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2.5 CIÊNCIA e complexidade

2.5.1 O erro e teoria, complexidade e artefacto

Tanto uma teoria científica como um artefacto técnico, nas suas vigentes competências em dar respostas a problemas (em que respetivamente se encontram envolvidos), e em

incorporarem conhecimento para o efeito, podem ser paralelamente considerados como ‘construções experimentais’ de onde se parte para a formulação de novos problemas. É a procura de resolução destes problemas que leva a que ambos evoluam.

Se a crença é entendida como um problema para uma teoria científica, o seu equivalente ‘gravoso’ no artefacto poderá ser a complexidade.

O que se pretende dizer, neste paralelismo, é que tanto o problema relativo à crença – na produção de conhecimento científico –, como o problema relativo à complexidade – na produção de artefactos – podem ser colocados sob o mesmo género de escrutínio. Um escrutínio que procurará indagar acerca daquilo que estará ‘em falta’ ou ‘a mais’, quer numa teoria científica, quer num artefacto tecnológico.

Neste sentido, o erro, a contradição ou a crença é, sempre, aquilo que estará ‘a mais’ numa teoria científica, ao mesmo tempo que, para uma plena consolidação e alcance explicativo desta, o conhecimento, a coerência lógica e a verdade será aquilo que eventualmente estará aí ‘em falta’. Importa referir que a cientificidade de uma teoria não fica comprometida pelo facto de ela ser substituída por outra com mais objetividade ou maior alcance explicativo. Este facto apenas nos pode levar ao reconhecimento da própria “falibilidade”188 científica. O que é importante em termos de teorização científica é que esta produza elementos e meios de reflexão; uma reflexão que leve à discussão crítica e à formulação de questões189 que façam com que qualquer teoria científica aceite a sua própria condição de

refutabilidade, i.e., que aceite expor-se a um “sistema seletivo”190 discriminativo e eliminatório.

188 Karl Popper: O Mito do Contexto, p.111.

189 Como aquela que Popper indica (como se constituindo no “método correcto” de fazer crítica): “quais são as consequências da nossa tese ou teoria? Serão todas elas aceitáveis para nós?” – Ibidem.

190 “A ciência explora eficazmente a realidade. Porquê? Suponho que a ciência é eficaz por ser um «sistema selectivo»,

semelhante ao processo evolutivo e à economia de mercado. Um sistema selectivo descrimina e seleciona elementos específicos de um dado conjunto – um reportório de objectos ou conceitos bem definidos –, com base em alguma característica ou propriedade.” – Heinz Pagels: Sonhos da Razão, p.310.

As ideias, estejam elas nas teorias ou nos artefactos, são construções da mente que seguem lógicas e racionalidade verificáveis, discutíveis, falíveis e substituíveis.

Quando Thomas Kuhn diz que “Teorias antiquadas não deixam, em princípio, de ser científicas pelo facto de terem sido abandonadas”191, está também a afirmar que qualquer teoria cumpre a sua vocação científica desde que assuma o “jogo” da lógica e da

racionalidade do seu método, e desde que considere a sua refutação e falseamento192, isto é, que admita ‘sacrificar-se’ em prole de melhores teorizações.

Daqui se poderá perceber claramente a direção da ciência: ela encontra-se a progredir na vertente que ‘procura e questiona’ e não na vertente que ‘encontra e aceita’ (e muito menos, que ‘congemina e impõe’); ela progride mais quando procura ‘simular a

falsidade’193 das suas teorias, do que quando as aceita definitivamente como adequadas. Á medida que uma teoria vai dando as suas respostas, ela vai expondo o conteúdo das suas ideias a um continuado processo de validação e questionamento crítico, tornando-se proveitosa não apenas por conseguir fornecer soluções e explicações para o mundo dos fenómenos – enquanto em coerência com certos contextos ou paradigmas dominantes – mas também por permitir averiguar os próprios limites de explicação a que tais contextos, paradigmas ou “forma de ver as coisas”194se permitem expor. Enquanto o desejo de saber, de explicar e de dialogar com o real for suscitando discussão e experimentação em torno dele, a ciência não parará de evoluir nem de exercer a sua ação evolutiva sobre os mais diversos domínios do conhecimento.

É em sintonia com essa ação evolutiva que a tecnologia também se encontra a progredir. Neste paralelismo entre ciência e técnica, entre teoria e artefacto podemos aproveitar a afirmação de Kuhn (em que as teorias científicas continuarão a considerar-se como tal apesar de antiquadas e abandonadas) para também considerar que artefactos antiquados

não deixarão de ser tecnológicos pelo facto de se terem tornado obsoletos e suprimidos do seu quotidiano de uso.

Em suma, uma teoria pode vigorar, como sendo científica, na explicação de uma certa realidade, apesar de conter nela um eventual ‘teor problemático’ de crença errónea ou de

191 Thomas Kuhn: A Estrutura das Revoluções Científicas, p.21.

192 O falseamento, segundo Popper, corresponde a um processo que incide na procura de evidências para provar que uma

hipótese está errada. Só tentando demonstrar que uma hipótese está errada é que esta poderá revelar o grau de ‘resistência’ à contradição, à crença errónea e, assim, provar a sua consistência na aproximação à verdade.

193 Faz-se, nestes termos, alusão à ideia de “falseabilidade” popperiana referida na nota anterior. 194 Karl Popper: op. cit., p.103.

insuficiência,195 tal como também um artefacto pode funcionar não obstante incorporar um certo ‘teor problemático’ de complexidade (excessiva) e de limitação (de eficácia). Um artefacto, não tem que se considerar menos ou mais tecnológico, pelo facto de conter algum excesso de complexidade ou por ter alguma limitação na sua eficácia. No caso de uma teoria, ela pode continuar a ser científica, mesmo contendo algum teor de crença – enquanto não detetada como tal –, pois apesar dessa presença problemática, e ainda que tal se encontre apartado de uma certa consciência cognitiva, ela pode desempenhar uma significativa utilidade, como modelo de previsão ou de explicação, num determinado período ou contexto histórico. O modelo geocêntrico de Cláudio Ptolomeu é exemplo disso; esta ideia foi tão útil196 e dominante quanto a quantidade de anos em que possibilitou a descrição e previsão, com significativa precisão, do movimento dos planetas.

Ao colocarem-se aqui as duas formas de construção lado a lado – a da teoria e a do

artefacto - pretende-se enfatizar o esforço que visa os melhoramentos respetivos, passando a considerar que tal esforço, no caso da teoria, corresponde a uma ‘purga’ da crença errada, em aproximação a um conhecimento mais objetivo, e que no caso do artefacto corresponde a uma redução da complexidade, em direção a um desempenho instrumental mais eficaz