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CAPÍTULO VINTE E SETE

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 179-184)

Ao pedir uma margarita cara no elegante clube do resort Delphi, Sally Marino pensou...

Meu Deus.

Será que cometi um erro?

Mais cedo, naquele dia, no restaurante, ela havia dito àquele homem, Pete, que estava indo para aquele camping exclusivo. Na verdade, ela não tinha nada planejado. Mas tinha ido até lá, por fim, apenas porque havia dito que iria.

O que ela estava pensando?

Eu só estava tentando impressioná-lo, pensou, suspirando.

No momento em que vira aquele homem sentado à mesa, Sally tinha gostado dele—mais especificamente, do Rolex caro em seu pulso e do motor home chique que ele estava dirigindo. Ela tinha ido diretamente à mesa dele para se apresentar. Havia contado muitas coisas sobre si mesma.

O problema é que boa parte de suas histórias era mentira.

Era verdade que ela tinha um “espírito livre”, que amava viajar.

Porém, era totalmente mentira que ela tinha herdado muito dinheiro de seus pais e que por isso poderia viajar por quanto tempo

quisesse.

Na verdade, ela havia deixado sua família de classe média para trás anos antes, sem olhar para trás. Havia viajado por muitos lugares, mas não do jeito que havia dito a ele. Na verdade, havia feito mochilões pela Europa, e viajado pegando caronas onde ainda era legal fazer isso nos Estados Unidos. Ela vivia por conta própria e aceitava qualquer trabalho que fosse preciso, desde lavar louças até atuar como DJ em uma pequena rádio do interior.

Com tudo aquilo, havia aprendido a apreciar a liberdade e se apegado a pouquíssimas pessoas.

Mas agora ela já tinha trinta e cinco anos, e sua existência nômade estava começando a incomodar. Por exemplo, vinha levando mais tempo para se recuperar depois de trilhas

complicadas. Vinha imaginando, então, se não seria hora de

sossegar, quem sabe até voltar para os braços de sua família distante.

Também vinha pensando em atrair o interesse de homens solteiros e bens de vida. Por isso, havia flertado com Pete no

restaurante. Tinha gostado dele mais e mais durante a conversa, e inclusive havia começado a imaginar...

O que?

Que ele pode se interessar em mim?

Que quem sabe podemos ter um relacionamento?

Agora, ela estava assustada com quão rasa era sua própria ficção romântica. O que estava lhe fazendo imaginar tudo aquilo—

além do medo de terminar sozinha e sem dinheiro?

Enfim, ela estava ali, em um dos campings mais chiques do

oeste. Na chegada, tinha sido necessário gastar quase todo o limite de seu cartão de crédito para se tornar membro do clube e poder entrar.

Tudo porque tinha esperanças de encontrar Pete ali!

Sally olhou em volta do clube e não viu nenhum sinal dele.

Mas ela esperava mesmo que ele aparecesse?

Riu sozinha ao considerar a possibilidade de que Pete, assim como ela, havia mentido sobre sua vida para impressioná-la, e não estava a caminho do resort.

Não seria irônico?

Sim, seria irônico—mas nada engraçado.

Sally teria que começar a ajustar suas finanças novamente.

Ela olhou para o bar e pensou...

Será que eles estão contratando bartender?

E, mesmo que Pete aparecesse, o que aconteceria? Se surgisse alguma química entre os dois, ela não teria que contar a verdade sobre si mesma?

O que ele pensaria sobre ela quando soubesse de tudo?

Quem sabe ele ache engraçado, pensou.

Pelo que eu sei, ele também tem seus próprios segredos.

Pete a parte, Sally estava ali, em um resort caro, onde passaria o resto da noite. Não que o local não a encantasse. Olhando pela janela, viu o espaço enorme onde os motor homes, em sua maioria caríssimos, estavam estacionados. Ao longe, quase como se em um

bairro vizinho, não tão rico, seu pequeno trailer passava despercebido.

Havia muitas piscinas no local, e Sally já havia mergulhado nelas.

Depois, relaxara na jacuzzi, secara o cabelo e, por fim, decidira ir até o clube.

Ela não estava acostumada com tanto luxo. Nada daquilo fazia seu estilo. Em sua opinião, a vida no resort Delphi não podia ser definida como um acampamento de verdade, já que tanto luxo fazia o local se parecer mais com um cruzeiro.

E aquele clube transmitia muita alegria para seu gosto, com a decoração de fim de ano que enfatizava anjos, cristais e outros objetos típicos da Nova Era junto às canções natalinas tocando nas caixas de som.

Não, ela não pertencia àquele lugar.

Olhando para o relógio, Sally viu que já era tarde.

Ele não vai vir mesmo, pensou.

Fora uma tolice de sua parte acreditar que ele viria.

Mesmo assim, ela achava que seria melhor assim.

Pagou por seu drink, acrescentando uma gorjeta que

definitivamente não cabia em seu orçamento, e saiu. Novamente, assustou-se com o frio—um clima totalmente diferente daquele do Arizona. Felizmente, estava bem agasalhada com calças e um suéter.

Na verdade, Sally gostava de variações no clima. Aquilo a lembrava de que ela estava viajando.

Ao caminhar pela estrada asfaltada e bem iluminada que levava a seu trailer, sorriu ao ver que estava começando a nevar. Claro, a neve já teria derretido até o dia seguinte, mas a noite seria linda.

Naquele momento, uma figura surgiu das sombras em sua frente, e contra a luz, por um instante, Sally pode apenas ver uma silhueta.

A voz familiar de um homem disse:

- Oi, Sally. Para onde você vai?

Apertando os olhos, Sally perguntou:

- Pete? É você?

O homem deu mais um passo em direção à luz. Era Pete, de fato, tão bonito quanto no restaurante. Ela pode ver que a blusa dele era feita de cachemir.

- Quem mais poderia ser? – ele disse, exibindo um sorriso malicioso.

De repente, Sally sentiu-se estranhamente desconfortável, como se algum alarme tivesse tocado em sua mente. As pessoas que viviam seu estilo de vida costumavam desenvolver um sistema de alarme sobre as outras pessoas, ainda que ela soubesse que o seu sistema nem sempre funcionava como deveria. No restaurante, ela havia se sentido muito à vontade, até entusiasmada, ao lado de Pete. Agora, Sally estava se sentindo confusa com suas próprias reações.

Ela gaguejou:

- Eu—eu achei que você não viria.

Pete encolheu os ombros ao responder:

- Eu disse que viria. Eu sempre cumpro minhas promessas.

Por algum motivo, Sally achou aquela resposta um pouco estranha.

Ela olhou em volta. Não havia mais ninguém lá fora àquela hora da noite.

Por um constrangedor instante, os dois ficaram ali, olhando um para o outro. Pete parecia estar esperando que ela dissesse algo, mas Sally não sabia o que falar.

Por fim, Pete tocou o braço dela e disse:

- Ei, vamos sair desse frio. Meu motor home está aqui pertinho.

Ei, foi para isso que você veio até aqui, Sally disse a si mesma.

Você já gastou uma fortuna para ter a chance de conhecer esse cara de perto.

Sally caminhou ao lado dele em direção ao motor home. Seu trailer também estava ali perto, o que de certa forma a tranquilizou.

Ela não sabia porque estava se sentindo tão nervosa, logo agora que sua fantasia amorosa parecia estar se tornando verdade.

Parece tudo tão surreal.

Próximo do Winnebago imponente de Pete, Sally percebeu algo estranho. Ela não viu nenhum cabo de eletricidade ou cano de água engatado no veículo. Diferentemente de seu trailer, aquele

Winnebago não parecia estar instalado. Era como se ele estivesse acampando no vazio—mas utilizando o estacionamento do camping.

Sally engoliu em seco ao pensar...

Tem algo errado aqui.

Ao hesitar novamente, escutou Pete dizendo, com um sorriso:

- Está frio aqui. Você vai entrar ou não?

Sally sentiu-se envergonhada com sua própria hesitação.

Obviamente, ela poderia negar o convite, mas...

Que pessoa com espírito livre faria isso?

Ao dar os últimos passos até o motor home imponente, Sally percebeu que, ao menos, tinha certeza de algo...

Vai ser mais uma aventura.

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 179-184)