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CAPÍTULO DEZESSETE

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 116-123)

Riley segurou-se com força no painel enquanto os pneus do motor home cantavam e um caminhão atrás deles buzinava sem parar. O Agente Crivaro havia feito uma ultrapassagem pela esquerda, podando um veículo de dezoito rodas. Quando o

caminhão ficou para trás, Crivaro voltou à pista da direita sem nem se preocupar em sinalizar a manobra.

Mais buzinadas furiosas foram ouvidas.

- Não esqueça que você está carregando uma casa – Riley disse, nervosa.

- Preciso de um giroflex e uma sirene – Jake respondeu.

A imagem de um motor home com sirene e giroflex fez com que Riley risse.

- Eu sei – Crivaro resmungou. – Não se preocupe, esse negócio não vai pegar velocidade suficiente para nos matar, mas pelo menos o trânsito vai ficar para trás.

- Alguns caminhões são maiores do que o nosso veículo – Riley comentou, enquanto o gigante de dezoito rodas ficava para trás no retrovisor.

Crivaro não respondeu.

O trânsito na rodovia que levava ao norte estava intenso, mas nunca parado. Crivaro, no entanto, parecia determinado a

ultrapassar todos os veículos. Sempre que desviava para a pista da esquerda, causava raiva nos outros motoristas. Ele estava trocando de pista sem parar, e Riley não achava que ele estava ganhando muito tempo com aquelas manobras.

Segurando firme ao volante, Crivaro reclamou:

- Por que todo mundo é tão idiota? Qual o problema desses caras?

Riley queria dizer...

Eles dão valor às próprias vidas.

Mas o Agente Crivaro já estava suficientemente de mal humor.

Ele haviam pegado a estrada com tanta pressa que ele não tivera tempo sequer para alugar um carro comum. No camping, onde desmontaram suas coisas em uma velocidade frenética, ele havia dito a Riley que um outro corpo tinha sido encontrado naquela

manhã, em uma trilha em Sedona. O comandante de lá havia escutado que o FBI estava no Arizona investigando um assassino em série, e então tinha ligado para o bureau imediatamente. Por fim, Crivaro tinha sido avisado.

E agora eles estavam ali, dirigindo loucamente em direção à Sedona.

Riley esperava apenas que eles chegassem inteiros.

Logo, o trânsito diminuiu, e as trocas de pistas de Crivaro se tornaram menos frequentes e menos perigosas. Já não tão

assustada, Riley encontrou-se refletindo sobre outra pergunta—se ele estaria ou não planejando não tê-la mais como parceira. Afinal de contas, o que mais ela poderia pensar depois de ter recebido tarefas tão inúteis naquela manhã?

Por fim, decidiu...

É melhor esclarecer tudo.

Respirou fundo e disse:

- Agente Crivaro, não entendi porque você quis que eu ligasse para a mãe de Brett Parma.

- Não? – Crivaro respondeu.

- Não. Não tinha nada para ser perguntado a ela. E foi uma ligação muito difícil—emocionalmente falando. Nós duas nos sentimos péssimas no fim.

- Sinto em saber disso – Crivaro respondeu.

Riley teve certeza de ter notado um tom de ironia na voz dele.

Ela engoliu em seco e disse:

- Não consigo parar de me perguntar se...

Mas parou antes de finalizar seu pensamento.

- Perguntar o que? – Crivaro disse, olhando para ela. – Se isso foi algum tipo de punição pelo que você fez ontem?

Riley assustou-se. Ela disse:

- Sim, é bem isso que eu estava me perguntando. Isso e também se você encheu o saco de mim e está tentando me fazer desistir e voltar para casa. Se é isso o que você pretende, é melhor você me demitir logo e acabar com isso. Porque até lá, eu vou continuar aqui incomodando.

Crivaro balançou a cabeça e disse:

- Então você não descobriu nada novo falando com a mãe dela.

- Não. E acho que você sabia muito bem que eu não iria descobrir.

Crivaro deixou escapar uma risada e respondeu:

- Você tem certeza que não descobriu nada?

- Tinha algo para ser descoberto? – Riley perguntou.

- Eu é que te pergunto – Crivaro disse. – Você tem total certeza de que finalizou a ligação sem saber nada além do que já sabia antes?

Riley repassou a difícil conversa em sua mente.

Lembrou-se da senhora Parma lhe pergunta sobre sua filha.

“Você sabe me dizer por que ela se afastou assim?”

Riley havia entendido aquela pergunta como algo estranho, desesperado. E mesmo assim, sentira que sabia a resposta.

Ela refletiu sobre a situação e disse a Crivaro:

- Acho que eu descobri... que Brett Parma estava infeliz com sua vida. Ela estava muito distante de sua mãe e entediada em North Platte. Tinha morado a vida inteira lá, mas se sentia como uma estranha. Ela se sentia sozinha, mesmo estando perto de pessoas que conhecia a vida inteira. Não se sentia mais próxima de ninguém e se perguntava se voltaria a se aproximar das pessoas de lá.

Crivaro riu novamente e disse:

- Bom, me parece que você descobriu algo. Algo bem interessante.

- Por que? – Riley disse. – Brett foi morta por um assassino em série, alguém que matou sua primeira vítima no Colorado. Brett mal conhecia ele, se é que o conhecia. A vida dela em North Platte e todo mundo que ela conhecia e que cresceu com ela—tudo isso é irrelevante. Não tem nada a ver com a maneira como ela morreu.

Crivaro encolheu os ombros e disse:

- Se você diz.

- Você não concorda? – Riley perguntou.

- Como eu vou saber? – Crivaro disse. – Você é quem pode descobrir—ou não pode.

Riley olhou para ele com a boca aberta. O jeito que ele estava falando, em enigmas, era frustrante para ela. Perguntou-se, então, se Crivaro sabia de algo que ela deveria ter descoberto sozinha.

Em um tom duro, Crivaro disse:

- Lembre-se... um caso de assassinato é um organismo vivo. São várias peças, e tudo se conecta. Você precisa descobrir como. Às vezes o que parecem becos sem saída podem te levar a algo importante. Às vezes não. Mas vocês precisa segui-los para descobrir onde eles vão te levar.

Riley estava olhando pela janela, tentando encontrar sentido no que estava escutando. Fosse o que fosse, talvez ela fosse entender mais tarde. Naquele momento, sentiu-se aliviada por perceber que Crivaro estava lhe provocando. Ele estava agindo como seu mentor novamente...

E não como alguém que quer se livrar de mim.

Perguntou-se quanto tempo aquilo duraria.

*

Depois de algumas horas na estrada, Riley e Crivaro saíram da rodovia. Seguindo as direções que Crivaro havia recebido da sede do FBI em Phoenix, pegaram uma estrada menor. Riley soube que eles tinham chegado a seu destino quando se depararam com um bloqueio na estrada e uma série de veículos estacionados logo a frente.

Também havia um pequeno trailer estacionado—o trailer da vítima, Riley imaginou. Era um bom veículo, um pouco menor do que o que Riley e Crivaro haviam alugado, porém mais novo.

Riley e Crivaro saíram de seu motor home, passaram pelo bloqueio e se abaixaram para passar por baixo da fita policial amarela. Assim, acabaram chamando a atenção de um policial à paisana, que apareceu vindo dos carros estacionados.

Ele gritou para os dois:

- Ei, não viram a fita? A passagem de turistas está proibida!

Crivaro mostrou seu distintivo e se apresentou. Riley fez o mesmo.

O policial olhou desconfiado. Ele esticou a mão para segurar o distintivo de Jake e disse:

- Deixe-me ver isso aqui.

Crivaro o entregou o distintivo, parecendo não acreditar que alguém pudesse duvidar de sua originalidade.

Riley deixou escapar um sorriso.

Crivaro parecia ter esquecido de que os dois estavam vestidos como turistas, de camiseta, shorts e chinelos.

Acho que nosso disfarce está bem convincente, no fim das contas, Riley pensou.

O policial que parou os dois não abriu caminho, mas outro agente uniformizado apareceu, gritando:

- Ei, Arlo, qual é o seu problema? Se eles dizem que são do FBI, eles são. O comandante está esperando por eles!

Ainda parecendo irritado, Arlo por fim abriu passagem. O outro policial levou Riley e Crivaro pelas viaturas e a van dos legistas.

Riley viu um homem e uma mulher, com expressões de medo, sentados no banco de trás de uma das viaturas. Imaginou que eles fossem o casal que tinha encontrado o corpo.

Riley e Crivaro seguiram o policial e passaram por uma placa que dizia TRILHA DO TRANSEPTO. Ao entrarem na trilha, o policial apontou para algumas pegadas nos dois sentidos do caminho—as pegadas do assassino, Riley imaginou.

- Tivemos sorte – o policial disse. – Choveu um pouco ontem à noite. Quem sabe vamos poder encontrar algo nessas pegadas.

Enquanto os três passavam com cuidado pelas pegadas, Riley as analisou com cuidado. Percebeu que o assassino provavelmente tinha deixado os rastros ali ao levar o corpo pela trilha, depois da chuva. Assim como em Phoenix, ele havia cometido o crime em si em outro lugar. Quaisquer outras pegadas pareciam já ter

desaparecido.

As pegadas pareciam bem comuns, e por isso Riley imaginou que não seria possível encontrar muitas informações vindas delas.

Imaginou que o assassino tivesse uma altura média. A trilha não era tão difícil, mas ele precisava ser forte o suficiente para carregar o corpo pelo caminho sem tropeçar.

O policial os levou por um caminho curto e uma subida leve. No topo, em uma área plana, havia muitas pessoas sob uma lona, montada para proteger a cena do crime.

Um homem uniformizado, de chapéu, deu um passo a frente para cumprimentá-los. Riley e Crivaro voltaram a mostrar seus distintivos.

O homem assentiu e apresentou-se como Trevor Wilson,

comandante da polícia em Sedona. Ele apresentou Riley e Crivaro para Jay Faulkner, o legista da cidade.

O comandante Wilson disse:

- Então estamos lidando com um assassino em série.

- Sim, por isso estamos aqui – Crivaro respondeu.

Wilson balançou a cabeça e disse:

- Não quero parecer insensível, mas isso é a última coisa que precisamos em uma cidade turística como a nossa. Esperamos por um fim nisso logo.

- Faremos o possível – Crivaro disse. – O que você sabe até agora?

- A vítima é Shelby Eden, de Phoenix – Wilson disse. – Estava hospedada no Camping Spring View, aqui em Sedona. Não

sabemos muito além disso. Os cartões na carteira identificaram uma conexão com um lugar chamado Eden Serviços Financeiros, em Phoenix. Quando ligamos para lá, nos disseram que ela já não tem ligação com a empresa. Parece que o ex-marido é quem comanda.

Não falamos com ele ainda.

Enquanto Crivaro e Wilson discutiam a possibilidade do ex-marido de Shelby estar envolvido no crime, Riley olhou para o corpo. A vítima estava esparramada no chão, dessa vez sem ter sido tocada por urubus. Por um momento, Riley achou difícil

acreditar que ela estivesse mesmo morta. Parecia mais uma atriz, contratada para fazer o papel de um corpo sem vida—com uma maquiagem que deixava a pele pálida a ponto de parecer porcelana.

Riley perguntou-se...

Será que Shelby Eden estava infeliz? Será que ela estava

ansiosa para mudar de vida assim como Brett Parma? É isso o que conecta as duas vítimas?

Provavelmente não. Deveria haver algo a mais.

Uma sensação estranha tomou conta de Riley quando ela

desviou o olhar do corpo e analisou o cenário. Tudo parecia irreal.

Ao longe, montanhas impressionantes e arenitos avermelhados contrastavam com o azul intenso do céu. No lugar onde a mulher estava deitada, a trilha se abriu para formar uma espécie de

plataforma de pedras, quase como um grande altar, com o corpo no centro.

Lembrando-se do nome da trilha, Riley perguntou a Wilson:

- Por que essa trilha se chama Trilha do Transepto?

Wilson apontou e explicou:

- Por causa do jeito que o caminho cruza com a cordilheira, formando uma espécie de cruz, como o transepto de uma igreja.

Parecendo intrigado, Crivaro perguntou:

- Tem algo especial nesse lugar aqui?

Wilson escolheu os ombros e respondeu:

- Não que eu saiba. Mas não vá por mim. Seguidores da Nova Era estão sempre encontrando supostos pontos de força e mini-vórtices aqui em Sedona. Lugares onde eles vão meditar, lugares com poderes xamânicos, como eles dizem. Até onde eu sei, esse aqui pode ser um desses lugares. Mas se for mesmo, poucas pessoas sabem disso, senão eu já teria ouvido falar.

Riley sentiu algo estranho ao ter certeza...

Sim, esse é um desses lugares.

De repente, sentiu fortemente a presença do assassino.

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 116-123)