5 RASTREANDO O PROCESSO DE FORMAÇÃO DO CAMPO DE AÇÃO
5.4 MECANISMOS CAUSAIS E RASTREAMENTO DE PROCESSOS
Devido a proposta de reconstituir o processo de estruturação institucional e de conformação do campo da política de assistência social no período da redemocratização, identificando os aspectos preponderantes para a viabilização e direcionamento dessas transformações, optamos por adotar como método de pesquisa o rastreamento de processos (process trancing), que consiste na construção da análise a partir da recomposição do encadeamento sequencial de fatos que produziram determinado fenômeno social.
O rastreamento de processo está próximo da perspectiva metodológica dos mecanismos causais. A busca da causalidade por intermédio da identificação de seus mecanismos geradores
surge da crítica às explicações embasadas exclusivamente na associação entre duas variáveis ou eventos por modelos analíticos simples que abrem espaço para correlações espúrias. Esse entendimento considera que a atribuição de causalidade nas Ciências Sociais deve ser realizada a partir da “abertura da caixa preta”, desvelando os processos que ligam a causa e o efeito (HEDSTRÖM; SWEDBERG, 1998).
Os mecanismos causais e o rastreamento de processos trabalham com a possibilidade de se estabelecer causalidade por meio de pesquisas com pequeno número de casos (small-n) e com a utilização de métodos e técnicas qualitativas. Os desafios e as limitações na elucidação de relações causa-efeito estão presentes tanto em pesquisas qualitativas como em quantitativas, tendo em vista que em ambas a inferência causal é uma empreitada incerta. Quando se fala em “estabelecer causalidade”, a certeza dessas inferências deve ser entendida nos marcos de um teste particular, sem nenhuma implicação de que essa conexão esteja estabelecida de maneira absoluta. O mesmo é verdadeiro para todos os testes empíricos, inclusive para análise de regressão e outras formas de pesquisa quantitativa (COLLIER, 2011).
Dentre as principais restrições à identificação de causalidades a partir de pesquisas qualitativas com pequeno número de casos, está o tamanho reduzido de evidências. Bennett (2010) rebate esse argumento, salientando que os dados nas investigações qualitativas não são produzidos da mesma forma que nas quantitativas e que, portanto, não devem ser avaliados pelos parâmetros das pesquisas quantitativas.
Com o rastreamento de processos, nem toda informação possui valor probatório igual para selecionar a melhor dentre as explicações alternativas, e o pesquisador não precisa examinar cada linha de evidência com igual detalhamento. É possível por apenas uma evidência fortalecer uma explicação e/ou desconsiderar outras, enquanto, ao mesmo tempo, um conjunto mais numeroso de evidências pode não possibilitar a escolha de uma explicação. O que importa não é a quantidade de evidências, mas sua contribuição para a seleção das hipóteses possíveis (BENNET, 2010, p. 209, tradução nossa).
Apesar de os mecanismos serem um instrumento viável para a atribuição de causalidade, é preciso também considerar seus limites. Um mecanismo detectado por uma pesquisa com um ou poucos casos diz respeito apenas àquela situação particular, não podendo ser generalizado para outros contextos não estudados. Para esse tipo de ação, é necessário o auxílio de métodos estatísticos e comparativos, que demandam um maior número de casos para análise (BEACH; PEDERSEN, 2010). Portanto, ao adotarmos essa perspectiva, ressaltamos que os resultados da presente pesquisa, embora possam subsidiar o debate sobre mudanças institucionais e o surgimento de novos campos estatais, não poderão ser transpostos para circunstâncias não investigadas nessa empreitada.
Além da crítica aos modelos causais tradicionais, a perspectiva dos mecanismos rejeita a mera descrição de acontecimentos sequenciais. Os mecanismos causais são muito mais do que a identificação de uma série de eventos que levam a um resultado. Identificar as variáveis intervenientes que ligam a causa a um resultado não significa estabelecer um mecanismo causal. De acordo com Beach e Pedersen (2010), cada parte dos mecanismos é composta por entidades (que podem ser pessoas ou grupos) que conduzem atividades. Muito mais do que enumerar eventos subsequentes, explicitar essas atividades e identificar de que maneira elas geraram força dinâmica para a produção de um fenômeno é desvelar um mecanismo causal.
A delimitação de um mecanismo passa pela eliminação de partes supérfluas. As atividades e entidades que o compõem devem ser necessárias para o seu funcionamento, mas isoladamente são insuficientes para causar o resultado em análise. Dessa forma, tudo aquilo que não for essencial deve ser descartado. O objetivo do pesquisador deve ser encontrar o dispositivo mínimo suficiente para a produção dos fenômenos (BEACH; PEDERSEN, 2010).
O mapeamento de um mecanismo causal pelo método do rastreamento de processos é um procedimento eminentemente dedutivo. Checkel (2005) destaca que, ao contrário de técnicas narrativas, a reconstituição de um processo deve ser realizada de maneira teoricamente informada. O primeiro passo para isso é a construção de um mecanismo causal hipotético a partir da teoria utilizada. Caso o referencial não seja explícito nesse sentido, o pesquisador pode construir hipóteses que derivem dessa teoria. Da mesma forma, o rastreamento de processos consiste na coleta de evidências que permitam a confirmação ou a reestruturação das hipóteses. É pela comparação entre o esperado e o encontrado que se dá a atribuição de causalidade por esse método. O constante questionamento entre o empírico e o teórico exige que o pesquisador também explore hipóteses alternativas na busca do mecanismo mais consistente com o resultado analisado.
Para a construção das hipóteses norteadoras desta pesquisa, utilizamos o modelo macro- micro-macro, presente na tipologia de mecanismos causais de Hedström e Swedberg (1998). O objetivo do modelo é explicar as mudanças no nível macro a partir da interação deste com o nível micro, rejeitando explicações que relacionam apenas variáveis de caráter macro sem pormenorizar as microdinâmicas que impulsionam as transformações.
Figura 1 – Modelo macro-micro-macro de Hedström e Swedberg.
Fonte: Elaboração própria baseada em Hedström e Swedberg (1998).
O modelo macro-micro-macro é composto por três mecanismos menores: o primeiro é o situacional, que diz respeito ao modo como o macroambiente afeta os indivíduos; o mecanismo de ação-formação se refere à reação desses indivíduos perante o macroevento; e o mecanismo de transformação, que trata da forma como esses indivíduos agem e interagem modificando a realidade. Tendo em vista o referencial teórico e a revisão bibliográfica deste projeto, adaptamos nossas hipóteses ao modelo macro-micro-macro.
O modelo macro-micro-macro é inspirado no aporte oferecido por Jon Elster acerca dos mecanismos causais. O autor compartilhava o objetivo de encontrar uma alternativa às grandes explicações estruturais e ao psicologismo excessivo de alguns ramos da teoria da escolha racional. Os mecanismos causais cumprem dupla função na teoria de Elster: (1) possibilitam a busca pelos microfundamentos dos fenômenos sociais e (2) viabilizavam a conexão entre causa e efeito, evitando que sua abordagem se limitasse a descrições (RATTON; MORAES, 2003).
Apesar de sua importante contribuição, Elster vincula os mecanismos causais aos microfundamentos da ação social defendidos pela abordagem da escolha racional (RATTON; MORAES, 2003). Para o autor, os mecanismos têm o papel reduzido de conectar os estados mentais de um indivíduo e a ação social ou macrofenômenos, o que Norkus (2005) denomina mecanismos atômicos. Isso significa que a causa dos fenômenos sociais sempre tem como seu microfundamento o indivíduo. Tal entendimento vai de encontro ao que é defendido pela TCAE, que situa os microfundamentos da ação humana na necessidade ontológica de construções simbólicas e coletivas, visão exposta no capítulo três desta tese. Tilly (2001) apresenta outra restrição à percepção dos mecanismos causais vinculados às teorias da escolha racional. De acordo com o autor, esse tipo de abordagem não reconhece o caráter contextual dos mecanismos causais. Para Tilly (2001), é preciso explicar de que maneira os mecanismos
se articulam com o contexto local e com a acumulação histórica. Sendo assim, a procura de mecanismos causais envolve a combinação de um trabalho teórico e empírico: identificar os mecanismos recorrentes em contextos diversos e explicar de que maneira o mecanismo interage com esse contexto.
A adoção do modelo macro-micro-macro para as finalidades desse trabalho se justifica pela possibilidade de trânsito entre o macroambiente e as ocorrências nos níveis meso e micro. No entanto, é necessário a substituição do enfoque de microfundamentos da ação individual restrita para o exercício da habilidade social e a atuação de atores coletivos, adequando, dessa forma, esse tipo de mecanismo causal à perspectiva da TCAE e possibilitando a contextualização histórica da dinâmica do mecanismo no processo empírico em análise. As figuras a seguir ilustram esse movimento por meio construção das hipóteses desta pesquisa no formato do mecanismo macro-micro-macro.
Figura 2 – Hipótese “A” adaptada ao modelo macro-micro-macro.
Figura 3 – Hipótese “B” e seus desdobramentos adaptados ao modelo macro-micro-macro
Fonte: Elaboração própria.
Cabe salientar que as figuras acima representam modelos simplificados dos mecanismos hipotéticos deste projeto. Nos capítulos subsequentes, detalharemos a dinâmica entre entidades e atividades que compuseram cada momento do mecanismo causal em estudo.