Riley virou-se rapidamente.
O que poderia ter feito aquele barulho tão agudo?
Não havia nada de diferente em meio ao deserto sombrio do Arizona.
Então, ouviu o comandante Webster perguntando:
- O que foi? Parece que você viu um fantasma.
Por um segundo, Riley pensou...
Não vi, mas escutei.
Então, percebeu que Crivaro e Webster estavam olhando para ela.
- O que foi esse som? – perguntou.
- Que som? – Webster perguntou.
Então, mais um som estranho, como o motor de um carro tentando ligar sem sucesso, porém mais agudo. Não foi tão alto quanto antes, quando o som interrompeu sua chance de entender a mente do assassino, mas ainda sim foi claramente notado.
Webster riu ao escutar o mesmo som. Ele disse:
- Garota, por que você está assustada com o som de um pássaro? Que tipo de agente da UAC é você?
- Um pássaro? – Riley disse.
Sorrindo levemente, Crivaro encolheu os ombros e apontou na direção de um cacto enorme.
Riley olhou para a planta e viu um pequeno pássaro marrom parado nela. Com manchas pretas e sobrancelhas brancas, o animal chegava a ser bonitinho.
- Aí está o seu culpado – Webster disse. – O pássaro símbolo do Arizona, a carriça de cacto. Barulhinho chato, né?
O pássaro levantou sua cabeça e voltou a cantar. Riley mal pode acreditar em como uma criatura tão pequena podia fazer um barulho tão alto. Ela ainda estava abalada pela conexão interrompida com a mente do assassino, e portanto sequer sentiu vergonha de sua própria reação ao canto do pássaro.
Webster colocou as mãos nos bolsos, olhou para a carriça, e disse:
- Ele parece muito irritado com a gente. Dá para entender.
Carriças de cacto são muito territoriais, especialmente durante a temporada de reprodução. Provavelmente ele acha que vocês vão roubar o cacto dele.
Riley disse:
- Você está dizendo que eles moram nos cactos?
- Sim, não só eles – Webster disse. – É uma árvore como qualquer outra. Muitas criaturas fazem dos cactos suas casas.
Então, Riley viu algo deslizando pelas pedras, na paisagem esburacada.
Um lagarto, provavelmente.
Depois, olhou para os arbustos onde o corpo fora encontrado e viu alguns insetos rastejando e voando entre as folhas. Mais uma vez, ouviu o grito agudo da carriça. Até então, Riley achara que aquele deserto era um lugar sem vida—onde um corpo morto fora deixado em uma trilha.
Mas agora, o comandante já havia mencionado urubus que tinham devorado o corpo parcialmente—coiotes, pássaros e quem sabe muitas outras espécies.
Uma sensação misteriosa tomou conta de Riley—de que o deserto era tão populoso e denso como a vida na cidade. Vários tipos de insetos, répteis, pássaros e até pequenos mamíferos
poderiam estar vendo-os ali naquele momento, a maioria deles em silêncio, esperando que os intrusos fossem embora.
Uma palavra surgiu na mente de Riley...
Testemunhas.
Quando o corpo da mulher fora jogado ali, aquelas criaturas com certeza tinham visto tudo.
Elas tinham testemunhado o que o assassino fizera, mas jamais seriam capazes de contar a ninguém o que haviam visto.
Naquele momento, Riley imaginou que o deserto inteiro estava tirando sarro dos visitantes humanos por estarem tentando
solucionar o crime.
Sentiu uma onda irracional de raiva ao pensar naquela ironia.
Uma jovem estava morta, e as testemunhas que tinham visto o assassino não se importavam. Se eles tivessem a habilidade de
refletir sobre tudo, considerariam aquilo como uma parte normal do processo.
Vida e morte.
Mas aquela morte havia acontecido muito cedo, com muita violência, muita injustiça.
Ela não poderia deixar aquele crime sem solução.
Não poderia permitir que aquilo voltasse a acontecer.
Riley acalmou-se e tentou se reconectar à mente do assassino.
Ainda lembrava-se perfeitamente da sensação estranha de alegria dele ao olhar para o que tinha feito.
Crivaro e Webster estavam conversando novamente. Riley quase os interrompeu para contar sobre o que estava pensando. Mas
rapidamente, deu-se conta de que seria melhor contar a Crivaro a sós. Ela sabia, por experiência própria, que policiais comuns como o comandante Webster ficariam apenas perplexos ao ouvir sobre sua experiência.
Riley tocou o ombro de Crivaro.
- Posso falar a sós com você um segundo?
Crivaro pareceu surpreso, mas concordou.
Ele seguiu Riley pela trilha, longe o suficiente para que Webster não pudesse ouvi-los cochichando.
Ela respirou fundo e disse, em voz baixa:
- Agente Crivaro, Harry estava certo. A pessoa que matou Brett Parma também matou a mulher no Colorado.
Crivaro fechou sua expressão.
- Você sentiu algo sobre isso agora? – ele perguntou.
Riley assentiu e disse:
- Ele está feliz consigo mesmo agora que tem sua segunda vítima. Ele tinha esquecido como a sensação era boa. Agora está ansioso para matar de novo. Se nós não o pararmos, não vai demorar muito até que ele ataque novamente.
Crivaro olhou por um momento para onde o corpo fora encontrado. Depois, balançou a cabeça.
- Olhe, Riley, eu tenho a mesma habilidade estranha que você—
essa capacidade de entrar na mente de um assassino. Por isso eu te escolhi para esse tipo de trabalho, desde o início. Mas aqui, não estou sentindo nada.
- Mas, Agente Crivaro—
Ele a interrompeu.
- Deixe-me te lembrar de algo sobre essa sua habilidade extra, Riley. Ela traz muita responsabilidade. Você precisa aprender a diferenciar ideias de imaginações. Isso não é mágica, não é leitura de mente nem nada psicológico. Você recebe pistas intuitivas, mas elas só importam de verdade se baterem com as evidências que você tem em mãos. Você pode se complicar se deixar sua
imaginação ir muito longe.
Crivaro apontou para o chão e acrescentou:
- Você vê algo aqui que confirme sua intuição—algo concreto, sólido?
Riley voltou a olhar para o local onde o corpo fora encontrado.
Para sua frustração, não pode enxergar nada que confirmasse o que havia acabado de sentir. Até então, nada naquele caso
mostrava conexões entre os dois assassinatos.
Crivaro disse:
- Acho que esse ar do deserto está mexendo com você. É um lugar estranho, e nenhum de nós está acostumado com isso. Mas para mim, é muito improvável que esses dois crimes estejam
conectados. O que significa que não podemos ficar aqui. Acho que temos que encerrar por hoje, voltar para Phoenix e pegar o primeiro voo para Washington.
Riley sentiu uma ponta de desespero. O que ela havia sentido sobre o assassino era muito forte.
Preciso convencê-lo, pensou.
Ela disse:
- Agente Crivaro, por favor, não desista já. Não tem nada a mais que possamos fazer? Mesmo se for para provar que eu estou
errada?
Crivaro balançou a cabeça e disse:
- Então, acho que podemos visitar o legista, ver o que ele pensa, talvez olhar o corpo. Mas tenho que te avisar que não vai ser nada bonito.
- Eu já vi corpos mortos antes – Riley disse.
Crivaro sorriu, como se soubesse de algo que ela não sabia. Ele disse:
- Se nós fizermos isso e eu não mudar de ideia, você promete que vai parar de insistir?
Riley paralisou. Ela queria mesmo fazer aquela promessa?
Ele não está me dando muita escolha, pensou.
- Prometo.
Riley e Crivaro caminharam juntos até onde o comandante Webster estava. Ele estava olhando para os dois com a testa franzida.
Crivaro perguntou:
- Onde fica o escritório do legista?
Webster apontou e disse:
- Cerca de quinze quilômetros ao norte, em Stover. Por que?
- Você pode nos dar uma carona até lá? – Crivaro disse.
Webster resmungou, irritado. Riley pode ver que ele não estava feliz em ter que lidar com dois agentes da UAC que não sabiam como se colocar em seus lugares, e que claramente não sabiam a hora de ir embora.
- Eu estou meio atolado de trabalho – Webster respondeu. – Mas acho que Wally pode dar uma carona para vocês. Vou ligar para o legista e avisar que vocês estão a caminho. Não me levem a mal, mas espero que essa seja a última vez que eu precise ver vocês.
Crivaro riu e respondeu:
- Sim, eu também desejo isso. Espero embarcar em um avião para Washington logo, logo.
- Seria ótimo – Webster concordou.
Crivaro e Riley seguiram o comandante de volta pela trilha e esperaram enquanto ele conversava com um policial chamado Wally. Wally recebeu ordens para levá-los até o escritório do legista e, logo, Riley e Crivaro estavam entrando na viatura.
Quando Wally começou a dirigir, Riley voltou a olhar para a cena do crime.
A van da mulher morta ainda estava estacionada ao lado da estrada. Seria removida em breve, e a polícia deixaria o local. Não haveria mais sinais de que algo tão sinistro acontecera ali, e as únicas testemunhas não sabiam falar.
Riley arrepiou-se ao se lembrar da sensação que tivera na trilha
—de que aquele fora o segundo crime do assassino, e ele estava
ansioso para voltar a matar.
E se aquela visita ao escritório do legista não fosse capaz de convencer Crivaro de que seus instintos estavam certos?
Quem tentaria fazer com que o assassino não fosse capaz de realizar seus desejos mais vis?
Preciso convencer Crivaro, Riley pensou.
Não podemos ir embora já.