtices na cena do crime.

Riley percebeu, então, que a mulher chamada “Bliss” era

provavelmente Shelby Eden. Talvez ela tivesse escolhido um nome mais condizente com a Nova Era desde o início de sua viagem. Se Riley estivesse certa, aquelas mulheres claramente não tinham nem ideia do que havia acontecido com a mulher que elas conheciam como Bliss.

E é melhor eu não contar.

Riley disse às mulheres:

- Me falem sobre as vórtices.

As mulheres pareceram surpresas com o fato de que Riley não sabia nada sobre o assunto.

Janine disse:

- São pontos de força, lugares com uma energia espiritual incrível.

Donna acrescentou:

- Existem três tipos diferentes de vórtices—elétricas, magnéticas e balanceadas. Vórtices elétricas são “yang”—masculinas e muito energizantes. Vórtices magnéticas são “yin”—femininas, mais brandas e nutritivas. Vórtices balanceadas são uma mistura de elétricas e magnéticas, ótimas para encontrar clareza e

perspectivas.

Riley ficou surpresa com a naturalidade do tom de voz das

mulheres, como se elas estivessem falando sobre assuntos comuns, comprovados pela ciência. Mas ela duvidava que havia qualquer embasamento científico naquelas ideias. Riley perguntou:

- Onde ficam essas vórtices?

Amanda disse:

- Existem quatro bem conhecidas aqui em Sedona—Cathedral Rock, Bell Rock, Boynton Canyon e Airport Mesa.

- Eu já estive em todas – Donna disse. – São muito poderosas.

Mas eu encontrei toda a energia transformacional que precisava aqui mesmo em Spring View—e especialmente no Resort de Trailers Delphi, em Utah.

Amanda concordou e disse:

- Verdade, também amo o Delphi. Um lugar muito abençoado, assim como aqui. Mas é exclusivo. Agradeço muito por eu e Harold termos conseguido um título de sócios.

Donna disse, em um tom arrogante:

- Às vezes exclusividade é algo bom. Por isso gosto do Delphi. As melhores pessoas frequentam lá—pessoas de sucesso, evoluídas, com muito autoestima, pessoas que se conhecem a fundo.

Amanda concordou e acrescentou:

- É verdade. Você encontra esse tipo de pessoas lá. Ninguém diferente disso vai ao Delphi.

Janine continuou:

- Ontem, a Bliss me disse que iria visitar uma vórtice que a maioria das pessoas não conhecia. Se ela encontrou algo, espero que ela nos conte. Eu também quero conhecer.

Riley engoliu em seco ao pensar...

Ela encontrou, com certeza.

Mas não foi nada bom.

Ela perguntou:

- Vocês estão dizendo que essa amiga de vocês, Bliss, saiu sozinha para encontrar essa vórtice?

- Provavelmente – Amanda disse. – Afinal de contas essa região toda está em um plano muito espiritual.

- Mas ela ainda não voltou – Janine pontuou.

Donna suspirou e disse:

- Meu Deus. Espero que ela não tenha feito um acampamento vazio de novo.

Amanda balançou a cabeça e disse:

- Eu avisei para ela não fazer isso.

Janine pareceu discordar com suas duas amigas:

- Não vejo nenhum problema acampar no vazio – ela disse.

Curiosa, Riley perguntou:

- Como assim acampamento vazio?

Novamente, as mulheres pareceram surpresas por Riley não conhecer aquele termo.

Donna riu e disse:

- Bom, você nunca vai me ver fazendo isso.

Amanda acrescentou:

- É quando você estaciona seu trailer em algum lugar afastado, sem nenhum serviço. Sabe, tipo o estacionamento de um shopping, não um camping de verdade. É uma perda de tempo, você não aproveita todos os benefícios do seu motor home. Por que gastar tanto em uma linda casa sobre rodas e não usar tudo o que ela tem?

Donna disse:

- Acho isso muito brega, já falei para a Bliss.

Janine protestou:

- Acho que vocês estão sendo muito preconceituosas.

Riley percebeu que uma discussão estava prestes a começar, e com certeza não queria fazer parte daquilo. Ficou aliviada ao ver o Agente Crivaro passando pela ponte nipônica. Percebeu que

poderia apresentar Crivaro às mulheres como seu pai, e aquilo acalmaria os ânimos um pouco.

Mas Crivaro não foi até a mesa. Ele parou no pátio e acenou com o braço, sinalizando em silêncio para que Riley o acompanhasse.

Riley pediu licença e caminhou até onde Crivaro estava.

Ele disse, em voz baixa:

- Onde você foi? Achei que ia te encontrar no motor home.

Riley gaguejou:

- Eu... me... me desculpe. Fiquei curiosa. Esse lugar é diferente, e

Crivaro a interrompeu:

- Não faça isso de novo. Nós já vamos sair daqui.

Riley seguiu os passos de Crivaro e perguntou:

- O que aconteceu?

Jake resmungou:

- Temos o nome de um suspeito, é isso. E sabemos para onde ele foi. Com sorte, estamos perto de pegar o assassino.

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