Riley estava movendo o motor home da pista da esquerda para a da direita quando Crivaro gritou:
- Carro!
Assustada, ela voltou o veículo para a pista da esquerda abruptamente, fazendo o motor home balançar levemente.
Riley respondeu Crivaro imediatamente:
- Não vi o carro.
Jake apontou pela janela e disse:
- É porque você não está usando esse retrovisor do jeito certo.
- É muito difícil de ver – Riley respondeu.
- Então me diga quando você quiser trocar para a pista da direita e eu olho para você.
Riley segurou um suspiro. As dificuldades em dirigir aquele gigante pareciam ser intermináveis. Agora ela estava entendendo porque Crivaro tinha pedido para deixar o volante.
Jake riu e acrescentou:
- Não se esqueça de que você está dirigindo uma minicasa.
Riley encolheu-se ao escutá-lo repetindo as palavras que ela mesma havia dito mais cedo, enquanto Jake acelerara pela estrada.
Ele pagou na mesma moeda, ela admitiu a si mesma.
Afinal de contas, talvez ela tivesse sido um pouco arrogante ao julgar a maneira como Crivaro dirigira. Ele havia lidado bem com o motor home—e por isso Riley havia achado que seria fácil—ou pelo menos mais fácil do que dirigir o caminhão enorme que ela e Ryan haviam usado para fazer sua mudança em Washington.
Mas agora, dirigindo o motor home por apenas alguns minutos, Riley já havia encontrado muitos detalhes com os quais se
preocupar. Ela odiava os retrovisores, por exemplo, que insistiam em confundir sua mente refletindo imagens nos dois espelhos presentes em cada lado do veículo.
Abaixo do espelho principal havia um espelho menor, convexo, que fazia os objetos refletidos parecerem menores do que realmente eram. Teoricamente, aquilo seria útil para lidar com pontos cegos, mas Riley obviamente ainda não tinha aprendido a escolher onde deveria olhar a cada momento.
Ela quase tinha batido o motor home. Arrepiou-se ao pensar no que seria o tamanho do problema.
A quase batida mexeu com Riley, mas ela estava determinada a aprender a lidar com aquele veículo enorme. Estava feliz por não ter escolhido um motor home Classe A. Aquele Classe C já estava
trazendo muitos problemas, mesmo sendo de tamanho médio.
Riley teve certeza de algo. Crivaro lhe chamaria a atenção a qualquer erro cometido. Ele vinha criticando a maneira como ela estava dirigindo desde que eles haviam deixado o bloqueio policial.
Enquanto olhava indo e voltando entre os retrovisores, Riley viu Crivaro colocar suas mãos atrás da cabeça e, aparentemente, relaxar um pouco.
Ele disse:
- Parece que você está pegando o jeito. Acho que temos que falar sobre nossa estratégia. Você é quem tem o plano. Agora que estamos a caminho, me diga qual é o próximo passo.
Riley segurou um suspiro e desejou não ter que responder àquela pergunta. Claro, havia sido ideia dela ir para o norte em busca do motorista solitário, em um motor home branco, que dizia estar indo para o camping Crayfish Creek. Mas Riley não sabia nada além daquilo. Ela esperava que Crivaro pudesse ajudar com algumas ideias.
Riley pensou por um instante e então respondeu:
- Acho que temos que ligar para o camping e avisar a segurança de lá que estamos a caminho.
Crivaro deixou escapar uma risada irônica.
- Que? – ele perguntou. – Não vamos nos disfarçar de novo?
- Não com essas roupas – Riley respondeu.
Ela estava feliz por, assim com Crivaro, estar vestindo novamente as roupas que havia utilizado para pegar o avião, ainda em
Quantico. Os trajes comuns combinavam mais com o clima mais frio, mas Riley e Crivaro já não pareciam estar acampando.
Crivaro soltou um suspiro falso.
- Que pena, estou tão decepcionado – ele disse.
- Ha-Ha-Ha, que engraçado – Riley resmungou. – Você telefona, estou dirigindo.
- Sim, senhora – Crivaro disse.
Ele pegou o celular e, primeiro, telefonou para conseguir o número do camping. Depois, digitou o número e colocou a ligação no viva-voz. Quando um segurança chamado Perosky atendeu, Crivaro explicou que eles eram agentes da UAC e estavam atrás de um assassino em série.
- Senhor – Perosky disse. – Você está falando do psicopata que matou aquelas mulheres no Arizona?
- Isso mesmo – Crivaro respondeu.
- E você acha que ele está vindo para cá?
- É isso que nós queremos descobrir – Crivaro disse. – Temos uma pista que diz que ele vai parar no seu camping no caminho para o Bryce Canyon. Como estão as coisas aí agora? Algo fora do comum?
Perosky respondeu:
- Não, está tudo bem parado, na verdade. Não temos muitos hóspedes. Nevou, e a neve faz as pessoas ficarem longe daqui.
Riley olhou para Crivaro e murmurou:
- Neve?
Crivaro encolheu os ombros e seguiu falando com Perosky.
- Estamos procurando um motor home branco, estilo Winnebago.
- Bom, posso te garantir que não temos nenhum desse aqui no momento. Os maiores motor homes aqui, agora, são Classe C. Eles servem melhor quando a estrada está nessas condições.
Riley não surpreendeu-se ao ouvir aquilo, e soube que Crivaro também não. Era impossível que o motorista que tinha sido parado naquela blitz tivesse chegado tão ao norte em tão pouco tempo.
Crivaro disse a Perosky:
- Escute, fique de olho se aparecer um Winnebago grande, especialmente se tiver uma listra vermelha do lado. Se aparecer algo assim, me ligue imediatamente.
- Entendido – Perosky respondeu.
- Eu e minha parceira estamos em um Classe C. Como está a estrada?
- Muito boa. Vocês não vão ter dificuldades para chegar aqui com um veículo desse. Mas se vocês seguirem até o Bryce Canyon, a história muda. Você vai precisar de roupas e botas de inverno. – Ele riu e acrescentou: - Ou botas de neve.
- Obrigado pelo conselho – Crivaro disse e desligou.
Depois, ele disse a Riley:
- Neve. Meu Deus. Estávamos no deserto ontem, e até em Sedona o clima estava bom.
Riley respondeu:
- Não se esqueça que já é quase Natal. E estamos indo para lugares altos.
- Bom, espero que não tenhamos que seguir esse cara mais para o norte. Não estamos equipados para perseguir um suspeito no meio da neve.
*
Pouco tempo depois, Riley e Crivaro passaram por Flagstaff e o trânsito diminuiu, facilitando a tarefa de Riley ao volante. Mas após mais três horas na estrada, a noite começou a cair. Quanto mais a altitude aumentava, mais pinos e cedros apareciam. Havia também outras árvores, quase sem folhas. Vinha nevando muito
ultimamente, mas mesmo assim, a rodovia estava em boas condições.
Por fim, eles acabaram saindo da rodovia e entrando em uma estrada menor. Nesta rota, a neve também havia sido retirada, mas não tão recentemente quanto na rodovia. Havia um traço de neve deixado pelos veículos que passavam por ali.
A menos de dois quilômetros do camping Crayfish Creek, Riley e Crivaro ainda não haviam recebido nenhum outro contato de
Perosky.
Jake balançou a cabeça, desanimado.
- Odeio dizer isso, mas toda essa viagem não vai dar em nada.
Perosky teria ligado se o cara do Winnebago tivesse aparecido. E com certeza ele já teria chegado até essa hora.
Riley não respondeu, mas sabia que seu parceiro estava certo.
O que significa que minha intuição estava errada.
Pior ainda, eles haviam ido até Utah, em uma viagem inútil,
apenas por insistência dela. Riley segurou um suspiro de desânimo.
Mesmo que Crivaro não estivesse demonstrando, ela sabia que a
paciência dele já estava no limite. Depois desse erro, ele voltaria a aceitar algum conselho dela? Riley duvidada.
Finalmente, o telefone de Crivaro tocou.
Era Perosky.
- Ei, estou vendo um Winnebago branco passando pelo portão agora mesmo.
Crivaro perguntou:
- Você consegue ver o motorista? O veículo tem uma listra vermelho do lado?
- Está muito escuro para ver daqui – Perosky disse. – O que eu devo fazer?
Riley e Crivaro olharam-se, ansiosos.
Crivaro disse:
- Seja lá o que você fizer, Perosky, não alarme o motorista. Trate ele como qualquer outro hóspede. Se ele for quem nós estamos procurando, vamos pegá-lo quando chegarmos aí.
A ligação foi finalizada e Crivaro disse, com ânimo renovado no tom de voz:
- Que coisa. Vai ver você estava certa mesmo.
Mas Riley decidiu não criar esperanças, ao menos por enquanto.
Quando eles chegaram ao portão do camping, poucos minutos depois, encontraram um homem com o uniforme da segurança do local esperando. Crivaro abaixou a janela do passageiro e
perguntou:
- Perosky?
O homem assentiu.
- Onde está o veículo? – Crivaro perguntou.
Perosky apontou e disse:
- Lá. Mas acho que não é quem vocês estão procurando.
Riley e Crivaro viram o Winnebago parado no estacionamento do camping. Um homem, uma mulher e duas crianças já haviam saído do veículo para esticar as pernas. Todos estavam bem agasalhados e curtindo a neve.
Uma família, Riley pensou.
Ela e Crivaro sabiam que era impossível que o assassino estivesse viajando com uma família.
Com a voz cansada, Crivaro agradeceu Perosky pela ajuda. O segurança assentiu e caminhou até o balcão de registros. Riley apagou as luzes e desligou o motor do motor home. Ela e Crivaro sentaram-se na cabine do veículo. Um minuto inteiro se passou sem que ninguém dissesse nada.
Por fim, Crivaro quebrou o silêncio.
- Bom, sua teoria brilhante não deu certo, Riley. E agora?
Antes que Riley pudesse pensar em uma resposta, Jake continuou:
- Esqueça. Suas ideias malucas nos trouxeram até aqui, nesse frio da porra, e não estamos vendo nem sinal do assassino. Vamos voltar para Sedona, juntar forças com o comandante Wilson e a equipe dele e começar do zero.
Riley mal pode acreditar no que ouviu.
- Como assim do zero? – ela disse. – Você acha mesmo que o assassino ainda está por lá?
- Bom, tenho certeza que ele não está por aqui.
- Como você pode ter tanta certeza?
Crivaro resmungou.
- Não podemos ter certeza de nada. Ele pode estar em qualquer lugar—leste, oeste, norte ou sul. Por isso temos que voltar, nos juntarmos à polícia de Sedona e estabelecer uma base de operações lá.
Riley segurou o volante com força e respondeu, apertando os dentes:
- Não.
Crivaro respondeu:
- Caramba, garota, você não pode ficar com raiva toda vez que estiver errada sobre algo. Vamos sair, esticar as pernas por um instante e depois eu vou pegar o volante. Você está irritada demais para dirigir.
- E você não? – Riley perguntou, com raiva na voz.
Crivaro a olhou, parecendo surpreendido por seu tom de voz.
Por fim, disse:
- Você está sendo teimosa.
Riley sentiu-se culpada. Talvez, de fato, ela estivesse mesmo apenas sendo teimosa. Ela estava com raiva, é claro—mas de
Crivaro, por querer voltar para Sedona, ou de si mesma, por ter estragado tudo?
Riley ficou parada por um instante, tentando convencer a si mesma de que estivera errada o tempo todo, e de que o assassino não havia ido para o norte.
Mas quanto mais tentava se convencer, mais a teimosia insistia em crescer.
Era mais forte do que ela.
Com sua mente trabalhando enlouquecidamente, Riley tentou pensar em algo, qualquer coisa, que respondesse suas dúvidas. De repente, duas palavras surgiram em seus pensamentos.
Acampamento vazio.
Levou um instante para se lembrar de onde havia escutado aquele termo antes.
Então, disse a Crivaro:
- Eu diria que ele está acampando no vazio.
Crivaro franziu a testa e perguntou:
- Está o que?
- Acampando no vazio. As mulheres no camping de Spring View me falaram sobre isso. Significa que ele para o veículo em qualquer lugar, sem usar nenhuma instalação do camping—sabe,
eletricidade, água ou banheiro. Acho que é isso que esse cara está fazendo.
Crivaro revirou os olhos.
- Qual é, Riley—
Riley o interrompeu:
- Pense, Jake. Ele não pode ficar parado em um só lugar. Ele tem que estar sempre em movimento. Depois de um assassinato, ele precisa sair imediatamente. O que significa que ele não é um campeiro comum. Ele é um campeiro vazio.
Crivaro disse:
- E daí? Mesmo se você estiver certa, o que eu acho difícil, como nós podemos usar essa sua nova intuição?
Boa pergunta, Riley pensou.
Sem refletir sobre a resposta, ela abriu a porta do motorista e saiu do veículo.
- Onde você vai? – Crivaro gritou.
Riley não respondeu. Ignorando o frio, caminhou até o balcão de registros e colocou a cabeça lá dentro. Perosky estava lá, falando com outro funcionário do camping. Riley ouviu os passos de Crivaro vindo atrás dela.
Ela disse a Perosky:
- Vocês recebem pessoas que fazem acampamentos vazios nessa região?
Perosky levantou a cabeça, surpreso.
- Sim, alguns – ele disse.
O outro funcionário acrescentou:
- Eles nos irritam muito. Ficam por aí, quando deveriam se
hospedar aqui e pagar pelos nossos serviços. Para nós, não valem nada.
Perosky acrescentou:
- Na maioria dos outros lugares, esses caras param seus veículos em estacionamentos de shoppings, lugares assim. Não temos
shoppings por aqui. Mas eu andei passando por alguns campeiros que param no mirante Thorpe.
O funcionário concordou e disse:
- É, eu também vi. É ilegal ficar lá, e eu já pensei em ligar para a polícia algumas vezes. Mas não adiantaria muito. Eles tiram de um lugar e chegam outros, em outros lugares. É um saco.
Riley pediu o endereço do mirante Thorpe, e os dois homens explicaram como chegar lá. Depois, ela voltou para o motor home com Crivaro a seguindo. Riley subiu ao volante e Jake voltou ao banco do passageiro.
Riley ligou o motor e Crivaro resmungou:
- Onde nós vamos agora?
Riley perguntou:
- Para onde você acha?
Crivaro deixou escapar um suspiro de frustração quando Riley começou a dirigir, deixando mais um rastro de neve para trás.
- Riley, você está errada nisso – Crivaro disse. – Cacete, você sabe que está errada.
Riley pensou...
Ele está certo?
Ela achava mesmo que eles encontrariam o assassino no mirante Thorpe?
Riley não sentia que estava seguindo um instinto real naquele momento. Para ela, era mais um ato de teimosia. Ela não conseguia admitir a si mesma que estava errada.
Sem dizer nada, pensou...
Se eu estiver errada, tudo bem.
A vida seria muito mais simples se Crivaro nunca mais
acreditasse em seus instintos, e ela voltaria a apenas seguir as ordens dele.
Isso se ele não me demitir.
De certa forma, uma demissão também simplificaria sua vida.