3. PRINCÍPIOS REGENTES DO INSTITUTO
3.5. Igualdade de oportunidades e contraditório
“Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza” (Convenção Americana sobre Direitos Humanos, Pacto de São José da Costa Rica, ratificada pelo Brasil em 25.9.92, Decreto 878, de 6.11.92, art. 8.1)
É premissa maior do Estado de Direito a igualdade de todos perante a lei, dela decorrendo a segurança de que todos tenham as mesmas oportunidades de manifestação, de ouvir e de ser ouvido, fazendo uso de todos os meios necessários e legítimos para tanto.
Diretamente vinculados ao princípio da ampla defesa (art. 5º, LV, CF/88), os princípios da igualdade e do contraditório, encampados por documentos internacionais e albergados diretamente pelo Texto Constitucional de 1988, art. 5º, caput e LV, uma vez trazidos à seara do processo, velam para que aos litigantes sejam resguardadas as mesmas possibilidades para fazer valer suas razões em juízo, não somente pelas alegações e impugnações, como também por meio da produção das provas e contraprovas.
De acordo com o preceituado no art. 125, I do CPC, fica assegurado às partes, perante o juiz, tratamento igualitário, razão pela qual, no momento da
produção da prova, devem ser garantidas as mesmas oportunidades, como forma de preservação do exercício da ampla defesa, sob pena de nulidade.
A igualdade processual referida é princípio e também garantia às partes, dizendo respeito à oportunidade que lhes é franqueada por expressa disposição legal para alegações e produção das provas pretendidas. Por tal motivo, não vincula e nem obriga a parte a produzir qualquer prova, uma vez que estamos aqui a falar de um ônus processual, e não de uma obrigação ou uma responsabilidade; tanto é assim que aquele que deixar de exercer o ônus de provar, poderá ter sua situação jurídica no processo agravada, experimentando as consequências de eventual omissão.
Como garantia do devido processo legal, decorre o dever do Estado- juiz, até mesmo em razão da imparcialidade que deve nortear toda sua conduta, de assegurar à parte contra quem foi produzida determinada prova a possibilidade de exercer o contraditório (art. 5º, LIV e LV, CF). A propósito, o litigante terá reservada oportunidade para que apresente impugnação por todos os meios legais e, se for o caso, colacione aos autos contraprovas hábeis a infirmar aquelas coligidas pela parte contrária.
E assim deve ocorrer ao longo da instrução processual, ou seja, toda vez que uma das partes juntar determinado documento, deve ser assegurada a vista do referido à parte contrária (CPC, 372), permitindo-lhe, inclusive, a produção de contraprova apta a elidir o conteúdo do documento carreado pelo ex adverso, conforme hipótese prevista no art. 397 do CPC; quando for ouvida determinada testemunha, ao outro contendor deve ser resguardada a oportunidade de contraditar a testemunha, pelos motivos previstos em lei (CPC, art. 414 e CLT, art. 829), assim como ouvir outras testemunhas com a finalidade de contrapô-las às da parte adversa.
Sem embargo do até então exposto, ao tratarmos de igualdade formal no processo, não podemos nos olvidar da questão relativa à desigualdade
material das partes no contrato de trabalho e sua relação com a aptidão para a produção da melhor prova.
Por certo que igualdade jurídica não elimina as desigualdades materiais, daí porque não se fala mais em igualdade absoluta, mas sim proporcional, em que a lei destina o mesmo tratamento aos substancialmente iguais e, por conseguinte, tratamentos desiguais aos que se encontram em situações distintas, a fim de que seja atingida a “igualdade substancial”. É o que ocorre, como bem lembrado por Cintra, Grinover e Dinamarco, com o direito penal, em que há, por exemplo, absolvição do acusado por insuficiência de provas (in dubio pro reo). 66
O princípio da igualdade pressupõe, portanto, que haja uma proporcionalidade entre o tratamento normativo – quando o princípio servir de norte ao legislador - ou interpretativo da norma – destinado ao aplicador da lei – e a finalidade perseguida pelo próprio direito. A norma positivada, bem como a aplicação da lei existente devem procurar mitigar as desigualdades naturais, e não, sob o pretexto de uma falsa igualdade, fomentar aquelas já existentes entre os destinatários do direito. Nas oportunas lições de Alexandre de Moraes:
“Dessa forma, o que se veda são as diferenciações arbitrárias, as discriminações absurdas, pois, o tratamento desigual dos casos desiguais, na medida em que se desigualam, é exigência tradicional do próprio conceito de Justiça, pois o que realmente protege são certas finalidades, somente se tendo por lesado o princípio constitucional quando o elemento discriminador não se encontra a serviço de uma finalidade acolhida pelo direito, sem que se esqueça, porém, como ressalvado por Fábio Konder Comparato, que as chamadas liberdades materiais têm por objetivo a igualdade de condições sociais, meta a ser
66 CINTRA, Antonio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini e DINAMARCO, Cândido Rangel, Teoria geral do
alcançada, não só por meio de leis, mas também pela aplicação de políticas ou programas de ação estatal.”67
Na seara do processo do trabalho, como examinaremos adiante de forma mais acurada, a legislação, especificamente em matéria de prova, não destinou qualquer tratamento diferenciado a qualquer das partes, pressupondo a igualdade formal entre os litigantes.
Assim, visando ao abrandamento das desigualdades materiais existentes entre as partes e sua repercussão diante da aptidão para a produção da prova, alguns setores da doutrina e da jurisprudência, sensíveis a esta problemática, passaram a invocar o princípio in dubio pro misero não somente no processo do trabalho, como, sobretudo, em se tratando de instrução probatória.
Registre-se, por oportuno, que a questão é bastante polêmica, sendo que considerável parte dos processualistas especializados não concordam com tal interpretação diferenciada do princípio da igualdade no direito processual do trabalho, apoiando-se unicamente nos ensinamentos e ditames do processo civil tradicional. 68
Considerando que nos dedicamos longamente à referida matéria ao tratarmos do princípio in dubio pro misero, para melhor compreensão do tema remetemos o leitor ao próximo item do estudo.
67 MORAES, Alexandre de, Direito constitucional, p. 31.
68 Consoante será exaustivamente analisado no item que tratar do princípio in dubio pro misero, há muita divergência a respeito do tema, havendo aqueles que entendem que tal princípio é restrito ao direito material do trabalho, não sendo aplicável em questões relativas à instrução probatória, nem a qualquer temática envolvendo relação processual.