Jake Crivaro estava ciente do silêncio desconfortável na viatura.
Não que ele quisesse que o jovem policial ao volante começasse a falar. Era ótimo que ele só se preocupasse em fazer seu trabalho.
Mas Jake e Riley mal haviam se falado desde que tinham entrado na viatura.
Jake estava no banco da frente e Riley atrás. Ele precisou virar-se para vê-la.
Riley o olhou, depois desviou o olhar para a janela. Levemente, ela franziu a testa.
Para Jake, foi fácil imaginar com o que Riley estava preocupada.
Ela acha que eu não estou nem aí.
Crivaro sabia que sua jovem parceira pensava que ele não acreditava que a morte de Brett Parma importava a ponto de ser investigada por eles. Mas aquilo não era verdade. Sempre que ficava sabendo de um assassinato, mesmo que pelos jornais, Jake sentia uma necessidade urgente de resolvê-lo.
Aquilo já havia lhe colocado em apuros mais de uma vez.
Ao longo dos anos, Jake aprendera a resistir àquela necessidade, pelo menos quase sempre.
Agora, ele seguia lembrando a si mesmo de que ele e Riley não estavam oficialmente no caso. Aquele envolvimento não-oficial em um assassinato local era uma violação séria das regras do FBI.
Jake admitiu a si mesmo que nem sempre ligava muito para
regras. Houvera vezes no passado em que ele já tinha arriscado sua carreira por uma intuição.
Mas ele não havia sentido tal intuição dessa vez.
E além disso...
Entrar de vez nesse caso seria um mau exemplo, que não seria nada bom para Riley.
A jovem tinha muita tendência a quebrar regras. Ela já havia deixado Jake furioso mais de uma vez por não seguir as ordens dele. Pior, Riley havia deixado o chefe de Jake furioso, quase terminando sua carreira antes mesmo do início—e quase encerrando a jornada de Jake também.
No período em que Riley passara como estudante na Academia de FBI, em Quantico, Jake havia a retirado das aulas para ajudá-lo em um caso de assassinato. Ele não tivera um parceiro há anos, e achara que os instintos de Riley poderiam ajudar.
E se não fosse por Riley, talvez eles nunca tivessem pegado aquele assassino.
Mas durante o processo, Riley havia feito coisas muito perigosas.
Ela havia entrado no caminho de um homem muito importante, um senador dos Estados Unidos. Fingindo ser repórter, tinha
confrontado o Senador Gardner durante uma coletiva de imprensa, e feito perguntas sobre a vítima de um assassinato.
Suas intuições, como sempre, estavam certas—ainda que não exatamente como ela imaginara.
Gardner não era culpado do assassinato, mas também não era um homem inocente. A intuição de Riley havia trazido à tona
segredos da vida do homem que acabaram por encerrar a carreira política dele.
O chefe de Jake ficara mais do que furioso—e não só com Riley.
O Agente Especial Responsável Erik Lehl havia condenado Jake por envolver a jovem naquele caso.
No entanto, Riley também havia experimentado a ira daquele homem. Pessoalmente, Lehl a expulsara da Academia do FBI.
Depois, a jovem agente em treinamento fizera um brilhante trabalho ao lado de Jake no caso do assassino do arame farpado.
Lehl havia voltado atrás e a colocado novamente na Academia, mas ainda tinha desconfianças sobre Riley. Jake havia superado muitas dúvidas de superiores para colocar Riley na UAC após sua formatura na Academia.
Mais um ato imprudente e a carreira dela pode acabar para sempre, Crivaro pensou.
A última coisa que Jake queria era que sua decisão de levar Riley naquela viagem colocasse em risco o futuro de sua pupilo. Ele se aposentaria em breve, e a UAC precisaria de suas habilidades nada comuns. Com exceção dele mesmo em seus tempos áureos, Jake nunca havia encontrado nenhum outro investigador que pudesse entrar na mente de um assassino como Riley fazia.
Quando eles chegaram ao escritório do legista, em Stover, o policial chamado Wally estacionou em frente ao prédio. Os três saíram do carro, e Jake prestou atenção nos passos de Riley. Ele podia ver na expressão determinada da jovem que suas intuições sobre o assassino eram fortes.
Ela de fato acreditava que Brett Parma não era a primeira vítima daquele assassino.
Será que ela está certa? Crivaro perguntou-se.
Ele havia dito a verdade quando contou a ela que não havia tido a mesma sensação na cena do crime. E normalmente, Jake
confiava em seus instintos. Mas também era verdade que ele não havia sentido nada ao ver o lugar onde o corpo da mulher fora deixado. Jake não tinha nada a dizer sobre o caso.
Sentindo-se cansado, ele não sabia se podia confiar em seu próprio julgamento.
Jake esperava que a visita ao legista trouxesse respostas, de um jeito ou de outro.
Porém, se, como ele imaginava, a visita não trouxesse evidências claras que conectassem um crime ao outro, Riley manteria sua
promessa de deixar aquela história toda para trás?
Uma discussão muito séria parecia estar a caminho.
Ela é teimosa demais, Jake pensou, sorrindo.
E aquilo fazia com que ela fosse ainda mais parecida com ele.
Por isso Jake não conseguia não gostar dela.
Quando os três entraram no prédio, a recepcionista os cumprimentou e disse que o legista já estava os esperando. A mulher os levou até uma sala onde a placa na porta dizia: “Dr.
Francisco Arau, Legista”.
Jake e Riley entraram na sala, enquanto Wally esperou do lado de fora. Eles apresentaram-se ao legista, um homem baixo, de pele morena, com cabelos pretos. Diferente do comandante Webster, o Dr. Arau não parecia nada incomodado em conhecê-los. Ele disse:
- Everett Webster me disse que vocês estavam vindo. Ele disse que vocês têm algumas perguntas sobre a mulher que foi morta perto do Camping de Wren’s Nest. Disse que vocês estão achando possível que nós estejamos com um assassino em série à solta.
Jake encolheu os ombros e disse:
- Por enquanto é só uma hipótese, Dr. Arau.
- Pode me chamar de Paco – o legista disse, sorrindo. – Todo mundo me chama assim. – Então, ele balançou a cabeça e
acrescentou: - Preciso dizer que essa vítima de fato mexeu comigo.
Eu já vi corpos mortos de todos os tipos, em condições terríveis, geralmente pessoas que se machucam no deserto e acabam sendo devoradas por urubus. Isso é muito comum nessa região do país.
Também já lidei com várias vítimas de assassinatos. Mas essa...
Paco parou, respirou fundo e continuou.
- Não faz sentido para mim. Alguém pegou essa garota, fez ela sangrar até a morte em um local desconhecido. Depois, passou algum trabalho para levar o corpo dela até a trilha e a deixou para que qualquer um a encontrasse. Isso com certeza foi arriscado.
Mesmo que essa trilha não seja tão movimentada, facilmente alguém poderia ter visto ele indo ou voltando.
Jake respondeu:
- O cara que se arrisca desse jeito geralmente quer ganhar tempo e distância entre ele e a vítima.
- Mas ele não enterrou o corpo. Nem tentou escondê-lo.
Jake olhou para Riley:
- O que você acha que isso quer dizer?
Ele pode ver Riley refletindo sobre a pergunta.
- Não tenho certeza – ela disse. – Ele não estava mostrando sua façanha em público como a maioria dos assassinos em série.
Jake sabia que Riley estava pensando em um assassino que pinta as vítimas de palhaço ou que as pendura em um poste, ainda envoltas no arame farpado usado para matá-las.
- Certo – ele disse. – Esse cara não mostrou a vítima de nenhuma maneira. Mas por que ele nem tentou escondê-la?
- Obviamente ele não estava tentando esconder o fato de que tinha cometido um assassinato – Riley respondeu. – E não importa porque ele a matou, depois de morta, a vítima não significava mais nada para ele.
O Doutor Arau escutou tudo com atenção. Por fim, decidiu falar:
- Para ele, não importou se o corpo seria encontrado ou não.
Então ele devia estar muito confiante de que ninguém encontraria uma ligação entre ele e a vítima.
- Certo – Jake disse. – Agora, podemos por favor ver o corpo?
- Claro – Paco disse.
Ele levou Jake e Riley até o necrotério, onde puxou uma gaveta de aço que revelou o corpo de uma mulher, nu e sem vida.
Riley deixou escapar um suspiro e se virou.
Jake pode entender a reação dela.
A maior parte do abdômen da mulher já não existia, revelando fragmentos de seus órgãos e expondo suas costelas. Até algumas de suas vértebras podiam ser vistas. E é claro, o cheiro era horrível.
No entanto, o fato mais marcante era a palidez gritante no corpo sem sangue.
Riley ainda estava virada, encostada em uma mesa vazia. Jake pode ouvi-la suspirando e engolindo em seco para não vomitar.
Primeiro, Jake não ficou muito abalado com a cena. Ele já tinha visto corpos em situações bem piores durante sua carreira na UAC.
Ele caminhou ao redor do corpo, examinando-o por diferentes
ângulos. Jake viu que havia sobrado pouca coisa do braço direito da mulher, que agora se resumia a tendões e ossos. Mas ao olhar em seu outro braço, precisou segurar um suspiro.
Relativamente intacto, o pulso estava cortado em todas as direções.
Quem havia feito aquilo tivera mesmo a intenção de fazê-la sangrar até a morte.
E mais do que isso...
Os cortes pareciam ter sido feitos com audácia, confiança e certeza.
De repente, Jake sentiu uma intuição crescendo dentro de si.
Riley estava certa—e Harry também, pensou.
Quem fez isso já tinha matado outras vezes.