2.5 CIÊNCIA e complexidade
2.7.2 Trocas projetadas
‘Negociar com as coisas da realidade’ marca a rotina humana. Esta rotina negocial faz-se corresponder à figura de projeto que encerra nela as noções de aposta, de risco e de
estratégia implicáveis na ação interventiva sobre a realidade.
A realidade envolvente, naquilo em que ela se constitui Natureza e artificialidade, poderá suscitar no ser humano o comportamento negocial segundo duas estratégias: a) – a de procurar aproveitar, para seu benefício, os recursos e fenómenos existentes nessa realidade (q.v. 2.3.2), ou b) – a de procurar salvaguardar-se de qualquer efeito nefasto, seja este proveniente de tais aproveitamentos ou diretamente proveniente de qualquer outro fenómeno (q.v. 2.6.3). Em ambos os casos o conhecimento humano é solicitado para orientar uma ou outra ação no sentido de estas conseguirem alcançar resultados aceitáveis, sob a forma daquilo que se tende a nomear de solução (q.v. 2.5.8). É neste sentido que o
comportamento negocial humano (q.v. 2.2.11), sustentado pelo seu conhecimento e
munido da sua estratégia, acaba aqui por configurar a própria noção de projeto.
Se as leis fundamentais da Natureza fazem com que as coisas aconteçam de determinada maneira, impedindo-as absolutamente de acontecerem de outra (ut. dict. It. 2.3.6), então
240 “Enquanto o animal, por ser atécnico, tem de se arranjar com o que encontra aí dado e enfastiar-se quando não
encontra o que necessita, o homem, em virtude do seu dom técnico, faz com que se encontre sempre em seu redor o que precisa – cria, pois, uma circunstância nova mais favorável, segrega, por assim dizer, uma sobrenatureza, adaptando a natureza às suas necessidades. A técnica é o contrário da adaptação do sujeito ao meio, dado que é a adaptação do meio ao sujeito. E já bastaria para nos fazer suspeitar de que se trata de um movimento em direcção inversa a todos os biológicos.” – Ortega y Casset: Op. Cit., p.33.
241 “As coisas, para o melhor como para o pior, podem deixar-se ir por sua própria conta, como podem ser orientadas por
um projeto, por mais precário que seja, que possa conferir-lhes sentido” – Jean-Pierre Boutinet: Antropologia do
devemos colocar a questão: como pode o projeto operar negocialmente face a tão ‘intransigente interlocutor’?
Se é verdade que existe sempre um ‘preço a pagar’ nas trocas negociadas com a Natureza, também é verdade que o valor desse preço dependerá das estratégias em jogo no negócio em questão. As ‘estratégias da Natureza’ (q.v. It. 2.2.1. segs.) podem não ser totalmente conhecidas, mas quem as conhece minimamente (empírica, tácita ou cientificamente) sabe que elas não mudam qualquer que seja o momento ou lugar, ou qualquer que seja a
estratégia que eventualmente se lhe oponha. A universalidade, ubiquidade e
irrevogabilidade das ‘estratégias naturais’ obriga a que as estratégias artificiais tenham de estar constantemente a renovar-se na busca dos ‘melhores saldos’. Podemos assim dizer que a ‘estratégia da máquina a vapor’ (por exemplo, que levou certos fenómenos naturais a poderem ser trocados por energia motriz aplicável aos transportes) terá resultado num certo benefício para a humanidade, o qual se terá saldado em custos relativamente superiores aos envolvidos na ‘estratégia do motor de explosão’ (por exemplo, considerando o mesmo contexto de aplicação). Mas, esta hipótese – que sugere que o controlo dos efeitos das
trocas humanas242 recai nas figuras coincidentes do projeto e da estratégia, o que é genericamente aplicável a qualquer caso de realização artificial –, leva-nos a projetar as nossas ações, persistindo na velha equação estratégica que relaciona o teor dos custos com o teor dos benefícios atribuíveis a essas ações e aos seus efeitos. O que nos levará a
levantar todas aquelas questões do género: qual das estratégias por nós engendradas – central nuclear ou barragem hidroelétrica (por exemplo) – será a que implica menos custos para nós? Qual das estratégias levará a Natureza a reclamar menos coisas que nos são caras, em troca da utilização de recursos e efeitos fenoménicos que lhe reclamamos? No fundo, que estratégia nos permitirá alcançar mais coisas desejadas, salvaguardando o saldo das coisas que conquistámos, de que gostamos ou estamos habituados?
É na ‘passagem à ação’ – vista aqui como o processamento de trocas ‘estrategicamente negociadas’ (projetadas ou intencionadas segundo algum propósito humano) com o meio natural e/ou artificial – que a resposta a este género de questões tende a manifestar o seu carácter de aposta e de risco face à incerteza e complexidade que se enfrenta.243 A
242 Referimo-nos às trocas geridas por humanos, não entre si mas, mais propriamente, entre eles e a Natureza – aquelas
que no fundo resultarão em artificialidade.
243 “O domínio da acção é muito aleatório, muito incerto. Impõe-nos uma consciência muito aguda dos imprevistos,
mudanças de rumo, bifurcações e impõe-nos a reflexão sobre a sua própria complexidade. (…) Aqui intervém a noção de ecologia da acção, qualquer que seja, esta começa a escapar a suas intenções. Esta acção entra num universo de
‘passagem à ação’ supõe a realização de uma certa visão de futuro segundo um plano e, portanto, segundo uma estratégia. Embora ambas as designações (plano e estratégia) possam caber na figura do projeto, elas não significam o mesmo. O ‘funcionamento decisional’ inerente ao plano desencadeará realizações segundo uma certa automatização da correspondência entre meios e fins (q.v. It. 2.2.7), enquanto, por oposição, o
‘funcionamento’ inerente à estratégia possibilitará ir-se monitorizando, diagnosticando e até reformulando essa correspondência. 244 É por isso que a estratégia se apresenta como modalidade decisória mais adequada para exercer aproximações operativas às nossas visões de futuro, ou não fossemos nós sistemas adaptativos complexos (q.v. It. 2.1.4).