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CAPÍTULO DEZOITO

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 123-131)

Uma sensação forte de conexão com o assassino tomou de Riley.

Tão forte que ela precisou dar alguns passos para trás e a fez imaginar se aquele era, de fato, algum tipo de “ponto de força”.

Riley precisou lembrar a si mesma...

Não tem nada de místico nisso.

Era como Crivaro havia dito no dia anterior.

“Isso não é mágica, não é leitura de mente nem nada psicológico.”

O que ela sabia fazer era contar uma história a si mesma—uma história que tinha boas chances de ter muitas semelhanças com o que havia acontecido de fato.

É isso que eu tenho que fazer agora, pensou.

Contar uma história.

Riley ouviu Crivaro conversando com o comandante e o legista.

Ficou feliz ao perceber que ninguém parecia estar prestando

atenção nela. Seria possível mergulhar em seus devaneios sem que ninguém percebesse.

Respirando fundo, Riley imaginou em como estava aquele lugar na noite anterior, possivelmente não muito depois do anoitecer.

O local não estivera completamente escuro.

No camping Wren’s Nest, na noite anterior, ela havia notado a lua cheia brilhando no céu. Mas o policial havia dito há pouco que

chovera na noite anterior, o que significava que a lua tinha recebido a companhia de algumas nuvens.

Riley voltou alguns passos na trilha e começou a caminhar em direção ao local em forma de altar, tentando fazer exatamente o que o assassino tinha feito. Teve certeza de que ele sabia que

encontraria a mulher ali. De alguma maneira, ele já vinha a perseguindo e sabia que ela faria aquela trilha sozinha.

Ele sente uma satisfação enorme ao vê-la, sentada ali, meditando em silêncio à luz da lua. Tudo o que ele precisa fazer agora é tomar cuidado para não alertá-la—e ganhar a confiança dela.

Ele sabe que será fácil fazer isso.

Ele caminha ao lado dela e diz, com um tom de voz gentil...

“Posso me juntar a você?”

A mulher abre os olhos e olha para ele—assustada no começo, mas depois feliz.

Ela diz: “Eu não esperava encontrar ninguém aqui”.

Ele ri e responde: “Nem eu. Estranho, né?”

Ela olha para ele em silêncio, por um instante, expressando interesse.

Tímida, pergunta: “Você também... está buscando?”

Ele assente e mostra seu sorriso mais charmoso.

“Claro”, ele diz. “Por que mais eu estaria aqui?”

Os olhos dela brilham como a lua cheia. Ele sente que está causando nela algo mais forte do que esperava. Obviamente ela sabe que aquele encontro não é uma coincidência. Obviamente, ela não tem ideia do que de fato o levou até ali. Ela parece estar

acreditando que há forças espirituais envolvidas, que eles podem ser até...

Almas gêmeas.

Ele se diverte com ao pensar nisso.

Sim, tudo está indo perfeitamente bem.

Ela senta-se um pouco mais para o lado e diz:

“Por favor, sente-se, vamos meditar juntos.”

Ele senta-se ao lado dela com as pernas cruzadas e fecha os olhos. Após alguns instantes, ele volta a abri-los e a vê, sentada ali.

Os olhos dela ainda estão fechados e sua expressão mostra êxtase e tranquilidade.

Ele, assim como ela, sente-se alegre, calmo, porém por motivos diferentes.

Ele está imaginando o medo e agonia dela quando o sangue jorrar de seus pulsos.

Está imaginando quão pálida ela vai ficar quando estiver morta.

Então, sente algumas gotas de água.

Está começando a chover, ele percebe.

A mulher abre os olhos de repente.

“Ah!”, ela diz, ofegante. “Acho que é melhor sairmos da chuva!”

Os dois riem e se levantam para, depressa, voltarem pelo

caminho por onde tinham vindo. Ele coloca o braço em volta dela—o

que não a protege da chuva, é claro. Mesmo assim, ela parece gostar do gesto. Ela confia totalmente nele.

Sim, ele sabe que esse é o segredo de seu sucesso...

Confiança.

Riley acordou de seus próprios devaneios e a palavra seguiu ecoando em sua mente...

Confiança.

Algo estava começando a clarear em sua mente. Ela lembrou-se do que Crivaro havia dito, quando conversara com ela sobre a

ligação para a mãe de Brett Parma.

“Você tem certeza que não descobriu nada?”

De fato, ela havia descoberto algo, ainda que não tivesse achado que aquilo fosse algo importante naquele momento. Havia

descoberto que Brett estava infeliz e entediada, sentindo-se distante das pessoas que conhecia desde criança. Estava passando por uma fase difícil na vida, provavelmente propensa a não confiar nas

pessoas.

E mesmo assim...

Aparentemente, ela havia confiado o suficiente no assassino para que ele pudesse raptá-la e matá-la, talvez até sem muito esforço.

E aquilo também acontecera com a mulher deitada em sua frente naquele momento.

Riley pensou em contar a Crivaro, mas ele ainda estava ocupado falando com o comandante da polícia de Sedona e com o legista.

Riley caminhou em volta do corpo e abaixou-se para vê-lo mais de perto.

Mais uma vez, surpreendeu-se ao notar quão diferente aquele corpo estava do outro, que havia visto no necrotério em Stover. O corpo de Brett Parma havia sido terrivelmente destruído depois de morto, e Riley havia se sentido distraída dos ferimentos que, de fato, haviam matado aquela mulher.

Mas não era o caso com a nova vítima. A causa da morte era fácil de encontrar. As roupas dela estavam cheias de sangue, que haviam jorrado de seus braços, de ferimentos semelhantes aos encontrados nas outras duas vítimas. O chão sob o corpo da mulher estava totalmente limpo, sem sinais de que ela havia sangrado ali.

Então, Riley olhou com atenção para as mãos da mulher. As unhas estavam rasgadas, e os dedos cortados. Ela sabia que as outras vítimas tinham ferimentos parecidos, mas não havia prestado muita atenção naquilo antes.

Mas agora...

Riley encolheu os ombros ao lembrar-se de seu pesadelo da noite anterior. Lembrou-se do terror sentido ao perceber que estava sangrando nos pulsos. Depois, estivera em um lugar escuro,

apertado, trancada entre quatro paredes.

Engoliu em seco ao perceber...

Isso foi exatamente o que aconteceu com essa vítima.

Riley caminhou até Crivaro e interrompeu a conversa tocando no braço dele.

- Agente Crivaro, acho que descobri algo sobre como a vítima morreu.

Crivaro virou-se e olhou para ela, interessado. Riley continuou:

- Ela sangrou até a morte em uma pequena sala—muito pequena. Um espaço muito apertado.

Crivaro a olhou, curioso. Por um instante, Riley temeu que ele fosse considerar aquilo apenas um detalhe.

Depois, Crivaro disse ao legista:

- Você conhece Paco Arau, o legista de Stover?

Faulkner assentiu e respondeu:

- Sim, eu e Paco somos bons amigos.

Crivaro coçou o próprio queixo e disse:

- Então, Paco vai examinar o que for encontrado debaixo das unhas de Brett Parma—cabelos, fibras, qualquer outro material.

Quero que você faça o mesmo com esse corpo e depois converse com Paco para comparar o que for encontrado. Compare também com as informações que vocês tiverem sobre a vítima do Colorado.

Se precisarem de ajuda, me diga, e eu vou chamar peritos do FBI para trabalhar com vocês.

- Farei isso – Faulkner disse. Depois, ele olhou para o corpo e acrescentou: - Se você permitir, gostaria que minha equipe levasse o corpo para o necrotério agora. Já ficou aqui por muito tempo.

- Faça isso – Crivaro respondeu.

Crivaro manteve-se em silêncio por um instante. Riley percebeu que ele estava refletindo sobre algo.

- Vamos, vamos voltar para a estrada – ele disse, por fim.

Os três caminharam de volta até onde os carros estavam estacionados. Riley percebeu que o casal com o olhar assustado ainda estava na viatura. Crivaro apontou para marcas de pneus e disse ao comandante Wilson:

- Imagino que você tenha visto essas marcas quando chegou aqui.

Wilson assentiu.

- Sim, tomei cuidado para não deixar ninguém apagá-las. Acho que elas são do veículo do criminoso. Parece que ele saiu daqui depois que a chuva parou. Mas não acho que vamos encontrar muitas informações com essas marcas.

Crivaro olhou para Riley e disse:

- Que tipo de veículo você acha que faz essas marcas?

Riley sabia que ele estava lhe provocando novamente.

Ela pensou por um instante antes de responder:

- Deve ser um veículo de camping.

- De que tipo? – Crivaro perguntou.

Riley lembrou-se de sua visita à locadora e respondeu:

- Com pneus assim, deve ser do tamanho de um ônibus. O que significa que deve ser um Classe A.

Crivaro concordou em silêncio, esperando que ela dissesse algo a mais.

Mas o que? Riley pensou.

Depois, deu-se conta de algo.

- Um banheiro de um veículo desses teria o tamanho da pequena sala que eu mencionei há pouco.

Crivaro voltou a assentir e disse:

- É isso que estou pensando também. O sangue deve ter

escorrido pelo ralo do chuveiro e se juntado aos resíduos do veículo.

Riley sentiu-se animada de repente. Ela disse:

- Então agora nós sabemos que o assassino tem um Classe A, um dos maiores tipos de motor home.

- É um bom palpite – Crivaro disse.

- Isso significa que nós temos que ir ao camping onde ela estava hospedada aqui em Sedona para tentar descobrir algo lá.

Crivaro respondeu, resmungando:

- Isso significa que temos que nos disfarçar de novo?

Riley sorriu.

- Não vejo outro jeito. Mas nós já estamos vestidos para isso e temos o veículo certo.

Crivaro balançou a cabeça.

- Não sei, Riley. Ontem não deu muito certo.

Riley sentiu uma ponta de culpa por ter jogado um homem na piscina.

- Não vou estragar tudo de novo. Prometo. Nós vamos conseguir.

Eu vou conseguir.

- Se você diz – Crivaro respondeu. – Para mim foi fácil fingir que era um assassino de aluguel. Mas enfim, temos mais algumas coisas para fazer antes de ir.

Riley e Crivaro foram até o veículo da vítima para investigar o interior. O veículo era elegante por dentro, provavelmente um dos mais caros entre os do mesmo tamanho. Tudo estava perfeitamente limpo e arrumado, sem sinais de luta, o que ajudava a comprovar a intuição de Riley de que o assassino raptava as vítimas fazendo-as confiar nele, e não a força. Provavelmente, ele as convencia a entrar em seu motor home.

Acenando com a cabeça em direção ao casal na viatura, Crivaro perguntou ao comandante Wilson:

- E esses dois?

Wilson encolheu os ombros e disse:

- Eles já nos disseram tudo o que sabiam, eu acho. Mesmo assim vamos levá-los à delegacia para fazer um depoimento formal. Eles se chamam Simon e Paula Haas. São turistas de Los Angeles.

Crivaro disse a Riley:

- Vá até lá e converse com eles. Veja o que eles têm a dizer.

Tenho mais algumas coisas para conversar com o comandante antes de irmos para o camping.

Riley hesitou. Novamente, sentiu que Crivaro estava tentando tirá-la do caminho, mesmo que por pouco tempo. Certamente

aquele casal não teria nada a acrescentar além do que já tinha contado à polícia.

Riley rapidamente disse a si mesma:

Não seja tão sensível.

Crivaro estava apenas se certificando de que nenhum detalhe passaria em branco.

Riley caminhou até a viatura e olhou para o casal no banco de trás. Eles pareciam estar congelados, em choque, e estavam de mãos dadas, como se protegendo um ao outro.

Riley aproximou-se da porta aberta e mostrou seu distintivo.

Apresentou-se rapidamente e disse:

- Sinto muito por vocês terem que passar por tudo isso. Posso fazer algumas perguntas?

Paula Haas olhou em volta, como se não tivesse entendido as palavras de Riley. Simon olhou para cima e assentiu.

Riley perguntou:

- Vocês podem me dizer como encontraram a vítima?

Simon Haas levantou a sobrancelha, como se estivesse tentando lembrar de algo que havia acontecido há muito tempo.

Por fim, ele disse:

- Eu e Paula chegamos um pouco antes do amanhecer.

Queríamos entrar na trilha antes que ela ficasse muito lotada.

Parecia que seria uma manhã linda.

Ele apontou para um carro e continuou:

- Estacionamos ali, vestimos as mochilas e começamos a trilha.

Só chegamos até o lugar que as pessoas chamam de Transepto...

Ele engoliu um soluço e disse:

- E ela estava ali. Caída.

Riley arrepiou-se ao ouvir o depoimento, como se estivesse vendo o cadáver novamente. Era fácil imaginar como aquele casal tinha se sentido. Além do terror por encontrar o corpo, eles com certeza haviam temido por suas próprias vidas, ao menos por alguns instantes.

Riley respirou fundo e perguntou:

- Vocês notaram algo mais na região? Algum veículo por perto?

Um motor home grande, por exemplo?

Simon Haas balançou a cabeça e respondeu:

- Não. Como eu disse, nós chegamos cedo. Acho que não tinha ninguém por perto.

Por fim, Paula Haas olhou para Riley.

- Você poderia nos dizer... por que?

Riley teve uma sensação de déjà vu ao lembrar-se da mãe de Brett Parma fazendo a mesma pergunta no dia anterior.

Por que?

Ela abriu a boca, mas não disse nada. Não tinha ideia do que dizer—ou do que exatamente Paula estava tentando perguntar.

Simon colocou o braço em volta de sua esposa e disse:

- Acho que o que Paula quer saber é... como algo tão terrível pode acontecer em um lugar tão lindo como esse? Nós viemos aqui... esperando ter uma experiência incrível. Ouvimos dizer que a Trilha do Transepto era um lugar especial, que poucas pessoas conheciam. Então como pode...?

A voz dele embargou, mas ele seguiu olhando para Riley, implorando por uma resposta.

Riley conseguiu dizer algo...

- Sinto por vocês terem que passar por isso. Obrigada pela ajuda.

Ao levantar-se e afastar-se da viatura, Riley viu Crivaro vindo em sua direção.

- Terminamos aqui – ele disse. – Vamos pegar estrada de novo.

Ao segui-lo até o motor home, Riley foi tomada por uma profunda sensação de pena—maior até do que havia sentido ao falar com a senhora Parma.

As palavras de Simon ecoaram em sua mente.

Nós viemos aqui... esperando ter uma experiência incrível.

Riley percebeu que aquelas duas pessoas haviam chegado a Sedona cheias de ideias sobre a Nova Era, com uma crença ingênua de que o universo era um lugar cheio de amor e benevolência.

Mas de repente, eles haviam descoberto o que Riley já vinha enfrentando durante toda sua vida...

O universo não é um lugar nada amigável.

E ela sabia que o demônio que estava perseguindo não iria simplesmente desaparecer.

No documento A M E A Ç A N A E S T R A D A (páginas 123-131)