2 OS FUNDAMENTOS DO CONCEITO DE CAMPO NAS
2.2 O CONCEITO DE CAMPO NA SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA
2.2.1 O conceito de campo e a abordagem relacional
A adaptação do conceito de campo como instrumento de compreensão de fenômenos humanos teve como objetivo a superação de visões atomistas, que enxergavam os indivíduos
como unidades de análise isoladas, sem considerar a influência de contextos e relações sociais. A utilização dessa categoria, portanto, visa oferecer uma lente teórica capaz de captar a dimensão relacional negligenciada pelas perspectivas individualistas. Sendo assim, podemos considerar a teoria dos campos em suas diferentes formas como uma representante da abordagem sociológica relacional.
O pensamento relacional nas Ciências Sociais é formatado a partir da crítica ao viés substancialista presente em algumas correntes teóricas que consideram substâncias de diversas naturezas (coisas, seres, essências) como unidade de seus estudos. Essas entidades são vistas como autosubsistentes e são o ponto de partida das análises. Apenas em um momento posterior é que são consideradas as dinâmicas entre as substâncias, sem englobar o modo como essas relações podem interferir na constituição do elemento em questão (EMIRBAYER, 1997).
Para caracterizar as perspectivas substancialistas, Emirbayer (1997) identifica duas vertentes desse tipo de pensamento: a “autoação” e a “interação”. O grupo da “autoação” possui como fundamento a noção de que, independente das circunstâncias, o poder de ação emana das entidades. No interior desse grupo, há divergências a respeito do que sejam essas entidades, isto é, quais são as unidades de análise. De um lado, estão os atomistas, que posicionam a ação humana individual no cerne de suas pesquisas. De outro, estão os holistas, que rejeitam o viés individualista, mas atribuem a mesma centralidade explicativa às regras, normas e imperativos culturais de grupos sociais.
O grupo da “interação” é recorrente na produção de causalidade em pesquisas quantitativas. Essa vertente está associada à análise estatística de variáveis para identificação de relações de causa e efeito. A restrição do pensamento relacional em relação a essa abordagem está baseada no poder causal de uma substância sobre outras, sem considerar a capacidade constituinte das relações sociais. Portanto, relação entre variáveis também é uma forma de substancialismo (EMIRBAYER, 1997).
A abordagem relacional argumenta que não existem unidades pré-constituídas. O componente criador da vida social são as relações estabelecidas entre os atores e, por conseguinte, este deve ser o ponto de partida de qualquer análise sociológica. Essa posição teórica é fértil para a superação da oposição entre ação e estrutura, representada na tradição substancialista pela cisão entre atomistas e holistas, já que o foco do pesquisador recai sobre as relações sociais. Nesse sentido, é importante salientar a dimensão dual das relações sociais, que simultaneamente estrutura a ação, uma vez que o indivíduo age de acordo com a configuração de relação por ele estabelecida, é estruturada pela ação, visto que a estrutura de relações é edificada pela interação do indivíduo com os demais. Portanto, é irrelevante o questionamento
sobre a preponderância das estruturas sociais sobre o indivíduo ou vice-versa. O objeto para Emirbayer deve ser as relações sociais como o elemento constituidor de ambos (EMIRBAYER, 1997).
O caráter dual das relações sociais está presente no conceito de figuração desenvolvido por Norbert Elias, um dos principais representantes do pensamento relacional na Sociologia. O pressuposto por trás da obra de Elias (1970) é que indivíduos que vivem em sociedade inescapavelmente estabelecerão relações interdependentes com os demais e suas ações se estruturarão a partir dessas redes. Ou seja, os indivíduos agem em função dos constrangimentos impostos pelas relações que estabelecem.
Em virtude dessa inerradicável interdependência das funções individuais, os atos de muitos indivíduos distintos, especialmente numa sociedade tão complexa quanto a nossa, precisam vincular-se ininterruptamente, formando longas cadeias de atos, para que as ações de cada indivíduo cumpram suas finalidades. Assim, cada pessoa singular está realmente presa; está presa por viver em permanente dependência funcional de outras; ela é um elo nas cadeias que ligam outras pessoas, assim como todas as demais, direta ou indiretamente, são elos nas cadeias que a prendem (ELIAS, 1994, p. 23).
Elias ressalta a distinção entre suas ideais e o pensamento holista, destacando sua rejeição às abordagens substancialistas.
Há indivíduos que recusam esta ideia. Confundem-na com uma asserção metafísica muito antiga que muitas vezes se resume na afirmação de que ‘o todo é maior do que a soma das suas partes’. Usando o termo ‘todo’ ou ‘totalidade’ cria-se um mistério para resolver outro mistério. Devemos mencionar esta aberração, porque parece que muita gente acredita que só podemos ser uma coisa ou outra – ou atomistas ou holistas. Poucas controvérsias têm sido tão desinteressantes como esta em que dois grupos antagônicos andam à volta, em círculo, cada qual defendendo a sua própria tese, especulativa e não verificável, atacando o parceiro cuja tese é igualmente especulativa e não experienciável, pela razão de que não há uma terceira alternativa. No caso do atomismo e do holismo, certamente que há (ELIAS, 1970, p.79).
A abordagem relacional é também o antídoto para o perigo de reificação do objeto, isto é, transformar o objeto de pesquisa em elemento estático e isolado, ignorando seus processos interativos de constituição e sua dimensão histórico-contextual. O dever do pensador relacional é inserir seu objeto de análise “em um campo relacional que o constitui tal como o observamos em um determinado momento ou lugar” (SILVA, 2007, p. 479).
Desde sua adoção por Kurt Lewin, a noção de campo tem sido instrumento do pensamento relacional. O psicólogo alemão intencionava descrever o modo como as motivações dos indivíduos são dependentes da percepção que este tem do seu ambiente e como essa percepção é construída a partir das relações entre o indivíduo e o campo. No âmbito sociológico, subjacente às diferentes concepções do conceito, constantemente está presente a ideia de que um campo é constituído por um conjunto limitado de atores que se relacionam
entre si. Bourdieu, um dos principais representantes da teoria dos campos na Sociologia, destaca a importância do conceito na construção relacional do objeto de pesquisa.
A noção de campo é, em certo sentido, uma estenografia conceptual de um modo de construção do objeto que vai comandar – ou orientar – todas as opções práticas da pesquisa. Ela funciona como um sinal que lembra o que há que fazer, a saber, verificar que o objeto em questão não está isolado de um conjunto de relações de que retira o essencial das suas propriedades. Por meio dela, torna-se presente o primeiro preceito do método, que impõe que se lute por todos os meios contra a inclinação primária para pensar o mundo social de maneira realista ou, para dizer como Cassirer, substancialista: é preciso pensar relacionalmente. Com efeito, poder-se-ia dizer, deformando a expressão de Hegel: o real é relacional (BOURDIEU, 1989, p. 27-28).
Ao sistematizar os fundamentos da abordagem relacional, Emirbayer (1997) destaca a necessidade da formulação de novos instrumentos teóricos capazes de traduzir as concepções ontológica e epistemológica dessa nova forma de pensar a sociedade. Para Bourdieu (1989), o conceito de campo faz parte desse esforço. O autor defende que o conceito de campo é responsável por uma ruptura dupla. Rompe-se com o senso comum geral, por tratar-se de um instrumento científico, e com o senso comum científico, que insiste no pensamento substancialista e sua inclinação reificadora. A seguir, destacaremos o desenvolvimento do conceito de campo e como ele se insere na teoria sociológica de Pierre Bourdieu.