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CAPÍTULO VINTE E QUATRO

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 160-165)

Até ter certeza de que todos os bloqueios na estrada haviam ficado para trás, o homem seguiu dirigindo sem pensar muito bem para onde estava indo. Ele havia passado por Flagstaff sem

problemas, e ninguém na rodovia parecia estar lhe seguindo ou prestando qualquer atenção em seu destino.

Não que eu precise me preocupar com algo, seguiu dizendo a si mesmo.

Ele havia lidado com o sargento da Polícia Rodoviária com seu garbo e elegância de sempre, e as buscas em seu veículo haviam sido totalmente superficiais.

Ele ficara assustado por um instante, no entanto, quando sua conversa com o sargento fora interrompida por uma ligação. O sargento havia saído do motor home para atender o telefone e parecia estar ouvindo alguma novidade. O homem havia se perguntado se havia, por fim, sido identificado.

Mas ao fim da ligação, o sargento havia o liberado, desejando um bom acampamento. O homem não fazia ideia de qual fora a

conversa ao telefone. Talvez algum azarado tivesse sido identificado por engano.

De qualquer forma, ele tinha escapado sem problemas. Mas estava com raiva de si mesmo por ter permitido que aquele

incidente o alarmasse. Algum dia ele conseguiria deixar os vestígios de todo pânico de sua infância para trás?

Lembrou a si mesmo de que, logo, precisaria tomar uma decisão.

Iria para o oeste, em direção ao lado sul do Grand Canyon, como a maioria dos turistas naquela rodovia? Ou pegaria a rota leste, de volta para o Colorado?

A pergunta era: ele deveria seguir com suas férias e suas atividades recreativas? Ou deveria voltar para casa?

Estava ficando tarde, e ele não havia comido desde a manhã.

Parecia, então, uma boa hora para parar e pensar em suas opções.

Saiu da rodovia e parou em um estacionamento. Parecia um lugar tranquilo, então ele estacionou, entrou em um restaurante e pediu um café e um sanduíche.

Enquanto esperava pela comida, tomou um gole do café e se perguntou...

E agora?

Ele não havia planejado todos aqueles crimes. Os dois últimos tinham dependido totalmente de encontrar ou não mulheres que confiassem nele. Imaginara, então, que seguiria dirigindo e matando enquanto a rotina lhe divertisse.

Mas agora, ele já não estava tão certo.

Sabia que era um homem esperto, e não seria inteligente

depender tanto da sorte. Talvez o último assassinato, em Sedona, já fora o bastante. Ele sorriu ao lembrar-se dos gritos da mulher, que pode escutar mesmo através do isolamento acústico de sua sala mortal.

Aquele assassinato fora o que tinha lhe deixado mais satisfeito, porque a vítima havia confiado nele mais do que as outras. Ele lembrou-se de que os dois haviam fugido da chuva e entrado em seu motor home, e de que ela havia perguntado, timidamente, se ele achava que o destino era o responsável por ter cruzado seus

caminhos. Ele havia respondido que sim. De fato, achava mesmo que aquilo pudesse ter sido obra do destino.

Menos de meia hora depois, ela estava morta.

Ele riu sozinho. A simples lembrança de tudo o fazia se sentir bem.

Tudo tinha acontecido perfeitamente. Até a chuva tinha parado na hora certa para que ele pudesse levá-la pela trilha, deixando seu corpo exatamente onde havia a encontrado.

Foi perfeito, pensou.

Ele suspirou, melancólico. As próximas mortes com certeza seriam satisfatórias. Mas provavelmente não seriam tão perfeitas, tão lindas como aquela última. Provavelmente, seriam de certa forma decepcionantes.

Além de serem um risco.

Valeria a pena se sujeitar àquela sensação? Ele precisava mesmo matar novamente?

Ele respirou profundamente e tomou mais um gole de seu café.

Sim, era verdade que ele havia ficado ansioso ao enfrentar a blitz. No entanto, tinha se sentido melhor do que em muitos anos—

melhor do que nunca, na verdade, e totalmente em paz consigo mesmo.

Como um novo homem.

Talvez, no futuro, ele sentiria novamente aqueles medos

primitivos que o atingiam, vindos de dentro, de tempos em tempos.

Porém...

Eu sempre vou ter minhas lembranças.

Aquelas lembranças afastariam qualquer medo que tentasse acometê-lo.

Ele bateu com os dedos na mesa e olhou para seu motor home, que havia lhe ajudado tanto naquela aventura solitária em busca de cura.

Tudo o que é bom um dia termina, pensou.

Três vítimas eram suficientes.

Ele sabia que era hora de parar com aquela matança. Tinha sido um momento incrível, mas aquela parecia mesmo ser a decisão correta.

Naquele momento, ele ouviu a voz de uma mulher dizendo...

- Com licença, senhor...

O homem virou-se em direção à voz e sentiu-se alarmado. Por um instante, imaginou estar olhando para sua tia Florence. Aquela mulher o fazia lembrar-se de sua parente ainda mais do que aquela outra, no Colorado—o cabelo castanho encaracolado, a mesma expressão, a pele saudável, o sorriso radiante.

Mas principalmente...

Os olhos.

Um ano antes, no Colorado, houvera uma diferença clara entre sua vítima e a tia Florence. A mulher tinha olhos verdes, e sua tia sempre chamara a atenção pelos olhos azuis brilhantes.

Mas agora, aquela outra mulher, olhando para ele e sorrindo—

tinha olhos exatamente como a tia Florence. Ele pensou até ter percebido uma ponta de maldade e crueldade por trás daquele olhos lindos e felizes...

Exatamente como a tia Florence.

O homem sorriu para a mulher e disse:

- Posso ajudar?

O rosto dela se avermelhou, e ela riu.

- Ai, que vergonha – disse. – Não sei o que você vai achar de mim, mas... - ela apontou para a janela continuou. – Aquele motor home no estacionamento é seu?

- É sim – o homem disse.

- Imaginei – a mulher respondeu, olhando para o veículo. – É tão bonito, tão imponente! Eu vejo muitos desses na estrada, claro, mas sempre andando. É legal poder ver um de perto assim... parado.

Ela apontou para onde um carro e um trailer estavam estacionados e continuou.

- Ali está o meu—um trailer pequeno. Não que eu esteja

reclamando. Me serve muito bem, já rodei todo o sudoeste com ele.

Uma mulher solteira como eu não precisa de muito mais do que isso.

O homem sorriu ao perceber a ênfase que ela havia colocado em duas palavras...

...mulher solteira...

Ela está flertando comigo! Ele percebeu. Precisou se segurar para não rir daquela ironia—da imagem de sua tia Florence parada ali, flertando com ele, pedindo para conhecer o lugar que ela jamais deveria visitar.

Obviamente ele sabia que o motor home era só uma desculpa dela para conversar com ele. Ela não fazia ideia de quanto aquele veículo significava.

Mais uma vez, o homem segurou uma risada. Ele perguntou:

- Você já pediu algo para comer?

- Não, eu ia pedir agora.

Ele deu um leve tapa na mesa e disse:

- Sente-se, por favor. Acabei de pedir um sanduíche. Peça o que você quiser. Por minha conta. Depois, podemos ir ao motor home para você conhecer por dentro. Espero que você não se

decepcione.

- Não mesmo! – a mulher disse, animada. – Aposto que não vou me decepcionar!

Ela sentou-se e começou a falar sobre si mesma. Seu nome ela Sally Marino, ela disse, e ela estava vindo de Topeka. No entanto, não considerava ter uma casa fixa, já que já tinha morado em

muitos lugares. Ela valorizava sua independência e amava estar ao ar livre.

O homem percebeu que, apesar da pouca altura, ela parecia se forte—bem diferente de sua última vítima.

Seria um desafio bem interessante, pensou.

Quando ela mencionou o resort de motor homes que estava planejando visitar, ele riu e disse:

- Que coincidência! Também estou indo para lá!

- Uou, uma coincidência e tanto!

Sally seguiu falando e o homem sentiu sua decisão de parar de matar indo por água abaixo. Aquela mulher parecia um presente, como se o destino estivesse intervindo para lhe presentear com seu último e glorioso assassinato.

Sem prestar muita atenção no que Sally estava dizendo, ele começou a pensar no que iria fazer. Mostraria o motor home para ela assim que terminassem de comer, depois os dois seguiriam seus caminhos. Sem precisar escolher para onde ir, ele seguiria para o norte, em direção a Utah.

Em breve, ambos chegaria ao mesmo destino.

Então eles se encontrariam novamente, e...

Você não precisa pensar nisso já, ele pensou.

Afinal de contas, o elemento surpresa era o que havia tornado aquele encontro tão prazeroso.

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 160-165)