The fight against corruption in globalization times
2. Homo sapiens, homo corruptus e homo sapiens demens
A etimologia do termo corrupção vem do latim, conjugação do intensi- ficativo com mais rumpere, e, por sua vez, indica estragar, quebrar, partir, arrebentar. Seu ponto em comum é o desvio, desvirtuação, deterioração, decomposição física de algo, putrefação, modificação, adulteração das características originais, ensejando conceito até poético, por parte de FERREIRA FILHO: “é a explosão do âmago de um fruto, em razão de sua podridão interna” (2009, p. 17).
Não é objeto deste artigo aprofundar o exame filológico da expressão, mas sua etimologia parece indicar uma corrupção da sua origem, porque aponta para distância da própria condição humana, cujo andar exigível, em condições normais, seria a conduta ética, pura, altruísta, presente em cada ser.
Em tempos onde tudo é passível de corrupção talvez fosse o caso de se proteger a palavra, espécie de fortaleza nestes tempos difíceis, como advertiu RAMOS: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.
Soaria melhor, quem sabe, uma visão mais aproximada da escala humana e, portanto, menos idealizada e benfazeja, onde sua substância não se reduzisse ao bem como manifestação natural e o mal não fosse também valorado como excepcional degradação, sua podridão, deformação. Livre da religião e desta visão idealizada, erguendo mitos e espelhos que somente nos atrasa e enfraquece diante dos limites do homo sapiens, poderia ser mais revelador uma nova posição, capaz de admitir – dizer – que cada ser humano porta o gene do bem e do mal, ao mesmo tempo: em permanente conflito existencial.
Esta a proposição de OZ (2016, p. 17-18), ao abordar o fanatismo, cuja análise de toda útil ao se debruçar sobre a corrupção, ambas manifestações crescentes da nossa porção maléfica:
As ciências sociais tendem a atribuir a agressão ao sofrimento da infância, ou à crueldade da sociedade, ou ao colonialismo. Não existem atos malévolos, só crimes induzidos pelo trauma. Não existem pessoas más, só vítimas que se tornaram perpetradores.
Assim, sociólogos e psicólogos não reconhecem de todo a existência do mal. Mas eles estão errados: o mal existe. Teólogos, por outro lado, muitas
vezes reivindicam o mal como parte de seu campo de especialização. Mas estão errados também: quase todo ser humano reflete sobre o mal, e estamos profundamente fascinados por ele, quer o aceitemos ou não. A literatura sempre soube como somos curiosos a respeito do mal. Desde Caim, Medeia, Iago, Mefistófeles, Raskolnikov e o Patriarca de Garcia Márquez, todos eles nos intrigam, porque cada um de nós e todos nós carregamos um ou dois genes, ou um ou dois germes, do mesmo tipo dos que se apossaram desses monstros literários.
Deveríamos apenas especializar o conceito de homo corruptus na imensa e abrangente definição do homo sapiens, como sendo apenas um dos traços marcantes e constitutivos da condição humana, não para enfraquecer a luta necessária contra a corrupção, violência coletiva e nalguns casos lesa-humanidade, mas para sermos realistas, e, portanto, mais eficazes no seu combate.
Conhecedores dos nossos limites e imperfeições nos permitiria tecer mecanismos e instrumentos jurídicos capazes de evitá-la, tanto quanto possível, e aqui a principal consequência dessa pretensa revisão ontológica da corrupção, privilegiar a prevenção e não somente a repressão e o castigo.
Porque como já nos ensinou a incrível personagem de SHAKESPEARE (2009, p.38) – encarnação do próprio mal e uma das vilãs máximas da lite- ratura – Lady Macbeth, é na tentativa que se manifesta a danação humana: “A tentativa, e não o ato, é o que nos aniquila.”.
Somente valoriza o aspecto preventivo do combate à corrupção quem comunga e compreende nossa imperfeição humana, visão que, nem de longe, visa combater à religião, eis que na própria Bíblia já se antevia a maldade humana e no primeiro livro de Moisés, o Gênesis (6,7), assim se registrou, como recordado por BARROS JÚNIOR (1995, p.19):
Farei desaparecer da face da Terra o homem que criei, desde o homem até o animal, até os répteis e as aves do céu: porque me arrependo de tê-los feito. Este arrependimento decorreu porque o mundo dos homens estava corrompido, cheio de violência.
Talvez daí a percepção que a história da humanidade caminha com a da corrupção. E já são mais de 2.000 anos de derrota! Embora seu registro mais antigo tenha ocorrido em Roma, uma das cidadelas fundadoras do
Ocidente, onde surgiu a Lei Cincia, que instituiu a ação de repetição, do valor pago indevidamente a um funcionário. OLIVEIRA (1991, p. 1) nos dá conta da denúncia oferecida por Cícero, que atuou como Advogado de Acusação:
No ano de 74 antes de Cristo, Satius Albinus Oppianicus teve a iniciativa de comprar dez jurados por 640 mil sestércios para não ser condenado no processo crime em que era acusado de ter mandado envenenar seu enteado por interesse de herança. Esse é o registro mais antigo da prática de corrupção no mundo e a denúncia foi feita pelo célebre Cícero, que atuou no processo como Advogado de Acusação.
Desde então a história apenas revela nossa real condição humana, talhada para o bem e a salvação, mas também o rastro da maldade, aí inserida essa chaga humana, a corrupção.
A necessidade de unir dois termos aparentemente antagônicos se mostra essencial para o exame e compreensão da realidade atual, marcada por conflitos de escala mundial e sem um consenso à vista.
Afasta-se da visão unilateral e reducionista do homo corruptus como sendo apenas uma das facetas do homo sapiens, visão dualista, ampla, como propugnada por MORIN (2011, p. 30) ao criticar a concepção antropológica de Marx, que também absolutizou outra das suas facetas (homo faber):
Nem o imaginário nem o mito faziam parte da realidade humana profunda: o ser humano era um homo faber sem interioridade, sem complexidades, um produtor prometeico empenhado em destituir os deuses e dominar o universo. Ao contrário, como haviam constatado Montaigne, Pascal, Shakespeare, Dostoiévski, o homo é sapiens demens – ser complexo, múltiplo, que contém em si mesmo um cosmo de sonhos e fantasmas.
Em especial PASCAL (2015, p. 238) e sua ideia de verdades convergentes e sua síntese perfeita do ser humano, espécie sensível e instável, sempre optando entre deus e o diabo, quase ao mesmo tempo, trilha de progresso e destruição, civilização e barbárie, bem e mal: “Grandeza, miséria. À medida que se tem luz, descobre-se mais grandeza e mais baixeza no homem”.
Far-nos-ia mais realista e aproximado da nossa própria condição humana compreender as imperfeições que todos portamos, aproximando tanto
quanto possível de nós mesmos o combate, que se exige amplo e transna- cional, mas que também deve mirar em cada indivíduo.