Riley estava tropeçando na trilha escura. A luz fraca revelava arbustos pontiagudos nos dois lados do caminho estreito. Figuras enormes, com os braços levantados, podiam ser vistas à luz da lua.
Cactos de Saguaro, Riley se deu conta.
Portanto, ela estava em algum lugar no deserto.
Estava preocupada porque nunca estivera no deserto à noite, e não sabia para onde ir...
Nem o que estou fazendo aqui.
Ao dar mais um passo, seu pé bateu em algo grande e macio, caído na trilha, a sua frente. Olhou para baixo e viu o corpo de uma mulher morta, com olhos arregalados, e a pele tão branca que
parecia quase fluorescente.
O coração de Riley se desesperou.
Eu e Crivaro chegamos tarde demais, pensou.
Houve outro assassinato.
Riley colocou a mão no bolso procurando sua lanterna, para ter uma visão melhor do corpo. A luz iluminou o braço da vítima,
completamente rasgado, como uma pintura abstrata, mas já sem sangrar.
Porque já não tem mais sangue nenhum no corpo dela.
Seria verdade? Uma poça escura no chão, perto do perto, parecia estar crescendo.
Riley abaixou-se para olhar a poça de perto e, então, sentiu algo viscoso na sola de seus sapatos.
A luz de sua lanterna revelou que havia mais sangue no chão onde ela estava pisando e...
Estou sangrando! Sangrando muito!
Riley apontou a lanterna para seu pulso esquerdo e viu que havia sido cortada várias e várias vezes. Seu sangue estava jorrando dos ferimentos, caindo no chão seco do deserto.
Ao levantar-se, quase desmaiou. A lanterna caiu de suas mãos, e o mundo, de repente, ficou muito mais escuro.
Cambaleou para trás e moveu seus braços.
Suas mãos colidiram com uma superfície dura.
Estava cercada pela escuridão agora, e não conseguia ver absolutamente nada. Mas ao se virar em todas as direções, descobriu...
Estou trancada.
Riley havia sido, repentinamente, presa em um pequeno espaço, uma pequena sala.
Tenho que sair daqui, pensou.
Tenho que sair antes que eu sangre até morrer.
Ela começou a bater nas paredes, gritando por socorro...
Os olhos de Riley abriram-se de repente quando seus dedos colidiram com uma superfície dura.
Rapidamente, ela percebeu que estava deitada em sua pequena cama, acima da cabine do motor home.
Estava batendo seu punho contra o teto, acima de sua cabeça.
Lembrou-se do sonho, e de que estava gritando naquele pesadelo.
Será que gritei em voz alta?
Se sim, Crivaro havia escutado? Ele teria acordado? Era uma possibilidade que a envergonharia. Mas Riley não escutou
resmungos nem passos de seu parceiro.
Ela olhou para seu relógio e viu que havia dormido mais do que o esperado. Abriu a cortina e desceu a escada.
Havia um pedaço de papel na mesa do motor home.
O bilhete dizia...
Riley—
Saí cedo para fazer algumas buscas. Vou falar com o gerente e assim que eles abrirem, vou tentar conseguir mais informações.
Enquanto isso, quero que você faça o seguinte...
A lista de tarefas tinha poucos itens. Primeiro, Crivaro queria que Riley relesse a pequena pilha de relatórios enviados por fax pelo comandante Webster no dia anterior, para tentar encontrar algo que os dois poderiam ter deixado passar. Uma tarefa que parecia bem simples.
O segundo item, no entanto, assustou Riley.
Crivaro queria que ela ligasse para a mãe de Brett Parma, que morava em North Platte, em Nebraska.
Mas por que? Riley se perguntou.
Ela sabia que a polícia de Tunsboro já havia entrado em contato com a mulher. Que perguntas Riley poderia fazer que ainda não tinham sido feitas? Agora que ela e Crivaro sabiam que Brett Parma havia sido morta pelo mesmo assassino que havia atacado no
Colorado, um ano antes, seu parceiro achava que a mãe da
segunda vítima poderia ter alguma ideia de quem era o criminoso?
Parecia algo totalmente improvável.
Riley olhou para seu relógio novamente. Ela sabia que o horário em Nebraska estava duas horas à frente do horário do Arizona, mas mesmo assim, ainda era muito cedo para ligar para a mãe de uma mulher recentemente assassinada.
Riley foi até o pequeno banheiro e trocou de roupa, escolhendo um shorts e um top, que imaginou combinar com o estilo de vida em um motor home.
Crivaro já havia preparado um café quente. Riley serviu a si mesma uma tigela de cereal e sentou-se à mesa.
Ao começar a comer, Riley preocupou-se com Crivaro. Por que ele havia se levantando tão cedo e saído sem chamá-la para
acompanhá-lo? Ele ainda estaria bravo por ela ter jogado um homem na piscina no dia anterior?
Teria ele chegado a conclusão de que tornar Riley sua parceria tinha sido um erro?
Ela seria convidada a embarcar no próximo voo de volta para Virginia?
Riley desejou ter pelo menos alguma daquelas respostas.
Enquanto comia, folheou os relatórios da polícia novamente. Não encontrou nada que já não tivesse percebido no dia anterior. Com exceção da bagunça feita na cena do crime, Riley acreditava que Webster e sua equipe haviam feito um bom trabalho investigando o que, de início, parecia ser um caso de assassinato sem outras conexões.
O próprio comandante Webster havia interrogado o dono do
Camping Wren’s Nest, que tinha lhe dado algumas das informações que Riley estava lendo naquele momento. Os registros incluíam
dados das pessoas que haviam chegado e saído nos últimos dias.
Riley disse cada um dos nomes em voz alta, esperando que
pudesse se lembrar caso algum deles voltasse a aparecer no futuro.
Mas, por ora, não havia razão para desconfiar de nenhum deles em particular.
Os policiais de Tunsboro também já haviam investigado os passos de Brett Parma durante os dias que antecederam sua
chegada ao camping. Ela havia deixado North Platte cerca de uma semana e meia antes, e tinha acampado em Petrified Forest e Mogollon Rim por alguns dias antes de chegar ao Wren’s Nest.
Ninguém sabia dizer para onde ela iria depois que saísse do camping.
Os policiais também haviam feito buscas para descobrir se algum dos hóspedes presentes no Wren’s Nest durante a estadia de Brett Parma também haviam passado pelos outros campings que ela tinha visitado antes. Essa busca, no entanto, não trouxe resultados.
Riley suspirou ao ler a última página do relatório e terminar sua xícara de café. Deu-se conta de que não podia mais adiar a ligação para a mãe de Brett Parma. Não seria nada bom se Crivaro voltasse e descobrisse que ela ainda não havia telefonado.
Riley pegou seu celular e digitou o número de Dale Parma, em North Platte.
Quando a mulher atendeu, Riley disse:
- Senhora Parma, perdão por incomodar, mas aqui é a agente Riley Sweeney, do FBI, e—
Interrompendo, Dale Parma disse:
- Ah! Eu não sabia que o FBI estava envolvido nisso. Achei que era só a polícia local. Não tenho palavras para descrever como tem sido difícil para mim. Por favor, me diga que você tem novidades.
Riley engoliu em seco.
Ela sabia que de fato tinha novidades—a descoberta de que a filha de Dale Parma tinha sido morta por um assassino em série.
Mas Riley deveria contar? Em seu bilhete, Crivaro não havia deixado nenhuma instrução sobre aquele assunto.
Rapidamente, decidiu que seria melhor despistar.
- Nossa investigação está caminhando, senhora Parma.
Infelizmente não tem nada que eu possa lhe dizer agora.
Riley pode ouvir a senhora Parma resmungando.
- Sinto em ouvir isso – a mulher disse. – Mas então por que você está me ligando?
Riley voltou a engolir em seco e pensou...
Boa pergunta.
Ela disse:
- Eu gostaria de... fazer algumas perguntas.
A senhora Parma respirou fundo.
- Meu Deus, o que você vai querer que eu diga agora? Eu já respondi tantas perguntas. Estou cansada de tentar encontrar respostas.
Riley queria admitir que aquela ligação havia sido um erro, pedir desculpar e dizer tchau...
Mas Crivaro me disse para falar com ela.
Tomando coragem, disse:
- Senhora Parma, eu sei que você já respondeu muitas
perguntas, então por favor, me desculpe. O FBI acabou de entrar no caso, e precisamos começar tudo novamente. Você consegue
pensar em alguém que poderia desejar o mal para sua filha?
- É claro que não – Parma disse. – E sim, eu já respondi essa pergunta antes.
Riley teve dificuldades para pensar em mais perguntas. Nada em sua mente parecia ser relevante agora que ela sabia que Brett
Parma havia sido morta por um assassino em série, que
provavelmente era um desconhecido. O que aquela mulher poderia saber que seria minimamente útil?
Relutante, Riley perguntou:
- Brett tinha noivo, namorado ou estava em algum tipo de relacionamento?
- Acho que não – Parma disse, suspirando. – Talvez eu devesse saber, já que morava na mesma cidade da minha única filha. Mas ela... ela se afastou de mim nos últimos anos. Emocionalmente, digo.
A mulher ficou em silêncio por um instante. Depois, continuou:
- Meu marido, o pai dela, morreu há três anos, e ela sempre foi mais próxima dele do que de mim. Depois da morte dele,
passaram-se meses sem que eu tivesse notícias dela.
Riley escutou atentamente enquanto a mulher seguiu falando. A senhora Parma disse que achava Brett inquieta e solitária, e que por vezes sua filha dizia que odiava ser recepcionista no Grupo Médico Família Hanson.
Ela também escutou Parma falando sobre como ela havia mudado depois da infância, quando fora alegre e extrovertida.
Durante sua adolescência, porém, Brett havia se tornado fechada, triste, e nunca havia voltado a ser como antes.
Por fim, a mulher fez uma pergunta:
- Agente Sweeney—você sabe me dizer por quê?
Riley franziu a testa e se perguntou...
O que é que eu posso dizer?
Devagar e com cuidado, ela respondeu...
- Senhora Parma, a mente de um assassino pode ser um mistério terrível, mesmo para investigadores como—
Parma interrompeu.
- Não, não estou falando disso. Digo, você sabe me dizer por que ela se afastou assim? Ela foi para essa viagem sem nem me avisar.
Não sei se ela avisou alguém. Se tivesse avisado, alguém teria dito que era perigoso para uma jovem viajar sozinha, especialmente para acampar. Me parece algo tão maluco. Você sabe por que ela fez isso?
Riley engoliu em seco com uma realização repentina e assustadora.
Sim, eu sei porque ela fez isso.
Depois de ouvir a mulher falar, Riley teve certeza de que a mãe da vítima, no fundo, também sabia da verdade.
Ela estava cansada de North Platte.
Cansada da vida dela lá.
Brett Parma estivera desesperada para fugir de tudo o que conhecia—inclusive de sua mãe.
Mas Riley não verbalizou seu pensamento.
Afinal de contas, de que adiantaria?
Então, ela apenas disse:
- Sinto muito, eu não sei.
Riley imaginou ter ouvido a mulher segurando o choro.
- Claro que você não sabe – Parma disse. – Não sei nem porque perguntei. Estou sendo tola.
Sem jeito, Riley disse à senhora Parma que sentia pela perda, agradeceu pelo tempo da mulher e encerrou a ligação.
Ela sentou-se à mesa olhando para seu telefone.
Lembrou-se de Dale Parma dizendo...
“Estou sendo tola.”
Agora, com a ligação encerrada, era Riley quem estava se
sentindo tola. Ela levou alguns momentos para perceber porque. A ligação havia sido totalmente inútil, e Riley nem sequer deveria ter telefonado. Pior, o Agente Crivaro com certeza sabia que a
chamada seria inútil, e mesmo assim havia ordenado que Riley telefonasse.
Mas por que?
Uma possibilidade nada agradável surgiu em sua mente.
Talvez ele só queria que eu fizesse algo inútil e doloroso.
Talvez ele estivesse tentando afastá-la com tarefas
desagradáveis e inúteis. Se fosse verdade, Riley desejava que ele apenas a mandasse embora. Seria cruel da parte dele adiar o inevitável fim da parceria entre os dois.
Naquele instante, a porta do motor home se abriu.
Crivaro entrou pisando firme, ofegante e com o rosto avermelhado.
Ele quase gritou:
- Venha aqui me ajudar. Temos que desencaixar tudo. Vamos sair daqui agora!
- Por que? – Riley perguntou.
- Outro assassinato – Crivaro disse.