Jake hesitou antes de fazer a ligação.
Não vai ser nada fácil, pensou.
Ao juntar forças para telefonar, Crivaro viu Riley caminhar até a viatura, onde a música ainda emanava pela janela aberta. Ele a viu conversando com Wally, que assentiu. Depois, Riley entrou no carro, então, aparentemente o policial havia concordado em levá-los até o próximo destino. Pelo menos aquilo estava resolvido.
Jake voltou suas atenções para o telefone e discou o número do Agente Especial Responsável Erik Lehl, em Quantico.
Na última vez em que vira Lehl, Crivaro havia pedido alguns dias de folga. Jake não havia dado nenhuma pista de que iria investigar um caso de assassinato.
Ele perguntou-se como seu chefe reagiria ao saber da verdade.
Até onde Jake sabia, Lehl provavelmente ficaria furioso e exigiria que Jake e Riley voltassem a Quantico no próximo voo disponível.
Ou pode ser até pior.
Ao atender, Lehl disse:
- Não esperava receber uma chamada sua, Agente Crivaro. Você está aproveitando suas férias?
Jake pensou ter percebido uma ponta de sarcasmo na voz de Lehl.
Será que seu chefe já tinha percebido que Jake não estava, de fato, de férias?
Crivaro sabia que aquela era uma possibilidade. Lehl tinha o costume de seguir o rastro de seus agentes. Se Jake estivesse mesmo de férias, Lehl saberia exatamente onde ele teria ido para descansar.
Jake engoliu em seco e então respondeu:
- Comandante, aconteceu algo... Acho que nos deparamos com o caso de um assassino em série.
Jake ouviu o comandante resmungando e dizendo:
- Diga.
Jake suspirou ao ouvir a resposta de Lehl.
Foi uma ironia, tudo bem.
Percebendo que deveria ser o mais claro possível, Crivaro disse:
- Agente Lehl, eu na verdade estou no Arizona. Um velho amigo me pediu para vir até aqui e checar um caso recente de
assassinato...
Jake contou toda a história—que Harry tinha percebido
semelhanças entre dois crimes tão distantes e pedido a ajuda de Jake, que ele havia recrutado Riley Sweeney para acompanhá-lo até lá, e que os dois tinham visitado o legista e comparado os dois casos. Crivaro contou a Lehl todos os detalhes que os levaram a acreditar que o crime recente no Arizona era obra do mesmo
assassino que já tinha tirado a vida de outro vítima, um ano antes, no Colorado.
Quando Jake terminou, Lehl disse:
- Deixe-me ver se eu entendi. Você mentiu para mim hoje de manhã—
Jake pensou em interrompê-lo para dizer que não havia exatamente mentido.
Mas como eu poderia classificar minha atitude?
Lehl continuou...
- E você levou uma novata para uma investigação não-oficial—
uma agente com histórico de insubordinação. Estou certo até aqui?
Houve um momento de silêncio.
Sim, totalmente certo, Jake pensou.
Por fim, Lehl prosseguiu:
- Bom, pelas informações que você me passou, me parece que vocês esbarraram em algo bem sério. Por que o comandante da polícia local não entrou em contato com o FBI sobre esses crimes?
Jake tentou imaginar-se conversando com o comandante
Webster e pedindo que ele fizesse um pedido formal pela ajuda do FBI. Ele já tinha dado ao comandante local a impressão de que ele e Riley estavam em uma missão oficial.
Se possível, Jake queria evitar aquele diálogo.
- Acho que o comandante da polícia de Tunsboro não vai ligar – Crivaro disse. – Ele está bem desconfiado sobre essa história toda.
Olhe, quando eu cheguei aqui, eu também estava mais do que
desconfiado. Mas agora não há nenhuma dúvida na minha mente de que esse é um caso sério—e urgente. Esse assassino está à solta e
ninguém está caçando ele de verdade. Só preciso que você oficialize a participação do FBI nesse caso.
Houve um silêncio tenso.
- Eu farei isso – Lehl respondeu, por fim. – Agente Crivaro, eu acredito nos seus instintos. Me envie todos os dados necessários e eu vou preparar a documentação desse caso.
Jake sentiu-se aliviado.
- Obrigado, Agente Lehl – ele respondeu. – Vou enviar tudo por fax ainda hoje.
Antes que Jake pudesse encerrar a ligação, Lehl acrescentou:
- Mas saiba que eu não gostei nada da sua atitude. Você está pisando em ovos agora. E sua parceira também. Tome muito cuidado. Ela também. Você precisa manter essa novata longe de qualquer confusão dessa vez.
- Farei isso – Jake disse, mostrando mais confiança na voz do que realmente estava sentindo.
A ligação foi encerrada, e Crivaro voltou ao carro para dizer à novata em questão que eles oficialmente tinham um caso para investigar.
Jake imaginou se seria possível manter tanto ele quanto a novata longe de problemas sérios. Ele e Riley Sweeney formavam um time complicado, mas que já tinha provado sua efetividade. A jovem tinha um talento raro, e Crivaro estava determinado a vê-la se
desenvolvendo do jeito certo, para o bem dela e do FBI.
No mesmo instante, ele lembrou a si mesmo...
Não dê mole para ela.
Crivaro sentiu-se desconfortável com a maneira escolhida para seguir a investigação. Os dois conseguiriam manter por muito tempo o teatro de pai e filha?
Ainda assim, sentiu seus ânimos renovados. Ele e Riley estavam oficialmente no caso agora. Uma equipe da UAC estava na busca de um homem que sentia prazer em fazer mulheres sangrarem até a morte.
Jake esperava apenas que não fosse tarde demais para impedi-lo de cometer outro crime.
*
Riley estava no banco do passageiro da viatura, vendo Crivaro caminhar em sua direção. Pela expressão dele, ela não sabia dizer se a ligação tinha ido bem ou não.
E ela sabia que essa resposta importava muito. Riley tinha certeza que Jake havia ligado para seu chefe, em Quantico, e se tudo tivesse dado errado, eles teriam que voltar imediatamente para lá.
Ou talvez nós dois seremos demitidos.
Quando Crivaro entrou no banco de trás, Riley perguntou:
- Você falou com Lehl?
- Sim, e ele está disposto a tornar isso aqui um caso oficial do FBI.
Riley sentiu uma onda de alívio.
- Ele disse algo a mais? – perguntou.
Crivaro deu um leve sorriso e respondeu:
- Me disse para não deixar você entrar em confusão.
- Eu? – Riley perguntou, surpresa.
- Sim, e eu também – Crivaro acrescentou, rindo. – Ele se preocupa muito conosco—não no melhor sentido, digamos.
Riley riu. Ela entendeu o que Crivaro quis dizer—que os dois precisavam se portar da melhor maneira possível. Do contrário, ambos poderiam ter problemas sérios.
O policial chamado Wally claramente estava tentando não demonstrar muita curiosidade sobre a conversa entre os dois agentes quando saiu do estacionamento e seguiu pela cidade.
Quando a viatura chegou à locadora de trailers, chamada Arizona Outdoors, Crivaro disse a ele:
- Não vamos mais precisar que você nos carregue. Mas
precisamos que você leve uma mensagem oficial ao comandante Webster. Diga a ele que estamos certos de que há um assassino em série à solta e que o FBI vai continuar no caso.
Wally respondeu imediatamente:
- Sim, senhor.
Crivaro refletiu por um instante, depois acrescentou:
- Diga a Webster também para enviar todos os relatórios e registros desse caso para dois números. Um é do legista aqui de
Stover. Eu e a agente Sweeney vamos até lá depois. O outro é da sede da UAC, em Quantico.
Jake pegou um cartão e o entregou a Wally.
- Aqui está o número.
- Algo mais, senhor? – Wally perguntou.
- É isso. Mas essas cópias por fax são importantes. Preciso delas para ver o que podemos fazer daqui em diante.
Por um instante, Wally pareceu pronto para bater continência. Por fim, porém, ele apenas assentiu, colocou o cartão no bolso e saiu, dirigindo com uma expressão determinada no rosto.
Riley achou engraçado o fato de Crivaro não ter ligado diretamente para Webster para pedir a ele que enviasse os
documentos por fax. Seu parceiro claramente não estava disposto a lidar com o mal humor do comandante da polícia local mais do que o necessário. E a julgar pelas experiências recentes, com certeza Webster ficaria irritado com Jake e Riley.
Havia um restaurante de fast food do outro lado da rua, em frente ao Arizona Outdoors. Riley e Crivaro decidiram tomar um café e comer algo. Quando sentaram-se no restaurante, Riley pensou nas tarefas que estavam prestes a começar.
Sua mente começou a ferver.
Ela estava prestes a fazer algo que nunca tinha feito...
Nós vamos estar disfarçados!