O homem contentou-se ao ver que a mulher chamada Sally o acompanhou até seu motor home. Sob o brilho das luzes da rua que iluminavam a neve, mais uma vez impressionou-se com a aparência saudável dela.
Não vai ficar assim por muito tempo, disse a si mesmo.
Muito em breve, ela estaria pálida e fraca, assim como as outras.
Ela parecera assustada por tê-lo encontrado, minutos antes.
Peguei ela de surpresa, percebeu.
Claro, aquilo fora parte do plano. Enquanto ela estava sozinha no clube, tomando seu drink, ele estivera do lado de fora, nas sombras, por um tempo. Ele havia dito que iria encontrá-la no clube, mas essa jamais fora sua intenção.
Olhando-a pela janela, havia observado sua linguagem corporal.
Percebera como ela mexera na borda de seu copo, entediada...
como mexia-se na cadeira, parecendo perceber, pouco a pouco, que passaria a noite sozinha no Delphi Resort. Quando teve certeza de que ela já achava que ele não viria, ele havia retornado a seu
veículo e esperado por ela.
O homem havia estacionado em um lugar onde pudesse vê-la caminhando de volta para seu trailer. Então, quando Sally havia cansado de esperar e tomado seu caminho rumo a seu trailer, tinha sido fácil aparecer repentinamente na frente dele.
Um truque de mestre.
Ele estava orgulhoso pela maneira como havia a surpreendido, e aquilo lhe dera uma sensação de poder. Poder, afinal, era a
verdadeira razão daquilo tudo. Ele estava recuperando o poder sobre sua própria vida depois de anos sentindo medo e abandono, em um lugar de sua mente onde ninguém mais podia ver sua dor.
Ele sabia que esse último crime completaria o ciclo de uma vez por todas.
Tinha toda certeza disso.
Ele ouviu Sally ofegar ao entrar em seu motor home. Sorriu ao perceber o espanto óbvio ao caminhar atrás dela.
O interior elegante de seu motor home estava iluminado apenas por algumas velas. Aquilo era parte necessário, parte capricho. Ele não havia conectado seu veículo a nenhum dos utilitários do
camping, nem sequer eletricidade, e não queria gastar sua bateria.
Precisaria estar pronto para sair dali depressa para cumprir seu plano.
Mas o efeito das velas acabara sendo belo, até romântico e inclusive um tanto quanto gótico.
Ele só esperava que não fosse demais. Não queria que ela se assustasse a ponto de querer sair. Não que ele tivesse alguma intenção de deixá-la sair do motor home vivo. Mas queria que essa morte fosse diferente das outras, muito menos brusca.
Dessa vez, ele na verdade queria passar algum tempo com a vítima, saboreando a ocasião, conhecendo-a melhor do que já conhecia.
E por isso havia feito toda a preparação necessária.
A mesa de jantar estava arrumada com dois copos de cristal e uma garrafa aberta de vinho tinto, além de uma bandeja com queijo, biscoitos e outros aperitivos. O toque principal, ele imaginara, seria a faca de serra para cortar o queijo. Era a mesma faca que ele havia usado para matar as outras três mulheres.
E com certeza a utilizaria novamente para matar Sally.
- Por favor – ele disse a ela. – Sinta-se à vontade.
Sally não parecia totalmente confortável. Sua boca estava
entreaberta, e seus olhos arregalados por conta do espanto. Mesmo assim, ela sentou-se à mesa.
O homem sentou-se em frente a ela, olhando-a de perto.
Ela olhou para o vinho, iluminado pelas velas, e gaguejou:
- Pete, eu—eu não sei o que dizer.
A menção a seu nome inventado pegou-o levemente de surpresa, e as palavras de Sally o preocuparam um pouco.
Com o sorriso mais charmoso possível, ele disse:
- Perdão. Não queria te assustar. Só queria que nossa noite fosse... especial.
Sally riu, nervosa, e respondeu:
- Sim, e é especial mesmo. É que... eu não estava esperando.
Ele riu e disse:
- Já me disseram que eu faço isso com as pessoas. Espero que não haja problemas.
Ele esperou que ela dissesse que tudo estava bem.
Mas ela não disse nada.
Pelo contrário, Sally arrepiou-se.
Ela está com frio? Ele pensou.
Impossível. O aquecedor mantinha o motor home bem quente.
Aliás, ele tinha medo que o veículo ficasse quente e abafado demais.
Cuidando para não demonstrar insegurança, o homem serviu vinho nas duas taças.
Depois, levantou a sua e disse:
- Às novas amizades.
A mulher sorriu e levantou sua taça para brindar com ele. Os dois tomaram o vinho.
Ainda parecendo nervosa, Sally disse:
- A última vez que nós conversamos, eu... eu só falei de mim.
Sinto que não sei nada sobre você.
Ela parecia preocupada com aquilo.
Ele colocou sua mão sobre a mesa, esperando que ela a segurasse.
Mas ela não o fez.
Com uma risada leve e tranquilizadora, ele disse:
- Ah, eu vou gostar de te contar tudo. Se eu começar, você vai saber mais de mim do que gostaria de ouvir. Mas primeiro, quero saber muito mais sobre você.
O olhar dela pareceu se perder por um instante.
Depois, Sally olhou para sua taça de vinho, com uma expressão confusa.
A vela mais próxima dela sobre a mesa piscou e quase apagou, e foi difícil ver o rosto da mulher com clareza. Com isso, o homem ficou desconfortável. Ele queria poder estudar o rosto dela em detalhes.
Mas agora, com a luz fraca, o rosto dela parecia ter mudado, para algo bem mais familiar.
Ele engoliu em seco ao perceber.
Tia Florence.
Ele havia escolhido aquela mulher, antes de tudo, por conta de sua semelhança com o terror de sua infância—a mesma pele
corada, o mesmo cabelo castanho encaracolado, os mesmos olhos azuis. Mais cedo, naquele mesmo dia, a semelhança o enchera de felicidade.
Mas agora, sob a luz das velas, a semelhança era inquietante demais.
Ele precisou relembrar a si mesmo de que ela não era um fantasma ou uma aparição. Mesmo assim, foi acometido por um espasmo imparável do mesmo terror que sofrera na infância.
Pode imaginá-la sorrindo e dizendo aquelas palavras aterrorizantes...
“Longe dos olhos, longe da mente.”
E se ela de fato as dissesse, toda a força dele acabaria?
A faca de serra estava parada na bandeja, exatamente entre os dois.
Se ela pegasse a faca naquele momento, ele teria força para arrancá-la das mãos dela?
Ela poderia mostrar aquele sorriso reluzente, pegá-lo pela mão e levá-lo até a sala da morte que ele preparara para ela? Ele se
renderia passivamente, como sempre acontecia no passado? Ele acabaria no escuro novamente, sentindo sua vida escorrer pelo chão—dessa vez, porém, para sempre?
Isso não faz sentido, pensou.
Lembrou a si mesmo que tudo dependia do poder. Ela não tinha poder sobre ele, a não ser que ele a entregasse. E isso iria
totalmente contra suas intenções.
Aos poucos, Sally olhou novamente para ele. Uma expressão estranha tomou conta de seu rosto quando ela disse:
- Tem algumas coisas que eu preciso te contar.
Sally ficou em silêncio novamente, e o homem engoliu em seco, temendo o que ela poderia dizer.
Por fim, ela disse:
- Não sou exatamente quem você acha que eu sou.
O homem chegou a tossir, assustado. Foi uma reação repentina, que ele não pode conter.
Até a voz daquela mulher tinha o mesmo tom de sua tia Florence agora.
Aquela voz de sua infância, que ecoava cruelmente em sua mente.
“Longe dos olhos, longe da mente.”
Depois, a mulher disse:
- Quando nos conhecemos antes... mais cedo... eu te disse algumas coisas.
A voz dela perdeu força. O homem teve dificuldades para controlar sua respiração.
Depois, ela continuou:
- Acho que é melhor eu ir.
Sally começou a se levantar da mesa, e o homem foi completamente tomado por pânico.
Não posso deixar ela ir, ele pensou.
Em um segundo, ele estava de pé.
Ele pegou a faca da bandeja. Antes que a mulher pudesse se levantar, encostou a faca na garganta dela.
Ela arregalou os olhos para ele. Sua boca se abriu, mas ela não teve forças para falar.
A luz das velas estava iluminando seu rosto de um jeito diferente agora. Ela não se parecia mais tanto com a tia Florence. Parecia apenas outra vítima horrorizada.
Que é exatamente o que ela vai ser.
Em um instante, o medo do homem foi substituído por uma raiva enorme, motivada pela forma como aquela mulher havia mexido com seu autocontrole. Sua esperança de saborear uma morte devagar e saborosa havia acabado, e ele se sentiu cruelmente traído.
Ele estava tremendo de raiva.
O homem fez a mulher se levantar. Segurando-a por trás, com a faca na garganta dela, ele a arrastou até a sala da morte.
A sala estava pronta. Ele já tinha retirado as prateleiras falsas, colocando-as em um outro espaço reservado para elas.
Ele abriu a porta com sua mão livre e a puxou. Depois, tentou empurrar a mulher para dentro do pequeno espaço. Mas não
esperava que ela fosse mais forte que as outras. De repente, ela parecia ter mais de dois braços para se debater contra ele.
Por fim, o homem conseguiu empurrá-la com força novamente para dentro do closet. Mas quando a porta pesada bateu, a mulher conseguiu colocar um braço para fora, impedido que ela se
fechasse. Ele empurrou a porta contra o cotovelo dela. Depois, com a faca, cortou o pulso dela, fazendo o sangue jorrar.
A mulher gritou de dor e recolheu seu braço.
Por fim, ele pode fechar e trancar a porta.
Ela estava gritando muito agora, parecendo tão brava quanto horrorizada, exigindo que ele a soltasse. Ele manteve-se parado ali, olhando para porta, tentando afirmar a si mesmo...
Eu cortei com força.
Eu vi o sangue.
Ele não tinha cortado tantas vezes, como de costume, e ela
poderia conseguir estancar o sangramento. Mesmo assim, sangraria até a morte. Só levaria mais tempo.
Mas mesmo trancada em quatro paredes com isolamento acústico, seus gritos podiam ser ouvidos.
Ele havia cometido outros assassinatos onde não havia ninguém por perto e suas vítimas haviam desmaiado rapidamente. Gostava de ouvir os últimos suspiros e gemidos antes da morte.
Mas agora, se houvesse alguém por perto, com certeza poderia ouvir os gritos. Era possível até que alguém nos veículos vizinhos, ainda acordado, escutasse os gritos de fúria e agonia.
Ele estava com raiva de si mesmo agora.
Eu deveria ter planejado melhor.
Mas já não havia outra opção. Era preciso fazer o melhor possível naquela situação terrível.
Ele sentou-se no banco do motorista e ligou o motor. Uma fina camada de neve cobria o para-brisas. Ele ligou os limpadores, mas o vidro estava embaçado por dentro, por conta do frio. Ligou o desembaçador e limpou o vidro às pressas com a manga de seu suéter.
Depois, engatou a ré e moveu seu motor home, colidindo com um arbusto no caminho.
Ele não sabia para onde ir, mas tinha uma certeza...
Não posso ficar aqui.