Sabe-se que a diversidade resultante da rotina combinatória num mesmo elemento atómico (com a mesma designação indicada na tabela periódica) se resume à sua variante isotópica; comparativamente, sabemos que existem bastante mais possibilidades de recombinação para uma célula ser um organismo vivo especial, capaz de se diferenciar de outra célula. No caso do reino animal, sabemos que as possibilidades recombinatórias para se formar um vertebrado serão ainda maiores. Se esse vertebrado for um mamífero consciente e racional como nós, então as possibilidades de recombinações que poderão realizar-se a partir desse domínio, tendo em conta as suas potencialidades projetivas, serão ainda muito maiores. Na verdade, à medida que a evolução transita de um domínio sistémico para outro – do domínio da matéria (representada pelos mínimos sistemas elementares atómicos) para o domínio da vida (representada pelos mínimos sistemas celulares) e, deste, para o da cultura/ sociedade/ tecnologia (representada pelos mínimos sistemas humanos) – o que se verifica é que cada transição corresponde a um aumento radical da complexidade do nível de organização dos sistemas aí existentes e, por conseguinte, as possibilidades
combinatórias dentro de cada um desses domínios vão-se ampliando exponencialmente, em consonância com possibilidades combinatórias oferecidas por essa complexidade – correspondendo sempre, em qualquer escala, a uma infinidade de completudes que se
manifestam, cada uma delas, para lá da mera soma das suas partes 45.
Assim, o potencial criativo, gerador de diversidades dentro de determinado domínio, é também tanto maior quanto mais (evolutivamente) afastado este estiver daquela rotina
43 Edgar Morin: Op. Cit., p.159.
44 “O que é importante? Não é a informação. É a computação que a trata e, direi mesmo, que extrai a informação do
universo.” – Ibidem.
45 Aproveitemos as palavras de Paulo Parra (repercutindo algumas ideias de L. Margulis & D. Sagan,) para nos
lembrarmos de que a Vida “Apresenta características que ultrapassam largamente os limites dos indivíduos e das espécies. Tal como nós, humanos, não somos um somatório dos microrganismos que nos compõem, também a vida na Terra não é um simples somatório dos organismos nela existentes. A Terra ultrapassa as dimensões físicas destes múltiplos organismos para se tornar um enorme macro organismo, uma entidade que se comporta como mais do que a soma das partes, ou seja, apresenta um comportamento sinergético.” – Paulo Parra, Design Simbiótico - Cultura
basilar referente à combinação das partículas subatómicas; por mais exótica, original e misteriosa que achemos a combinatória quântica, a sua criatividade natural pouco mais terá conseguido que a formação de uma ‘mera’ diversidade de 92 elementos. Mas, se
atendermos à combinatória neural do cérebro humano (cerca de 13,82 milhares de milhões46 de anos distantes daquelas primordiais formações), a diversidade de ideias possíveis de serem formadas por essa via, será virtualmente ilimitada (apesar de tal
capacidade cerebral ser recentíssima). E se considerarmos aí, no domínio das ideias (Figura 1), a possibilidade de recombinação de uma série de resultados (ideias) provenientes de diversas redes neurais? E se estas poderem passar a estar de algum modo combinadas com redes digitais de informação? Quais virão a ser os limites de diversidade criativa
decorrentes de tais possibilidades recombinatórias?
46 De acordo com os cálculos científicos mais recentes, de 2014
Figura 1 - Os domínios da evolução.Encontra-se aqui representado (a cinzento) a amplitude da diversidade/ complexidade que se encontra incrementada em função do tempo e das possibilidades oferecidas por cada domínio.
A expressão do potencial de criatividade, de diversidade e de complexidade contido no domínio da vivente biosfera, tem correspondido a uma magnitude imensamente superior à da substanciosa geosfera/ atmosfera – a inédita combinatória de matéria, energia,
temperatura e pressão, manifestada no caprichoso efeito terrestre propício à vida – que, no seu suporte inerte (embora bastante dinâmico) com mais de 4 mil milhões de anos de evolução, a possibilitou e acolhe. Por seu turno, a biosfera, com toda a sua complexidade ou diversidade de formas e de interações, conquistadas através de conjugações
seletivas/evolutivas ao longo de 2 mil milhões e meio de anos, foi fazendo com que emergisse nela, há cerca 150 mil anos, algo de hipercomplexo – o Homo Sapiens –. Será a partir deste ponto que podemos marcar o nascimento do intelectivo domínio da noosfera,47 no qual o ser humano – munido do seu poderoso dispositivo de combinação neural e das infindas potencialidades por este oferecido, porquanto estimuláveis por fatores biológicos, sociais e simbólicos – passou a poder destinar-se a si mesmo, subjetivamente.
A entrada numa nova dimensão de criatividade intelectiva vem definitivamente
proporcionar possibilidades de recombinação inauditas; aos processos autocatalíticos, auto- organizativos e autoselectivos da natureza, desde sempre responsáveis exclusivos por uma evolução “possibilista”48, vem juntar-se-lhes, a partir de então, uma ‘semi-determinista’ capacidade de manipulação técnica e de projeto, possibilitada pelo cérebro humano. Para o bem e para o mal, muitas coisas desse mundo (que por tais razões também passou a ser cada vez mais nosso) começaram a ‘estar’ e a ‘ir’ de uma maneira radicalmente diferente: através da recentíssima via da artificialidade.
A finalidade – naquilo em que se constitui como deliberação, como proposição consciente, como objetivo prefigurado ou como projeto – passa a ser fator operativamente
determinante e a fazer parte integrante da evolução. Finalmente, A partir do momento em que a evolução calhou recombinar-se numa tão extraordinária forma de ‘estar’ – a
humanidade – e num tão extraordinário modo de ‘ir’ – o pensamento reflexivo/ projetivo –
47 Edgar Morin refere-nos a ideia de noosfera (de certo modo coincidente com a ideia de antroposfera) na qual interagem
as “substâncias espirituais” no processo de organização cultural e social.
“ Saída das próprias interrogações que tecem a cultura de uma sociedade, a noosfera emerge como uma realidade objectiva, dispondo a uma relativa autonomia e povoada de entidades a que vamos chamar «seres de espírito». (…) A noosfera tem, naturalmente, uma entrada subjectiva, uma função intersubjectiva, uma missão trans-subjectiva, mas é um constituinte objectivo da realidade humana.” – Edgar Morin: O Método IV. As Ideias - a sua natureza, vida, habitat e
organização, p.102
48 “As leis da evolução não são deterministas mas «possibilistas»; não seleccionam trajectórias evolucionistas precisas,
mas definem o contexto no interior do qual os sistemas não-equilibrados encontram a sua própria evolução. A evolução dos sistemas energia-matéria físicos define o cenário e estabelece as regras do jogo da evolução biológica, que, por sua vez, fixa o cenário e especifica as regras do jogo da evolução dos sistemas socioculturais.” – Ervin Laszlo: Evolução – A
formou-se, inevitavelmente, um novo e próspero ‘reino’ produtor de existências evolucionárias no nosso planeta – o reino da tecnologia49.
2.2 TROCAS e complexidade