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CAPÍTULO SETE

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 51-59)

Enquanto o comandante Webster dirigia a viatura saindo de

Tunsboro, Riley sentiu suas expectativas crescendo. Mas ao mesmo tempo, perguntou-se...

Sou só eu?

Ela não tinha visto nenhuma ponta de interesse no rosto do

Agente Crivaro. Agora, sentado ao lado do comandante, ele parecia entediado.

Crivaro não está nem aí para esse caso mesmo? Nem depois de ter me arrastado para o outro lado do país?

Com um suspiro, Riley encostou-se no banco de trás, desejando que seu parceiro estivesse mais animado ao chegar à cena do crime.

Webster perguntou a Crivaro:

- Esse tal de Harry Carnes—o cara que me ligou—você conhece ele?

- Um pouco – Crivaro respondeu.

Riley percebeu que Crivaro não queria admitir que ele e Riley estavam ali fazendo um favor pessoal para um velho amigo dele.

Provavelmente, ele queria que Webster pensasse que eles haviam sido enviados oficialmente pela UAC.

- Ele é um tagarela de mão cheia – Webster disse. – Eu mal pude falar durante a ligação.

Riley percebeu um leve sorriso no rosto de Crivaro. Foi fácil imaginar o que ele estava pensando...

Tagarela de mão cheia, com certeza.

Harry havia falado quase sem parar durante o tempo que passara com Riley e Crivaro.

Webster acrescentou:

- Ele parecia um louco das conspirações, do jeito que falava e falava sobre a mulher que foi morta no Colorado. Ele tem uma teoria e tanto—de que o mesmo assassino atacou novamente, a mais de mil e trezentos quilômetros de distância e um ano inteiro depois.

Você não acredita nisso, acredita?

Crivaro apenas resmungou.

Webster riu.

- Se eu não soubesse que não, eu diria que Harry Carnes era nativo de Tunsboro. Temos uns antigos aqui que aparecem com umas histórias dessas. Sabe, tem uma lenda sobre nossa pequena cidade que é contada desde os primórdios. Dizem que alguém que toma a água de Saguaro Creek nunca mais fala a verdade, até o fim da vida. Só fica contando histórias loucas, para sempre.

Webster apontou o dedo para Crivaro.

- Não me leve mal, essa lenda não tem nada a ver comigo. Eu vim de longe, nasci e fui criado no Texas. E só bebo água mineral, então você pode confiar em mim. – O tom de voz de Webster ficou mais sério quando ele acrescentou: - E a verdade é que eu não gosto nada de pessoas sendo assassinadas aqui perto. Nem um pouco.

Riley lembrou-se do que ele havia dito na delegacia.

“Eu meio que levo para o lado pessoal quando alguém é assassinado na minha jurisdição.”

Ele também dissera...

“Sem ofensa, mas eu preferiria não ter nenhuma interferência de Quantico.”

Webster parecia um homem teimoso e aquilo preocupou Riley de certa forma. Ela podia entender a determinação dele para solucionar o caso sem ajuda externa. Mas por suas próprias experiências, ela sabia que um caso de assassinato poderia se transformar em uma vingança pessoal. Crivaro vinha tentando ensiná-la a não deixar tais sentimentos a atrapalharem. Pouco a pouco, Riley estava

começando a entender a importância do trabalho em equipe.

Ela perguntou-se—será que Webster sabia disso?

Ele sabia o quão úteis ela e Crivaro poderiam ser naquele momento?

E principalmente, pensou...

Ele sabe que esse caso pode estar muito longe do alcance dele?

Se o assassino fosse pelo menos um pouco parecido com os quais Riley e Crivaro haviam lidado em outras ocasiões, a delegacia da pequena cidade não teria conhecimento, recursos e nem

experiência para pegá-lo.

Riley precisou parar com seus pensamentos preconceituosos.

Até então, ela não tinha motivos para acreditar que eles estavam investigando um assassino em série. Crivaro, certamente, também não achava que sim.

Riley forçou-se a parar de pensar naquilo e olhou pela janela do carro.

A paisagem havia mudado.

Durante o caminho de Phoenix a Tunsboro, eles havia passando principalmente por áreas desenvolvidas—resorts e campos de golfe.

Agora, Webster estava os levando por uma estrada precária, e Riley estava tendo sua primeira impressão real do deserto do sudoeste.

E não estava gostando muito.

Os enormes trechos de solo rochoso e o mato verde juntavam-se apenas aos altos cactos. Nem o intenso céu azul transformava a paisagem em algo inesquecível.

Por ter crescido na área rural de Virginia, Riley estava

acostumada com muito verde, muita vegetação, montanhas e, especialmente, árvores.

Não havia uma única árvore por ali.

O motivo pelo qual turistas como Harry e Jillian iam até lá desfrutar daquele cenário era um mistério para Riley.

Ela lembrou a si mesma de que, ao menos, o clima era bom. O comandante Webster havia aberto as janelas do carro, e o ar era surpreendentemente fresco e seco—nenhum pouco úmido, como em Virginia.

Logo depois, Riley viu alguns veículos estacionados na estrada.

Webster parou o carro atrás deles.

Um dos veículos era outra viatura, e o outro uma van. Dois policiais estavam encostados na viatura, fumando cigarros.

Uma placa ali perto dizia: “Trilha Wren’s Nest”.

Webster explicou a Riley e a Crivaro, quando todos saíram do carro:

- Deixei alguns caras da minha equipe aqui de olho em tudo. Nós já investigamos o que podíamos por aqui. Não encontramos nada útil. Eu estava prestes a chamar um guincho para levar a van. Mas aí vocês apareceram e eu imaginei que deveria deixá-la aqui mais um pouco.

Riley e Crivaro seguiram Webster até a van. As postas de trás estavam abertas, e Riley pode ver um colchão no chão, ao lado de alguns equipamentos de acampamento. Ao olhar para dentro, Webster disse:

- Você percebe que a jovem não era uma campeira experiente.

Parece que ela comprou essa van de segunda ou terceira mão, tirou os bancos de trás, e não se esforçou muito para transformar o

veículo. Só jogou um colchão no chão. Ela dependia muito do que os campings oferecem.

Webster virou-se e chamou os dois policiais.

- Vocês podem chamar o guincho agora. Não precisamos mais deixar essa van aqui.

Enquanto um dos policiais pegou o celular para fazer a ligação, Riley pode ver Crivaro fazendo uma careta. Ela imaginou que ele não tinha gostado de não ter sido consultado sobre o que deveria ser feito com a van, mesmo que concordasse com a decisão. Ele estava acostumado a ter policiais locais dependendo de sua

liderança e seguindo suas instruções. Mas dessa vez, os dois não estavam oficialmente no caso, e portanto Jake não poderia dar ordens.

Olhando em volta, Crivaro perguntou a Webster:

- O que vocês conseguiram encontrar nos rastros?

- Rastros? – Webster perguntou.

- Os rastros dos pneus – Crivaro disse. – Quem matou essa

mulher com certeza tinha seu próprio veículo. As marcas dos pneus poderiam ajudar a identificar o veículo. Imagino que vocês tenham fotografado esses rastros quando chegaram aqui.

Webster pareceu envergonhado.

- Cacete, não fizemos isso – ele disse. – Mas a estrada é seca.

Não teríamos encontrado muita coisa.

Crivaro balançou a cabeça.

- Bom, agora já é tarde demais. Quaisquer rastros que ainda estejam na estrada não vão ajudar. Parece que pelo menos uns dez veículos já passaram por aqui desde que o corpo foi encontrado.

Não vamos mais conseguir as marcas dos pneus.

Webster encolheu os ombros, defensivamente, e então disse:

- Sim, você sabe, o cara que encontrou o corpo, nossas viaturas, os legistas... – Ele diminuiu o tom de voz e acrescentou: - Vamos lá, deixe-me mostrar a vocês onde o corpo foi encontrado.

Enquanto Webster levava Riley e Crivaro em direção a um caminho complicado que levava a uma montanha, ele disse:

- A garota não era uma trilheira muito experiente. Vir ao deserto sozinha não foi algo muito inteligente da parte dela, especialmente em uma trilha como essa, que não é muito usada. Se você perder a trilha, pode se perder na floresta e, então, acabar sendo morto.

Esses lados são complicados, é sempre uma boa ideia ter uma companhia quando você quer explorar essas áreas. Ela poderia ter se complicado seriamente, mesmo se isso tudo não tivesse

acontecido... bem, desse jeito.

Webster balançou a cabeça e continuou:

- Acho que foi meio que sorte o corpo dela ter sido encontrado tão cedo. Mas os trilheiros que a encontraram ficaram bem

assustados. Meus tiras também. Eles não são acostumados com essas coisas. Aliás, nem eu. E eu acho que nunca vou me

acostumar. Um caso como esse já é o suficiente para mim, para a vida toda.

Enquanto os três passavam por cactos imponentes, Riley surpreendeu-se com a altura das plantas. Elas não pareciam tão altas do carro. Algumas delas pareciam até ter saído de contos de fadas, como gigantes com os braços levantados para o alto.

Percebendo a surpresa de Riley, Webster disse:

- Esses cactos nem são tão altos. Temos alguns com mais de treze metros de altura. São plantas incríveis, que podem viver mais de cento e cinquenta anos.

Parando para apontar para um dos cactos, Webster acrescentou:

- Você precisa ver essas plantas na primavera. Várias flores no fim desses galhos. O deserto ganha vida. Vemos flores por todos os lados.

Eles voltaram a caminhar, e Webster disse:

- Claro, vocês não vão querer estar aqui nessa hora do dia durante o verão. Até as flores preferem aparecer à noite. A temperatura passa muito de quarenta graus. – Rindo, ele

acrescentou: - Eu quase disse “quarenta graus na sombra”, mas seria uma mentira, porque não há sombra por aqui.

Os três chegaram ao topo da pequena montanha e continuaram descendo a trilha para o outro lado. Então, o comandante Webster parou de repente e apontou para o chão, entre dois arbustos.

- Foi ali que ela foi encontrada – ele disse.

Riley olhou para o chão. Primeiro, o lugar não parecia nada diferente do restante do solo. Mas depois, ela percebeu algumas manchas escuras no chão. Riley disse a Webster:

- Parecem manchas de sangue. Você não disse que ela sangrou até a morte antes de ser trazida até aqui?

Webster resmungou, com nojo.

- Sim, mas urubus abriram o corpo inteiro durante o dia e meio que o corpo ficou jogado aí. Quando nós chegamos, tivemos que espantar vários só para conseguir ver o corpo. Alguns coiotes

também atacaram, e sabe-se lá que outros animais. Essas manchas são mais de tripas do que sangue. O legista teve muito trabalho aqui.

Crivaro olhou pela trilha e disse:

- Então você não sabe onde ela foi morta, certo?

- Não temos ideia – o comandante Webster respondeu. – Não sabemos nem se ela chegou a fazer a trilha. Ela pode ter sido raptada lá perto da van.

Crivaro abaixou-se e apontou para onde o chão estava mexido.

- Muitas digitais – ele resmungou.

Crivaro não se explicou, mas Riley entendeu o que ele quis dizer.

Assim como haviam feito com os rastros de pneus na estrada, os policiais do comandante Webster e a equipe do legista haviam estragado a cena do crime. O mesmo tinha acontecido com o

caminho utilizado para chegar até ali. Não seria possível encontrar nenhuma digital útil em qualquer lugar ao redor.

Crivaro levantou-se e perguntou a Webster:

- A vítima era muito alta, muito baixa, gorda ou magra?

Webster pareceu um pouco surpreso com a pergunta.

- Bem, é difícil dizer pelo que sobrou dela. Mas ela não parecia ser muito grande. Aliás, achamos que era ela bem leve. Por que a pergunta?

Crivaro disse:

- Ajudaria ter alguma ideia de quão forte o assassino precisou ser para carregá-la até aqui—a altura dele, a musculatura, enfim.

- Bom, talvez o legista possa te dizer isso.

Crivaro resmungou e fez uma careta.

Riley percebeu que ele não tinha muito interesse em conversar com o legista. Crivaro aparentemente não via aquele caso como sendo da UAC, e sim como apenas um problema local, com o qual Webster e sua equipe estavam lidando muito mal. Ele parecia não querer se envolver com a história.

Ele só quer sair daqui, Riley pensou.

Riley olhou para o chão enquanto Crivaro e Webster seguiram conversando. Uma sensação estranha tomou conta dela, e a voz dos dois homens pareceu se distanciar. Arrepiada, Riley percebeu...

Estou sentindo algo que o assassino sentiu.

Era um sentimento alarmante, mas familiar. Ela já havia passado por aquilo antes, em outras cenas de crimes. E assim como nas outras vezes, teve uma vontade repentina de mandar aquela sensação embora. Porém...

Fique com ela.

Deixe acontecer.

Afinal de contas, sua habilidade de entrar na mente de um assassino era a principal razão pela qual ela estava na UAC.

É meu trabalho.

A sensação veio rapidamente e com força. Para Riley, foi fácil imaginar que ela mesma era a assassina, em pé, naquele lugar, olhando para o corpo sem vida que havia depositado ali.

Mas como ele se sentiu? Ela perguntou a si mesma.

Ao tentar refletir sobre os pensamentos e emoções do assassino, seus lábios sorriram involuntariamente, e Riley quase disse em voz alta...

Eu senti falta disso.

Já faz tanto tempo.

Riley tonteou com a força de sua intuição. Quase não conseguiu lidar com a sensação.

Siga em frente, disse a si mesma.

Não deixe passar.

Mas, naquele momento, um grito agudo a arrancou de sua intuição sombria.

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