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CAPÍTULO VINTE E OITO

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 184-189)

Rangendo os dentes, Riley dirigiu pelas montanhas, afastando-se do mirante Thorpe e do camping Crayfish Creek. Ela estava furiosa consigo mesma.

- Idiota – resmungou. – Sou muito idiota.

Crivaro, no banco do passageiro, riu.

- Do que você está reclamando? Pegamos um bandido, não pegamos? Era isso que você queria.

Riley precisou se segurar para não explodir de raiva.

- Pegamos um idiota qualquer, Agente Crivaro—um merda qualquer que por acaso tinha um tanto de maconha que não conseguiu jogar fora.

De canto de olho, Riley pode ver Crivaro encolhendo os ombros.

- Bom, pelo que eu sei, maconha é ilegal – Crivaro disse. –

Principalmente contrabandear e vender. Ainda que pelo jeito essa lei vá mudar daqui a pouco tempo, pelo menos em alguns lugares. Mas como ainda não mudou, você acabou de pegar um contraventor, não foi? Quem sabe você deva repensar esse negócio de UAC.

Quem sabe seu negócio seja trabalhar na polícia antitráfico.

Crivaro riu de suas próprias palavras.

- Você está achando tudo muito engraçado, né? – Riley resmungou.

Suspirando, Crivaro respondeu:

- Garota, no seu trabalho, você tem que rir às vezes, mesmo quando nada parecer engraçado. Acho até que principalmente nessas horas. O trabalho vai te matar se você não tiver senso de humor. E isso ninguém te ensina na Academia, eu acho. Mas você tem que aprender.

Riley percebeu que Crivaro não estava mais rindo. A voz dele parecia cansada e desanimada. Ela sabia que ele só estava

tentando amenizar o clima, agora que tudo estava dando tão errado.

E é tudo culpa minha, pensou.

- Desculpe – Riley disse. – Eu tive uma intuição, insisti para segui-la e—

Crivaro interrompeu.

- Ei, não se culpe muito por isso. Intuição é assim. Não é ciência, nada disso. Elas dão errado às vezes. As minhas, as suas, as de todo mundo.

Riley dirigiu em silêncio por alguns instantes. Depois, disse:

- O assassino ainda está à solta.

- Eu sei – Crivaro respondeu.

- Ele pode estar se preparando para matar mais alguém agora mesmo. Ou pode já ter feito isso.

- Também sei disso.

- Então o que nós vamos fazer?

- Boa pergunta – Crivaro respondeu. – Esperava que você

pudesse me dizer. Eu pretendia ficar aqui no Crayfish Creek até que nós pensássemos em uma estratégia nova. Quem sabe dormir bem primeiro, acho que uma noite de sono pode ajudar. Foi ideia sua sair dirigindo sabe lá Deus para onde.

Riley balançou a cabeça e pensou...

Só Deus sabe, mesmo.

Ela havia insistindo em sair assim que a polícia prendera George Carver. As evidências eram claras e os oficiais pareceram felizes em levar o crédito pela prisão.

O FBI poderiam responder mensagens ou atender ligações sobre o traficante caso fosse preciso.

Riley sentira que não deveria ficar nenhum segundo a mais no local onde havia cometido um erro tão estúpido.

Mas agora, novamente na estrada, ela não fazia ideia para onde ir.

Um alívio, pelo menos, era saber que eles estavam descendo as montanhas. Riley estava incomodada por ter que dirigir um veículo daquele tamanho em meio às montanhas e à neve. O motor home não estava equipado para aquele tipo de viagem, e ela sabia que eles haviam tido sorte por conseguirem sair da região sem ficarem presos ou atolados. Quando chegaram à rodovia principal, a estrada já estava limpa. Toda a neve já parecia ter derretido.

Ao invés de seguir na estrada rumo ao Arizona, Riley virou à direita na rodovia. Depois, disse a Crivaro:

- Pegue o mapa no porta-luvas.

- Para que? – Crivaro perguntou.

- Só pegue o mapa, ok? – Riley disse. - Me diga para onde estamos indo. Porque eu não tenho nem ideia.

Crivaro deixou escapar um suspiro. Ele abriu o porta-luvas e pegou o mapa, desdobrando-o. Com uma pequena lanterna, o iluminou e disse, em um tom irônico:

- Bom, se nós seguirmos indo para o oeste, nesse sentido, vamos acabar no lindo Parque Nacional Zion. Ou podemos virar para o norte e acabar na igualmente linda Floresta Nacional de Dixie. O que eu quero saber é, por que alguém acamparia nesses lugares nessa época do ano?

Riley respondeu, resmungando:

- Campings para trailer e motor homes, Agente Crivaro. Ou, melhor ainda, resorts para motor homes. Vamos procurar um lugar para ficar pelo tempo que resta nessa noite.

- Bom, poderíamos voltar até o Crayfish Creek e—

- Não mesmo – Riley interrompeu. – Vamos achar um lugar para descansar e repensar.

Riley surpreendeu-se com a rispidez de suas próprias palavras.

Quem eu acho que sou para dar ordens assim?

Ela não entendeu muito bem porque Crivaro não a respondeu na mesma medida. A única razão plausível era que ele parecia muito cansado e desanimado para querer discutir.

Ainda olhando o mapa, Crivaro disse:

- Temos várias opções por esses lados. Tem o camping Water Sedge, o resort Kehoe Gulch, o camping Indiangrass, e o Delphi Resort—

- Que? – Riley interrompeu.

- Delphi Resort. Já ouviu falar desse?

Sim, ouvi, Riley pensou.

Ela levou alguns instante para se lembrar onde e quando, mas logo se recordou. No camping Spring View, as mulheres com quem ela conversara haviam falado sobre o Delphi da melhor maneira possível.

“...um lugar muito abençoado...”

Riley também lembrou-se do que elas tinham dito sobre as pessoas que frequentavam o local.

“...as melhores pessoas...”

“...pessoas evoluídas...”

“...pessoas com a autoestima elevada...”

“...pessoas que conhecem seu valor...”

Riley ouviu Crivaro dizendo:

- Parece um lugar legal.

Ficou vermelha ao perceber que havia dito algumas daquelas palavras em voz alta.

Acho que também estou bem cansada, pensou.

Crivaro acrescentou:

- Mas parece bem chique. Não sei se podemos gastar tanto na conta do FBI. Talvez seja melhor pegar um lugar mais barato.

Riley não respondeu. Suas próprias palavras estavam pairando em sua mente agora—palavras que ela havia dito ao tentar criar um perfil do assassino. Além do fato óbvio de que ele tinha muito

dinheiro, ela lembrou-se de descrevê-lo com palavras como...

... arrogante ... superior ... convencido ...

Também lembrou-se de algo que Crivaro havia dito...

“Por que alguém acamparia nesses lugares nessa época do ano?”

Depois, lembrou-se do que alguma das mulheres havia dito.

“Ninguém diferente disso vai ao Delphi.”

Riley sentiu uma intuição repentina.

Com certeza ele se considera alguém assim, pensou.

Alguém muito especial.

Com a autoestima alta.

Ela disse a Crivaro:

- Me diga como chegar lá. Ao Delphi.

- Ham?

- Me dê as coordenadas – Riley respondeu.

Crivaro olhou o mapa novamente.

- Você está na direção certa. É só sair da rodovia, à direita.

Vamos levar cerca de uma hora.

Dobrando o mapa, Crivaro perguntou:

- Posso perguntar por que você quer ir até lá?

Riley tentou pensar em como explicar sua intuição. Mas antes que pudesse responder, Crivaro disse:

- Sabe do que mais? Deixe pra lá. Vou confiar em você. Vou deixar tudo nas suas competentes mãos.

Riley surpreendeu-se ao vê-lo soltando o cinto de segurança.

O que ele vai fazer? Pensou.

Ele iria pedir para que ela saísse da rodovia e o deixasse sair?

Estaria ele desanimado a ponto de desistir do caso—e também dela? Ou ele simplesmente desaparecia durante a noite?

No entanto, sem jeito, Crivaro passou por cima dos bancos para chegar à área de convivência do motor home.

- Onde você vai? – Riley perguntou.

- Dormir um pouco – Crivaro disse. – Estou muito cansado.

Desse jeito não vou ser útil em nada.

Ele desapareceu nos fundos do veículo.

Aquilo mexeu com Riley.

Ele parece tão desanimado, ela pensou.

Pensando naquilo, Riley deu-se conta de que Crivaro vinha

parecendo desanimado muitas vezes nos últimos dias. Na verdade, desde o voo de Washington para o Arizona.

Riley, então, sentiu uma ponta de culpa. Durante todo aquele tempo, ela havia pensado apenas em si mesma—se Crivaro estava bravo com ela, se ele ainda a queria como parceira. Ela nunca havia pensado que...

Algo está incomodando ele de verdade.

Provavelmente algo que tinha pouco a nada a ver com ela.

Riley desejou poder conversar com ele sobre aquilo, mas

imaginou que ele já estivesse deitado e quem sabe até roncando.

Além disso, ele não parecia estar com vontade de conversar sobre qualquer assunto.

Quem sabe mais tarde, Riley pensou.

Agora, ela havia tomado uma decisão pelos dois, e Crivaro aceitara sem discussão.

Eles estavam indo para o Delphi Resort.

É melhor eu estar certa dessa vez, Riley pensou.

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