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CAPÍTULO QUINZE

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 103-109)

Riley olhou para seu celular com medo. Ela havia tomado banho no pequeno banheiro do motor home e colocado roupas secas.

Agora, estava em uma mesa de piquenique, no campo, fora do veículo, escutando suas mensagens de voz.

Havia várias, todas de Ryan, nenhuma delas já aberta.

Ela estava com medo de escutá-las.

Provavelmente, todas trariam raiva, ressentimento, culpa, desespero...

Ou tudo aquilo ao mesmo tempo?

Riley decidiu que não faria sentido escutá-las naquele momento.

Afinal de contas, teria que lidar diretamente com o quer que seu noivo estivesse sentindo. Precisava falar com ele antes que o Agente Crivaro voltasse do bar.

Então, o momento era aquele, enquanto ela ainda tinha algum tempo sozinha.

Vá em frente, resolva isso agora, disse a si mesma.

Seus dedos tremeram ao digitar o número de Ryan.

Ele atendeu, e sua voz demonstrou uma inquietação imediata:

- Riley! Onde você está? Voltou para Virginia?

Riley suspirou e respondeu:

- Não, ainda estou no Arizona.

- Você me disse que me ligaria quando soubesse quando iria voltar. Você ainda não sabe?

- Ainda não, Ryan.

- Como assim você não sabe?

Riley respirou fundo para se acalmar. Depois, respondeu:

- Eu e o Agente Crivaro estamos trabalhando em um caso de assassinato. É sério, Ryan. Se nós não encontrarmos o assassino, ele vai matar de novo.

Riley pode ouvir Ryan ofegante.

- Quer dizer que você está atrás de outro assassino?

Riley ficou surpresa com a pergunta. Ela perguntou-se...

Por que ele está tão surpreso?

Então, disse:

- É meu trabalho, Ryan. Você sabe disso.

Riley estava prestes a dar mais detalhes, para que ao menos ele entendesse o que ela estava fazendo e por que era tão urgente.

No entanto, decidiu que não adiantaria. Primeiro, ela não confiava nele para manter segredo sobre o caso. Riley estava começando a entender quão rápido e longe um boato podia se espalhar. Já era ruim o suficiente que um brincalhão como Rodney soubesse das condições do corpo de Brett Parma. Se Ryan contasse qualquer detalhe sobre o caso em seu trabalho, mais problemas poderiam surgir.

Parecendo querer acalmar a si mesmo, Ryan disse:

- Eu sei que é o seu trabalho, Riley. Estou tentando aceitar isso.

Achei que já tivesse aceitado. Mas agora... – Ryan hesitou, e então continuou. – Riley, estou preocupado com você. Quantas vezes você já quase foi morta, contando só o tempo que estamos juntos?

Vai acontecer de novo? Sua vida vai ficar em perigo novamente? É assim que a vida... que a nossa vida... vai ser daqui para frente?

Riley ficou surpresa. Ela não estava esperando escutar que Ryan estava genuinamente preocupado com ela. Naquela manhã, ele havia ficado irritado por ter que ficar sem seu carro por um tempo.

Riley havia se preparado para mais do mesmo.

Como ela poderia responder àquela pergunta com sinceridade?

Devagar e com cuidado, disse:

- Estou trabalhando com o Agente Crivaro. Ele é meu parceiro em tempo integral agora. É o melhor agente de todos. Ele sabe o que está fazendo. Estarei segura com ele.

- Segura? – Ryan quase gritou. – Riley, quão segura você esteve nos outros casos que trabalhou com Crivaro até agora? Eu não confio nele, Riley. Já te disse antes, acho que ele explora suas habilidades. Ele não se importa com a sua segurança. E você não me disse em nenhum momento que ele seria seu parceiro em tempo integral.

Riley lutou contra a vontade de dizer...

Eu não sabia disso até hoje de manhã.

Certamente aquilo não faria com que Ryan se sentisse melhor.

Então, acabou respondendo:

- Ryan, eu sinto muito. Mas estou aqui, e preciso ficar até

resolver esse caso. Não posso voltar agora, não poderia nem que eu quisesse.

Ryan voltou a ficar ofegante.

- Você está me dizendo que não quer voltar para casa?

Riley desejou não ter dito aquelas palavras.

- Não foi o que eu quis dizer, Ryan. Mas tenho um trabalho a fazer, é isso.

Houve um silêncio. Riley sentiu sua voz embargando, emocionada, quando finalmente disse:

- Acho que temos muita coisa para conversar quando eu voltar para casa.

- Concordo – Ryan respondeu, também com a voz triste.

- Mas não podemos discutir isso agora – Riley acrescentou.

- Eu sei. Só tente chegar em casa a tempo para o Natal, ok?

Mais uma vez, fez-se o silêncio. Ryan então disse:

- Cuide-se. Te amo.

Ele encerrou a ligação antes que Riley pudesse dizer que também o amava.

Riley ficou parada, olhando para seu celular. Por mais que tivesse temido aquela ligação, a conversa tinha sido pior do que ela

esperara. Riley havia se preparado por mais orgulho raso vindo dele. Ela teria ficado com raiva, assim como ele, mas a sensação seria melhor do que o que ela estava sentindo naquele momento.

Riley lembrou-se do que Ryan havia dito:

“Riley, estou preocupado com você.”

Ela sabia que ele estava dizendo a verdade. Estava pensando nela, não em si mesmo. E aquilo realmente a surpreendera.

Também lembrou-se das palavras terríveis que havia dito...

“Não posso voltar agora, não poderia nem que eu quisesse.”

Riley sabia que Ryan tinha todo o direito de estar chateado com aquelas palavras.

E agora, ela não pode deixar de se perguntar—será que aquilo significava algo que ela não queria admitir a si mesma? Será que uma parte dela preferia estar caçando assassinos ao invés de passar o tempo com o homem que ela amava?

Ela esperava que não. Seria terrível.

Riley olhou em volta e percebeu que a noite estava começando a cair. Crivaro certamente voltaria do bar em breve. Lembrou a si mesma do papel que deveria estar cumprindo e se perguntou—o que uma filha compromissada estaria fazendo enquanto esperava pelo seu pai?

Eles não tinham comido muito durante o dia, mas haviam comprado algumas coisas em uma mercearia no caminho até o camping. Riley foi até o motor home e começou a preparar alguns sanduíches. Estava quase terminando quando olhou pela janela e viu Crivaro se aproximando do veículo.

Ela foi até a porta e o chamou, com uma voz alegre:

- Sente-se, pai. Fique confortável. Estou preparando algo para comer.

Crivaro não respondeu, mas sentou-se à mesa de piquenique.

Riley saiu do motor home carregando uma bandeja com

sanduíches e uma cerveja para cada um. Sentou-se no outro banco, e pode ver imediatamente que Crivaro não estava de bom humor.

Falando baixo, Riley perguntou:

- Como foi no bar?

Crivaro balançou a cabeça e respondeu:

- Não descobri nada. Todos os caras lá estão chocados com a história de Brett Parma, mas nenhum deles conhecia ela

pessoalmente. E na piscina, como foi?

- Mesma coisa – Riley disse. – Tem muitos boatos por aí, e ouvi até história sobre um “Homem Gancho”.

Crivaro interrompeu com uma risada.

- Ah não, não esse bendito Homem Gancho. Já perdi a conta de quantas vezes já tentaram me falar sobre ele, em vários casos.

Acontece no país inteiro. Ele é tipo o bicho-papão, as pessoas falam dele há anos, desde quando eu nem era um agente. Ele não existe, é claro.

- Eu sei disso – Riley disse. – Mas o cara que me falou sobre ele pareceu saber muito bem das condições em que o corpo de Brett Parma foi encontrado.

Crivaro tomou um gole de cerveja e disse:

- Sim, eu falei com alguns caras que souberam que ela foi

mutilada. Alguém da equipe de legistas certamente não conseguiu

ficar com a boca fechada. Vou ligar para o Paco amanhã, para dizer que ele precisa encontrar quem falou demais e demitir esse cara.

Não precisamos desse tipo de besteira.

Crivaro mordeu seu sanduíche. Depois, disse:

- Soube que você empurrou um cara na piscina.

Riley não pode deixar de rir, nervosa. Ela respondeu:

- Pelo jeito os boatos correm rápido mesmo por aqui.

Olhando sério, Crivaro disse:

- Não é engraçado, Riley. Nós chegamos aqui hoje à tarde, e você já chamou atenção para nós. Os caras no bar estavam

fazendo várias perguntas, imaginando quem é você. Eu me fiz de tolo, ainda que já tivesse certeza sobre quem tinha jogado o cara na água. Que merda você achou que estava fazendo?

Riley estremeceu ao sentir a raiva na voz dele. Ela disse:

- Ele me paquerou, me irritou muito. Eu só reagi.

Crivaro resmungou.

- Da próxima vez que um cara te paquerar, você não vai reagir assim, achando que é uma super-heroína. Apenas diga não. Não é isso que as jovens normalmente fazem? Estou pedindo muito?

Riley engoliu em seco.

- Não. Desculpe.

- Que não aconteça novamente.

- Não vai.

Crivaro tomou mais um gole de sua cerveja e olhou para o sanduíche. Ele não parecia muito interessado em comê-lo. Riley sugeriu:

- Talvez nós deveríamos jantar em um dos restaurantes.

Podemos tentar falar com outras pessoas.

- Não hoje – Crivaro disse. – Temos que ficar quietos até

amanhã. Pela manhã, podemos falar com o gerente do Wren’s Nest, tentar conseguir mais alguns detalhes sobre Brett Parma—de onde ela veio, talvez para onde ela iria depois. Enfim, foi um dia longo demais. Estou cansado, tenho certeza que você também.

Crivaro empurrou o prato de papel com o sanduíche e levantou-se da mesa.

- Vou tomar um banho e dormir.

Ele entrou no motor home sem dizer mais nenhuma palavra.

Riley ficou sozinha na mesa de piquenique, vendo a noite cair e sentindo-se um pouco atordoada. Ela parecia não conseguir prever o humor de Crivaro a cada momento. Sabia que ele estava bravo por sua culpa, mas mesmo assim...

Ele precisa falar comigo desse jeito?

Às vezes, Riley se perguntava se o Agente Crivaro se importava com os sentimentos dela.

Lembrou-se, então, de algo que Ryan havia dito no telefone, momentos antes.

“Acho que ele explora suas habilidades. Ele não se importa com a sua segurança.”

Será que Ryan estava certo? Pelo menos parcialmente?

Será que Crivaro pensava que Riley era uma espécie de prodígio problemática que ele poderia moldar à sua própria imagem?

Riley tomou um gole de sua cerveja e pensou...

Não, Ryan está errado.

Ela podia se lembrar de várias vezes em que Crivaro havia demonstrado preocupação com ela. Se não fosse por ele,

provavelmente ela não estaria viva. Ele era mesmo como um pai para ela, mesmo em momentos como aquele. No entanto, às vezes, era crítico demais.

Quase como meu pai de verdade.

Riley respirou fundo e olhou para seu sanduíche.

Ela também não estava com muito fome e estava muito cansada.

Colocou as cervejas e os sanduíches de volta na bandeja e os carregou para dentro do motor home, onde pode ouvir o chuveiro ligado no pequeno banheiro. Enrolou os sanduíches e colocou-os na geladeira, para que ela e Crivaro pudessem comer no dia seguinte.

Depois, subiu até o espaço acima da cabine do motor home e fechou a cortina, ficando sozinha em uma cama pequena, porém confortável. Então, olhou pela pequena janela, onde só enxergou escuridão.

Era estranho pensar que o assassino estava lá fora, em algum lugar, vivendo sua vida, sem se sentir ameaçado, planejando seu próximo crime.

- Não se sinta tão confortável – Riley murmurou em voz alta. – Nós vamos te pegar.

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 103-109)