O homem sentado a uma mesa perto do bar estava fazendo o possível para escutar a conversa entre o bartender e uma de suas clientes.
Não era uma tarefa difícil. Sua voz alegre tomava conta do local a seu redor. Ele estava a escutando apenas por alguns minutos e já tinha sentido uma onda de felicidade.
É ela, pensou.
Ele tomou mais um gole de seu drink.
Ela será perfeita.
Se tudo desse certo, definitivamente ela seria a próxima.
Ele tinha deixado seu motor home de luxo em um
estacionamento próximo e caminhado pela rodovia até aquele bar, para analisar possíveis vítimas. Ao se aproximar do local, tinha visto a mulher estacionando um bonito, porém pequeno motor home
Classe B. Quando ela saíra de seu veículo, já estacionado, ele tinha a seguido discretamente.
Até então, ele estava confiante de que ela não havia percebido sua presença.
Era importante manter as coisas daquele jeito. Se ela
simplesmente olhasse para ele, trocasse algumas palavras, ele não poderia matá-la. Felizmente, o bar estava lotado, e ele tinha
conseguido parecer inofensivo em meio a tanta gente.
Ele não estava usando seu Rolex, nem vestindo suas roupas da moda. Até seus tênis eram bem comuns. Claro, ele planejava
parecer mais rico – como de fato era – quando chegasse a hora de matá-la, já que nesse momento ela precisaria notar sua presença e confiar nele.
Ainda que a mulher estivesse sentada no bar, de costas para o homem, ele podia ver o rosto dela no espelho atrás das garrafas e taças. Obviamente, ela não era atleta. Seu corpo era magro, mas nada definido ou musculoso. Suas unhas estavam bem feitas e pintadas.
Ela não gosta de nada bruto, ele observou, aprovando.
Mas o que mais lhe deixou feliz foi sua pele suave, que mostrava que ela não costumava passar muito tempo ao ar livre. Olhando para o rosto dela no espelho, naquele momento, sentiu uma emoção antecipada ao imaginar a pele rosada dela tornando-se pálida ao perder todo seu sangue.
Não se apresse.
Naquele momento, ele precisava decidir exatamente como, quando e onde se aproximaria dela. Por isso, estava escutando a conversa dela com o bartender, tentando conseguir alguma pista.
Até então, a conversa estava lhe divertindo bastante.
Uma turista típica de Sedona, pensou.
Aparentemente ela havia chegado ali depois de um divórcio complicado, buscando paz, felicidade e, quem sabe, querendo ver um ou dois OVNI’s. Em uma tentativa de recomeçar, havia mudado seu primeiro nome de “Shelby” para “Bliss”. Pelo que Bliss estava dizendo ao bartender, ela ainda não havia visto OVNI’s, mas seu reencontro espiritual estava dando muito certo.
Durante os últimos dias, Bliss tinha visitado as “vórtices” de Sedona, centros de força onde a atmosfera vibrava com energia espiritual. Até então, ela havia feito todas as quatro trilhas até as vórtices presentes nos mapas da Nova Era—Cathedral Rock, Bell Rock, Boynton Canyon e Airport Mesa.
Mas aparentemente, Bliss queria visitar mais um lugar.
Ela disse ao bartender:
- Pare de me enrolar, Bruce. Você disse que se eu fosse em todos esses lugares primeiro, você me contaria sobre uma vórtice que quase ninguém conhece. Você não acha que eu estou pronta agora?
Bruce, o bartender, era um homem de pele negra que havia convencido a mulher de que era um índio de Yavapai. O homem escutando a conversa suspeitava de que Bruce era, na verdade, natural de algum lugar do mediterrâneo.
Grécia, talvez.
O homem achava que Bruce gostava de fazer o papel de guru espiritual.
Um charlatão da atualidade, ele pensou.
Mas é claro, o charlatanismo era quase um negócio em Sedona.
Secando um copo, Bruce disse:
- Acho que você evoluiu muito, Bliss. Sim, acho que você está pronta. Mas acredite, eu não compartilho essas informações com qualquer um. Você vai ter que manter segredo.
Bliss disse, quase sem voz:
- Prometo que sim, Bruce.
Bruce inclinou-se no balcão e disse:
- Perto da Trilha do Transepto, tem um lugar onde o caminho passa por uma pequena cordilheira, formando uma cruz que pode ser vista de cima. Encontre esse lugar e medite lá.
- Que tipo de vórtice é essa? – Bliss perguntou.
- Uma vórtice elétrica, cheia de energia yang. É forte demais para algumas pessoas. Mas você vai conseguir aguentar.
- Qual a melhor hora para ir? – Bliss perguntou.
- Então, aí está o truque – Bruce disse. – Essa é uma das trilhas mais fáceis, e não é preciso pagar para entrar lá, então durante o dia, o lugar fica muito cheio. Família inteiras com crianças,
passando por esse ponto sem nem perceber a energia. É difícil entrar em um estado de meditação com tanta gente passando e te olhando, tentando imaginar o que você está fazendo. – Bruce coçou o queixo e continuou. – As melhores horas para ir são antes e
depois do horário normal dos turistas—depois do pôr do sol ou logo ao amanhecer. O lugar é lindo nas noites de lua cheia. Também é bem seguro, se você se cuidar. Como eu disse, é uma trilha fácil, não tão desafiadora e não tão longe da rodovia.
Bliss suspirou, sem conseguir conter sua felicidade.
- Hoje é noite de lua cheia! Eu vou lá!
O homem ao lado escutou atentamente as instruções do
bartender sobre como chegar naquele lugar. A trilha tinha acesso fácil e, aparentemente, ele poderia estacionar seu veículo no início do trajeto.
Perfeito!
Ele a encontraria exatamente no lugar que ela estava
procurando, fingindo estar buscando o mesmo que Bliss. Ela ficaria surpresa ao encontrar mais alguém lá, alguém que também sabia daquela vórtice. O encontro pareceria obra do destino, como se ela tivesse encontrado sua verdadeira alma gêmea.
E assim que eu ganhar a confiança dela...
O homem sentiu um surto de prazer ao imaginar o que faria.
Lembrou-se da sensação de intoxicação ao matar sua primeira vítima. Depois, ele havia sucumbido à preocupação e ao medo. A polícia viria atrás dele? Um ano havia passado até que ele
recuperasse a coragem para matar.
Agora, depois de seu segunda assassinato, alguns dias antes, ele estava muito mais confiante. Apenas policiais locais pareciam estar investigando a morte de Brett Parma. Ninguém parecia ter ligado as pontas com o crime no Colorado.
Claro, depois desse novo crime, ele sabia que o mundo inteiro perceberia que havia um assassino em série à solta.
Mas isso não o preocupava nem amedrontava—não agora, não mais.
Na verdade, ele se sentiu animado ao pensar em mentes inferiores tentando encontrá-lo.
Ele sabia que poderia enganá-los a cada passo.
Sentiu a mesma alegria que Bliss parecia estar sentindo naquele momento—uma vontade absurda de encarar um novo desafio.
Parecia, na verdade, que aquela nova vítima estava sendo oferecida a ele como uma espécie de prêmio.
Sorrindo, pensou...
Talvez seja mesmo obra do destino.